FERNANDO MORAIS
oLGA
edio ilustrada
7 edio
EDITORA ALFA-OMEGA
So Paulo
1986
Planejamento grfico e produo
Eliane R. Pereira
Capa
Carlos Grassetti
Cadernos de ilustraes (diagramao)
Cetso Calixto Rios
Preparao de texto
Claudio Marcondes
Reviso
Luiz Roberto de Godoi Vidal
Silviv Donizete Chagas
Leni Soares
Eliane R. Pereira

Composio - Linoart
Direitos Reservados
EDITORA ALFA-OMEGA LTDA.
 05413 - Rua Lisboa. S00 - Tel. (011) 2520100
So Paulo - SP
Impresso no Brasil
Prittted in Brazit

Sobre o autor ... IX
Dedicatria ... XI
Apresentao ... XIII
Herlim, Alemanha abril de 1928 ....      1
Buenos Aires, Argentina abril de 1928 ...  7
1. Na "Fortaleza Vermelha" ... 15
2. Frieda Behrendt  presa ... 27
3. A sua frente, o "Cavaleiro da Esperana" ... 39
4. Luade-mel em Nova York ... 53
5. Do mundo inteiro, rumo ao Rio. .. 67
6. Comea a conspirao ...        77
7. "A Revoluo est nas ruas" ... 91
8. Um espio entre os comunistas ... 101
9. "Mister" Xanthaky entra em cena .... 117
10. "Miranda" e Ghioldi vo falar ... 131
11. Diante de Filinto, um nome: Olga de tal ... 141
12. A polcia suicida Barron ... 153
13. O embaixador do Brasil na Gestapo ...  169
14. Uma "estrangeira nociva" ... 187
15. Rebelio na "Praa Vermelh " ... 201
16. Nos pores da Gestapo ... 217
17. Dona Leocdia enfrenta a Gestapo ...233
18. Com "Sab ", na fortaleza nazi ... 245
19. Escravido em Ravensbrck ... 259
20. A caminho da morte ... 275
So Paulo, Brasil julho de 1945 ... 285
Eplogo ... 295
Depoimentos tomados pelo autor ... 297
Fontes pesquisadas ...299
Bibliografia ... 303
Indice anomstco ... 307


Sobre o autor
Fernando Morais tem 39 anos e nasceu em Mariana,
Minas Gerais. Comeou a trabalhar aos 13 anos, em um
jornal de bairro, em Belo Horizonte, e um ano depois,
j profissionalmente, era redator de um "house orgati"
local. Em 1965 mudou-se para So Paulo, onde foi cola
borador; reprter, redator, reprter especial, chefe de
reportagem e editor, at 1978, das seguintes publicaes:
A Gazeta, Jornal da Tarde, Suplemento Feminino de O
Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, TV Cultura, Bon
dinha, EX, Opinio, Movimento, Versus, Siatus, Playboy,
Viso, Aqui So Paulo, Reprter Trs e Veja. Junto com
Ricardo Gontijo ganhou o Prmio Esso de Reportagem
de 1970, com a srie "Transamaznica", publicada pelo
Jornal da Tarde (depois transformada em livro pela Edi
tora Brasiliense). Recebeu duas vezes o Prmio Abril de
Jornalismo: em 1976 na revista Veja, junto com Augusto
HIunes, pela eobertura das eleies municipais daquele
ano; em 1978 com uma reportagem publicada em Ptay
boy sobre a infiltrao de espies  eubanos na CIA. Alm
de Transamaznica, escreveu A Ilha, Socos tta Porta, No
s usinas nucleares e Primeira Pgina (estes editados
pela Editora Alfa-Omega). A Ilha foi editado, alm do
Brasil, na Alemanha, Porto Rico, Mxico, Argentina, Es
panha e Venezuela, e j vendeu at agora mais de 250
mil exemplares. Em 1978 foi eleito deputado estadual
pelo MDB e em 1982 foi reeleito pelo PMDB. E candidato
 Assemblia Nacional Constituinte como deputado
federal. Fernando Morais  divorciado e tem uma filha,
chamada Rita.

Apresentao

A reportagem que voc vai ler agora relata fatos que
aconteceram exatamente como esto descritos neste li
vro; a vida de Olga Benaro Prestes, uma histria que me
fascna e atormenta desde a adolescncia, quando ouvia
meu pai referir-se a Flinto Mller como o homem que
tinha dado a Hitler, "de presente", a mulher de Lus
Carlos Prestes, uma judia comunista que estava grvida
de sete meses. Perseguido por essa imagem, decidi que
algum dia escreveria sobre Olga, projeto que guardei com
avareza durante os anos negros do terrorismo de estado
no Brasil, quando seria inimaginvel que uma histria
como esta passasse inclume pela censsura.
Logo que iniciei a investigao para escrever este
livro, h quase trs anos, percebi que as dificuldades para
recompor o retrato de Olga seriam muito maiores do que
supunha. No Brasil no  havia praticamente nada sobre o
personagem - e surpreendi-me a descobrir que at mes
mo a historiografia oficial do movimento operrio brasi
leiro, produzida por partidos ou pesquisadores marxistas,
relegara invariavelmente a ela o papel subalterno de
"mulher de Prestes" - e nada mais do que isto. Em tudo
o que pude ler no encontrei mais do que alguns pargra
fos vagos e superficiais. A esta circunstncia se somava

outro obstculo: se estivesse viva, Olga teria hoje 77 anos

XIV

- e como sua militncia poltica se deu muito precoce
mente, a maioria dos personagens que conviveram com
ela estavam mortos. Os poucos sobreviventes que teste
munharam sua saga - na Alemanha ou no Brasil - eram,
no mnimo, octogenrios, nem todos com memria ou
condies de sade para desenterrar detalhes de epis
dios acontecidos h pelo menos meio sculo.
Minha primeira e bvia investida foi sobre Lus
Carlos Prestes. As tardes de sbado que lhe roubei no Rio
de Janeiro produziram pginas e pginas de preciosas
informaes, muitas delas inditas. E ao lutar para rom
per a barreira que ele se impunha para evitar falar de
questes pessoais, muitas vezes me comovi ao perceber
que o rgido comunista que transmitia a imagem de um
homem de ao no escondia sua emoo ao revelar min
cias da personalidade de sua falecida mulher ou rememorar
passagens da curta e emocionante vida em comum
que tiveram. Dono de memria prodigiosa, Prestes foi
capaz de reviver com preciso a hora de um embarque
ou as exatas palavras de um dilogo ocorrido h cinqenta
anos. Foram poucos os casos de informaes dadas por
ele que, compulsadas com processos e documentos ofi
ciais da poca, resultaram incorretas. Dos rolos de fita
gravada de seus depoimentos surgiram novos fatos e per
sonagens da revolta comunista de 1935, em cuja busca
parti em seguida. Simultaneamente o jovem advogado e
biblifilo Antonio Srgio Ribeiro (um dos maiores estu
diosos de Carmem Miranda em nosso pas) vasculhava
colees de jornais e revistas da poca.
 O passo seguinte envolveu uma viagem  Repblica
Democrtica Alem, onde, ao contrrio do que ocorrera
no Brasil, localizei um verdadeiro tesouro. Herona na
cional cujo nome batiza dezenas de escolas e fbricas,
Olga teve sua memria carinhosamente preservada pelos
comunistas de sua terra. Nos arquivos do Instituto de
Marxismo-Leninismo, no Comit de Resistentes Antifas
cistas ou nos pequenos museus montados no campo de
concentrao de Ravensbrck e no campo de extermnio

XV

de Bernburg (ambos preservados tais como foram encon
trados pelas tropas aliadas), obtive cpias de todos os do
cumentos e fotografias referentes a Olga Benario. Com a
preciosa ajuda de Alexandre Fischer e Katharina Schneider, intrpretes
destacados pelo governo da RDA para
auxiliar-me na pesquisa, no s selecionei e reproduzi
todo o material disponvel, como entrevistei creio que
todos os velhos militantes que tinham convivido com
Olga na Juventude Comunista, nos anos 20 e, uma dcada
depois, nas prises e campos de concentrao nazistas.
No me esquecerei jamais das lgrimas que a entrevista
arrancou dos olhos de Gabor Lewin, j velhinho, em cuja
casa esvaziamos juntos, a dez graus abaixo de zero, uma
garrafa de conhaque francs. Quando perguntei se se
confirmava a lenda de que Olga despertava paixes ful
minantes em seus companheiros da Juventude Comunis
ta, Lewin ps-se a chorar. Foi Herta, sua mulher
velhinha como ele, quem desfez meu desconforto ao dizer,
sorridente: "Olga foi a grande paixo da vida do Gaboi".
No modesto apartamento de Ruth Werner, tenentecoronel honorria do 
Exrcito Vermelho Sovitico e uma
das maiores escritoras alems, obtive cpias de depoi
mentos que ela tomara no fim dos anos 50 de sobrevi
ventes de Neuklln, Barnimstrasse, Lichtenburg e R
vensbrck (muitos dos quais j faleceram) e no utili
zara integralmente em seu livro "Olga Benario".
Meu trabalho em Berlim Oriental teria sido infinita
mente mais difcil sem a ajuda do jovem talo-germanobrasileiro Dario. 
Canale (que eu havia entrevistado em
1967 no Brasil, quando ele esteve preso nos icadrezes da
Polcia Federal sob a acusao de "subverso"). Dario
ajudou-me na busca e seleo de material sobre Olga e
Otto Braun, levou-me aconhecer a priso de Moabit em
Berlim Ocidental, e acabou por obrigar sua sogra Elfriede Brning, a 
convidar suas amigas, militantes comunis
tas desde o comeo do sculo, para jantares em sua casa,
onde eu as esperava de gravador na mo.
Alm dos documentos obtidos, as entrevistas feitas
por mim na Repblica Democrtica Alem com pessoas

XVI

que conviveram com Olga sob o nazismo foram valiosssi
mas para a reconstituio de sua passagem pelo Brasil.
Durante os anos que passou em Barnimstrasse, Lichtenburg e Ravensbrck, 
ela contou com pormenores s
companheiras de priso sua experincia brasileira: a
paixo por Prestes, o deslumbramento com o Brasil, a
expectativa seguida da frustrao com a revolta fracassa
da, a emoo que lhe provocara a solidariedade dos
companheiros no presdio da rua Frei Caneca, no Rio.
Como sua passagem pelo Brasil se tornara, para mim,
a parte mais obscura da investigao, pressionei os ami
gos de Olga em Berlim at a irritao com perguntas
sobre cada momento de seus 17 meses no Rio de Janeiro
- e em alguns casos obtive depoimentos torrenciais.
De Berlim parti para Milo, onde dei tempo integral
no "Archivio Storico del Movimento Operaio Brasi
liano" (mantido pela Fundao Giangiacomo Feltrinelli
e guardado pelas unhas e os dentes de Jos Lus del
Roio), onde est depositada boa parte da memria operria
e comunista brasileira. As entrevistas e investiga
es feitas na Europa e no Brasil remetiam-me a outros
endereos: o Nationat Archives e os arquivos do Depar
tamento de Estado, em Washington - e o primeiro recesso
parlamentar disponvel foi dedicado s pesquisas
nos Estados Unidos. Com a ajuda de Ralph Waddey, fun
cionrio anglo-baiano do Departamento de Estado, e abusando
da infindvel pacincia de Richard Gould diretor
do Departamento Legislativo e Diplomtico do National
Archives, fiz um fascinante mergulho na papelada que
me eustou a modesta quantia de 50 centavos de dlar
cada cpia xerogrfica: alm de incontveis documentos
secretos referentes  vida de meus personagens, havia
material abundante sobre a represso  revolta comu
nista de 1935 no Brasil. Ironicamente eu iria encontrar,
no corao de Washington, relatos copiosos sobre as
torturas infligidas pela polcia brasileira ao dirigente
comunista alemo Arthur Ewert, pistas indiscutveis sobre
a ao de espies na direo comunista e detalhes sobre
o desmantelamento da revolta de 1935 - tudo isto escrito

XVII

por um agente do governo norte-americano. Para meu
espanto, pude ver depositados em Washington (e dispo
nveis a 50 eents) documentos internos do PC brasileiro
desconhecidos aqui e que tinham sido misteriosamente
baldeados para os Estados Unidos.
De volta ao Brasil, retomei as entrevistas, revi datas
e dados com Luls Carlos Prestes e com outros entrevis
tados e continuei  cata de sobreviventes de 1935 que
pudessem dar depoimentos ou, pelo menos ajudar-me a
conferir as informaes de que dispunha. Foi nessa po
ca que me lembrei de uma frase de um antigo chefe de
reportagem, que costumava dizer que "ao reprter, como
ao goleiro, no basta trabalhar direito -  preciso ter
sorte". Eu tive, e muita. Foram meros golpes de sorte,
por exemplo, que levaram-me a dois personagens desta
histria, Tuba Schor e Celestino Paraventi. Ela eu desco
bri easualmente: seu filho Nelson foi o mdico que reali
zou o parto de minha ex-mulher, quando nasceu Rita,
minha filha - e ao saber que eu escrevia sobre a vida
de Olga, colocou-me em contato com a me. Quanto a
Paraventi, foi ele guem me descobriu: ao assistir uma
entrevista que eu dera ao reprter Ney Gonalves Dias,
na TV Manchete, sobre o livro em curso, ele procurou
seu sobrinho Jos Gregori, meu colega de bancada na
Assemblia Legislativa, para oferecer-me seu delicioso
depoimento sobre a passagem de Olga por So Paulo.
No Rio de Janeiro, o fotgrafo e pesquisador Paulo
Csar de Azevedo, que j vinha colaborando com o meu
trabalho atravs de pesquisas em arquivos pblicos deci
diu requerer oficialmente ao Ministrio das Relaes
Exteriores autorizao para consulta a documentos
reservados referentes  deportao de Olga. Um ano de
espera e de reiteradas reclamaes, entretanto, no foram
suficientes para que as portas da burocracia do Itamaraty
se abrissem. Eu j havia recebido do professor Ri
cardo Maranho cpias de documentos que comprova
vam o comprometimento de diplomatas brasileiros com
a Gestapo, mas senti-me no direito de obter, oficialmen

te, toda a correspondncia sobre o assunto. Foi preciso

XVIII

que interviesse pessoalmente na demanda o prprio chanceler
Ramiro Saraiva Guerreiro para que eu pudesse
receber, ainda que previamente censsurado, o material
solicitado,
Ao contrrio do que ocorrera no Itamaraty at a
interveno de Saraiva Guerreiro, obtive do Superior Tri
bunal Militar todas as facilidades para pesquisar nos seus ar
quivos.  A partir da intermediao de seu
sobrinho e meu velho amigo Flvio Bierrenbach, o almirante
de esquadra Jlio de S Bierrenbach, presidente
do STM, determinou que se liberasse rigorosamente tudo
o que havia nos arquivos do Tribunal sobre a revolta de
1935, incluindo a documentao indita, que se encon
trava lacrada desde o encerramento do processo n. 1
do Tribunal de Segurana Nacional. Vladimir Sacchetta,
meu grande colaborador na parte brasileira deste livro,
passou uma semana em Braslia vasculhando 70 volumes
para selecionar centenas de documentos .e ilustraes
que, dias depois, seriam fotografados e reproduzidos por
Paulo Csar de Azevedo. Sacchetta, alm disso, j me
franqueara o arquivo de seu pai, Hermnio Sacchetta, e
toda a documentao sobre o tema que havia recolhido
em Londres, no Public Record O f f ice.
A leitura de toda essa papelada me obrigaria a uma
nova viagem, desta vez a Buenos Aires, onde a boa von
tade do correspondente da revista Veja, Tos Meirelles
Passos, aproximou-me de Rodolfo Ghioldi, o velho diri
gente do PC argentino e do Comintern. Apesar de devas
tado por um enfisema pulmonar que quase o impedia
de falar (e que o mataria meses depois), Ghioldi recebeume em companhia 
de sua mulher, Carmen, para cinco
horas de entrevista gravada, ao fim das quais presenteoume com uma 
verdadeira relquia que guardava no fundo
de um cofre: um envelope contendo fotografias inditas,
feitas no Brasil em 1935.
A falta de dinheiro e de tempo para empreender
novas viagens obrigou-me a utilizar o correio e o tele
fone internacional para conferir dados ou buscar novas
informaes - foi assim que recorri ao professor Boris
XIX
Koval, do Tnstituto do Movimento Operrio, em Moscou,
ao Memorial Yad Vashem, em Israel, e, por mais duas
vezes, a Richard Gould, do Narional Archives. Simulta
neamente, minha conta de telefone engordava com in
terurbanos dados a vrios pontos do pas para reconfir
mar datas e dados ou mesmo para buscar a exata preci
so das palavras usadas num determinado dilogo. A
tudo isto acrescentei documentos que chegavam s
minhas mos, remetidos por annimos militantes comunis
tas de vrios pontos do pas, que, alertados por notas
de jornais ou notcias de televiso sobre meu trabalho,
generosamente tomavam a iniciativa de procurar-me,
interessados no s em ajudar-me, mas em enriquecer a
verdadeira arqueologia em que me meti para reconstituir
com a maior fidelidade possvel esta histria de amor
e de intolerncia.
Este livro no  a minha verso sobre a vida de Olga
Benario ou sobre a revolta comunista de 1935, mas aquela
 que acredito ser a verso real desses episdios. No
vai impressa aqui uma s informao que no tenha sido
submetida ao crivo possvel da confirmao. Qualquer
incorreo que for localizada ao longo desta histria,
entretanto, deve ser debitada exclusivamente  minha
impossibilidade de confront-la com verses diferentes.
E certamente haver incorrees, at porque eu prprio
cheguei a avanar investigaes a partir de verses apa
rentemente verdadeiras, mas que depois seriam desmen
tidas por novas pesquisas ou entrevistas. Um exemplo:
tenho em minhas mos o depoimento de uma sobrevi
vente de Ravensbrck que jura ter visto Olga ser fuzi
lada naquele campo de concentrao. A segurana das
declaraes leva-me a erer que ela de fato viu alguma
mulher sendo fuzilada l e sups tratar-se de Olga. A ver
dade, no entanto,  que Olga no joi fuzilada em Ra
vensbrck. Outro exemplo: um eminente historiador
brasileiro assegurou-me que Paul Gruber no passou de
um personagem de fico inventado pelo Comintern para
confundir os servios de inteligncia capitalistas. De novo,
fatos, documentos e testemunhos comprovaram que Gruber


XX

no s existiu em carne e osso como jogou um papel
importante no desfecho da revolta de 1935. E houve,
ainda, situaes em que, colocado diante de verses con
traditrias sobre determinado episdio, fui levado por
investigaes e evidncias a optar por uma delas. No
apenas como referencial, nesses casos, mas para intro
duzir-me por inteiro na poca em que esta histria se
passa, recorri  extensa bibliografia que vai ao final deste
volume, de importncia capital para quem pretenda
conhecer melhor essa poca. As raras passagens deste
livro em que foi necessria a recriao referem-se sempre
a eenrios de determinados fatos - nunca a fatos em si.
E, ainda assim, a recriao se deu a partir de depoimen
tos de testemunhas.
Antes de entregar os originais  grfica, submeti meu
trabalho aos olhos de trs dos mais brilhantes e impie
dosos jornalistas deste pas - Lus Weis, Raimundo Ro
drigues Pereira e Ricardo Setti - e  mo vigilante de
Vladimir Sacchetta, indiscutivelmente ma das maiores
autoridades no estudo da memria do movimento operrio
brasileiro. E, por fim, recebi a ajuda do talentoso
Claudio Marcondes, a quem a Editora Alfa-Omega atri
bura o trabalho de homogeneizar a grafia de palavras e
de fazer a preparao do texto que iria para a camposi
o. Claudio acabou por propor alteraes essenciais para
a clareza deste livro. Roubei deles preciosas horas de tra
balho e lazer - e no me arrependi: a partir de suas cr
ticas, observaes e objees, sentei de novo  mquina
para corrigir os erros.
Embora a responsabilidade por tudo o que voc vai
ler agora seja exclusivamente minha. eu devo este livro
 colaborao gnerosa dos entrevistados (cujos nomes
vo relacionados ao final), de cada um dos nomes cita
dos ao longo desta apresentao, e a Abelardo Blanco,
Abel Cardoso Jnior, Alberto Dines, Alexandre Lobo,
Ali Ahmad, Ana Maria de Castro, Beatriz Sardenberg,
Bernd Wnning, Birgit Koyne, Bruno Kiesler, Clia Va
lente, Christiane Barckhausen Daphne F. Rodger, Dieter
Koyne, Edith Heise, Edmond Petit, Eric Nepomuceno,
XXI
Flvio Kothe, Gerhard Desombre, Giocondo Dias, Heitor
Ferreira uma, Herbert R&sser, Horst Brasch, Ins Etienne Romeu, Jamile 
Salomo, Jasmina Barckhausen, John
W. F. Dulles, Jos Antonio Penteado Vignolli, Jos Carlos
Bruni, Jos Eduardo de Faro Freire, Jos Sebastio Witter, Karen Elsab 
Barbosa, Karl Burkert, Kerry Fraser,
Le6ncio Martins Rodrigues, Lothar Gnther, Lutz EIlrodt, Manoel Moreira, 
Marco Aurlio Garcia, Marcia Ma
drigali, Maria Beatriz Paula Dias, Maria da Guia Santiago,
Maria Vitria Menezes Camargo, Marisa Teixeira Pinto,
Marisa Zanatta, Martina John, Moacir Werneck de Castro,
AIicolau Tuma, Pedro Alves de Brito, Peter Skomroch
Rgis Barbosa, Rgis Fratti, Ricardo Gontijo, Ricardo Za
rattini, Rita Magalhes Marques, Roberto Braga, Roberto
Drumond, Samuel Krakowski, Samuel Soares Srgio
Micelli, Sieglried Ktillner, Silvia Oliva Arajo, Silvio Ten
dler, Suely Campos Cardoso, Susana Camargo, Tibrio
Canuto, Vera Maria Tude de Souza, Werner Btinecke e
Werner Thiele.
1..
Agosto de 1985

1

Berlim, Alemanha
Abril de 1928
Tudo aconteceu em menos de um minuto.
Pontualmente s nove horas da manh de 11 de abril
de 1928, o guarda Gunnar Blemke atravessou o salo de
audincias revestido de mogno da priso de Moabit, no
centro de Berlim, levando pelo brao, algemado, o pro
fessor comunista Otto Braun, de 28 anos. No que Otto
Fosse considerado um preso perigoso; as algemas se jus
tificavam por ser um acusado de "alta traio  ptri,
encarcerado havia um ano e meio, aguardando julgamen
to. O guarda caminhou com ele em direo  mesa onde
se encontrava o secretrio superior de Justia, Ernst
Schmidt, que deveria interrogar Otto Braun. A seu lado,
o escrivo Rudolph Nekien lutava para no cochilar sobre
a mquina de escrever. Na outra ponta do salo, bem em
frente  mesa de Schmidt, um pequeno auditrio desti
nado ao pblico e aos advogados e isolado por um ba
lastre de madeira, estava ocupado por meia dzia de
adolescentes, moas e rapazes. "Pensei que fossem estu
dantes de Direito", diria o guarda mais tarde. Blemke
estufou o peito diante da autoridade e anunciou:
- Apresentando o preso Otto Braun.
Nesse instante ele sentiu algo doro encostado em sua
nuca. Virou a cabea e viu uma pistola negra apontada

2

contra seu rosto por uma linda moa de cabelos escuros
e olhos azuis, que exigiu com voz firme:
- Solte o preso!
No auditrio, os jovens dividiram-se em dois grupos
e se atiraram sobre o secretrio Schmidt e o escrivo
Nekien, que foi derrubado com violncia. Schmidt deu
um salto, conseguiu bater a ponta do sapato sobre o
boto de alarme nstalado no cho - e recebeu uma
coronhada no rosto, dada por um garoto enorme, de
barba ruiva e cabelo escorrido at quase os ombros. A
jovem de olhos azus que camandava o grupo mantinha
a pistola apontada para a cabea do guarda. Depois de
desarm-lo, caminhou de costas em direo  porta,
cobrndo o preso com seu corpo e gritando para seus com
panheiros:
- Para a rua! Para a rua! Quem se mexer leva
chumbo!
O guarda e os dois Funcionrios foram colocados de
cara contra a parede. Com gestos rpidos, a moa man
dou que o grupo sasse. O bando j disparava rumo ao
porto principal,levando o preso para a calada, quando
seu ltimo grito ecoou na sala:
- O primeiro a se mover leva chumbo!
E sumiu pelo corredor. Ao saltar os degraus da es
cada na porta da priso, o grupo se dspersou, cada um
fugindo por uma rua diferente. A jovem guardou a pis
tola na sacola de l a tiracolo e atravessou correndo o
parque Fritz-Schloss para, no outro extremo ao lado de
um ginsio de esportes, atirar-se num pequeno furgo
verde que a esperava de portas abertas.  direo ia um
jovem narigudo e atrs, sentado no fundo da carroceria
e com as mos ainda algemadas, estava Otto Braun, enco
lhido e assustado.
O calhambeque ameaava desmontar pelas ruas de
Berlim. Agora precisavam sair das imediaes da priso,
cujas sirenes de alarme podiam ser ouvidas a quarteires.
O carro tomou o rumo sul da cidade. Evitando as ruas
mais movimentadas, margeou o pequeno cemitrio Bl
cher e eruzou o eanal Schiffarts. Quando entrou no bairro
de Neuktilln, a moa, Otto e o narigudo puderam afinal
respirar aliviados. Em Neuktilln estavam em casa.
Na hora do almoo, uma edio extra do dirio Ber
tiner Zeitung am Mittag j dava detalhes, sob escanda
losa manchete, do que chamava de "ousada cena de
faroeste" ocorrida de manh em Moabit. O jornal anunciava
em primeira mo o nome da linda jovem que camandara
"o assalto comunist ": Olga Benario.
- "Ousada cena...
A noite, no pequeno apartamento que a Juventude
Comunista conseguira na rua Zieten para escond-los, ao
lado de seu namorado Otto Braun, Olga lia e relia o noti
cirio dos jornais e parava sempre na mesma expresso.
,De fato, ousadia era o nico substantivo capaz de traduzir
no apenas o que havia feito naquela manh, mas o senti
mento que movia a maioria dos adolescentes comunistas
do bairro operrio de Neuklln. Olhando para a rua atra
vs das cortinas do quarto  meia-luz, ela contemplava
mais uma manifestao desse estado -de esprito. Meia
hora antes as tropas dapolcia haviam percorrido a
regio, colando nos postes e muros o enorme cartaz que o
promotor superior de Justia da Alemanha mandara im
primir s pressas, oferecendo a recompensa de 5 mil mar
cos a quem desse informaes sobre o paradeiro do escri
tor Otto Bran e da datilgrafa Olga Benario. Agora ela
podia ver l embaixo, na rua, o nanico Gabor Lewin e a
agitada Emmy Handke, seus companheiros, arrancando
todos os cartazes.
Que outro nome dar, seno ousadia, para o que acon
tecia a poucas quadras dali, no salo dos fundos da eer
vejaria Mller? Indiferentes ao cerco que a polcia mon
tara em Neuklln para apanhar os dois, os militantes do
Rot Front, a "Frente Vermelha" da Juventude Comunista,
decidiram fazer um ato poltico para comemorar a liber
tao de Braun. A primeira a falar foi uma garota de
trancinhas. As centenas de pessoas que se aglomeravam
no salo - moas, rapazes, velhos operrios com suas

4
mulheres e crianas de colo - ela comunicou que todos
os envolvidos na libertao de Braun estavam em segurana,
e arrancou aplausos demorados quando revelou
que a ao fora realizada com armas descarregadas.
- No tnhamos a inteno de ferir ningum. .. Se
houvesse alguma reao por parte dos fascistas de Moabit,
certamente a esta hora estaramos pensando em libertar,
alm do professor Braun, nossos companheiros que inva
diram a priso. A verdade  que um bando de garotos
com armas descarregadas colocou de joelhos os fascistas
que mantm na priso milhares de trabalhadores
alemes . . .
As onze horas da noite, uma tropa de choque invadiu
a cervejaria Mller e evacuou o salo a golpes de casse
tete. De seu quarto, Olga podia ver o alvoroo que a escaramua
provocou na rua Zieten. Ao seu lado, Otto dormia,
indiferente  excitao que tomava conta da companheira.
O noticirio do rdio ligado em volume quase inaudvel
aumentou a insnia da moa: todos os programas da ma
drugada comentavam o fato do dia - a invaso da priso
de Moabit. Mas tanto os jornais como o rdio transmi
tiam uma certeza tranqilizdora: de todos os partici
pantes da ao, s ela fora identificada pela polcia.
Sobre os outros havia, no mximo, vagas descries
fsicas. Assim, Rudi Knig era apresentado como "um
moreno forte, de cabelo escovinha, que agarrou o escri
vo bIekien pelagargant"; Margot Ring era "uma ruiva
gordinha, de 15 anos no mximo"; aquele que as testemunhas identificavam 
como "o grandalho de cabelos
longos que deu a eoronhada na cabea do secretrio da
Justia era o doce Erich Jazosch; um funcionrio do
tribunal que se encontrava  porta da priso na hora da
fuga descrevera Erik Bombach como "uma criana de
um metro e meio de altura, carregando uma pistola em
cada mo "; a magrela Klara Seleheim, por causa do ea
belo aparado rente, era tratada como "algum que no
sabemos se  uma mocinha ou um rapaz", como dizia um
locutor.
Se a polcia desconhecia a identidade daqueles jovens,
sobre Olga e Otto sabia tudo. Por isso, as semanas seguin
tes foram de grande tenso para os dois. O cerco policial
apertava e, por maior que fosse a solidariedade das fa
mlias operrias de Neuktilln, aumentavam tambm os
riscos de priso. Pacatas casas de metalrgicos e padeiros
eram transformadas em aparelhos para que os jovens
pudessem esconder-se por quatro, cinco dias. A segurana
deles ficou a cargo do Departamento de Ordem, uma
seo geheim - secreta - e semimilitarizada da Juven
tude Comunista. Experimentados em proteger a organi
zao contra ataques terroristas de direita ou da polcia,
o Departamento de Ordem funcionava como uma clula
clandestina dentro da Juventude Comunista legal. Eram
seus membros que se encarregavam de arranjar sempre
novos aparelhos e de transferr Olga e Otto de uma casa
para outra, quando pressentiam a aproximao da polcia.
As sesses de cinema em Berlim passaram a ser
precedidas, assim que as luzes se apagavam, da exibio de
um slide reproduzindo o cartaz com as fotos de Olga e
Otto e a oferta de  mil marcos a quem informasse sobre
o paradeiro deles. O pblico, invariavelmente, explodia
em aplausos para os dois jovens - e, invariavelmente,
acendiam-se as luzes e o cinema era ocupado por grupos
de policiais armados. Quando a escurido retornava, comeavam as vaias, 
os assovios e as bolas de papel voando.
O que mais intrigava a polcia  que ningum apareceu
para candidatar-se a uma recompensa equivalente a dois
anos de salrio de um trabalhador.
Nos primeiros dias de julho, o juiz Franz Vogt, do
Supremo Tribunal Federal, convocou a imprensa em seu
gabinete - ao lado do salo de audincias que havia sido
invadido trs meses antes - para apresentar um novo
cartazcomunicado, assinado pelo promotor superior de
Justia da Alemanha. Nele, o Poder Judicirio retirava a
recompensa de 5 mil marcos, "pois, segundo informaes
fornecidas pela polcia, as citada pessoas conseguiram
fugir, dirigindo-se para o exterior".

6
Desta vez a polcia acertara: dias antes, Olga e Otto
haviam viajado de carro, acompanhados por membros do
Departamento de Ordem da Juventude, at a cidade de
Stettin, na fronteira com a Polnia. De l embarcaram
num trem rumo a Moscou.No momento em que o juiz
Vogt recebia os reprteres em Berlim, o casal encontra
va-se dentro de um trem, na fronteira da Polnia com a
Rssia, exibindo passaportes falsos a um jovem soldado
russo de traos orientais, que ostentava um capacete
branco com a estrela vermelha. Emocionada por estar
"entrando em territrio proletrio", Olga no resistiu 
tentao de um aceno carinhoso para aquele "soldado do
povo". Para sua decepo, o soldado fingiu que no viu.
O trem arrancou lentamente em direo a Moscou.

Buenos Aires, Argentina
Abril de 1928

Aps duas semanas montado no lombo de um boi,
atravessando o pantanoso Chaco paraguaio, o capito Lus
Carlos Prestes, de 30 anos, aproximava-se em uma balsa
do porto de Buenos Aires. Mido, com menos de 1 60 m,
os doze meses que acabara de passar na cidadezinha de
La Gaiba, no Oeste boliviano, haviam deixado Prestes com
pssima aparncia. A barba longa e cerrada escondia o
rosto magro, de mas saltadas, ainda ressentido de
  repetidas crises de impaludismo. A chegada  capital por
tenha marcava decididamente o fim de uma aventura que
ficaria gravada para sempre na histria do seu pas, o
Brasil.
Um ano antes, levando nos ombros a divisa de general
revolucionrio, e tendo ao lado seu companheiro de epo
pia, o general Miguel Costa Prestes conduzira at o
exlio boliviano sua tropa de 620 homens. L entregara
seu arsenal ao major Carmona Rod, representante do
governo de La Paz: 90 fuzis Mauser quatro metralhadoras
pesadas (uma das quais inutilizada) dois fuzis-metra
lhadoras descalibrados e cerca de 8 mil balas. Com a
deposio voluntria das armas, lavrada numa pequena ata
subscrita pelo major boliviano e os dois militares brasi
leiros, chegava ao fim uma campanha de dois anos e seis
meses de durao, em que foram percorridos, a p ou em

8

lombo de burro, nada menos que 25 mil quilmetros atravs
de doze estados brasileiros. Embora exilados e desar
mados, todos, sem exceo, sabiam que entravam para a
Histria de cabea erguida. Ao cabo da jornada, aquele
exrcito de esfarrapados ficara conhecido em todo o con
tinente como "a invicta Coluna Prestes" - o contingente
rebelde que afrontara as tropas bem armadas e os generais
do presidente Artur Bernardes sem sofrer uma nica
derrota. Para as centenas de milhares de brasileiros que
com ela travaram contato direto ou que dela tiveram
notcia, seu chefe, o general Lus Carlos Prestes, era o
"Cavaleiro da Esperan".
O mineiro Artur da Silva Bernardes tomara posse na
Presidncia da Repblica em 1922 sob Estado de Stio provocado pelo 
levante militar do Forte de Copacabana,
no Rio de Janeiro, conhecido como "Os dezoito do Forte"
- e sob Estado de Stio governaria durante os quatro
anos de seu mandato. Extremamente autoritrio, Bernar
des afastou do poder as oligarquias descontentes, decretou
a interveno federal nos Estados da Bahia e do Rio
de Janeiro, e seu relacionamento difcil com a corporao
militar acabou por gerar  conspiraes que explodiram
durante todo o seu governo. A represso aos movimentos
rebeldes quase sempre era pretexto para adoo de
medidas autoritrias de carter geral - como a durssima
Lei de Imprensa assinada em novembro de 1923 conhecida
como "Lei Infame" - que alingiam as Liberdades
democrticas como um todo.
Foi nesse clima que surgiu a Coluna - embora Prestes,
pessoalmente, no a tivesse visto nascer. Quando o
general Isidoro Dias Lopes e o ento major Miguel Costa
levantaram suas tropas em So Paulo, no dia 5 de julho
de 1924, ele servia como capito engenheiro no Batalho
Ferrovirio de Santo Angelo, cidadezinh do Rio Grande
do Sul prxima  fronteira com o Uruguai. Os dois mili
tares paulistas pretendiam marchar contra a capital
federal - ento no Rio de Janeiro -, buscar apoio entre
os militares das guarnies cariocas e depor o governo
Bernardes. Acuados em So Paulo por tropas federais,
os dois seguem para o Sul  frente de 2 mil homens, em
direo a Foz do Iguau, no Paran. Pela madrugada de 28
para 29 de outubro, o capito Prestes deixa um curto bi
lhete despedindo-se da me, dona Leocdia, e camanda a
insurreio do Batalho Ferrovirio de Santo Angelo em
apoio aos revoltosos paulistas, articulando rebelio si
multnea no 3  Regimento de Cavalaria da cidade de So
Lus, a 80 quilmetros de distncia.
Alertado a tempo, o governo consegue apagar parte
do rastilho que se espalhava pelo estado e aborta os
levantes dos quartis de Uruguaiana, Alegrete e Cachoeira,
frustrando o plano de Prestes de tomar todo o Rio
Grande do Sul. Seguindo ento para So Lus, Prestes ali
instala seu quartel-general. Em seguida ocupa as cidades
de So Nicolau, Santo Angelo, Santiago do Boqueiro e
So Borja. Ao contabilizar armas e homens, ele se d
conta da fragilidade militar dos rebeldes: no passam de
1500, entre civis e militares. As armas sequer so suficien
tes para a metade dos combatentes: 800 fnzis Mauser e
uns poucos fuzis-metralhadoras. Para enfrent-los j esta
vam a caminho de So Lus as tropas do governo: 14 mil
soldados, treinados e bem armados.
A desigualdade de foras provoca a primeira mani
festao do gnio militar que seria a marca de Prestes ao
longo dos dois anos seguintes. Ele faz chegar aos ouvidos
do inimigo a notcia de que concentraria suas foras em
So Lus, ao mesmo tempo em que comea a despachar
a tropa rumo ao norte. Quando os efetivos oficiais tomam
a cidade, no h mais um s rebelde no lugar: Prestes
estava com seus homens a 200 quilmetros de distncia,
vadeando as matas do rio Uruguai. Para chegar a Foz do
Iguau, onde pretendia juntar-se aos revoltosos de So
Paulo, ele  obrigado a se valer muito mais da astcia do
que da fora - sem perder um s homem, consegue infli
gir considerveis baixas s foras governamentais apenas
com armadilhas e emboscadas. Mesmo em combate, cada
tiro disparado por seus comandados tem que ser autori
zado por ordem superior, para economizar a munio.
A chegada triunfal de Prestes e seus homens a Foz do
Iguau, no dia 1  de abril de 1925, d novo nimo aos
paulistas ali acampados, reduzidos por obra de sucessi
vas deseres quase  metade do contingente que sara
de So Paulo em 5 de julho. Investidos da patente de
general, Lus Carlos Prestes e Miguel Costa juntam suas
foras e rompem a p o serto brasileiro, na esperana
de por fim ao despotismo dos bernardescos - nome
com que tratavam os seguidores do presidente da
Repblica.
Avanando como podia, a serpente humana zigueza
gueava pelo pas. Quando conseguiam potrear manadas
de cavalos em alguma fazenda, os soldados de Prestes
montavam por algumas semanas, ou meses. Se no encon
travam cavalos, seguiam a p. Se havia comida, comiam
- porm, o mais comum era viajarem por dias com pou
ca gua e quase sem comida, sustentando-se com farinha
e rapadura. Inmeras vezes o estoque de remdios da
tropa era integralmente utilizado para atender s miser
veis populaes encontradas pelo caminho. A tragdia das
condies de vida das populaes que a Coluna cruzava
pelo interior horrorizava os comandantes, ambos nasci
dos em famlias da classe mdia: mesmo tendo convivido
com a pobreza do Sul, defrontavam-se com um Brasil
ainda mais faminto, miservel, atrasado. Ao ver crianci
nhas arrancando razes do cho para fazerem a nica
refeio do dia, Prestes se convencia ainda mais da necessidade
de mudar a face daquele pas.
A Coluna engrossava a cada povoado. A rgida disci
plina imposta  tropa por Prestes tornava os soldados
respeitados pelo povo. Em geral, as primeiras medidas
- tomadas aps a ocupao de um municpio eram a liber
tao dos presos e a queima dos arquivos dos cartrios,
onde estavam os documentos que "comprovavam" o mo
noplio das propriedades da terra pelos latifundirios e a
explorao dos direitos dos camponeses. A exceo dos
casos de sentenciados por crimes brutais, como estupro
seguido de morte, os presos eram postos em liberdade
aps breve entrevista com os oficiais da Coluna. Contra
a vontade de Prestes, um contingente de meia centena de
mulheres acompanhava a tropa em sua marcha pelo pas.
A presso da soldadesca vencera e o comandante no con
seguiu impedir que elas seguissem. Muitas pariram filhos
ao longo da marcha, crianas que haviam sido geradas no
comeo da jornada.
Apesar da invencibilidade militar, a falta de um pro
grama poltico claro, propondo algo mais que a derrubada
de Artur Bernardes,ia aos poucos minando o moral dos
oficiais e soldados. Afinal, haviam se passado quase dois
anos e milhares de quilmetros tinham sido percorridos,
mas os prprios comandantes, a comear de Prestes sa
biam que a Coluna, ainda que vitoriosa, no mudaria as
estruturas sociais do Brasil simplesmente derrubando o
ditador. Do corao do Nordeste a Coluna desceu em
direo ao Sul do Mato Grosso, praticamente repetindo o
trajeto inicial da subida. Quando as tropas chegaram a
San Mathias, na Bolvia, para depor o que restava das
suas armas nas mos do major Carmona Rod, o caderno
de notas de Loureno Moreira uma - historiador oficial
da Coluna - registrava, em nmeros exatos: de So Lus,
ao Rio Grande do Sul, at ali, tinham sido vencidas
3 742,5 lguas. Ou seja, 24 947,5 quilmetros.
Nos primeiros meses em territrio boliviano, Prestes
cuidou dos interesses da tropa, repatriando os soldados
que desejavam retornar ao Brasil e tratando de conseguir
trabalho para os que no queriam ou no podiam voltar.
Marx, Lnin e o triunfo da Revoluo Bolchevique no
outro lado do mundo, dez anos antes, eram nomes e not
cias sem muito significado para o capito at o
dia que, no final de 1927, recebe na cidade boliviana de
Puerto Surez, a poucos quilmetros da fronteira com o
Brasil, a visita de Astrojildo Pereira, um dos fundadores,
em 1922, do "Partido Comunista - Seo Brasileira da
Internacional Comunista", o primeiro nome oficial da or
ganizao. As peripcias da Coluna haviam causado grande
sensao entre os opositores do governo brasileiro inclusive os 
comunistas. A bagagem de Astrojildo vai
entupida de livros, quase todos em francs, das edies
L"Humanit: obras de Marx e Lnin, resolues da Inter12
nacional Comunista, textos de Engels e exemplares avulsos do peridico 
Correspondance Internationale, editado
pelo Comintern, o comando da Internacional Comunista,
sediado em Moscou. Depois de dois dias de conversas com
Prestes, Astrojildo entrega-lhe os livros e se despede com
um dissimulado convite:
- Nesses volumes o senhor encontrar um pouco da
cnca que trar as solues para os problemas do nosso
tempo: o marxismo.
Prestes no assume qualquer compromisso com o
Partido. Quer primeiroconhecer a tal cinca - e passa
os primeiros meses de 1928 aproveitando o pouco tempo
disponvel para mergulhar na farta literatura comunista
que recebera. Nessa poca comea a pensar em sair da
Bolvia e tentar destino melhor para seus companheiros.
Acaba decidindo transferir-se para a vizinha Argentina.
Alm de ficar mais perto do Rio Grande do Sul - e,
portanto, da efervescncia poltica brasileira -, o clima
existente no pas era mais democrtico do que o que se
vivia na Bolvia. E, claro, na Argentina mais desenvolvida
economicamente, havia melhores ofertas de trabalho para
ele e para o que restara de sua tropa. No final do primeiro
semestre de 1928 esto todos instalados em Buenos Aires.
J sem a barba que lhe varria o peito no tempo da
Coluna, Prestes torna-se o centro das atenes dos revo
lucionrios de vrios pases que, de passagem por Buenos
Aires, aconselham-se com o mitolgico comandante da
coluna invcta. Paraguaios, ehilenos, uruguaios e bolvia
nos e - para espanto do dono da casa, da me e das
quatro irms que viviam com ele - at turistas brasileiros
apareciam por l, acompanhados de guias de agncias
de viagens, para ver o "fenmeno" de perto. A casa era,
igualmente, um centro de conspirao de patrcios seus
que lutavam para derrubar o governo brasileiro.
Prestes se aproxima e torna-se amigo do jornalista
Rodolfo Ghioldi, dirigente do Partido Comunista argen
tino e do Cornintern. Em uma das muitas reunies na casa
deste, na ealle Mxico, em Buenos Aires, fica conhecendo
um certo Kleiner, tambm chamado de Rstico - na
13

verdade, codinomes de Augusto Guralsky, envado especial
da III Internacional para contatar na Argentina o capito
brasileiro, cujo trabalho poltico interessava aos dirigen
tes soviticos. Os contatos com o PC brasileiro tambm
se tornam mais freqentes e, em 1929, o prestgio de
Prestes no Brasil  tal que o Partido o convida para
disputar as eleies  Presidncia da Repblica, no ano
seguinte. Contudo, ele s aceita discutir o convite se a
canddatura resultar de um consenso entre os tenentes da
Coluna - e o plano malogra.
Em maro de 1930  eleito o paulista Jlio Prestes
para suceder na Presidncia a Washington Lus, num
pleito tpico da Repblica Velha, com voto a descoberto,
fraudes e um contingente restritssimo de eleitores. Mas
ele no toma posse. Uma insurreio, que comea de
forma espontnea na Paraba e  conduzida nacionalmen
te pela Aliana Liberal, leva Getlio Vargas ao Palcio do
Catete. Lus Carlos Prestes sente imediatamente as
conseqncias da mudana no Brasil ao ser preso em Buenos
Aires e libertado em seguida. Junto com a me e as irms
exila-se em Montevidu e, da capital uruguaia, pede filia
o ao PC. Porm, o Partido que o cortejara meses antes
agora o rejeita. A direo do PC brasileiro - que pouco
antes havia destitudo o secretrio-geral Astrojildo Pereira,
acusandoo de opor-se ao "obreirismo" proposto pelo
Comintern - impede que Prestes seja aceito.
O presidente Getlio Vargas tenta conctat-lo, oferecen
do-lhe a patente de eapto do Exrcto que lhe fora
cassada, mas Prestes rejeita a oferta e recebe de seus
tenentes a patente honorria de general. Cada dia mais,
ele se convence de que s uma revoluo popular poder
mudar os destnos do Brasl. E  com este projeto na
cabea que aceita um convite da III Internacional para
mudar-se, com a famlia, para a Unio Sovitica. Sem
barba e sem bigode, trajando um discreto terno cinza e
Levando  mo um elegante chapu de feltro, Lus Carlos
Prestes embarca no navio Eube, que larga do porto de
Montevidu, no dia 1  de outubro de 1931, com destino
a Moscou.
Na "fortaleza vermelha"

 15
Com os corpos modos aps setenta e duas horas no
trem, Olga e Otto chegaram ao hotel Desna, na capital
sovitica. Ao contrrio do Luxo, destinado a receber estran
geiros ilustres que aportavam em Moscou, no havia
nenhuma pompa no Desna, que, em compensao, era limpo
e discreto. Ao preencher a ficha de entrada, Olga notou
que, por curiosa coincidncia, exatamente cinco anos
antes ela entrara pela primeira vez em uma organizao
comunista.
Foi no vero de 1923, em Munique, sua cidade natal,
poucos meses depois de seu 15  aniversrio. A Juventude
Comunista havia sido proibida pela polcia e entrara na
clandestinidade. Seus militantes - adolescentes de no
mximo 18 anos - resolveram ento criar o Grupo
Schwabing, que se reunia uma vez por semana numa
velha serraria nos subrbios da capital da Baviera. Certa
tarde, a reunio  interrompida por barulhos suspeitos
do lado de fora. Os encarregados da segurana saem,
temendo a chegada da polcia, e deparam com a jovem
magrela, alta, de trancinhas escuras, pedindo para fazer
parte do Schwabing. Convidada a entrar na serraria, Olga
 submetida a uma sabatina pelos lderes do grupo. Quando
indagam seu endereo e o nome dos pais, ela responde:
- Sou filha do advogado Leo Benaro. Mas no tenho
culpa disso.
Para a maioria dos comunistas alemes, no apenas
a dreita era considerada inimiga. Eles colocavam no mesmo
saco e tratavam com o mesmo desprezo os sociaisdemocratas - e o doutor 
Benario era um social-democrata.
Para os jovens comunistas do Schwabing, filhos de
operrios, aquela era uma presena inusitada: nunca, at
ento, um jovem da conservadora burguesia bvara tinha
batido s suas portas para pedir filiao.
O preconceito era injustificado. Embora fosse um dos
juristas mais respeitados da Baviera e personalidade in
fluente no Partido Social Democrata local, o advogado
judeu Leo Benario era um liberal de idias avanadas.
A prpria Olga chegava a dizer que havia se transformado
numa comunista no pela leitura da teoria marxista, mas
folheando os processos em que o pai defendia os traba
lhadores de Munique. "Ali vi de perto a misria e a injus
tia que s conhecia, superficialmente, nos livros", repe
tia sempre. Em contraste com sua considerao pelo pai,
nas poucas vezes em que se referia  me, ela o fazia com
frieza e economa de palavras. Filha de abastada famlia
de judeus, Eugnie Gutmann Benario era uma elegante
dama da alta sociedade que via com horror a perspectiva
da filha tornar-se comunista. A importncia da av ma
terna em sua vida era ainda menor. Olga lembrava-se
apenas de um prosaico presente que dela recebera,
durante a crise que sobreviera com a Primeira Guerra Mun
dial - uma galinha garniz, til numa poca em que os
ovos estavam racionados - e da pergunta com que a
velha sistematicamente reagia a toda novidade que a neta
lhe trouxesse da rua, como num pressgio da tragdia
que se abateria sobre a Alemanha: "Isso  bom ou mau
para os judeus?".
Ao falar do pai, Olga nunca esconda o carinho que
sentia por ele. Era, sim, um burgus social-democrata;
mas diferenciado. Ao doutor Benario recorriam invaria
velmente os trabalhadores que pretendiam fazer deman
das judiciais contra os patres e que no tinham dinheiro

17

para pagar advogados. Com Leo Benario, pagava quem
pudesse. Para os que nada podiam pagar, trabalhava de
graa. "E com mais afinco", costumava lembrar Olga. A
observao da elientela que freqentava a elegante resi
dncia da Karlplatz, no centro da cidade, levava a jovem
a interessar-se cada vez mais pela sorte daquela gente.
Pelo escritrio do pai passavam diariamente - e discu
tiam  frente da adolescente - os mais abastados e os
mais miserveis habitantes de Munique. "A luta de classes
ia visitar-me todos os dias em casa", ela brincava.
E visitas no faltavam - trazidas pela dramtica si
tuao econmica que decompunha o pas desde o fim da
Primeira Guerra. A brutal espiral inflacionria chegou a
tal ponto que um dlar, que em meados de 1922 valia mil
marcos, passou a custar 350 milhes de marcos j no ano
seguinte. O operariado alemo estava  beira da mi
sria e a classe mdia se proletarizava velozmente. A
aparente falta de sada para a crise fazia com que os sindi
catos de trabalhadores, controlados na maioria por comu
nistas e sociais-democratas, perdessem fora junto  po
pulao operria. Olga acreditava que tinha a soluo,
pelo menos a sua soluo: dedicar-se mais e mais  causa
comunista. J na primeira tarefa que lhe deram, naquele
vero de 1923 ela mostrou aos garotos do Schwabing que
no estavam diante de uma burguesinha entediada. Desta
cada para uma colagem clandestina de cartazes, Olga, aos
quinze anos, revelou-se a mais eficiente da turma, a includos
os mais velhos e mais fortes. Eficiente e ousada: pela
primeira vez tambm o centro, e no s a periferia de
Munique, amanheceu pichado. Ela chegara a locais movi
mentados, onde a presena de policiais assustava af os
militantes mais experientes. "Medo e prudncia so pala
vras que ela no conhece", disseram os novos amigos no
dia seguinte.
A integrao deu-se em pouco tempo. Alm de deci
dida e corajosa, ela trazia do lar burgus algo que faltava
aos filhos de operrios - uma excelente formao escolar.
Muitos dos clssicos de que a maioria ali s tinha
ouvido falar em palestras, ela j os havia lido. E em pouco

18

tempo notaram outra forte caracterstica, que os mais
resistentes a sua presena no Schwabing atribuam ao
"radicalismo prprio dos filhos da burguesia": a intolerncia
contra qualquer pessoa que no fosse miltante
comunista. Inmeras vezes ela seria advertida pelos mais
velhos para evitar comportamentos que no passavam de
provocaes juvenis, como andar pelas ruas exibindo no
peito um broche vermelho com a foice e o martelo
dourados.
No final de 1923, quando trabalhava como vendedora
na livraria Georg Mller, ela ouviu falar pela primeira vez
no professor Otto Braun. A partir da descrio que faziam
dele - especialmente as mulheres -, Olga passou a fan
tasiar, criando um mito em torno do jovem, bonito e
inteligente Otto que, comentavam em voz baixa, traba
lhava secretamente como agente dos soviticos. Quando,
finalmente, uma amiga comum promove um encontro
entre os dois, Olga tem uma surpresa. Na verdade, o que
ela imagnava de Otto era a caricatura de um revoluconrio
de folhetim: barba crescida, roupa de campanha,
cabelos longos e desalinhados. No caf onde se conhecem
ela depara com um homem elegante, fumando cachimbo,
gravata meticulosamente amarrada, cabelos repartidos e
fixados com brilhantina, cala passada com capricho, bo
tinas de camura escovadas.
Embora tivesse apenas 22 anos - sete a mais do que
ela -, Otto era um militante experiente. Inclusive naquilo
que mais a encantava, a ao armada. Na frustrada revolu
o popular de 1919, uma tentativa de repetir o fen
meno russo de dois anos antes, ele fora enviado pelo Par
tido numa misso secreta, cujo objetivo era interceptar
um comboio de tropas que o governo central enviara para
tomar Munique, ento capital da "Repblica da Baviera".
No obstante o xito de sua tarefa, continuaram sendo
enviados reforos contra os insurgentes e Munique ainda
resistiria por mais um ms, com Otto  frente de um
grupo de combatentes. Perdera a guerra, mas gabava-se
de ter dado cabo de uns tantos "sociais-democratas direitistas".

19

 A batalha de Munique chegara ao final com Otto
 na priso - a sua primeira e mais curta priso.
Os encontros entre os dois tornaram-se freqentes e
o fascnio recproco cada vez maior. Ela imaginava estar
diante de um homem perfeito, que conseguia juntar uma
slida formao terica com a experincia militar. Sem
falar de que era um rapaz belssimo. Otto tambm estava
encantado com aquela figura, meio menina, meio mulher,
algum com uma sede de ao e de teoria como ele nunca
vira antes. O final da tarde passou a ser esperado com
ansiedade por ambos. quando faltava meia hora para
Olga deixar o balco da livraria, ele aparecia com seu
cachimbo e cachecis elegantes para conversas que se
estendiam at a madrugada.
Otto comeou a orientar as leituras da moa e a indi
car-lhe, alm dos tericos indispensveis a sua formao
comunista, alguns jornais e revistas de grupos marxistas
de Berlim. E se surpreendia com a insistncia com que
ela pedia manuais de estratgia militar, depoimentos de
grandes generais e relatos de batalhas famosas. A milita
rista que os suaves olhos azuis ocultavam j emergira nas
reunies do Grupo Schwabing, criticando freqentemente
o desinteresse dos outros pelas tcnicas militares e a
ausncia de treinamento regular de todos os militantes.
"Ns vamos sentir falta dessa experincia quando esti
vermos cara a cara com o inimigo", advertia. Suas desa
venas com os rapazes do grupo, entretanto, s se tornaram
speras quando percebia que estava recebendo
tarefas secundrias pelo fato de ser garota. Ao final da
discusso, Olga resmungava para quem quisesse ouvir:
"Quero que vocs saibam que nestes momentos ser
mulher  uma chateao!"
Quanto mais lia os clssicos marxistas e militava no
Schwabing, mais firme tornava-se sua deciso de trocar
Munique por Berlim. A clientela fina e perfumada da
livraria Georg Mller, as discusses com os pais e a pr
pria casa comeam a ficar insuportveis. As notcias da
agitao poltica na capital, que lia nos jornais de Berlim,
incendiavam sua imaginao. Uma fantasia que tinha

20

nome prprio: Neuklln, o bairro operrio de Berlim, a
"fortaleza vermelha" da esquerda alem. Depois de meses
de insistncia com Otto, ela recebeu dele, finalmente, um
aceno. Foi num fim de tarde em que os dois passeavam
de mos dadas por um parque nos arredores de Munique.
Ele prprio no parecia estar muito seguro do acerto do
convite:
- Consultei o partido e  possvel mudarmos para
Berlim. Mas, e sua famlia? Como voc vai resolver isso
com seu pai?
Ela enfureceu-se com a pergunta:
- Vajo na hora que o partido decidir!
Na verdade, no era apenas a poltica que a empurrava
para Berlim. Ela estava apaixonada por Otto. Os
fins de semana que passaram juntos em cabanas cobertas
de neve revelaram-lhe o homem doce, carinhoso e paciente
que se escondia por trs do grave professor de marxismo.
Passar os das ao lado dos jovens operros comunstas
de Neuklln e as noites nos braos de Otto era tudo o que
Olga Gutmann Benrio queria para sua vida naqueles
das. S depois de ter na mo o bilhete de trem de segunda
classe, e arrumado suas roupas na pequena mala de ma
deira,  que ela informou aos pais que viajaria na mesma
noite. Foi um jantar silencioso, do qual a me no quis
participar. Olga tentou, bravamente, partir sem brigar
com o velho Leo. Depois de quase trs horas de discusso,
ela finalmente levantou-se. O beijo de despedida que o
pai lhe deu  porta de casa dizia que no fundo ele, em seu
lugar, talvez fizesse o mesmo.
Vinte e quatro horas depois, da janela do quarto, no
slto do pequeno sobrado, Olga contemplava a rua Weser:
ento ela estava ali, no corao de Berlim. Para quem
passara a infncia e a adolescncia no confortvel ban
gal dos Gutmann Benario, na Karlplatz, em Munique,
aquele cmodo minsculo estava muito longe de merecer
o nome de apartamento. Trs passos dados com umas per
nas longas eram suficientes para trombar com as paredes.
Como moblia, duas camas, uma mesinha de canto, uma
cadeira e umacmoda com gavetas, que fazia as vezes de
guarda-roupa. Nos vos entre um e outro mvel, tbuas
apoiadas em blocos de concreto vergavam sob tantos li
vros, papis e documentos. Por algum tempo, esta seria
a casa de Olga e Otto. Percebendo a surpresa da namorada
diante da modstia das acomodaes, ele ironizou:
- Nesse quarto j comeamos economizando o di
nheiro do despertador.
 que o bonde comeava a circular s seis da manh
e passava debaixo da janela do apartamento, fazendo um
barulho capaz de acordar os defuntos. Em sua primeira
manh berlinense, Olga tomou conscincia de que a mu
dana no era apenas de endereo e de cidade. Durante o
caf da manh - algumas bolachas e uma garrafa de
leite - Otto revelou-lhe que seu trabalho clandestino
para o Partido implicava certos cuidados que envolveriam
a ambos. Abriu uma pasta de couro e tirou alguns do
cumentos de identidade, explicando pacientemente a uma
Olga maravilhada com o clima de mistrio:
- Como eu, a partir de agora voc ter duas identi
dades. Meus registros na polcia esto sob o nome de
Arthur Behrendt, caixeiro viajante nascido em Angsburg
em 28 de setembro de 1898. E desde ontem voc passou a
ser Frieda Wolf Behrendt, minha mulher, nascida em
27 de setembro de 1903, em Erfurt. Aqui esto os seus
documentos e um atestado de que residimos atualmente
no nmero 11 da Erhardstrasse, na cidade de Leipzig.
Muito cuidado e boa sorte, senhora Behrendt.
Otto disse mais: seu trabalho ilegal provavelmente os
manteria afastados por semanas, s vezes meses. Aproxi
mou-se dela, com um carinho:
- Isto significa que embora vivendo juntos, to cedo
no poderemos casar.
Ela reagiu agressiva:
- Ento  bom que voc saiba que eu no quero me
casar.
Foi preciso pouco tempo para que Olga deixasse de
ser a adolescente de Munique para se transformar numa
mulher. Em tudo - menos na aparncia de menina que

22

lhe davam as trancinhas. destacando ainda mais seus belos
olhos. No mais, uma mulher: na vida com Otto, na
militncia diria, no progresso fulminante que fazia den
tro dos quadros da Juventude Comunista de Neuklln.
Alguns meses aps chegar a Berlim, ela j era a
secretria de Agitao e Propaganda da mais importante
base operria do PC alemo, o bairro vermelho de Neu
klln. Durante o dia, reunies, passeatas e atividades de
rua. A noite, interminveis assemblias nos fundos do
velho prdio da rua Zeten, onde funcionava a cervejaria
da famlia Mller. O mesmo salo que durante o almoo
era tomado por trabalhadores das imediaes para a r
pida refeio de batata-salsicha-e-cerveja,  noitinha
virava sede da Juventude Comunista do bairro. Ningum
precisava de senha para entrar. Como a maioria daquela
gente ainda no tinha idade para beber, Mller reagia
maquinalmente quando aparecia alguma cara nova dian
te do gasto balco de mrmore. Apertando os olhos entre
o vasto bigodo e a ealva que lhe tomava a cabea, dizia
simplesmente:
- Juventude? D a volta pelo corredor,  l nos
tundos.
Olga j conhecia bem, de histrias que ouvira em
Munique, tanto a cervejaria como o seu dono. Mais do
que isso, sabia at o canto em que, durante muitos anos,
Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht - dois destacados
dirigentes do PC alemo, assassinados em 1919 - conspiraram
politicamente entre si. Quando piorava a situao
financeira dos Mller - Wilhelm; a mulher e uma fi
lha -, a notcia corria pelo meio operrio, at mesmo de
fora de Neuklln. Durante algumas semanas, as cervejarias
da regio se esvaziavam em benefcio de Mller; a
freguesia se multiplicava, at que suas finanas voltassem
ao normal. E o mesmo salo dos fundos onde se realiza
vam atos polticos, assemblias e reunies clandestinas,
duas vezes por semana era transformado, das oito e meia
s onze e meia da noite, em sala de aula. As teras-feiras,
semana sim, semana no, Olga ensinava rudimentos de
teora marxsta aos seus companheiros. Ali se conseguia

23

o prodgio de realizar quatro, cinco reunies simultneas,
tratando de temas diferentes. Muitas vezes ela tinha que
ser rspida e exigir que algum escolhesse outra hora para
rodar panfletos no mimegrafo que a organizao man
tinha num canto do salo.
Dia aps dia,trabalho doro: panfletagens na estao
ferroviria de Gllitzer, passeatas de apoio s greves nas
fbricas do bairro, ou de protesto contra a imposio de
horas extras de trabalho. Tudo isso no escasso tempo que
lhe sobrava do emprego de onde vinham os poucos mar
cos que a sustentavam em Berlim: das oito da manh s
seis da tarde, Olga era datilgrafa da Representao
comercial Sovitica, um emprego que lhe fora conseguido
pelo Partido. Embora o trabalho l fosse muito tedioso,
comparado com suas atividades na Juventude, ela se or
gulhava de poder trabalhar "ao lado dos revolucionrios".
Mesmo sabendo que isso provavelmente era mera fanta
sia, Olga via em cada um daqueles pacatos burocratas de
palet e gravata "um bolchevique de ao".
O tempo exigido por uma vida to febril tinha que
ser roubado de alguma coisa. E, s vezes, sua vida amorosa
com Otto parecia empobrecer. As poucas horas da
semana em que conseguiam ficar juntos - em geral j
pela madrugada - acabavam sendo gastas em. . . traba
lho. No s para ficar mais tempo com o companheiro,
mas tambm pelo aprendizado poltico, Olga conseguiu,
aps muita insistncia, ser sua secretria. Era ela, ento,
quem datilografava os extensos textos tericos que Otto
ditava ou deixava prontos, manuscritos. sobre a cama.
Nessa tarefa ela comeou a compreender melhor a luta
que se avizinhava em seu pas. o desenvolvimento da
revoluo em outros pases e,  claro, a estrutura interna
do Partido Comunista alemo.
O amor e a admirao que tinham um pelo outro no
diminura- ao contrrio, queriam-se cada vez mais. No
entanto, a atividade poltica, somada  paixo pela mi
litncia, reduzia a minutos o tempo que tinham para
namorar. E quando discutiam, nunca era por divergncias
polticas, mas por algo que chegava a irritar Olga: o cime.

24

que Otto sentia em relao aos rapazes da Juventude
comunista. Cime justificado, diria qualquer um de seus 60
companheiros do grupo de Agitao e Propaganda. A cada
dia Olga tornava-se mais atraente. At o jeito meio desen
gonado de andar dava-lhe um encanto especial. Alm
disso, uma caracterstica aguava ainda mais o desejo dos
rapazes: sua independncia. Olga era dona de seu nariz
e fazia apenas o que acreditava ser importante. Na pol
tica e na vida pessoal.
Essa ndependnca, porm, no a impeda de apren
der cada vez mais com Otto. Este no lhe ensinava apenas
as teorias de Marx, Lnin, Engels e Karl Liebknecht.
Conselhos que, dados por alguma amiga, teriam como resposta
um palavro, na boca de Otto vinham com outro
sentido. No era apenas um comunista experiente quem
falava. Em doses homeopticas, pacientemente, Otto
Braun convenceu Olga de que uma militante no preci
sava ser descuidada e mal vestida - no pequeno e impro
visado toucador do casal,junto  pia do quarto, os pou
cos vidros de colnia e perfume eram dele. Nas conversas
na cama, noite a dentro, crescia uma mulher mais tolerante
com os no-comunistas. E mais do que isso, Olga
aos poucos ia deixando de lado seus preconceitos mora
listas contra companheiros que fumassem, bebessem ou
gastassem o pouco tempo livre nos grandes sales de
baile, sbado  noite. Com o tempo ela prpria j comeava
a se sentir atrada pelas diverses do grupo.
De um sentimento, entretanto, nem mesmo os conselhos
de Otto conseguiram livr-la: o horror ao casamento
formal, sacramentado em cartrio. Ela associava a idia
do casamento ao que considerava a pior deformao bur
guesa: a dependncia econmica da mulher, o amor obri
gatrio, a convivncia forada. Quando algum indagava
por que no se casava com Otto - se aparentemente
viviam to bem -, ela tinha a resposta pronta:
- No nos casamos exatamente por isso: porque nos
amamos. Eu jamais serei propriedade de algum.
Mas que no se confundisse essa compreenso das
relaes homem-mulher com qualquer outra liberalidade.

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Quando ouvia alguma amiga contar como vantagem que
levara para a cama tantos rapazes, ela perdia a serenidade.
Nestes momentos emergia uma Olga intolerante, quase
puritana:
- Saiba que ceder aos instintos  multiplicar o
bordel burguss. E quem diz isso no sou eu;  Lnin.
Conversa encerrada. Como contestar Lnin? E se no
grupo algum tivesse comportamento que considerasse
"imoral", Olga no hesitava em levar o problema  dis
cusso na direo da Juventude Comunista - e isso na
avanada Berlim dos anos vinte.
Essa face rgida no impedia que eontinuasse desper
tando paixes entre os jovens de IQeuklln. Paixes e, claro,
cime. Como o de Ruth, que obrigou o namorado
Martin Weiser - um jovem aprendiz de ourives - a
abandonar o grupo de estudos marxistas dirigido por
Olga no subrbio de Falken.
 Neste grupo, Olga conheceu outro rapaz que tambm
se encantaria por ela, o tipgrafo Kurt Seibt. Kurt era
empregado de uma grfica e acabara de filiar-se ao sindi
cato da eategoria. Inspirado por Olga, entrou para a Ju
ventude Comunista e passou a ser uma espcie de assis
tente da professora. Como ela, Kurt acreditava que a mi
litarizao clandestina da organizao era o passo seguin
te aps os cursos tericos e a organizao dos jovens nos
bairros operrios. Por orientao dela, Kurt encarregouse da organizao 
das milcias jovens em cada um dos
quarteires do bairro de Kreuslberg, prximo a hIeuklln.
Apesar de importante, o novo posto trazia a desvantagem
de mant-lo afastado da atraente professora.
Quando se encontrou de novo com Olga, depois de
assumir a nova misso, Kurt pediu-lhe autorizao para
organizar uma brigada que reprimisse pela fora um gru
po de jovens nazistas que importunava o trabalho em
Kreuslberg. Os insultos, as interrupes das aulas, os
sacos de excrementos e urina que atiravam dentro das
salas de reunio, s seriam contidos a socos, argumentava
Kurt. Olga relutou bastante e tentou dissuadi-lo da idia,

insistindo em que deveria tentar atrair os jovens nazistas
26

para as suas idias, ao invs de espanc-los. Mas, ao per
ceber que a doutrinao pouco adiantava, ela prpria de
cidiu participar da interveno. Bastou uma nica sesso
de sopapos, ministrados por moas e rapazes, e os nazis
tas sumiram.

2.

Frieda Behrendt  presa

27

No incio de 1926, o Partido Comunista reconheceu
formalmente os resultados do trabalho de Olga
e  promoveu-a ao cargo de secretria de Agitao e
Propaganda no s do bairro - o "sul vermelho de Berlim " - mas da 
Juventude em toda a capital alem. Junta
mente com Gunter Erxleben, um garoto bem mais jovem
que ela, com a estudante Dora Mantay e outros lderes da
Juventude, Olga passava as noites organizando grupos de
pichao, panfletagem e piquetes de apoio a movimentos
de operrios em portas de fbrica.
Suas intervenes eram sempre marcadas por idias
engenhosas e imaginativas. Era preciso inventar meios de
burlar a polcia e evitar que a represso sobre os comu
nistas fosse muito dura. Quando estourou naquele ano
uma greve de motoristas de txi em Berlim, as manifesta
es de rua foram proibidas, mas assim mesmo a Ju
ventude decidiu organizar uma passeata de solidariedade
aos grevistas. Como no podiam sair em conjunto da cer
vejaria de Mller, pois seriam reprimidos antes que chegassem
ao centro da cidade, Olga preparou um plano para
enganar os policiais. As trs horas da tarde, quando o
movimento era mais intenso nas principais ruas, o centro
de Berlim foi sendo tomado, aos poucos, por dezenas de
casais de jovens namorados, espalhados pelas esquinas,

28

olhando vitrines, parados nas portas de bares e sorveterias.
Em um dado momento algum assoviou alto e os casais,
obedecendo  ordem, tomaram a rua. Estava montada a
passeata, que momentos depois seria dispersada a golpes
de cassetete da cavalaria e jatos d"gua das carroas-pipa
da polcia. Durante a represso, era comum que das janelas
das casas surgissem bandeiras vermelhas - tanto
comunstas, com a foice e o martelo no alto, saudando
os jovens, como nazistas, com a sustca negra no centro,
apoiando a ao policial.
Refregas como essa ocorriam s dezenas em Berlim.
A atividade poltica crescia na mesma proporo em que
a direita se organizava. O Narionatsozialisttsche Deutsche
Arbeiterpartei, o Partido Nacional Socialista Alemo dos
Trabalhadores - ou, simplesmente, Partido Nazista aumentava sua pregao 
junto  classe mdia e a setores
do operariado. Em contrapartida, os comunistas procura
vam multplicar suas clulas. A revoluo tnha triunfado
havia menos de dez anos na Rssia, mas o isolamento
poltico e a distncia geogrfica da capital da recm-nas
cida Unio das Repblicas Socialistas Soviticas, somados
ao crescimento do Kommunistische Partei Deutschland,
o Partido Comunista alemo, faziam com que Berlim deixasse de ser apanas 
a capital do comunismoalemo, ou
europeu, para tornar-se a meca da insurreio social.
O grau de estruturao do Partido Comunsta na so
ciedade era comparvel ao de um Estado. Com centenas
de milhares de militantes espalhados por todo o pas, o
Partido mantinha editoras de livros em todas as grandes
cidades (nem sempre ligadas oficialmente aos comunistas)
e publicava vrias revistas semanais e dezenas de jornais
dirios (regionais e nacionais), impressos em papel pra
duzido por indstrias do prprio PC alemo. A tiragem
das publicaes comunistas, oficiais ou no, superava de
longe a circulao total da mprensa ndependente e dos
outros partidos polticos. Incontveis clubes e associaes
de mulheres, jovens e intelectuais - quase todos de "fa
chada", sem qualquer ligao oficial com a organizao
- funcionavam sob orientao tanto do Partido como

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diretamente da cpula da III Internacional - o Comin
tern - em Moscou.
Internamente, a estrutura do PC alemo assemelhava-se  de um governo. 
Dispunha de correio prprio, divi
ses de espionagem poltica e industrial e parques grfi
cos destinados exclusivamente  produo de documentos
falsos. A segurana das sedes do Partido, dos documentos
e dos dirigentes era garantida por uma espcie de Minis
trio da Defesa em miniatura. Para cada rea de produo
da sociedade - indstrias, agricultura, transportes, ener
gia - existia um departamento correspondente na estru
tura partidria, com especialistas de todos os tipos. Duas
divises, entretanto mereciam especial ateno por parte
da direo do Partido e do Corointern: a responsvel pelo
enfrentamento com o Partido Social-Democrata, e aquela
que supervisionava a atuao da Juventude Comunista.
Dentro da JC, o trabalho realizado pelo ncleo de
Neuklln era seropre apresentado como um exemplo de
dedicao e eficincia  causa comunista. E a estrela mais
fulgurante de Neuklln a jovem Olga Benario, era quem
mais preocupava a direo naquele momento. Temendo
que a polcia desconfiasse da dopla identidade de Otto,
e que tentasse chegar a ele por intermdio da namorada,
o Partido aumentou a segurana em torno dela. O ritmo
de suas atividades foi reduzido e ela foi proibida de par
ticipar de qualquer ao arriscada. "Se pem a mo em
voc", advertiam-na, "Otto cair em seguida". Alm disso,
ela prpria tornara-se um alvo importante para a polcia:
semanas antes fora escolhida para ser a secretria poltica
da direo da Juventude Comunista em Neuklln, o cargo
mais importante depois do de secretrio-geral.
Os receios de que Olga fosse usada como isca no se
concretizaram, Pior: tudo aconteceu exatamente ao con
trrio do previsto. Certo dia, no comeo de outubro de
1926, Olga saiu mais tarde de uma reunio na cervejaria.
J passava da meia-noite, mas ela decidiu voltar a p para
sua nova casa, um pequeno apartamento no nmero 25
da rua Jung. Entrou e permaneceu encapotada at o aquece
dor esquentar um pouco o quarto. Por volta de duas

30

horas da madrugada, ouviu baterem  porta e imagnou
que Otto tivesse esquecido a chave. Abriu e deparou-se
com dois policiais. O mais velho exibiu-lhe um documento
timbrado e perguntou:
- A senhorita  Olga Gutmann Benario?
- Sim, sou - respondeu atnita.
- Por ordem do Dr. Vogt, Juiz do Supremo Tribu
nal, a senhorita est presa. Queira acompanhar-nos.
No carro da polcia, a caminho do Departamento de
Investigaes, ela pde ler o mandado de priso preven
tiva. Com base na "Lei de Proteo da Repblica", pren
diam-na sob suspeita de ter cometido vrios crimes: "pre
parao de empreendimento altamente traioeiro", "ten
tativa de alterao pela violncia da Constituio vigen
te", e "particpao em assocao clandestina e hostil ao
Estado, para tentar minar a forma republicana de gover
no". Apesar do tom ameaador das acusaes - que pela
lei poderiam deix-la mofando no xadrez por uns bons
anos -, Olga percebeu, pela conversa dos dois guardas,
que no era ela o alvo. Na verdade, quem eles de fato pro
curavam j havia sido preso naquela manh: Otto Braun.
Logo nos primeiros nterrogatros ela notou que o
interesse da polcia pelas atividades de Braun era muito
grande e que a acusao que pesava sobre ele era mais
grave do que supunha: "suspeita de alta traio  ptri".
Olga sabia que esse era o termo jurdico que os promotores
da polcia poltica utilizavam para enquadrar os acusa
dos de passar documentos secretos a pases estrangeiros,
ou fazer esponagem em favor de outro governo.
Durante duas semanas, a prisioneira foi mantida in
comunicvel e submetida a interrogatrios desde o ama
nhecer at a madrugada, com rpidas interrupes para
o que chamavam de refeies. A calma e a frieza com que
negava todas as acusaes - as falsas e as verdadeiras impacientavam e 
irritavam os policiais que operavam em
rodzio. A primeira notcia do mundo exterior veio de
Munique: atravs de advogados que trabalhavam no De
partamento de Investigaes, o pai mandou-lhe um reca
do. Se ela concordasse, ele podera deslocar-se at a captal

31

para defend-la na Justia. E se o envolvimento da
filha no fosse grave, ele poderia conseguir sua libertao
graas a amigos influentes do Partido Social-Democrata.
Olga percebeu que no havia maldade na oferta do pai.
mas apenas preocupao com seu destino. Ainda assim,
recusou polidamente a ajuda oferecida.
Loogo que a incomunicabilidade foi suspensa, recebeu
a primeira visita. A Juventude Comunista de Neuktilln fez
uma coleta entre os militantes, simpatizantes e amigos de
Olga e elegeu Gabor Lewin, um dos membros da direo,
para visit-la e levar-lhe um riqussimo farnel. O pacote,
minuciosamente vistoriado na entrada da priso de Moa
bit, continha doces, biscoitos, panquecas, frutas e conser
vas compradas na confeitaria mais refinada da cidade.
Nos poucos minutos da visita, ouviu um atarantado rela
trio sobre as atividades da Juventude e as providn
cias que tomavam para protestar contra as duas prises.
Sempre aos sussurros, Olga respondeu com um resumo
da acusao e dos riscos que envolviam nem tanto ela,
mas principalmente Otto, suspeito de espionagem e trai
o. Burlando o carcereiro que a cada momento enfiava
a cabea na sala, Olga rabiscou uma mensagem dirigida
aos jovens do Partido e que seria lida em assemblia
naquela mesma noite, na "Casa Karl Liebknecht" , a sede
oficial de atos pblicos do PC alemo.
No comeo de dezembro, Olga comeou a temer que
sua priso pudesse envolver algo de mais srio. A total
ausncia de informaes sobre o andamento de seu pro
cesso - e principalmente sobre o de Otto - deixava-a
apreensiva. Na manh de 2 de dezembro - exatamente
dois meses aps sua priso, o carcereiro abriu a porta da
cela e ordenou:
- Pode arrumar suas coisas. A senhorita est em li
berdade, por ordem do promotor do Supremo Tribunal.
Olga juntou as duas mudas de roupa que deixara
dobradas num canto da cela, rabiscou um "de acordti "
ao p da ordem de soltura e em menos de cinco minutos
estava na rua. Correu para casa e logo ao entrar percebeu
que naqueles dois meses a polcia tivera tempo suficiente

32

para revistar cada cantinho das estantes, da velha cmo
da, de tudo. Manuscritos de Otto, livros, algumas de suas
prprias anotaes, tudo havia sido confiscado pela pol
cia poltica. Deitou-se e dormiu por quase vinte e quatro
horas. Acordou sobressaltada na manh seguinte com
pancadas na porta. "So eles de novo", imaginou. Quando
soltou a tranca, o quarto foi invadido por mais de vinte
garotas e rapazes da Juventude. Olga passou uma gua
no rosto e ficou as horas seguntes contando, repetdas
vezes, como tinham sido os dois meses em Moabit.
Os dias passavam sem notcias de Otto Braun. Todas
as noites, ao dormir, Olga sentia um aperto no peito vendo
os objetos do namorado sobre a estante: os cachimbos,
a boisa de fumo, dois pares de botas, uma echarpe de
seda pendurada no trinco do banheiro. Aquela ausncia
era diferente das anterores, quando saba que ele poda
surgir a qualquer momento, abra-la em silncio, pux-la
para a cama - e s muito tempo depois  que comeariam
a contar as novidades. Agora ela sentia um forte
pressentimento de que ficaria sem Otto por muito tempo.
Entretanto, a atividade poltica era o melhor remdio
contra a angstia e a ansiedade. Atirou-se na agitao,
dedicando-se a um trabalho que no mplcava em rscos
de nova priso: a preparao de encontros da Juventude
fora de Berlim. A saudade e a preocupao eram, contu
do, muito fortes e duas semanas depois de libertada ela
decidiu ousar. Pegou o telefone e discou para o gabinete
do juiz Vogt, diretor da priso de Moabit. Quando a
secretria pediu-lhe que esperasse um instante at o juiz
atender, Olgatapou o fone com a mo e comentou com sua
amiga Frieda:
- Acho que estou virando uma pessoa importante.
O fascista do Vogt vai me atender!
Se Vogt, ao dgnar-se a atender o telefonema de uma
subversiva, esperava por alguma informao importante
sobre o processo de Otto, enganou-se. Olga queria autori
zao para visitar o namorado pelo menos uma vez por
ms, reivindicava o direito de levar-lhe alimentao especial
regularmente e, por fim, requeria licena para uma

33

visita extra no Natal que se aproximava. Irritado com o
atrevimento da ex-presa, Vogt respondeu-lhe apenas que
fizesse um requerimento por escrito e o entregasse na
portaria da priso. E desligou o telefone. O pedido dati
lografado foi entregue na mesma tarde e para surpresa
dos funcionrios da priso, pela prpria Olga. Na manh
seguinte ela receberia pelo correio, frustrada, o taxativo
despacho assinado no por Vogt, mas pelo comissrio
Kling, um funcionrio subalterno da priso: Otto Braun
no era um preso poltico, mas um acusado de alta trai
o e, portanto, no tinha direito a alimentao especial;
no Natal, segundo a lei, ele poderia, como qualquer preso
comum, receber visitas e alimentos num pacote de cinco
quilos no mximo; quanto ao pedido de visita regular,
estava recusado. Olga leu o ofcio furiosa. Amassou o
pedao de papel, jogou-o no lixo e disse em voz alta, para si
mesma:
- , parece que Otto s sai de Moabit se o arrancarmos de l.
Olga sabia que o ano de 1927 prometia ser tumultua
do.O cerco do governo ao Partido Comunista alemo
apertava, embora a organizao estivesse na legalidade.
Vrias centenas de presos polticos abarrotavam os pres
dios e, no obstante o crescimento econmico do pas em
relao  crise de quatro anos antes, multiplicavam-se os
focos de misria nos bairros operrios. A solidariedade
nacional e internacional aos presos era grande, mas, do
ponto de vista material, sustentar tantas famlias era algo
impensvel.
E, o que era pior para Olga, Otto no podia ajud-la
a pensar nas sadas polticas para a crise que ameaava
o pas. Nas duas nicas oportunidades em que o "fascista
Vogt" autorizara visitas, eles mal puderam conversar no
salo de audincias de Moabit. Supondo que do encontro
pudesse vazar alguma informao importante, o juiz co
locou dois guardas de planto a centmetros do casal,
ouvindo ostensivamente o que sussurravam.
O ano comeara mal para ambos. Por meio de ofco
carimbado com um "ultra-secreto" no meio da folha, o

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Departamento  do Ministrio do Interior - responsvel
pela rea de inteligncia e informao - transmitira 
direo da polcia nacional sediada na cidade de Leipzig,
a suspeita de que Frieda Wolf Behrendt e Arthur
Behrendt fossem, na verdade, Olga Gutmann Benario e
Otto Braun, "amantes e cunplices em um processo de
alta traio" que tramitava nos tribunais alemes. Os
servios de informao solicitavam dados mais precisos
sobre "os dois casais", tais como fotografias, cpias de
todos os documentos e verificao dos endereos dados
por eles. Como recomendao final, determinavam que as
investigaes fossem conduzidas "em carter absoluta
mente secreto".
Em resposta, o relatrio sumrio de Heinz Junghans,
comissrio superior de polcia, no deixou qualquer d
vida quanto  veracidade das suspeitas. Otto Braun e
Arthur Behrendt eram a mesma pessoa, assim como Olga
Benario e Frieda Wolf Behrendt. Alm disso, o informe
policial declarava que o endereo dado pelo casal ao
registrar os documentos  falso - a tal casa nmero 11 da
Erhardtstrasse, em Leipzig -, simplesmente no existia.
Junghans advertia, finalmente que a perfeio dos do
cumentos "frios" de Braun e Olga levava  suspeita de
que ambos tiveram acesso a uma grfica sofisticada capaz
at mesmo de imprimir passaportes e dinheiro. Se at
ento apenas Otto estava envolvido at a raiz dos cabelos,
a partir daquele momento Olga deixava de constar nos
autos apenas como sua "secretri" ou "namorada".
O agravamento da situao judicial da filha logo
chegou aos ouvidos do advogado Leo Benario em Munique,
que decidiu agir desta vez sem consult-la. Atravs de
requerimento dirigido ao procurador PIeumann, chefe dos
promotores pblicos do Supremo Tribunal de Justia, o
pai formulou um comovente apelo solicitando a excluso
da filha do processo movido contra Otto Braun.
Subscrevendo-se como "responsvel perante a Lei e
advogado de minha filha menor", o jurista insistia em
que,se de fato houvera participao da garota no supos
to crime, ela certamente no podia ter conscincia do que

35

fazia, por no ter sequer completado 18 anos  poca do
delito. "Numa espcie de solicitude romntica para com
os trabalhadores, esta jovem, completamente inexperien
te na vida poltica e econmica", escreveu o pai, "preten
dia ajudar, por conta prpria, a esta classe do povo, e
especialmente  juventude da mesma." Leo Henrio esdareceu que Olga no 
havia deixado a casa da famlia em
Munique para militar no Partido Comunista em Berlim,
mas porque haviam prometido a ela um emprego na ca
pital. Disse que no tentara ret-la em casa pela fora,
pois "tais medidas, hoje em dia, so inteis com os jovens,
e a aplicao da fora provavelmente teria levado a resul
tado oposto". Terminava o ofcio reiterando o pedido de
excluso da filha, e encerrava a petio com uma sutil
ironia: "Se  que Olga teve alguma eumplicidade com
Otto, foi apenas na mquina de escrever - e ainda assim
faltava-lhe conscincia do que fazia".
A resposta seca do promotorchefe dava mostras de
que o Judicirio alemo no se sensibilizara com os argu
mentos paternos do dr. Benario. Um despacho de poucas
linhas tirou do advogado as ltimas esperanas de livrar
a filha da enrascada: "Uma vez aberto o inqurito contra
sua filha Olga Benario, no h como suspender o processo",
determinou o procurador Neumann.
Os meses seguintes transcorreram sem que a Justia
desse a pblico qualquer notcia sobre o processo. No fi
nal do ano, Olga leu nos jornais que o Supremo Tribunal
tinha finalmente marcado para maio o julgamento de
Braun como "cabea do processo de alta traio  ptria".
Agora sem meias palavras, ele era tratado explicitamente
como "espio a servio da Unio Sovitica". Olga apavorou
-se, pois sabia que aquele no seria, jamais, um pro
cesso regular. A nomeao de um homem de extrema di
reita, como o juiz Vogt, para a chefia da corte que julgaria
 Otto, era parte de uma articulao governamental para
"passar o arado" nos comunistas, como ela costumava
dizer nos atos pblicos. Atravs do julgamento, o que se
pretendia era comprometer o Partido Comunista aos
olhos da opinio pblica, imputando-lhe atos de traio

36

 Alemanha e de espionagem em favor da Unio Sovitica.
"Nem todos os advogados do mundo, juntos, conseguiro
impedir que Otto seja condenado a vinte anos de priso"
- ela falava para si mesma pelas ruas da cidade, as mos
enfiadas nos bolsos do casaco de l, o jornal com as no
tcias do tribunal sob o brao. "E, se ningum pode evitar
sua condenao, s h uma sada: Otto no pode ser jul
gado", conclua Olga. A idia reanimou-a. Ela sorriu e
apressou o passo em direo  cervejaria dos Mller: "por
isso, Otto Braun no ser julgado por um tribunal fas
cst "Olga no ignorava o quanto de fantasa sustentava
esse raciocnio, que aquilo era um mecansmo interor
para aplacar o pnico dante da minente condenao do
namorado- Afnal, Moabit no era uma prso qualquer,
mas uma fortaleza que ocupava toda uma quadra na
regio central de Berlim. Dificilmente um visitante de fora
poderia imaginar, vendo o prdio da rua, que a elegante
e slida construo de janelas gticas fosse uma priso
de alta segurana. Alm de uma dezena de celas, no sub
solo ou protegidas por muralhas de tijolos no lado oeste
do edifcio, Moabit abrigava meia dzia de sales de au
dincia e instruo judicial no trreo, todos de frente para
a Turmstrasse, onde ficava a entrada principal do com
plexo carcerrio. Para evitar que os presos, em dias de
audincias ou interrogatrios, circulassem na rea aberta
ao pblico e aos advogados, construram-se pequenas sa
letas contguas aos sales, ligadas s celas por corredores
subterrneos. Embora o sistema de segurana fosse rigoroso,
 Olga sabia que, caso existisse uma nica chance de
arrancar Otto de Moabit, esta chance estaria ali, no breve
instante em que fosse transferido da sala de espera para
o salo de audincias. E isto aconteceria dali a poucas
semanas, na ltima audincia de Otto antes do julga
mento.
Olga cominhava pelas ruas imaginando planos, assal
tos, sequestros, e se espantava com a indiferena dos
outros frente  sua angstia. "Isto no  possvel, Dora,"
resmungava com a colega de trabalho, "nossa gente deve estar

37

anestesiada. H um revolucionrio sob o risco de
passar dcadas num xadrez gelado pelo crime de querer
libertar o seu povo - e essa gente que passa a nossa volta
talvez nem saiba quem  o escritor Otto Braun." Desde o
momento em que despertava at voltar para casa, tarde
da noite, ela no conseguia pensar noutra coisa: Otto no
podia ficar em Moabt at o julgamento,
Olga ainda no sabia, ento, que esse desejo no era
apenas seu. Fantasia ou no, outros companheiros
planejavam a mesma coisa. Mais de uma vez disseram que
"Olga e o Partido parecem pensar com uma s cabe "
- e agora a frase seria de novo confirmada, na ltima
semana de maro ela foi chamada reservadamente  sede
do Partido por um funcionrio da seo de contraespio
nagem do PC. Depois de esperar alguns minutos comi
nhando pelos corredores, foi introduzida na sala do
comando da Parteischutzgruppen, o corpo de segurana dos
dirigentes do Partido. Ali recebeu instrues no sentido
de selecionar meia dzia de mlitantes do Departamento
de Ordem da Juventude Comunista e orient-los para uma
delicada e perigosa misso, que chefiaria pessoalmente
no dia 11 de abril, da a quinze dias: um assalto armado
para tirar Otto Braun da priso de Moabit.

3.

A sua frente, o "Cavaleiro
da Esperana"

Poucos dias depois de se instalarem no hotel Desna,
Olga e Otto foram transferidos para o edifcio de aparta
mentos reservado aos jovens estrangeiros que se encon
trassem em Moscou a servio do KIM - o Kommunisti
Internationati Molodoi - uma verso do Comintern para
a Juventude Comunista Internacional. Embora as insta
laes tossem mais modestas do que as do htel, esses
alojamentos tinham a vantagem de coloc-los em contato
com jovens de vrios pases - propiciando-lhes, concretamente,
uma viso do carter nternaconalista da" revo
luo tussa. Dezenas de idiomas e dialetos se confundiam
num burburinho de eslavos, latinos, negros e orientais
oriundos das vrias repblicas soviticas e de todos os
cantos do planeta.
Os dois receberam um pequeno quarto com banheiro,
guarda-roupa e cmoda e, mal acabaram de se instalar,
foram informados de que, devido  forte tenso que passaram,
na clandestinidade de Berlim e na viagem at
Moscou, teriam direito a trs semanas de frias no mar
Negro, aproveitando o vero. Eles prprios deterrninariam
a data,da partida, mas antes da viagem seriam sub
metidos a exames mdicos - recomendao especialmen
te feita.a Otto, suspeito de estar anmico.

40

Os primeiros dias no alojamento do KIM foram suf
cientes para perceber que eram conhecidos da maioria
dos estudantes que ali viviam. Ou melhor: no que fossem
conhecidos, mas ali se sabia com detalhes a histria da
linda alem que invadira Moabit para arrancar das mos
do juiz o seu namorado, um jovem dirigente comunista.
Olga e Otto se divertiam, no refeitrio, quando ouviam
algum recontando a ao, a cada verso acrescida
de lances mais fantasiosos.
Duas semanas aps desembarcarem em Moscou, o
guia que os acompanhava levouvs para assistir, depois
do jantar, ao encerramento de um dos cursos politicos
dados pelo KIM. Quando os trs entraram no auditrio
superlotado da Juventude Comunista Internaconal, Olga
imaginou que aquele deveria ter sido um luxuoso teatro
da poca czarista, tal a suntuosidade do lugar e a abun
dncia de mrmores, tapetes e cortinas de veludo azul
caindo de um teto altssimo. no se encontravam mais
poltnonas-vazias, e os trs tiveram que se juntar aos gru
pos espremidos nos corredores laterais. Quando a cerim
nia aproximava-se do final, a moa que presidia os traba
lhos pediu silncio para fazer uma comunicao impor
tante. A seguir, chamou ao palco "a camarada Olga Sinek"
- codinome que usaria durante toda sua estada na URSS
- "recm-chegada de Berlim, onde camandara a liberta
o do professor Otto Braun". O salo veio abaixo. Sob
palmas de centenas de moas e rapazes ela caminhou at
o palco e, a princpio meio nervosa, relatou brevemente
os acontecimentos de 11 de abril. Desinibida pelos aplau
sos que recebia enquanto falava, terminou com uma con
fisso:
- Eu gostaria que soubessem que ali eu cumpri duas
tarefas: uma do Partido e outra do meu corao.
Foi a consagrao. A partir daquele dia, o tempo
passou a ser escasso para atender a todos que lhe pediam
para contar a ao de Moabit. Transformada pelos diri
gentes do KIM numa espcie de exemplo do jovem
comunista ideal, Olga se desdobrava para atender aos com
promissos que a direo assumia por ela: falar em fbricas,

41

fazendas estatais, escolas e programas de rdio. A
viagem de descanso foi sendo adiada, e dois meses aps
sua chegada  Unio Sovitica ela soube que tinha sido
eleita para o Comit Central da Juventude Comunista
Internacional. O novo cargo significava tambm novas
obrigaes, e a primeira delas era freqentar um curso
intensivo de ingls e francs e, nas horas livres, melhorar
seus conhecimentos de russo.
Ela no tinha um minuto para Otto. Quando, certa
noite, este contou-lhe que terminara todos os exames m
dicos e sugeriu que partissem imediatamente para as frias,
 ela o surpreendeu com uma recusa:
- Acho que voc ter que ir sozinho. O trabalho de
KIM est absorvendo todo o meu tempo e nesse momento
no posso nem quero sair de Moscou.
Para espanto de Olga, Otto reagiu com uma explosiva
crise de cimes. Revoltada, ela repetiu, uma vez mais, que
no seria jamais propriedade de quem quer que fosse.
Ele esbravejava, querendo saber de que pas era o jovem
que certamente estava virando a cabea dela. Enfurecida,
antes de sair e bater a porta com violncia, ela apontou
debochadamente para o pequeno busto de Lnin sobre
uma mesinha, e disse apenas:
- Seu tolo! O jovem que te provoca essa ciumeira 
russo mesmo, e j est morto.  esse a.. .
Sempre que reapareciam os acessos de cime de Otto,
Olga saa para caminhar sozinha pelas ruas de Moscou,
com saudades do comeo do namoro, em Munique e
Berlim. E comeava a rodar pelos quiosques de jornais
e revistas da rua Gorki, procurando algum exemplar atra
sado do Bandeira Vermelha, rgo oficial do PC alemo,
para esquecer as birras do namorado. O jornal, que
aparecia irregularmente nas bancas ou nos organismos pol
ticos de Moscou, era o nico meio de obter informaes
sobre a Alemanha e, muito especialmente, AIeuktilln. De
sua antiga "fortaleza vermelha", as notcias esparsas da
vam conta de lutas cada vez mais difceis entre os jovens
da JC e os "fascistas da polcia", em que seus amigos
quase sempre saam feridos ou presos. Toda vez que lia

42

coisas assim, Olga ficava ainda mais convencida de que
tivera razo ao insistir para que a JC militarizasse parte
de seus militantes. Sua certeza de que a luta no seria
apenas poltica era to forte que passou a requerer auto
rizao, junto ao Bir Poltico do KIM, para ingressar em
cursos paramilitares na URSS, ao invs de freqentar
apenas as classes tericas.
Tanto pediu e tanto insistiu com seus superiores que,
meses depois, foi convocada para uma temporada fora
da capital. Durante o perodo que passou em Borisoglebsk
- localidade a 500 quilmetros ao sul de Moscou, em
direo ao mar Cspio -, ela aprendeu a atirar com
armas pesadas e leves e a cavalgar incorporada a uma
unidade regular do Exrcito Vermelho. Dez semanas
depois, de volta a Moscou, Olga encontraria em seu quarto
uma carta ressentida de Otto, queixando-se mais uma vez
do pouco tempo que dispunham para ficar juntos. Ela
sentia que continuava amando-o, mas a convivncia tor
nava-se cada dia mais difcil. Otto era um homem ador
vel, sem dvida um verdadeiro comunista, mas nas rela
es afetivas "comportava-se como um legtimo pequeno
-burgus".
Foi durante uma dessas crises, no comeo de 1931,
que Olga teve uma agradvel surpresa. Seu velho e
querido amigo da JC de hIeuklln, o pequenino Gabor Lewin,
que chefiara as patrulhas que arrancaram dos postes os
cartazes de "procurados" depois da ao de Moabit no
resistiu  saudade e decidiu visitar sua antiga companheira
em Moscou. Na verdade, a chance de encontr-la era
nfima: no falava uma slaba de russo e como endereo
dela tinha uma vaga indicao de que vivia "num prdio
perto do rio Moscow". Apesar disso, Gabor chegou con
fiante  capital sovitica, determinado a encontrar-se com
sua grande paixo platnica de anos antes. Ele perambu
lou pelas ruas de Moscou como um louco, procurando
transeuntes com feies judaicas. "Afinal, o diche  pare
cido com o alemo e se encontrar algum patrcio aqui",
imaginou, "conseguirei trocar com ele algumas palavras."
No conseguiu. No quarto dia de peregrinao, viu um

43

chofer de txi que parecia ter "um certo ar de judeu, com
um nariz to grande quanto o meu". Atravs de mmica
e misturando alemo e diche, tentou sem sucesso con
versar com ele. O passageiro que acabava de entrar no
txi, entretanto. era um oficial do Exrcito Vermelho.,
que falava alemo. Minuios depois, Gabor Lewin estava
na porta do alojamento do KIM. Olga reconheceu a per
severana do amigo e conseguiu-lhe hospedagem e comida pur dez dias - dez 
dias que gastaram conversando,
ele atualizando-a sobre as atividades da Juventude em
Neuklln e ela contando o turbilho em que sua vida se
transtormara na capital sovitica.
A visita de Gabor e suas notcias de Berlim aumen
taram a curiosidade de Olga a respeito de sua prpria
situao judicial na Alemanha. Meses depois da partida
do amigo, ela montou um estratagema para saber como
andava sua ficha na polcia berlinense. Como seu passa
porte vencera poucas semanas antes, dirigiu-se  embai
xada alem em Moscou para solicitar a revalidao do
documento. O cnsul alemo, Von Twardowski, comuni
cou-se com a Chancelaria em Berlim pedindo instrues
e aproveitou para transmitir algumas informaes  pol
cia poltica: pelo passaporte vencido no era possvel sa
ber como Olga entrara na URSS (ela dissera no consulado
que o visto de entrada na Unio Sovitica havia sido con
cedido numa folha solta e entregue  polcia aduaneira
ao entrar no pas): ela era portadora de uma "autorizao
de residncia para estrangeiros", ou seja, no se naturali
zara sovitica; Olga devia ter bons advogados em Moscou,
pois chegou  embaixada munida de uma cpia de certi
do da anistia de agosto de 1928, da qual pretendia se
beneficiar; e, finalmente, alegava trabalhar como secre
tria do Instituto Marx-Engels, na capital sovitica.
A resposta de Berlim informava que sua ficha poli
cial engordara muito desde 1928. A Justia alem havia
transferido para ela, de modo arbitrrio todas as acusa
es que levaram Braun  priso - inclusive a de "alta
traio  ptria". Olga ficou sabendo tambm que a anis
tia de 1928 no beneficiava nem a ela nem a Otto Hraun.
44
Contudo, dizia a papelada enviada ao consulado, mesmo
se tratando de "comunista procurada" e de pessoa de
"alta periculosidade", ela no havia renunciado ou sido
despojada da cidadania alem. Assim, um ms aps en
trar com o pedido, Olga recebeu em Moscou um passa
porte alemo novinho em folha.
No final de 1931, Olga seria escalada para sua pri
meira misso internacional: intervir, em nome do KIM,
na JC francesa, e ajudar a escolher novos drigentes para
a Comisso Executiva da Juventude, em Paris, de modo
que a organizao tivesse orientao menos sectria que
a de ento. A notcia de que ela ficaria fora da URSS por
tempo indeterminado foi a gota d"gua para Otto. Os dois
vinham se encontrando cada vez menos e, embora vivesssemjuntos e 
compartilhassem o quarto, no era incomum
passarem dois meses sem se ver. Ela props ento que se
separassem e, ao concordar, Otto contou-lhe que vinha
se envolvendo com outra mulher em Moscou. Os dois
acertaram ento que, quando ela retornasse da viagem 
Frana, Otto j teria desocupado o quarto. Ao se despedirem,
Olga percebeu em si, pela primeira vez, o sentimen
to que tanto condenava no companheiro: cime.
E  remoendo-se de cime que ela, com o nome falso
de Eva Kruger, tomou o trem em Moscou que, depois de
uma srie de baldeaes, haveria de deix-la em Paris.
Na estao ferroviria da capital sovitica, Olga encon
trou-se com Ilze Unger, garota de sua idade e antiga
companheira da Juventude Comunista de NeukSlln. As
duas tomariam o mesmo trem, mas tinham destinos e
misses diferentes: Ilze havia sido encarregada por Wal
ter Ulbricht, dirigente do PC alemo exilado em Moscou,
de levar para Berlim documentos secretos com orienta
o do Comintern para a direo do Partido, que ela
transportava dentro do suti. Como medida de segurana,
decidiram viajar separadas. Na fronteira da URSS com
a Polnia, Ilze, para despistar, flertou com os guardas da
alfndega polonesa. Um deles, desconfiado, interpelou-a:
- Voc no  Olga Benario? Quero ver seus docu
mentos.

45

As duas eram de fato muito parecidas: ambas eram
altas, tinham olhos azuis, cabelos escuros e a mesma ida
de. Ilze identificou-se e disse ao soldado que no, que no
era a comunista procurada pela polcia:
- Ao contrrio: nem eu nem meu noivo, que mora
em Moscou, gostamos dos comunistas.
Cinco bancos atrs, Olga ouvia tudo e levantava um
pouco mais sobre o rosto o livro que fingia ler.
Na Frana ela no se limita a transmitir a orientao
do KIM aos jovens comunistas, mas participa de mani
festaes de rua at ser detida. Colocada em liberdade,
semanas depois  presa novamente e deixada pela polcia
na fronteira com a Blgica. Ajudada por comunistas bel
gas, ela chega a Londres - e acaba sendo presa outra
vez durante uma manifestao no centro da capital rit
nica. Uma ficha policial  aberta nos arquivos do Intel
ligence Service - o servio secreto ingls. As impresses
digitais deixadas pela jovem Eva Kruger em Londres fariam,
anos depois, com que sua pasta fosse substancial
mente recheada com acusaes mais graves do que a de
protestar em praa pblica.
De volta a Moscou  recebda com a notcia de que o
V Congresso da Juventude Comunista Internacional aca
bara de aclam-la como membro do seu Presidium, o mais
alto degrau da hierarquia de uma organizao comunista.
A escolha unnime de seu nome se dera na assemblia
final do congresso. composta por jovens comunistas de
mais de cinqenta pases. O prmio pela promoo viria
logo em seguida: Olga fora escolhida pelo Comintern, en
tre centenas de candidatas, para fazer o curso de praque
dismo e pilotagem de avies na Academia Zhukovski da
Fora Area, sediada em Moscou. Sempre registrada com
o nome de Olga Sinek, ela foi includa numa turma mista
de alunos do 1. ano. Discreta, nada revelou de si ou do
seu passado. Nem mesmo para sua melhor amiga no cur
so, Tamara Kojevnikova, uma georgiana quatro anos mais
moa que ela e que a tratava pelo carinhoso apelido de
Olya - Olguinha, em russo. Apenas o sotaque denunciava

46

sua origem alem. Tambm ali, Olga encontraria jovens
de vrios pases do mundo, desta vez dedicando-se exclusi
vamente ao treinamento militar.
Ao tomar ch com um grupo deles, na cantina dos
oficiais, ao final de um treinamento simulado de voo, Olga
ouviu um jovem latino-americano - argentino ou boli
viano - contar para os colegas, em um russo hesitante, a
histria que lera no seu pas sobre uma aventura revolu
cionria na Amrica do Sul. Era a histria de um batalho
de mil e poucos homens que percorrera a p mais de 25
mil quilmetros, enfrentando as tropas regulares de um
governo "ditatorial". O relato, contado em detalhes pelo
oficial estrangeiro, mesclado de lances hercos e batalhas
sangrentas, terminava com os guerrilheiros chegando ao
fim sem derrubar o governo, mas tambm sem sofrer uma
nica derrota. O grupo, chamado de "Coluna Prestes",
levava este nome em homenagem ao seu lder, o jovem
capito Lus Carlos Prestes. Olga ouviu o relato entre
curosa e desconfiada:
- O camarada tem certeza de que eles andaram mes
mo 25 mil quilmetros a p? Isso significa ir e voltr de
Moscou a Berlim quase dez vezes... a p!
Como o piloto insistisse na veracidade do episdio,
ocorrido no Brasil, afirmando que qualquer latino-ameri
cano em Moscou poderia confirm-la, Olga se conformou:
- J imaginou se pudssemos estar l, incorporados
a essa tal coluna invencvel?
O que Olga ou qualquer de seus colegas da academia
no sabiam  que o mitolgico comandante da coluna in
vcta estava ali mesmo, em Moscou, em seu apartamento
perto do bulevar Sadova, a poucas quadras de distncia
da escola militar onde tomavam ch.
A famlia Prestes - a me viva, dona Leocdia, e os
cinco filhos solteiros, Lus Carlos, Clotilde, Helosa, Lcia
e Lgia - havia chegado a Moscou meses antes, em no
vembro de 1931. O capito desembarcara no dia 7, durante
as comemoraes do 14." aniversrio da tomada do poder
47
pelos bolcheviques. A me e as irms chegaram poucos
dias depois: para despistar a polcia, a famlia dividira-se
para sair de Montevidu - ele embarcara no navio Eube
e, dois dias depois, os outros no Monte Sanniento. Apesar
do rosto liso, sem a barba e o bigode da poca da Coluna,
ele no conseguira passar incgnito pelas duas escalas
brasileiras do navio, em Santos e no Rio. No primeiro
porto, embarcaria o jornalista Oscar Pedroso Horta, que
o reconheceu mas manteve sigilo sobre a descoberta.
quando o Monte Sarmiento escalou no Brasil, a polcia
invadiu as cabines de dona Leocdia e das filhas, alerta
da pelo sobrenome amaldioado pelo governo. No havia
o que fazer: o Eube zarpara antes, levando a bordo Lus
Carlos Prestes, com passaporte que o identificava como
um pintor paraguaio.
Na Unio Sovitica, Prestes logo foi contratado como
engenheiro da Tzentratnij Soiuzstrvy, a entidade respon
svel pela fiscalizao de todas as obras de construo
civil no pas. E ficou revoltado, em seu trabalho de fiscal
de obras, com o grau de sabotagem de tcnicos e enge
nheiros contra as obras do novo governo. A vida em Mos
cou era particularmente dura para a famlia. Prestes ha
via recusado as regalias oferecidas pelo governo sovitico
aos tcnicos estrangeiros. tais como salrio em dlares e
permisso para fazer compras nas lojas privativas de estrangeiros.,
Ele preferiu receber em rublos e vver como
os milhes de russos.
No era fcil. O primeiro plano qinqenal estava
em vigor desde 1928 e para manter a estabilidade econ
mica quase tudo era racionado. Um dos invernos que a
famlia passou em Moscou deu-lhes muito concretamente
a medida dos problemas que o pas atravessava: Helosa,
uma das irms de Prestes, de pequena estatura e calando
sapatos nmero 33, suportou temperaturas de at 50 graus
abaixo de zero usando botas de neve nmero 40 - o ni
co que havia em estoque. Essas dificuldades, no entanto,
fizeram dona Leocdia, criada em famlia rica, apaixo
nar-se por aquele povo que ela chamava de "a verdadeira
fortaleza sovitic". Para ela, nenhum inimigo, por mais

48

poderoso que Fosse, conseguiria dominar um povo cujos
trabalhadores chegaram a receber, como rao diria de
alimento, 200 gramas de po preto - e apesar disso tra
balhavam com entusiasmo. Inmeras vezes ela viu, numa
cantina de fbrica perto de sua casa, operrios trabalhan
do sob um frio glacial movidos a canecas de gua quente,
porque at o ch estava racionado.
O filho Luis Carlos - ou apenas Carlos, como o tra
tavam -, por seu lado, testemunhava os durssimos pro
cessos de depurao do Partido Comunista, montados em
assemblias pblicas, dentro das prprias fbricas e cen
tros de trabalho. Cada membro da direo local tinha que
ir ao palanque e ali fazer sua autocrtica. Durante os ex
purgos, em que quase um milho de militantes foram
expulsos do PC, Prestes presenciou cenas terrveis em que
militares de cabelos brancos choravam na tribuna durante
as autocrticas. Era a poltca que levara aos chamados
"processos de Moscou", atravs dos quais seria eliminada
a velha guarda bolchevique. Nas horas vagas, o capito
brasileiro comparecia a reunies do PC ou a conferncias
de dirigentes comunistas latino-americanos. Foi num
deses encontros na sede do Comintern que o dirigente Dmi
tri Manuilski e a veterana Elena Stasova, membro do
Comit Central do PC desde o tempo de Lnin, falaram pela
primeira vez a Prestes de uma jovem alem chamada Olga
Sinek, que faza uma das mais vertiginosas carreiras den
tro da juventude Comunista Internacional.
Os momentos de divertimento da familia Prestes
eram rarssimos, seja por falta de tempo, seja pelas difi
culdades mpostas a todos pelo racionamento. Contudo,
no final de 1934, o prprio Manuilski mandou organizar
uma festa no apartamento dos Prestes, a pretexto de
comemorar a entrada de Lus Carlos no Partido Comunista
brasileiro. A filiao ocorrera no ms de agosto - o mes
mo Partido que o cortejara e em seguda o rejeitara havia
sido obrigado a aceit-lo aps receber um curto telegrama
de Moscou, assinado pelo secretrio da III Internacional,
Dmitri Manuilski, otdenando que assim fosse feito. A
comemorao, no entanto, aconteceria no dia 7 de novem

49

bro, aniversrio da Revofuo e dia em que se completavam
trs anos da chegada de Prestes a Moscou. O pequeno
apartamento nas imediaes do bulevar Sadova estava
apinhado de amigos, as quatro filhas de dona Leocdia
enfeitadas para a festa que contaria com a presena de
ningum menos que o prprio secretrio do Comntern.
A certa altura os convidados se espantaram ao v-lo, sim,
ele, dirigente mundial dos comunistas, ensaiando passos
de samba ao som de um disco que girava no gramofone.
Na verdade, apenas ele e Lus Carlos Prestes sabiam, ali,
que a festa era menos de comemorao e mais de despedida:
trs semanas depois, o anfitrio estaria partindo de
volta ao Brasil. Quando os convidados comearam a se
retirar, Manuilski pediu a dona Leocdia que fizesse um
brinde, e ela devolveu a gentileza:levantou o copo e disse
para todos ouvirem:
- Eu desejo que meu filho Carlos se torne um bol
chevique to completo quanto o camarada Manuilski.
Nem dona Leocdia nem qualquer uma de suas filhas
jamais ouvira falar em Olga Benario, Olga Sinek ou Eva
Kruger. Cinco dias aps a festa, no entanto, ela comearia
a entrar para a familia Prestes. Naquele vero de 1934,
embora com apenas 26 anos, ela era considerada por seus
superiores o que dona Leocdia desejara para o filho no
brinde - uma bolchevique completa: falava fluentemente
quatro idiomas, conhecia a fundo a teoria marxista-leni
nista, atirava com pontaria certeira, pilotava avies, sal
tava de pra-quedas, cavalgava e j tinha dado provas in
discutveis de coragem e determinao. Ainda assim, Olga
se supreendeu quando um mensageiro entregou-lhe um
envelope lacrado contendo um bilhete de Dmitri Manuils
ki convocando-a com urgncia  sede do Comintern. Ela
imaginou que finalmente iriam destac-la para dirigir a
luta dos jovens comunistas de Berlim contra os nazistas
de Hitler, agora no poder. Para melhor impressionar seus
superiores, Olga tirou o p do uniforme que recebera na
Academia da Fora Area e foi ao encontro fardada.
Ao chegar ao imponente prdio do Comintern, no nmero
36 da rua Mokovaia, Olga foi levada imediatamente

50

 presena do secretrio. Caminhando de um lado para
o outro e olhando longe, como se se concentrasse mais
na neve que caa nas vidraas do que no assunto que
abordava, Dmitri Manuilski desfez, de pronto, sua fanta
sia de regressar  Alemanha. Ele falava da perspectiva
de uma revoluo popular, mas na Amrca Latina:
- Um dos mais corajosos comunistas que conhece
mos insiste em retornar a seu pas. Ele e seus companheiros
de Partido nos convenceram de que este  o momento
de levar a revoluo ao sop do mundo. A direo
da InternaciOnal Comunista eSteve todo esse tempo reticente,
mas finalmente decidimos autorizar a sua volta.
Ele andava vagarosamente pelo salo, como um pro
fessor dando uma aula minuciosa;
- Aceitamos. mas impusemos uma condio: o
Comintern cuidaria de sua segurana pessoal. Depois de
muita discusso, e de analisarmos dezenas de nomes, con
cluimos que s uma pessoa tem condies de faz-lo che
gar a seu pas em absoluta segurana: voc. Quero
que responda neste momento. Pense bem e volte amanh,
 mesma hora. Por razes de segurana, a nica informa
o adicional que podemos lhe transmitir neste momento
 esta: se aceitar, vocs partem dentro de poucoS das para
a Amrca Latina.
Olga teve mpetos de dizer ali, na hora, que estava
pronta para partir. Mas era disciplinada: se Manuilski lhe
dava um dia, ela adiaria o sim por um dia. Ao voltar, na
tarde seguinte, ela chegou com uma hora de antecedn
cia. Esperou na ante-sala e foi o prprio Manuilski quem
apareceu para encontr-la. No gabinete, ele perguntou
sem rodeios:
- Como ? A camarada Olga Sinek j decidiu?
- Sabia desde ontem, camarada: estou pronta para
partir.
O secretrio do Comintern contou-lhe ento o que
a esperava. Antes do fim do ms ela partiria para o Bra
sil, euidando da segurana do capito Lus Carlos Prestes,
que tentaria liderar em seu pas uma insurreio popu
lar, A histria que ouvira sobre a coluna invencvel voltou

51

 sua memria. Quando Dmitri Manuilski mandou que
trouxessem at eles o "Cavaleiro da Esperana". Olga,
embora impassvel, decepcionou-se um pouco. Pelo que
ouvira, esperava ver um gigante latino. Ela emocionou-se
ao cumprirnentar, em francs, o revolucionrio brasileiro,
achou-o um pouco franzino para algum que caman
dara um exrcito por 25 mil quilmetros.

4.

Lua-de-mel em Nova York

Quando Lus Carlos Prestes deixou o apartamento na
noite de 29 de dezembro de 1934, sua irm caula, Lgia,
acompanhouo at a porta do prdio. Prestes abraou-a
e pediu-lhe que tomasse conta da me. Ao retornar  casa,
Lgia notou que dona Leocdia tinha um ar de extrema
aflio e quis saber o motivo. A me foi seca:
- Sinto que nunca mais verei meu filho.
A meia-noite, o espanhol Pedro Fernndez e a estudante russa Olga Sinek - 
as novas identidades de Prestes
e Olga - ocuparam a cabine de um trem que partiu para
Leningrado, onde chegaram s oito horas da manh do
dia seguinte. Ali mesmo na estao ferroviria compraram
outro bilhete, e  meia-noite, depois de passearem
o dia todo pela cidade, pegaram o trem que os deixaria
no dia 31 em Helsinque, capital da Finlndia. Aquele no
era, por certo, o caminho mais curto para a capital fran
cesa - mas era indiscutivelmente o mais seguro. Para
dois clandestinos, atravessar a Polnia, a Tchecoslov
quia e a Alemanha era pedir  polcia que os prendesse.
Um risco demasiado grande, sobretudo para Olga, cujas
fotos estavam espalhadas por todos os postos de fronteira
de seu pas.
De Helsinque, o casal embarcou para Estocolmo, na
Sucia, e  meia-noite do dia 31 os dois estavam junto ao
54
portal do navio, sobre as guas geladas do mar Bltico,
brindando o Ano Novo que chegava. Prestes ergueu a taa
de ponche e brindou:
- Que 1935 seja o ano darevoluo no brasil!
Embora o destno deles fosse Paris, Olga preocupa
va-se com a m qualidade dos passaportes com que via
javam e decidu que passariam alguns dias em Amsterd,
na Holanda, onde um contato poderia obter-lhes do
cumentao mais segura. Assm, atravessaram o Sul da
Sucia de trem, chegaram a Copenhague e da seguiram
de barco at o porto de Birmingham, na costa oriental
da Inglaterra, onde fizeram uma rpida baldeao, toman
do um segundo barco que os deixara novamente do ou
tro lado do mar do Norte, em Amsterd. Olga e Prestes
passaram trs semanas na captal holandesa esperando o
tal contato - e que nunca chegava. Ela comeou a temer
os riscos que a presena deles ali, por tanto tempo, poderiam
acarretar, E decidiu que partiriam assim mesmo, com
os passaportes falsificados de forma grosseira, com
destino a Bruxelas, na Blgica.
As primeiras semanas de viagem permitiram que os
dois se conhecessem melhor. Para Prestes foi uma sur
presa notar que aquela jovem que Manuilski e Elena
pintavam como uma comunista rgida e disciplinada
dedicasse suas horas de descanso, a bordo de barcos ou
de trens, ou  noite, nos hotis, tecendo delicadas peas
de croch. Conversando sempre em francs - idioma em
que ele devorara na Escola os compndios de en
genharia, e os documentos que Astrojildo lhe presenteara
na Bolvia - os dois passavam horas interminveis
rememorando as aventuras que cada um tinha vivido at
ali. Apaixonada por estratgia militar, Olga era capaz de
ficar horas discutindo com Prestes cada operao da
Coluna invicta, cada emboscada, cada movimento da tropa. Ele riscava
mapas, rios e bivaques em guardanapos de
papel de vages-restaurantes, nas costas de folhetos de
turismo. Ela  no se conformava com o desfecho da
aventura brasileira: por que no tentaram tomar o

55

poder? Por que no marcharam sobre o Rio de Janeiro,
quando vinham do Piau?
Depois era ele o ouvinte atento. Olga falava das bri
gas com os pais, a entrada no Grupo Schwabing de Mu
nique, a sada de casa, as passeatas em Berlim. a represso
policial, as batalhas contra os nazistas. E, com deta
hes, a ousada operao para libertar Otto Braun da priso
de Moabit, a clandestinidade, a fuga para Moscou, a ascen
so vertiginosa dentro da Juventude Comunista Interna
cional, os cursos militares. Prestes muitas vezes interrompiaum relato de 
Olga para confessar-lhe, tmido, que
jamais conhecera algum to semelhante a sua prpria
me:
- Muitas de suas qualidades, de suas caractersti
cas - dizia ele - so idnticas s de minha me. No se
trata de semelhana fsica, mas a forma de pensar, a
maneira ou o jeito de dizer alguma coisa so muito parecicdos
com os dela. Isso  curioso, j que voc vem de uma
sociedade completamente distinta da de minha me, que
nasceu e viveu sempre no Brasil.
Se Olga soubesse da verdadeira paixo que Prestes
devotava a dona Leocdia, traduziria aquelas palavras
como uma inconsciente ou mal disfarada declarao de
amor.
A crise generalizada que a Europa atravessava
naquela poca fazia com que as viagens longas fossem um
hbito pouco comum. O movimento de turistas era insig
nificante e no raro os passageiros eram vistos como
espies nazistas do Comintern. E foi o medo de serem
descobertos e presos que levou Olga a querer sair
tambm de Bruxelas, uma cidade relativamente pequena onde
estariam muito expostos. Como a logstica da viagem esta
va a seu cargo, foi ela quem resolveu que tomariam um
trem at Paris, a ltima escala planejada do perodo euro
peu. A partir dessa cidade utilizariam a fachada criada
pelo Comintern para que chegassem inclumes ao Brasil:
Prestes e Olga viajariam como um jovem e rico casal em
lua-de-mel e, portanto, deviam se comportar como tal.
Como primeira medida nesse sentido, escolheram um
56
hotel luxuoso, o Grand Hotel do Louvre, uma majestosa
construo de seis andares do fim do sculo passado, com
as janelas inspiradas em prticos romanos, plantada na
praa do Palais Royal, em frente ao teatro da Comdie
Franaise, no corao de Paris.
O contato que Olga perdera em Amsterd e Bruxelas
apareceu finalmente em Paris, e por orientao dele os
dois viajaram de trem at Rouen, no Norte da Frana.
L procuraram Israel Abraho Anahory, cnsul de Portu
gal, que no era um militante comunista, mas tinha idias
consideradas progressistas e tivera, no passado, ligaes
com grupos anarquistas de Lisboa. O fato de ser um
representante diplomtico do governo direitista de Antnio
Oliveira Salazar, que tomara o poder trs anos antes em
Portugal, afastava qualquer suspeita sobre suas ativida
des clandestinas na Frana. No dia 8 de maro, Olga e
Prestes mudaram mais uma vez de nome e receberam o
passaporte portugus com que viajariam o resto do tem
po. A partir daquele momento ele passava a ser Antnio
Vilar, lisboeta de 40 anos, comerciante, filho de Jos Vilar
e Angela Glria Vilar. Ela seria Maria Bergner Vilar, sua
mulher. O documento era vlido por um ano, desde que
utilizado em qualquer pas da Amrica do Sul, e mais um
ano para eventual retorno  Frana. Um ano e meio
depois, a descoberta do solidrio delito cometido pelo
cnsul Anahory lhe custaria a carreira diplomtica e
alguns meses de cadeia em Lisboa.
Para tornar consistente a fachada de recm-casados,
era necessrio acrescentar novos detalhes ao cenrio, e
para isto Paris era a cidade ideal. O comerciante Antnio
Vilar era um homem rico e saa da Frana em lua-de-mel
com sua esposa Maria. Como gente rica veste-se ricamen
te, Prestes e Olga gastaram mais alguns dias percorrendo
afamados costureiros parisienses para montar um guar
da-roupa  altura dos personagens que representavam.
Prestes a acompanhava s elegantes casas da alta moda
e, para dar mais realismo  farsa, fazia o tipo ciumento.
Dava palpites na escolha dos vestidos, reclamava dos de
cotes e do comprimento das saias. Ele prprio teve que
57
travestir-se igualmente de homem de posses, e encheu al
gumas malas de ternos bem cortados. chapus de feltro
e trajes a rigor para as festas que tivessem que enfrentar
no caminho. Para que o xito da misso fosse assegurado,
dinheiro no foi problema para eles.
Embora o passaporte obtido em Rouen fosse perfei
to, Olga resolveu aperfeioar ainda mais sua aparncia de
legalidade. E concluiu que no haveria melhor forma de
faz-lo do que ter carimbado nele um visto de entrada e
sada nos Estados Unidos. O consulado norte-ameri
cano em Paris concedeu sem problemas um visto de trn
sito nos EUA, sem limitao de prazo de permanncia,
j que o destino final da viagem de lua-de-mel era Lima,
no Peru. Prestes saboreou o preenchimento da ficha de
solicitao do visto, onde fora obrigado a dizer que no
era comunista - uma esdrxula exigncia da lei ameri
cana. E deliciou-se com a advertncia final: "Qualquer
resposta falsa a alguma das perguntas acima constitui
crime e sujeita o requerente s penas da lei". Naquele for
mulrio no havia uma s informao verdadeira, a comear
pelo nome dos requerentes.
A cobertura seria reforada com dois documentos fal
sos,fornecidos pelo contato francs de Olga. O primeiro
era uma carta datilografada em papel timbrado de uma
imaginria "Compagnie Gnrale d"Electricit Ateliers
d"Orlans". No ofcio dirigido a "monsieur Antnio Vi
lar" - e entregue na portaria do Grand Hotel do Louvre
-, o administrador da empresa acertava a entrega a Vilar
da representao de seus produtos na Amrica do Sul,
"confirmando entendimentos havidos anteriormente". A
segunda carta-fantasma era da "Martiw Zellermayer Bc
Cie.", de Viena, concedendo a Antnio Vilar autorizao
para vender os motores de sua fabricao na Amrica do
Sul. As cartas, alm de confirmar a fachada segundo a
qual Prestes era Antnio Vilar, serviriam para a eventua
lidade de explicar a origem da pequena fortuna em di
nheiro que o casal levava consigo.
Na terceira semana de maro Olga e Prestes estavam
prontos para partir. Alugaram uma luxuosa sute na

58

primeira classe do navio de passageiros Ville de Paris e em
barcaram em Brest, um pouco abaixo do porto do Havre.
Na primeira noite que passaram a bordo, o comandante
enviou ao camarote dos Vilar uma corbele de flores e
um delicado carto convidando-os para uma ceia em sua
cabine. Prestes foi para o jantar desconfiado de que o
capito do navio fosse agente secreto do governo francs,
e passou alguns apertos durante o encontro: o homem
hava morado em Lisboa e conhecia muito bem a captal
portuguesa. Toda vez que ele tentava conversar sobre Lis
boa, Olga tinha que entrar no meo e despst-lo com algu
ma desculpa. Por sorte, o comandante estava muito mais
interessado em conversar com a bela "Mar " do que com
o marido portugus.
A fachada obrigava Olga e Prestes a intimidades im
previstas. Um casal em lua-de-mel no apenas dorme no
mesmo quarto, mas na mesma cama. Alm disso, aproxi
mava-os a afinidade intelectual e poltica, cada vez maior
entre os dois, alm do fato de serem jovens, bonitos e en
tusiasmados com a perspectiva de estarem s portas da
revoluo. Para um homem de 37 anos, Prestes vivera
precocemente toda sorte de experincias polticas: liderara
uma rebelio militar, conspirara contra governos, fora
preso e exilado, convivera com os mais importantes diri
gentes comunistas na Unio Sovitica. Mas o rigor, a dis
ciplina e a dedicao  causa tinham cobrado dele um
preo alto: at ento, Lus Carlos Prestes nunca tinha
estado com uma mulher. A orfandade prematura levou-o,
aos dez anos de idade, a tornar-se o chefe da famlia. O
pouco tempo que lhe sobrava da Escola Militar era dedi
cado aos estudos. A me no permitira que ele trabalhas
se: preferia ela faz-lo, com a condio de que o fiiho se
entregasse aos livros e fosse o primeiro aluno da classe.
A vida da famlia suburbana do Rio de Janeiro era to
difcil que ele teve que obter permisso especial para an
dar fardado fora da Escola Miltar: Prestes no tinha tra
jes paisanos para vestir. Durante a Coluna ele se sentira
na obrgao, enquanto comandante, de dar o exemplo
de disciplina. E, ao contrrio de muitos de seus comandados,

59

no se envolveu com as mulheres que acompanharam
a marcha. A poltica e a preocupao com a educao das
quatro irms tinham-lhe roubado todo o tempo. E se Prestes
chegara aos 37 anos sem ter tido uma namorada, uma
paixo, uma mulher, no poderia haver circunstncia mais
propcia para comear: estava em alto mar, num camaro
te luxuoso, acompanhado de uma belssima mulher,
comunista e revolucionria como ele. Quando o Ville de
Paris atracou no porto de Nova York, na manh de 26 de
maro de 1935, o que at ento era uma fico montada
pela Internacional Comunista, tinha virado realidade:
como seus personagens Antonio Vilar e Maria Bergner, Prestes
e Olga eram marido e mulher.
Apaixonados, os dois passaram a lua-de-mel real em
Nova York. Foram a concertos, assistiram a filmes e apro
veitaram o fim do inverno em interminveis caminhadas
pelo Central Park. Como o objetivo da viagem aos Esta
dos Unidos era s obter os carimbos no passaporte, o
tempo estava praticamente livre para o namoro. O con
tato parisiense havia feito uma nica recomendao: que
despachassem a bagagem pesada dos Estados Unidos para
um tal Amrico Dias Leite, no Rio de Janeiro. Leite era
um simpatizante do Partido Comunista que certa vez, de
passagem pela Frana, escrevera a Prestes em Moscou,
pedindu sua interferncia para conseguir um visto de en
trada na Unio Sovitica. Na mesma agncia em que fizeram
a remessa das malas, a multinacional Wagon Lits
Cook, Prestes e Olga aproveitaram para comprar o restante
das passagens - sempre na primeira classe. Cincu
dias aps a chegada os dois deixaram o elegante hotel
Ennsvlvania, em frente ao Madison Square Garden, na
Sctitna Avenida. Ao afivelar as malas, Prestes recolheu
cuidadosamente da cmoda da sute um mao de papis de
cartas com o nome do hotel e o colocou, Protegido por
uma pasta de cartolina, no tundo de sua malinha de mo.
Horas depois o casal estava em um trem, a caminho de
Miami, de onde iniciariam a viagem ao Brasil, passando
por Santiago do Chile e Buenos Aires, agora por via area.
Na poca, o vo de Miami at Santiago do Chile era
demorado e cansativo. Como os avies de passageiros no
voavam  noite, o quadrimotor Sikorsky da Pan Ameri
can em que viajaram fez escalas - e obrigou os passageiros
a pernoitar - em Havana (Cuba), Kingston (Jamaica), Coln (Panam), 
Guaiaquil (Equador) e
Lima (Peru).
Por no possurem visto de entrada para o Chile, preci
saram oferecer alguns dlares aos funcionrios do con
sulado chileno, para que o visto sasse antes da
decolagem do avio. O vo terminou no dia 5 de abril na
capital chilena, onde permaneceram apenas o tempo sufi
ciente para comprar uma passagem area para a Argen
tina- Desta vez o avio da Panagra Airways era um
pequeno Triford, com pouca autonomia de vo, o que os
obrigou a fazer escalas em Mendoza e Crdoba antes de
chegarem a Buenos Aires.
A permanncia na capital argentina seria mais demorada
e envolvia cuidados especiais, pois ali seria obtido
o visto para a entrada no Brasil. Por meio de contatos,
Prestes acertara com o vice-cnsul brasileiro, Manuel
Paranhos, seu amigo de infncia, uma frmula para entrar
no pas sem problemas. Comunicou-se com a embaixada
brasileira logo que se instalou e soube, para sua sorte,
que Paranhos estava ocupando interinamente o posto de
cnsul-geral, o que lhe dava maior mobilidade. Mas um
malentendido quase frustrou os planos. Temendo ser
reconhecido, Prestes avisou ao diplomata que uma jovem
"alta e de cabelos escuros" iria encontr-lo num dos cafs
do centro da cidade, levando os passaportes para serem
visados. Ao ouvir "cabelos escuros", Paranhos entendeu
que Olga era morena. E no havia nenhuma morena no
caf, na hora combinada. Como Olga era a nica mulher
desacompanhada no lugar, quela hora, o cnsul arriscou
e decidiu abord-la. Se, depois, precisasse de alguma jus
tificativa para o fato de ter concedido os vistos ao "casal
de portugueses", Paranhos poderia usar a que recebeu das
mos de Olga: uma carta escrta por um dplomata por
tugus deNova York, apresentando os Vilar e pedindo a
concesso dos vstos. Era mais uma carta falsa, cuidado
samente datilografada no papel subtrado por Prestes ao
hotel Pennsylvania.
Resolvido o problema dos vistos, restava saber qual
o meio mais seguro de cruzar a fronteira. Eles resolveram
seguir at Monievidu para discutir a questo com os
contatos do Comintern no Uruguai - e decidiu-se pela via
area. Naquela poca apenas uma empresa de aviao fa
zia linha para o Brasil. Era a francesa Latcoere, antecessora
da Air France, que realizava um vo mensal pelo tra
jeto Santiago-Buenos Aires-Montevidu-So Paulo-NatalDacar-Casablanca-
Paris. Embora fosse uma linha exclusi
vamente postal, quando as aeronaves no estavam  plena
carga a Latcoere vendia passagens para os dois nicos
assentos existentes. Prestes e Olga tiveram sorte: em pou
cos dias sairia um avio e os lugares ainda estavam dispo
nveis. Como o vo do ms de maio tinha sido suspenso,
se perdessem aquele s teriam outra chance dali a dois
meses, em meados de junho.
Por se tratar de um correio areo, a Latcoere tinha
autorizao para que seus aparelhos voassem  noite. As
sim, na madrugada de 15 de abril os dois embarcaram no
Santos Dumont, um hidroavio de quatro motores, para
uma viagem que deveria dorar cerca de seis horas at o
hangar da Praia Grande, no litoral do Estado de So Pau
lo. Quando o dia amanheceu o avio voava baixinho, mar
geando o litoral no limite do Rio Grande do Sul com San
ta Catarina. O Santos Dumont no possua janelas, mas
pequenas escotilhas, e foi atravs delas que Olga teve seu
primeiro alumbramento com o Brasil. Habituada  Euro
pa, ela nunca imaginara tal luminosidade - um sol for
tssimo batia sobre o verde escuro da mata e o azul do
mar, divididos pelo risco branco e interminvel da areia
da praia. No meio da manh o navegador Comandante foi at os
dois para informar que o avio faria um rpido e imprevisto
pouso numa das praias de Florianpolis e que decolaria
novamente em poucos minutos. Olga, que j tinha
feito amizade e distribudo lembranas de Nova York en
tre os cinco membros da tripulao, cochichou com
Prestes:

60

- Essa escala ser providencial. Se algum servio de
inteligncia tiver conhecimento da nossa rota, os policiais
estaro  espera na Praia Grande. Vamos tentar descer
em Florianpolis.
E dirigiu-se ao comandante Givon para dizer-lhe que
o objetivo da viagem do casal era visitar parentes dela
que haviam emigrado para o Norte do Paran. Como eles
levassem apenas bagagem de mo, gostariam de descer
durante a parada do avio em Santa Catarina. o que lhes
pouparia vrias horas de viagem. O piloto francs no fez
qualquer objeo.
No havia ningum no hangar martimo onde o hidroavio atracou. Nenhuma 
fiscalizao de malas ou de do
cumentos - e bastou que Olga exibisse alguns dlares
para que logo aparecesse um carro para lev-los at o cen
tro da capital catarinense. Dormiram em Florianpolis e
no da seguinte tomaram um txi at Curitba. Mais um
pernoite ali e de manh contratavam outro txi para levlos a So Paulo. 
No meio do caminho, quando o carro
atravessava a cidade de Itapetininga, no interior do Esta
do de So Paulo, Prestes desentendeu-se com o motorista.
Desde a sada de Curitiba ele vinha reclamando que a via
gem estava muito demorada e que o homem era um pssi
mo motorista. Olga achou mais prudente tomarem outro
carro, mas por imprevidncia Prestes esquecera de trocar
dlares por cruzeiros - era um sbado e os bancos esta
vam fechados. A soluo foi pedir ao motorista contra
tado em Itapetininga que pagasse a corrida do outro, e
quando chegassem a So Paulo acertariam tudo com ele.
J era de noitinha quando entraram na capital paulsta.
Olga ficou impressionada com a altura de um arranhacu que podia ser 
visto a quilmetros de distncia, logo
aps a sada da estrada, o edifcio Martinelli. Com a noite
fechada, Antnio Vilar e Maria Bergner Vilar se hos
pedaram num confortvel hotel do largo do Arouche.
A poucas quadras dali, bomios experimentavam a
engenhoca que acabava de ser instalada no Caf Paracoar caf, uma mquina 
to extravagante quanto o seu dono,

63
Celestino Paraventi. Para substituir a velha cafeteira dourada,
Paraventi importara da Itlia e apresentava pela
primeira vez aos brasileiros uma mquina de coar caf a
vapor. A partir de ento, os poetas, as atrizes e os comunistas
que freqentavam as mesinhas de mrmore da cal
ada da rua XV de Novembro no pediam mais um cafe
zinho ao garom. Levantavam o indicador e diziam apenas:
"Um expresso!", que passavam horas bebericando
enquanto apreciavam o movimento.
O excntrico milionrio Celestino Paraventi, de 35
anos, era ainda mais especial que a fauna que freqentava
o caf. Alm do estabelecimento, herdara do pai dezenas
de imveis espalhados pela cidade e uma indstria de tor
refao de caf onde comeara a produzir mais uma mo
dernidade europia: caf enlatado a vcuo, que dorava
meses sem estragar. Paravent era o porto seguro a quem
recorriam os intelectuais pobres, os atores desemprega
dos e os bomios em geral quando em apuros financeiros,
o que lhe valeu o apelido de "Salvador". No havia um
panfleto, pasquim ou jornal de oposio que no estampasse
um anncio do Caf Paraventi. Enquanto dorou,
por exemplo, o jornal anarquista O Homem do Povo, edi
tado por Oswald de Andrade e Patrcia Galvo, o anncio
do caf esteve l. Mas ele era particularmente generoso
quando se tratava de ajudar os comunistas. Alugava ca
sas para a instalao de grficas clandestinas, dava gorda
contribuio mensal para os cofres do Partido e susten
tava famlias de militantes presos. Quando lhe pergunta
vam se mantinha alguma relao orgnica com o PC, ele
respondia com uma gargalhada:
- Eu no tenho ligao com o Partido. O Partido 
que tem ligao comigo!
Sua fascinao pela figura de Lus Carlos Prestes nas
cera durante a Coluna. De So Paulo, pela imprensa ou
atravs de panfletos clandestinos, ele acompanhava cada
movimento da tropa, cada vitria sobre as foras do go
verno. Quando a Coluna se internou nas matas da Bol
via, Paraventi ficou decepcionado. E quase levou a famlia

64

a intern-lo num hospcio quando mandou avaliar a a
indstria, a torrefao e a enlatadora - e anunciou que
enviaria o dinheiro apurado na venda de seu patrimnio
para Prestes, exilado em Buenos Aires, "para que ele pos
sa montar a Coluna de novo e tomar o governo". Mandou
comunicar sua deciso ao capito, na Argentina, e da a
algumas semanas o portador voltava com a resposta:
Prestes agradecia mas no o aconselhava a fazer aquilo.
Se quisesse ajudar, poderia mandar latas de caf para
Buenos Aires que ele, o tenente Siqueira Campos e Or
lando Leite Ribeiro, ex-membros da Coluna, se encarregariam
de vend-las e reexport-las de l. O lucro obtido
na operao seria suficiente para sustent-los no exlio.
Embora nunca tivesse estado com Prestes, Paraventi
costumava dizer que o comunismo do capito tinha "muita
coisa de crstianismo"
-- Um sujeito como o Prestes, com essa vocao, um
homem que larga tudo para acabar com a oligarquia, para
acabar com esses indivduos que querem tudo para si
e nada para os outros, deve ter alguma coisa de cristo.
Ele pode at no saber disso, mas tem.
Paraventi acabava de voltar de uma de suas excentri
cidades naquele sbado  noite -cantar canes talanas
no programa "Ch no Ar", de Nicolau Tuma, da Rdo
Difusora - quando Olga Benario surgiu  sua frente no
Caf. Ele fora avisado por dirigentes do Partido
conista que talvez recebesse "gente muito importante" nas
prximas semanas, mas no percebeu o que acontecia
quando aquela bela mulher, vestida com elegncia e fa
lando um portugus com sotaque carregado, procurou-o
em uma das mesas. Olga levava na bolsa um minsculo
bilhete de Prestes dizendo que estava em So Paulo e que
a portadora saberia indicar o hotel em que se encontrava.
Paraventi recolheu o casal e sua bagagem no largo do
Arouche e minutos depois am os trs, a bordo de um
luxuoso automvel Lincoln do ano, para a casa de campo
que possua no ento distante bairro de Santo Amaro, s
margens da represa Guarapiranga. No dia seguinte, Antnio

65

Maciel Bonfim, o Miranda, secretrio-geral do Partido
Comunista, recebia no Rio de Janeiro um emissrio de
So Paulo com a notcia de que Lus Carlos Prestes
chegara ao Brasil.
5.
Do mundo inteiro, rumo ao Rio

Vrios anncios falsos de que Lus Carlos Prestes
estaria retornando ao pas, publicados por jornais de
esquerda e de direita, no final de 1934 e nos primeiros dias
de 1935, haviam deixado a polcia brasileira excitada e
vigilante. O rastro da Coluna Prestes ainda estava vivo
na paisagem poltica do pas e havia uma espcie de
venerao nacional pela figura do "Cavaleiro da Esperan ",
obrigando Getlio Vargas a exigir da polcia poltica redo
brada e rigorosa precauo.
No eram apenas os rgos de segurana que aguar
davam com ansiedade a volta de Prestes. Desde que a via
gem de Olga foi decidida em Moscou, um pequeno
e seleto grupo de estrangeiros iniciava em vrias partes
do mundo viagens to discretas e sinuosas como a do
caal Vilar, todos com o mesmo destino: Rio de Janeiro.
Brasil. Alguns vinham acompanhados de suas mulheres.
nem todos viajavam com seus verdadeiros nomes e os que no se conheciam
j tinham pelo menos ouvido falar uns dos outros.
Uma identidade comum os unia: eram todos
cumuuistas, todos revolucionrios, profissionais a servio
do Comintern e vinham todoo ao Brasil fazer arevoluo.

De Xangai, na China aps uma rpida passagem por
Moscou, partiram os alemes Arthur Ernst Ewcrl e Ewert e sua
mulher, Elise, assessores polticos, que viajavam com documentao

68

norte-americana em nome de Harry Berger e
Machla Lenczycki. De Buenos Aires, via Montevidu, veeram
Rodolfo Ghioldi e sua mulher, Carmen, assessores
polticos, ele sob o nome de Luciano Busteros, ela man
tendo sua identidade original. Dos Estados Unidos e com
documentao autntica chegara o jovem Victor Allen
Barron, radiotelegrafista e tcnico em radiocomunica
es. Tambm com documentao genuna veio da Euro
pa o casal belga Alphonsine e Lon-Jules Valle, respon
sveis pelas finanas e assessores polticos. Da Alemanha
viriam os misteriosos Franz Paul Gruber e Erika, sua
mulher, ele especialista em explosivos e sabotagem, ela
datilgrafa e motorista. Quando Prestes e Olga puseram
os ps no Brasil. estavam todos vivendo desde o comeo
do ano no Rio de Janeiro, integrados  vida da cidade e
morando em casas ou apartamentos alugados na elegante
zona sul carioca.
Pelo menos um dos membros da equipe - por sinal,
o mais graduado e experiente de todos - Olga conhecia
bem. Uma das poucas mulheres inscritas no curso de pol
tica da Diviso Internacional da Universidade dos Povos,
em Moscou, durante seis semanas ela teve como instrutor
um corpulento e bem humorado patrcio seu, cujas fotos
j vira publicadas tanto no Estrela Vermelha quanto na
mprensa de Berlm. Era AMhur Ewert, que viria a se
transformar num dos mais respeitados quadros polticos
internacionais do Comintern.
Foi antes da Primeira Guerra Mundial que Ewert, en
to um jovem de vinte anos, nascido em Heinrichswalde,
na Prssia Oriental, mudou-se para os Estados Unidos
com sua namorada, a tambm alem Elise Saborowski.
E no por acaso escolheu Detroit para viver - como o
grande plo operrio criado pela industrializao, a cida
de transformara-se num centro de agitao poltica. Ewert
trabalhava durante meio ano como operrio da indstria
do couro, ajuntando dinheiro. Ao final do semestre
pedia demisso e dedicava os seis meses seguintes a passar

69

metade do dia enterrado em bibliotecas pblicas e a outra
metade fazendo agitao poltca nos sindicatos.
Em 1917 o casal mudou-se para Toronto, no Canad,
mas seu nome s apareceria em pblico pela primeira vez
dois anos depois, quando a polcia, tentando impedir a
organizao do Partido Comunista, invadiu um "aparelho
subversivo" onde viviam Arthur Brown e Annie Bancourt,
prendendo os ocupantes do apartamento e recolhendo ar
mas e literatura marxista. Brown e Annie eram, na ver
dade, os codinomes de Ewert e Elise, que ele chamava
carinhosamente de Sabo, diminutivo de seu sobrenome.
Depois de passar alguns meses numa priso para "estrangeiros
 em situao irregular", os dois foram deportados
ao pas de origem, os Estados Unidos. Ewert voltou a
freqentar os comunstas e anarqustas de Detrot; anos
depois estava de volta a Berlim, onde se filiou ao Partido
Comunista alemo. Sua experincia internacional, soma
da ao conhecimento adquirido nas bibliotecas norte-americanas,
logo o elevaria  direo do PC alemo, de cujo
secretariado ele j fazia parte desde 1923. De Moscou os
dirigentes soviticos acompanhavam a carreira do jovem,
que em seguida foi convidado a viver na capital sovitica,
trabalhando diretamente com a direo do Comintern.
Ewert, que nessa poca estava casado Legalmente com
Elise, passou quatro anos como instrutor graduado dos
diversos centros de "formao de quadros" - tanto os do
PC da URSS como os que vinham de vrias partes do
mundo.
Sua estrela sobe rapidamente. Em setembro de 1927
o todo-poderoso Joseph Stlin confia a Ewert poderes ili
mitados para intervir no V Congresso do Partido Comu
nista norte-americano, reunido em Nova York, em favor
da escolha de Jay Lovestone para a direo do PC dos
Estados Unidos, contra os grupos de Earl Browder e William Foster. Ewert
chega a Nova York no comeo de
agosto. No encerramento do congresso, em 8 de setembro,
a vontade de Stlin havia sido cumprida. A dura inter
veno de Arthur Ewert causaria alguns arranhes  sua
imagem pblica. O jornal The Militant, editado por uma

70

faco trotsqusta de oposio ao PC norte-amercano,
publica uma nota acusando Ewert de ter sido enviado por
Moscou para "roubar e dividir a conveno do Partido
com o objetivo de ajudar a grupo de Lovestone". Para
ele, no entanto, a opino de um jornaleco esquerdista
tinha pouco significado. O que importava era a opinio de
Stlin, e esta tinha sido to efusiva com o sucesso de sua
misso em Nova York que, ao retornar  URSS, Ewert
torna-se membro do Comit Executivo da III Internacio
nal. Em seguda  eleto deputado pelo Partdo Comuns
ta alemo ao Reichstag, o Parlamento de seu pas.
O brilho de sua estrela, no entanto, comearia a ser
empanado em pouco tempo. Uma profunda divergncia
sobre a concepo da ttica a ser seguida pelos comunis
tas tomaria conta do Comintern e acabaria por envolv-lo.
Ewert chegou ao VI Congresso da Internacional Comu
nista, em Moscou, no vero de 1928, sob a acusao de
"conciliador". O pecado atribudo a ele: opor-se, junta
mente com seu amigo Gerhardt Eisler, outro atvo m
litante comunista internacional,  linha defendida por
Ernst Thelmann dentro do PC alemo, pela qual o prin
cipal inimigo a ser combatido pelos comunistas era o
Partdo Social-Democrata. Stlin  frente, o VI Congresso
da Internacional Comunista reitera e refora a tese do
cerco aos sociais-democratas, rebatizados de "sociais-fas
cistas". Os volumosos anais do congresso registraram
uma nica, solitria voz discordante. Sozinho na sua posi
o, embora muitos dos dirgentes al presentes concor
dassem silenciosamente, Arthur Ewert insista em que o
PC alemo teria, sim, que romper ideologicamente com a
Social Democracia, mas sempre mantendo com ela a uni
dade ttica. Ele entendia que o PC alemo e a Social De
mocracia eram duas potncias que deviam manter alguma
forma de aliana ttica. Acusado de persistir em um
desvio para o qual j havia arrastado mais da metade
da direo do PC alemo, Ewert comea a cair em
desgraa. Junto com ele vo seu amgo Gerhardt Eisler e at
mesmo um dos grandes da Revoluo de Outubro, Nikolai
Bukhrin, dirigente mximo do Comintern.
71

Responsabilizado por Stlin por no ter imposto a tempo a disci
plina partidria aos "conciliadores", Bukhrin  expulso
primeiro do Comintern e depois do Bir Poltico do PC
sovitico.
A vitria eleitoral de Hitler em 1933, comprovaria
que, na verdade, a razo estava com Ewert e que a diviso
entre comunistas e sociais-democratas facilitava o cami
nho dos nazistas. Mas isso s aconteceria quatro anos
depois. O ostracismo de Ewert seria decretado em 1929
num discurso de Stlin, ameaadoramente intitulado "Sobre
o desvio direitista no Partido Comunista (Bolchevique) da URSS", 
pronunciado ante o pleno do Partido.
Ewert  premiado com citaes nominais de Stlin, que
o chama de "conciliador que agia  revelia do Comit
Central da III Internacional". A punio pelos graves de
litos viria em seguida, atravs do seu afastamento tanto
do Comintern como do PC alemo.
Ewert passa um ano afogado na mais absoluta obs
curidade, at que em fevereiro de 1930 o Imprecorr boletim que divulgava 
internacionalmente as atividades do
Comintern, publica a ntegra de sua autocrtica. As
pessoas que o conheceram sabiam que no havia sinceridade
naquele reconhecimento de "culpa" poltica. Habituado a
viver dentro da mquina partidria, Ewert se sentia rfo
e desamparado politicamente fora dela. Como o preo da
volta era a autocrtica, ele a fazia.
Como primeira tarefa aps a reabilitao, Ewert foi
encarregado pelo Comintern, em 1931, de viajar at Mon
tevidu, no Uruguai, onde uma legao comercial da
Unio Sovitica, o Yuamiorg, funcionava como fachada
para as operaes latino-americanas da Internacional
Comunista. Seu trabalho era avaliar as informaes envia
das por Augusto Guralsky, o Rstico, sobre o capito bra
sileiro Lus Carlos Prestes, cujo nome havia sido indicado
para viajar  URSS. De volta a Moscou, o informe de
Ewert  ainda mais animador do que o de Guralsky. Prestes
era um grande quadro poltico que se aproximava do
marxismo e a IC no deveria perder a oportunidade de
t-lo mais perto de si.

72

Logo em seguida Ewert sera mandado, agora em
companhia de Elise, para uma longa temporada na meca
dos agentes internacionais, comunistas e capitalistas:
Xangai, na China, onde estava instalada a direo do clan
destino Partido Comunista chins, que controlava algu
mas regies "Liberadas" no nterior do pas.
Dezenas de milhares de russos brancos que emigraram
aps o triunfo da revoluo em seu pas davam ao
importante porto chins uma aparncia ainda mais
metropolitana, m enclave internacional instalado dentro da
cidade. governado e policiado por foras francesas, nor
te-americanas, japonesas e chinesas fazia de Xangai uma
mistura de cidade do Extremo Oriente com um pas
europeu ocidental- Traficantes e prostitutas de luxo das mais
diversas nacionalidades, espies que trabalhavam para to
das as potncias (s vezes para mais de uma ao mesmo
tempo), exilados, conspiradores e correspondentes de
grandes agncias de notcias davam  cidade um ritmo e
um colorido nicos em toda Asia.
Arthur Eweri e Elise chegam a Xanga para uma tarefa
que exigiria, como em Nova York, habilidade poltica
e mo de ferro: tratava-se de controlar a reao do PC
chins ao pacto que Stlin buscava assinar com Chiang
Kai-chek, chefe do Kuomintang - o partido no poder na
China e que combatia ferozmente os comunistas de Mao
Ts-tung. Parte do brilho e da eficincia com que realizou
a misso o prprio Ewert atribuiria a um alemo conhecido
pelo codinome chins de Li Teh, que se encontrava
em territrio chins h quinze meses, tambm como envia
do do Comintern: Otto Braun, o ex-namorado de Olga
Benario. Logo aps terminar seu romance com Olga, Otto
fora enviado pela Internacional Comunista  efervescente
China. L deveria inicialmente estabelecer contato com
outro agente que mais tarde ganharia notoriedade mun
dial como chefe da rede de espionagem sovitica no Ja
po, kichard Sorne, e ligar-se  direo do PC chins. Sob
o nome de Hua Fu, Otto assinava artigos politicos no
jornal comunista Revolution and War, e sob o pseudni
mo de Li Teh atuava como conselheiro militar do Comit

73

Central do PC. Em Juichin, capital da regio "sovietiza
da" de Kiangsi, Li Teh prestava assessoria militar a Mao
Ts-tung e a Chu Teh na preparao da Longa Marcha.
No congresso do PC em T"sunyi, que sancionou a liderana
de Mao, a cadeira destinada ao marechal Joseph Stlin
foi ocupada pelo "camarada Li Teh". E o "professor
Albert List", que dividia com Lin Piao a direo da Aca
demia Militar de Yenan, do Partido Comunista chins,
no era outro seno Otto Braun.
Durante os trs anos que passou em Xangai, Ewert
ocupou-se mais ativamente com a mobilizao de intelec
tuais para a produo de propaganda anti-japonesa. Ele
se impressionara com o rpido avano da revoluo na
China e mais de uma vez declarou que o grau de comuni
zao do pas era to grande e irreversvel que ele
prprio no via necessidade do trabalho de propaganda de
agentes do Comintern. E, de todas as tarefas do casal Ewerr na China, 
apenas uma terminou coberta pelo p
da Histria: nunca se soube se ele teria ou no obtido
xito na tentativa de aliciar para o trabalho de espiona
gem do Comintern um de seus grandes amigos em Xangai
o britnico Roger Hollis, que dcadas depois, entre 1956
e 1965, viria a ser o "nmero 1" do MI-S, o servio de
inteligncia militar britnico. De qualquer forma, a lti
ma notcia que a polcia de Xangai obteve
a respeito do casal - que na poca j adotava os nomes
de Harry Berger e Machla Lenczycki -  que teriam dei
xado a cidade no dia 19 de julho de 1934 a bordo do SS
Yingchow com destino ao porto russo de Vladivostok.
A verdade  que iniciavam ali uma longa viagem que ter
minaria, meses depois, num hotel da rua Marqus de
Abrantes, no Rio de Janeiro.
Na ltima escala antes de aportar no Rio de Janeiro,
Ewert recebeu em Montevidu um nome para procurar
no Brasil: Luciano Busteros, pseudnimo do jornalista
argentino Rodolfo Ghioldi, membro suplente do Comit
Executivo do Comintern, secretrio do Bir Latino

74

Americano da III Internacional e dirigente do PC argentino.
Ghioldi, que conhecera Prestes e Ewert em 1931, em Mon
tevidu, j havia estado no Brasil, treze anos antes.
Naquela poca, estava em Moscou quando a direo da Inter
nacional encarregou-o de viajar  capital brasileira, onde
um grupo de comunistas pretendia fundar um partido e
solicitava altorizao  IC. Ghioldi deveria avaliar a situao
e enviar um informe a Moscou com um parecer sobre a
concesso ou no de agrment ao partido que comeava
a nascer.
Ghioldi conviveu durante tcs semanas com o grupo
brasileiro, considerado por ele "extremamente interessante".
Com dois de seus camponentes, o jornalista As
trojildo Pereira e o farmacutico Otvo Brando, Ghioldi
teve um contato maior e deles acabou se aproximando
mais. Tanto Astrojildo quanto Brando tinham
antecedentes anarquistas - idia que havia exercido muita in
fluncia no movimento operro brasileiro - mas  luz
da Revoluo Russa reviram suas concepes tericas,
tornando-se comunistas. A partir do informe favorvel de
Ghioldi, os brasileiros foram acolhidos por Moscou e meses
depois eram discretamente distribudos em vrios
estados os estatutos do "Partido Comunista - SBIC".
- as quatro letras finais indicavam que aquela era a "Seo"
Brasileira da Internacional Comunist". No Rio, Ro
dolfo e sua mulher, Carmen Alfaya de Ghioldi - que
inexplicavelrnente viajava com seu verdadeiro nome, em
bora o sobrenome do marido fosse fartamente conheci
do das polcias polticas - instalaram-se de incio num
apartamento no bairro do Leblon, a espera do momento
planejado para o incio da conspirao: a chegada de
Prestes e Olga
Tambm  aguardando o casal e pronto para juntar-se
aos berges e aos Ghiolgi encontrava-se no Rio o mais
jovem dos enviados do Comintern. o norte-americano Vic
tor ABarron. de 27 anos. Magro e alto, com ar de gal
 decinema, Barron convivera desde garoto com o clima
das lutas operrias e da militncia comunista que o pai,
Harrison George, levava para casa. Fichado pelas autori
dades policiais norte-americanas como "um dos mais im
portantes agentes secretos do movimento comunista in
ternacional", Harrison George era o representante nos
Estados Unidos da Internacional  Sindical Vermelha,
seo do Comintern encarregada das atividades no meio
sindical. Ele estivera na Amrica Latina em 1926, como
delegado da II Conferncia de Trabalhadores Porturios
do Hemisfrio Ocdental, realizada em Montevidu, quan
do foi fundada a "Confederao Latino-Americana de Sin
dicatos", com sede na capital uruguaia. O pai Harrison
e Edna Hill, sua mulher, divorciaram-se quando Victor
era beb e, embora a me desse ao garoto o sobrenome do
novo marido, C. N, Barron, ele acabou por ligar-se mais
ao pai.
Ainda adolescente Victor trabalhou em uma empresa
de Yakima, no Estado de Washington, como colhedor de
laranjas, mas logo depois mudou-se para Nova York, para
ficar junto do pai e da militncia poltica na cidade gran
de. E foi graas  influncia de Harrison George no PC
norte-americano que Victor viajou para a Unio Sovi
tica, onde estudou eletrnica e especializou-se em radiotelegrafia. No 
final de 1934, quando o Comintern decidiu
apoiar a planejada insurreio no Brasil, Victor Allen
Barron foi escolhido para uma misso especfica: montar
uma poderosa estao de rdio clandestina para que os
revoltosos pudessem comunicar-se entre si, internamente,
no Brasil. A potncia do equipamento deveria ser sufi
ciente tambm para atingir Moscou - atravs do rdio
o Comintern acompanharia o desenrolar dos aconteci
mentos no Rio de Janeiro.
Alm dos Berger, dos Ghioldi e de Barron, outros
dois casais haviam aportado no Rio naquele comeo de
1935, sob as ordens do Comintern. Para cuidar das finan
as da operao vieram os belgas Lon-Jules Valle e sua
mulher, Alphomsine, com os nomes verdadeiros. Uma atri
buio perigosa ficaria a cargo de um alemo, Paul Franz
Gruber - lidar com explosivos e sabotagem. Sua mulher,
Erika, exerceria eventuais tarefas como datilgrafa ou
motorista.
76
A direo do Comintern relutara durante vrios
meses em aprovar a insurreio no Brasil. Apesar das dezenas
de informes e relatrios triunfalistas que recebia de
Miranda, o secretrio-geral do PC, o ceticismo dos diri
gentes soviticos era grande.
Maior ainda, porm, era a
seduo que exercia sobre eles a perspectiva de ver um
pas com as dimenses do Brasil, rea de influncia cada
vez mais cobiada pelos Estados Unidos, transformado
numa repblica popular e socialista. To grande era o
otmsmo de Miranda com o que magnava ser uma stua
o pr-revolucionria que ele acabou por derrubar a in
credulidade do secretrio do Comintern: Dmitri Manuils
ki chegou a pregar em seu gabinete, no final de 1934, um
gigantesco mapa do Brasil coberto de alfinetes coloridos,
indicando os pontos do pas em que, - segundo os rela
tos que recebia do PC brasileiro-a revoluo explodiria.
A prova mais eloquente de que Miranda conseguia ven
cer a descrena de Moscou estava na larga experincia da
equipe enviada ao Brasil- Apesar dos atritos com Stlin,
Arthur Ewert estava reabilitado- E a Unio Sovitica no
destacaria um pioneiro da revoluo comunista interna
conal para uma aventura inconsequente.

6.
Comea a conspirao

Durou pouco o veraneio de Olga e Prestes na confor tvel casa de 
Paraventi s margens da represa Guarapipiranga.
Em menos de uma semana o emissrio retornou
do Rio com o sinal verde de Miranda para que o casal
rumasse para a capital. Celestino Paraventi, que os cer
cara de todas as gentilezas,insistiu nas vantagens de via
jarem com ele, no carro de ltimo tipo. "Nenhum policial
vai imaginar que uma limusine de vrios contos de ris
est levando dois comunistas", dizia bem humorado. Ele
at se antecipara, cometendo mais uma de suas loucuras:
mandara um mecnico de confiana furar cinco orifcios
no porta-malas do automvel, para a eventualidade de
transport-los ali. Mas os hspedes fincaram p e seguiram
viagem com a mesma discrio com que tinham
chegado at So Paulo: iriam para o Rio de txi.
A deciso quase colocou tudo a perder. No meio da
noite, quando se aproximavam da divisa entre So Paulo
e o Estado do Rio, uma barreira policial de rotina parou
o carro. A excessiva preocupao de Olga com sua bolsa
despertou a ateno do policial, que resolveu fazer uma
revista mais rigorosa. L dentro ele encontrou um mins
culo revlver com cabo de marfim. Prestes tentou de tudo
para evitar problemas maiores: ofereceu dinheiro, con
versou amistosamente com o guarda, mas foi intil.

78

O policial decidiu "confiscar" informalmente o revlver operao que
acabou por faz-lo esquecer de vistoriar os
documentos do casal. Dali at o Rio de Janeiro, a nica
arma em poder dos dois era a pistola de que Prestes nun
ca se separava.
O trajeto entre a entrada da cidade e o hotel no
bairro de Botafogo foi suficiente para maravilhar Olga
Benario. Com um milho e meio de habitantes, o Rio esta
va longe de ser uma metrpole cosmopolta como Nova
York ou Berlim - mas ela no teve dvidas de que estava
diante da mais bela cidade que j vira. Pela primeira vez
Olga encontrava uma paisagem natural to luxuriante.
Da praa Paris, no comeo do Flamengo, era possvel ter
uma idia geral daquele exagero;  direita, montanhas
cobertas de vegetao;  esquerda, quilmetros de praias
de areia finssima. Espremida no meo, a cidade, seus
casares coloniais, os bem recortados jardins imitando
Versalhes e incontveis igrejas de todos os tamanhos e
estilus. Ao fundo, emoldurando aquela viso paradisaca,
o perfil do Po de Acar. Saindo da praia, o carro
meteu-se no meo do casario, tomou uma rua pequena com
as duas caladas pontilhadas de palmeiras altssimas, e
seguiu pela rua Marqus de Abrantes, at um pequeno
hotel onde um apartamento fora reservado para o casal
Vilar.
No mesmo hotel onde haviam ficado Arthur Ewert e
Elise, Olga e Prestes passavam os dias selecionando ann
cios de casas ou apartamentos para alugar. Como os
Ewert tivessem escolhido uma casa na rua Paul Redtem,
em Ipanema, a poucos passos da praia, Olga sugeriu,
com uma planta da cidade na mo, que procurassem um
imvel nas imediaes. No demorou muito para que o
encontrassem: os classificados do jornal do Brasl anun
ciavam uma casa de dois andares na rua Baro da Torre,
a duas quadras dos Eweri. Propriedade do suo Eurisch
Sommer, a casa estava alugada a um engenheiro qumico
alemo, funcionrio dos laboratrios Bayer. Como mui
tos de seus patricios, ele estava retornando  Alemanha
- Hitler arrebanhava pelo mundo os melhores quadros

79

tcnicos de seu pas, provavelmente imaginando as necessidades
que o esforo de guerra iria demandar. O alemo
queria transferir o contrato de aluguel. deixando para os
novos inquilinos tudo que havia na casa: mveis, gela
deira, fogo, talheres, pratos, panelas, roupa de cama ficava at a
empregada domstica. Alm de todas essas
facilidades, o fato do antigo morador ser estrangeiro faci
litava a encenav: afinal, para a vizinhana, sara uma
famlia de estrangeiros e entrava outra famlia de estran
geiros.
A circunstncia de que o senhor e a senhora Vilar
no fossem brasileiros no deveria, em princpio, causar
maiores preocupaes. Nos doze meses anteriores  chegada
deles, dos Ewert, dos Valle, dos Ghioldi, dos Gruber
e de Barron, haviam entrado no Rio de Janeiro como imi
grantes nada menos que 15 mil estrangeiros, dos quais 11
mil eram europeus. Olga e Prestes poderiam, assim, mis
turar-se facilmente aos 1700 alemes e  mil portugueses
que haviam trocado a Europa em crise por um Rio de Ja
neiro onde as oportunidades pareciam ser mais anima
doras. Alm disso, o bairro de Copacabana - do qual
Ipanema fazia parte - contava, entre seus 30 mil habi
tantes, com um nmero desproporcional de turistas e
imigrantes de todas as partes do mundo, o que certamente
facilitaria a circulao e as atividades dos enviados do
Comintern.
Devidamente instalados na casa da Baro da Torre,
Olga e Prestes encontraram-se pela primeira vez com seus
companheiros na casa dos Ewert - e ali mesmo distri
buram as tarefas iniciais, atribudas ,ao casal Gruber:
Erika trabalharia como datilgrafa na casa de Ewert e,
quando necessrio, como motorista dos Vilar. Grober,
tcnico em explosivos, instalaria num pequeno cofre da
casa de Prestes e Olga um violento sistema de alarme,
para impedir o acesso de estranhos ao dinheiro e  do
cumentao ali depositada. Victor Barron anunciou que
comeara a cumprir sua tarefa desde o primeiro dia na
cidade: depois de minucioso levantamento das lojas especi
alizadas em artigos eltricos, tanto do Rio como das

80

cidades viznhas, vinha se dedcando a comprar em cada
uma delas uma pea diferente para o radiotransmissor
que montava no quarto de empregada, em seu aparta
mento alugado de Copacabana. Como fachada, Barron
passava por um playboy milionrio em interminveis frias
no Rio de Janeiro. Sempre vestido com bem cortados
ternos de linho branco e chapus e gravatas importadas,
ele completava o disfarce circulando num carssimo carro
do ano, uma limusne Graham Page. Para todos os efei
tos, Barron representava uma indstria norte-americana
de mquinas e, nas horas vagas, era jornalista.
Apesar da aparente segurana em que se encontra
vam todos, o grupo deliberou tomar uma iniciativa para
afastar de vez as suspeitas, da opinio pblica e da pol
cia, de que Lus Carlos Prestes estivesse no Brasil. Nos
primeiros dias de maio uma multido lotou o "Salo das
Classes Laborosas", stuado na rua do Carmo, no centro
de So Paulo, para participar de uma sesso solene da
recm-fundada Aliana Nacional Libertadora. Logo depois
de instalados os trabalhos, o historiador comunista Caio
Prado Jnior deu a palavra ao tenente Timtheo Ribeiro
da Silva, que passou a ler "um importante documento
que acaba de ser enviado da Espanha ao presidente da
Comisso Provisria da Aliana Nacional Libertadora, caman
dante Hercolno Cascardo". Tratava-se de uma longa
carta, datado do dia 25 de abril "e escrita em Barcelona",
na qual Lus Carlos Prestes anunciava sua adeso  ANL.
Embora a data e a origem da carta fossem falsas - Prestes
no tinha estado em Barcelona e no dia 25 de abril
encontrava-se no Brasil - o seu contedo era autntico.
Nela, Prestes dizia estar acompanhando "pela leitura
dos jornais" a formao daquele movimento de massas e
justficava a demora em aceitar a indicao de seu nome
para a presidncia de honra da ANL, ocorrida na sesso
do dia 30 de maro daquele ano. Seu inconfundvel estilo
duro e agressivo afastaria as suspeitas de que o documen
to pudesse ser apcrifo: "Sem conhecer os iniciadores
desse movimento, e habituado j ao uso desavergonhado
e demaggico que fazem do meu nome os politiqueiros

81

brasileiros, quando desejam enganar as massas, esperei
receber informaes mais completas antes de lhe escrever
estas linhas", dizia ele. logo no incio. "Hoje tenho j em
mos dados mais seguros sobre a nova organizao e a
confirmao de que meu nome surgiu, realmente, de ma
neira espontnea, do seio das prprias massas que quiseram,
evidentemente, desta maneira, dar  ANL um car
ter antimperialista, combativo, revolucionrio". Aps cOmprovada
anlise da situao poltica brasileira, Prestes relata
sua experincia de trs anos na URSS, "ajudando a cons
truir o socialismo" e dirige-se "ao povo do Brasil, a todos
os aderentes da ANL, aos operrios, camponeses, soldados
e marinheiros, aos estudantes, aos intelectuais honestos,
 pequena burguesia das cidades, enfim, a todos os que
sofrem, cada dia mais, com a situao de misria e de
fome em que se encontra o Brasl". Interrompdo a cada
pargrafo pelos aplausos, o tenente Timtheo L, por fim,
a adeso triunfal: "Adiro  ANL. Nela quero combater
lado a lado com todos os que, no estando vendidos ao
imperialismo, desejem lutar pela libertao nacional do
Brasil, com todos os que queiram acabar com o regime
feudal em que vegetamos e defender os direitos democr
ticos que vo sendo sufocados pela barbrie fascista ou
fascistizante".
Com pouco mais de um ms de vida, a Aliana Na
cional Libertadora alcanara um indiscutvel sucesso. Um
ato semelhante ao do "Salo das Classes Laboriosas" ha
via sido realizado na vspera no Estdio Brasil, no centro
do Rio de Janeiro, e um dos fundadores da ANL, o jor
nalsta Benjamim Cabello, lera a carta de Prestes para
um pblico muitas vezes maior que o de So Paulo. Desde
a Revoluo de 1930, aquele era o primeiro movimento
poltico de carter nacional que surgia no pas - e desta
vez atraindo os mais diversos setores sociais e polticos,
com um objetivo comum: lutar contra o fascismo, o im
perialismo, o subdesenvolvimento e os grandes latifn
dios. Essa verdadeira cruzada reuniu comunistas, socia
listas, liberais, cristos, operrios, profissionais liberais,

82

        e um grande nmero de militares egressos das experin
        cias revoltosas de 1922 e 1924.
     A partir de seu lanamento pblico no final de maro,
        no Teatro Joo Caetano, no Rio, quando o jornalista Car
los Lacerda props o nome de Prestes para a presidncia
        de honra, a ANL incendiou o pas. Dezenas de milhares
de pessoas batiam s portas de suas "assemblias esta
duais" para se filiarem e incorporavam-se aos atos pbli
cos que se multiplicavam pelas praas de todo o Brasil.
Centenas de ncleos surgiram em vrios estados e os
mais eufricos avaliavam o nmero de filiados em mais
de um milho. A cada dia, pelo menos trs mil novos in
teressados pediam inscrio. A carismtica e mitolgica
figura de Prestes na presidncia de honra estimulava a
agitao aliancista, ainda que a maioria dos militantes
que se agregavam  ANL o conhecesse apenas de fotos e
desenhos, quase sempre com a barba negra e as botas de
cano alto do tempo da Coluna.
Como dirigentes nacionais do movimento foram escolhidos
o comandante da Marinha Roberto Sisson, seu
companheiro de arma Hercolino Cascardo - revolucionrio
de 1924 e de 1930 e ex-interventor do Rio Grande
do Norte em 1931 -, o jornalista Benjamim Cabello, o
mdico Manuel Venncio Campos da Paz e o advogado
Francisco Mangabeira - todos de alguma forma ligados
ao Partido Comunista. Em So Paulo, a direo caberia a
Miguel Costa, companheiro de Prestes no comando da
Coluna, ao historiador Caio Prado Jnior e ao intelectual
Abguar Bastos. No Rio Grande do Sul foram eleitos o
mdico e escritor Dyonlio Machado e o capito do Exr
cito Agildo Barata, ambos comunistas. A organizao da
Aliana no Nordeste tambm ficaria entregue a militantes
do PC: Sylo Meirelles, membro do Comit Central do
Partido, Agliberto Vieira de Azevedo, aluno da Escola
Militar do Realengo, e o campons Gregrio Bezerra. Em
bora congregando lideranas operrias e camponesas como
Bezerra, a ANL era fundamentalmente um movimento
sustentado por militantes e dirigentes vindos da classe m
dia - a tal ponto que o comandante Roberto Sisson

83

chegou a se referir  pequena burguesia como "a fora revo
lucionria da Aliana Nacional Libertadora". No entanto,
para alguns de seus dirigentes, como Caio Prado Jnior,
a aproximao da ANL com o PC permitiria que este rea
lizasse o trabalho de ligao com as massas operrias.
Em pouco tempo a ANL comeava a dar cria: de seus
ncleos surgiriam o Clube da Cultura Moderna, a Liga
de Defesa da Cultura Popular e a Unio Feminina do Bra
sil. A plataforma e, principalmente, as atividades de rua
dos aliancistas passaram a ser divulgadas no Nordeste
pelo dirio recifense Folha do Povo, no Rio de Janeiro por
A Manh e A Marcha, e em So Paulo por A Platia.
Simultaneamente ao trabalho desenvolvido pela Alian
a no Brasil afora o Partido Comunista se infiltrava nos
quartis. A anistia de 1934 permitira que os jovens oficiais
participantes das revolues anteriores voltassem  ativa,
e muitos deles eram militantes do PC. A direo
reconhecera que, paradoxalmente, era mais fcil construir o
Partido nos quartis do que nas fbricas - e investiu
nisto. Os comunistas tinham bases em quase todas as
guarnies mais importantes, aproveitando-se das divises
e do enfraquecimento da disciplina que a Revoluo
de 30 provocara nas Foras Armadas. Todas as manhs,
cada comandante era afrontado com a presena sobre
sua mesa de trabalho, de um exemplar de jornal clan
destino de agitao comunista. No Exrcito era o Unio
de Ferro, na Aeronutica o Asas Vermelhas, na Marinha o
Tringulo Vermelho. O forte impulso pequeno-burgus dos
jovens oficiais fazia com que se preocupassem exclusivamente com a 
agitao, descuidando de angariar o apoio
para se organizar. Nas discusses que tinham em casa diariamente
os dois sozinhos, ou quando o grupo se reunia na casa
de Arthur Ewert, Olga e Prestes pressentiam que no Bra
sil os fatos ameaavam desmentir as experincias e a
teoria revolucionria: a vanguarda da revoluo, pelo
que sabiam, era a classe operria; mas ali o que surgia
como vanguarda era uma extrao militar de origem
pequeno-burguesa. Nem toda a jovem oficialidade, contudo,

84

estava comprometida com a revoluo. No dia em que,
metidos no trabalho de aliciamento, os tenentes Lauro
Fontoura, Edwar Prado e Ilcon Cavalcante, do Centro de
Preparao de Oficiais da Reserva - CPOR -, tentaram
ganhar para as idias de Prestes e da ANL o jovem primeiro
-tenente Slvio Frota - que, nos anos 70, seria mi
nistro do Exrcito e tentaria ser presidente da Repblica
 fora - o que comeou como uma pacifica conversa
poltica quase acaba em tiroteio. Ao perceber que pediam
sua adeso a um movimento de esquerda, Slvio Frota
desabotoou o coldre e bateu na pstola, furioso:
- Olha, Fontoura, comunismo comigo  questo de
vida ou morte. Aqui no CPOR, se tentarem fazer baderna,
vocs sero recebidos a bala. Enquanto eu estiver vivo,
comunista no entra no CPOR.
Quando informaes sobre episdios assim chegavam
s reunies do grupo, Rodolfo Ghioldi manifestava sua
preocupao com o peso cada vez maior dos militares na
Aliana. "Temos que fazer honra aos militares, que 
gente de muita conscincia" dizia ele, "mas se o proletariado
no tiver um papel preponderante, no vejo muito
futuro na organizao popular e na revoluo". Ghioldi
reconhecia, no entanto, que a arregimentao provocada
pela ANL no tinha precedentes na Amrica do Sul. Habi
tuado a certa disciplina no trabalho poltico, ele se sur
preendia com a heterogeneidade e o estilo da militncia
aliancista. Cada reunio da direo comunista era temperada
com um novo episdio cmico que ele presenciara
ou ouvira contar. Um dia era a histria de um militante
esprita do Rio Grande do Norte: homem valente, tinha
estado na Coluna e tomara um municpio de armas na
mo, queria fazer uma reforma agrria radical. Quando
se encontrava com Ghioldi, metia a mo no bolso e exibia
um mao de fotos embaadas, que ele jurava serem de
almas de amigos mortos... que ele mesmo fotografara.
De outra feita Ghold tivera que cuidar para que no
dessem a palavra a um certo aliancista, orador fogoso,
que terminava seus discursos nos atos pblcos dando
"vivas  pequena burguesia".

85

O crescimento da ANL em todo o pas comeou a
assustar o governo. O pretexto que o presidente Getlio
Vargas precisava para conter a mar nacional contra si
surgiria mais depressa do que o esperado. No incio de
junho a Aliana impediu, pela fora, a realizao em So
Paulo de um comcio da Ao Integralista Brasileira, or
ganizao de carter fascista dirigida por Plnio Salgado.
Dias depois, os integrantes de uma manifestao alian
cista em Petrpolis, no Estado do Rio, organizaram uma
passeata at a porta da sede local dos integralistas. A
escaramua entre as duas faces terminou com a morte
do operrio aliancista Leonardo Candu e, em conseqn
cia disso, a cidade foi paralisada por uma greve geral. No
dia 5 de julho, durante os festejos do 13 aniversrio da
revolta dos tenentes do Forte de Copacabana, anunciou-se
que chegara "de Paris ou de Barcelona" um manuscrto
de Lus Carlos Prestes comemorativo da data. A direo
da ANL tentou alugar o mesmo Estdio Brasil onde fora
lida a primeira carta de Prestes, mas Vargas conseguiu
impedir a realizao do comcio. O mesmo se deu com o
auditrio da Feira de Amostras. A incrvel capacidade de
mobilizao da Alana no Ro de Janeiro colocou nas
ruas dezenas de milhares de pessoas que se deslocavam
do Estdio para a Feira, da Feira para a sede da ANL, a
poucos quarteires de distncia uns dos outros, em busca
de um lugar para ouvir a carta do "Cavaleiro da Esperan
a."Da casa na Baro da Torre, Olga e ele acom
panhavam, pelo rdio ou por informes de militantes do Par
tido, a movimentao popular no centro da cidade. No
meio da tarde veio a ordem para que os manifestantes se
dirigissem  Cmara dos Deputados. O representante do
Paran, Otvio da Silveira, o mesmo que anunciara no
Congresso Nacional a fundao da Aliana, leria da tri
buna o manifesto de Prestes. Com a cidade tomada por
tropas do Exrcito e agentes da polcia poltica, a massa
ocupou as galerias e as ruas em torno da Cmara.
O manifesto era durssimo. Denunciava a "decompo
sio do governo de Vargas e de seus asseclas nos Esta
dos" e dizia que a luta que se travava no Brasil era "entre

86

os libertadores do pas, de um lado, e do outro os trai
dores a servio do imperialismo". Atribuindo  ANL a
condio de herdeira dos tenentes de 1922, Prestes pro
punha a organizao e preparao ativa das massas "para
o momento do assalto", e anunciava que "a situao  de
guerra, e cada um deve ocupar o seu posto". O auditrio
e a multido que ouvia na rua deliraram quando o depu
tado Otvio da Silveira leu as ltimas linhas do documen
to: "Abaixo o fascismo! Abaixo o governo odioso de Var
gas! Por um governo popular, nacional e revolucionrio!
Todo o poder  Aliana Nacional Libertadora!". Do lado
de fora, 150 mil exemplares do jornal aliancista A Plaiia,
de So Paulo, trazendo a ntegra do manifesto, eram
disputados freneticamente pelos populares. A vaga huma
na seguiu at a sede da Aliana onde os que conseguiram
entrar inauguraram uma foto de Lus Carlos Prestes.
O manifesto era, sob medida, o pretexto de que Var
gas necessitava. Menos de uma semana aps sua leitura,
no dia 11 de julho, o presidente da Repblica recorria 
recm-editada Lei de Segurana Nacional para decretar a
ilegalidade, em todo o pas, da Aliana Nacional Liber
tadora.
O golpe desferido pelo governo abalou o movimento.
Boa parte dos liberais que o compunham submeteram-se
ao decreto oficial e abandonaram a Aliana, partindo para
a criao de outros partidos ou grupos polticos. A ten
tativa de realizar, em So Paulo, um ato de protesto con
tra o decreto de Vargas foi duramente reprimida pela
polcia - o ato nem chegou a comear- A partir de julho
uma nova ANL, ilegal e mantida basicamente pelos comu
nistas revolucionrios, passava a funcionar nos subter
rneos.
Embora estivesse na clandestinidade, Olga Benario
aproveitou o fato de ser desconhecida da polcia brasi
leira para circular com total desenvoltura. Quase sempre
acompanhada de sua amiga Sabo, mulher de Ewert, tor
nou-se freqentadora assdua da praia de Ipanema e dos
teatros e cinemas da cidade, pela qual a cada dia mais se
apaixonava. Nos cinemas, teatros e cine-teatros espalhados

87

pelo centro e zona sul, as duas viam desde filmes ado
cicados como A Alegre Divorciada, com Gnger Rogers e
Fred Astaire, at as densas peas de Oduvaldo Vianna.
De quando em quando, o prprio Prestes arriscava um
passeio pela praia com Olga, na certeza de que as lti
mas fotos nos arquivos policiais mostravam um homen
barbudo com a longa cabeleira dividida ao meio.
Numa dessas incurses, entretanto, ele chegou a
temer que pudesse ser reconhecido. Caminhando entre as
banhistas que exibiam a ltima moda chegada ao Rio os mais sem mangas 
que deixavam  mostra os sensuais
ombros femininos - deu de cara com o capito Paulo
Kruger da Cunha Ciuz, que passara algumas semanas na
Coluna, no Maranho, e agora retornara s fileiras do
Exrcito. O oficial, porm, passou por eles sem sequer
notar a presena de Prestes, que comentaria com Olga:
- Ainda bem que ele estava mais interessado em
voc do que em mim.
Vestida rigorosamente na moda para manter o dis
farce, Olga cortara o cabelo um pouco abaixo da linha
do queixo e,  sada dos teatros, atraa a ateno dos
homens com seus vestidos parisienses, que lhe atribuam
uma silhueta fina e elegante. Todos os seus vestidos
chegavam ao tornozelo, conforme as determinaes dos cos
tureiros franceses. Rapazes de chapu panam diminuam
a velocidade de suas baratinhas quando a viam, para diri
gir-lhe respeitosos e enfatuados galanteios, que nem sem
pre Olga entendia direito.
Para as primeiras semanas no Brasil Olga foi obri
gada a comprar um guarda-roupa de emergncia para
ambos, pois os bas despachados de Nova York chega
ram com muito atraso ao Rio de Janeiro. S Amrico
Dias Leite, o destinatrio nominal da carga, poderia retirla no 
escritrio carioca da Wagons Lits Cook, o que
obrigou Olga a incontveis visitas com ele ao porto at a
chegada do cargueiro. Para o endereo de Dias Leite era
enviada tambm a correspondncia vinda da Europa sempre em nome de 
Antnio Vilar, ou de sua
mulher; para essa operao rebatizada de "Yvonne Vilar".

88

Os programas sociais de Olga e Sao somente eram
suspensos nas noites de quintas-feiras e domingos quando o Estado Maior 
da Revoluo se reunia na casa
de Ewert para avaliar o avano do trabalho. Nesses dias
Elise dava folga  empregada domstica Deolinda Elias,
para que pudessem conversar  vontade: l estavam sem
pre Ewert, o secretrio-geral do Partido, Maciel Bonfim
- o Miranda -, Rodolfo Ghioldi e Prestes. Olga, que
falava fluentemente vrios idiomas e conseguia se ex
pressar com alguma facilidade em portugus, trabalhava
como tradutora simultnea. Os encontros sempre comea
vam no final da tarde e terminavam antes da meia-noite,
e eram regados a salgadinhos e goles de usgue. Quando
o calor era muito forte, Ewert brindava os convivas com
uma inveno sua: um coquetel  base de vinho branco
alemo e suco de abacaxi.
Foi numa dessas reunies que o comando revoluci
onrio decidiu aumentar as meddas de segurana em tor
no de Prestes. A discrio com que ele vivia era grande,
todos reconheciam, e na eventualidade de uma invaso
policial, os documentos importantes do grupo estariam a
salvo pelo diablico sistema de segurana montado por
Gruber na casa de Prestes e Olga: na portinhola do cofre,
o alemo instalara grande quantidade de dinamite e de
bombas incendirias, ligadas a um minsculo sistema de
detonao. Quem tentasse abrir o cofre sem desativar o
mecanismo certamente voaria pelos ares com todo o con
tedo - dinheiro e documentos - e pedaos da prpria
casa. Alm disso, havia a tranqilizadora presena de
Olga, que acompanhava Prestes por toda parte, sempre
armada de uma pstola.
Todos esses cuidados, no entanto, pareciam nsuf
cientes. Notcias esparsas publicadas em jornais insinua
vam que a polcia desconfiava da presena de Lus Carlos
Prestes em territrio brasileiro. Era preciso fazer alguma
coisa, tal como as duas cartas, para convencer as autori
dades de que Prestes continuava no Exterior. Arthur
Ewert, como Olga, um dos mais preocupados com os ris
cos que Prestes corria no Brasil, chegou a sugerir que

89

Rodolfo Ghioldi embarcasse no dirigvel Graff Zeppelin,
ancorado no Rio de Janeiro, e fosse a Moscou discutir a
questo com o Comintern, mas a idia foi colocada de
lado. Semanas depois o grupo saberia que seus temores
eram compartilhados pela alta direo comunista na
Unio Sovitica.
Aos primeiros dias de setembro, agentes do Inteili
gence Service - o servio secreto ingls -, fizeram
chegar s mos do capito Filinto Mller, o temido chefe da
polcia do Distrito Federal, a edio de 25 de agosto do
dirio Pravda, rgo oficial do Partido Comunista da
URSS, que estampava uma notcia tranqilizadora para
a polcia brasileira, Sob uma fotografia de corpo inteiro
de Lus Carlos Prestes - uma foto antiga, em que ele
ainda usava a barba e o cabelo longos - o jornal anun
ciava sua presena em Moscou e informava que pela pri
meira vez um latino-americano era eleito membro efeti
vo da Comisso Executiva da Internacional Comunista,
Prestes passava a fazer parte da cpula comunista mun
dial, entre outros, ao lado de Joseph Stlin, Dmitri Ma
nuilski, Georgi Dimitrov, Mao Ts-tung, Dolores Ibarruri
- a Pasionaria espanhola -, Palmiro Togliatti e Bela
Kuhn. Se"Prestes estava em Moscou no VII Congresso da
IC, no final de agosto, e se prentendia retornar ao Brasil,
isto s aconteceria por volta do fim do ano: a polcia bra
sileira sabia que, com todas as dficuldades de transporte,
uma viagem clandestina da Unio Sovitica ao Brasil exi
giria, no mnmo, um par de meses. A tenso que tomara
conta da polcia se desfez com a notcia do Pravda. O ser
vio secreto ingls e o capito Filinto Mler tinham engo
lido a sca dos comunstas.

7.
"A Revoluo est
nas ruas"

91

Olga procurava no se intrometer nas questes inter
nas do PC e da Aliana, mas nem por isso deixaria de ma
nifestar mais de uma vez, a Prestes e a Rodolfo Ghioldi,
sua preocupaoo com alguns fatos que considerava inex
plicveis. Ela no entendia, por exemplo, como Miranda
- a quem Ghioldi se referia como "um tipo semi-analfa
beto e sem preparo poltico" - pudera chegar a secret
rio-geral do Partido, exercendo influncia e autoridade
sobre tantos intelectuais e militantes com uma longa his
tria de lutas. E embora estivesse no Partido h menos
de dois anos, era ele quem dava as cartas, com poder
cada dia maior.
A ilegalidade da Aliana Nacional Libertadora trans
formara um movimento de massas de carter nacional
em um aparelho clandestino, praticamente controlado
pelo Partido Comunista, onde era difcil identificar quem era
s aliancista e quem era tambm comunista. E a orien
tao imposta aos que permaneceram na organizao era
a de trabalhar com afinco para a insurreio que Miranda
tanto anunciara aos dirigentes soviticos. A Lus Carlos
Prestes cabia executar na ANL as decises que o Partido
tomava.
O PC se preparava em todos os sentidos. Um pequeno
mas minucioso servio de inteligncia foi montado e por

92

meio dele organizou-se um fichrio com os nomes de to
dos os alcaguetes empregados pela polcia poltica e dos
policiais que militavam na Ao Integralista Brsileira.
Como muitos dos componentes da Coluna Prestes
tivessem ingressado na polcia ao retornarem do exlio, a in
filtrao dos comunistas era rica e abundante. Irregular
mente circulava entre o comando revolucionrio uma
espcie de boletim secreto revelando as mudanas na pol
cia: quem tinha sido transferido e quem fora admitido,
que investigaes estavam sendo feitas por Filinto Ml
ler e por seu lugar-tenente, o capito Miranda Correia,
delegado especial de Segurana Poltica e Social. Os
recursos materiais para manter a mquina partidria em
funcionamento no constituram problema para os comu
nistas. Alm do dinheiro trazido por Olga e Prestes e dos
fundos controlados por Lon Valle, o grupo recebia, atra
vs da Argentina, gordas e regulares remessas de dlares
- que podiam ou no ser verdadeiros, pois o Comintern
tinha  sua disposio alguns dos mais talentosos grfi
cos alemes. Por outro lado, os gastos tambm eram
grandes: um dos balancetes do Partido revelava que, em
apenas um dos meses do segundo semestre de 1935, a
manuteno do PC chegou a 70 contos de ris - suficien
tes para a compra de 15 automveis americanos de luxo.
A predominncia do PC sobre a Aliana, entreianto,
somada  linha insurrecional que passou a orientar o mo
vimento, acarretaria a perda de alguns dos mais valiosos
aliados de Prestes. Em agosto ele recebe uma carta do
general Miguel Costa, seu companheiro da Coluna, que
partilhara com Caio Prado Jnior a direo da Aliana
Nacional Libertadora em So Paulo. O militar faz uma
anlise do momento poltico, no poupa crticas a
Prestes pelo teor do manifesto de 5 de julho e se coloca con
tra a tese da insurreio:
Vem o 5 de julho. Voc, naturalmente pouco ou mal in
formado, supondo que o movimento da ANL tivesse tanto
de profundidade como de extenso, lanou o seu mani
festo, dando a sua palavra de ordem de "todo o poder 
ANL". Brado revolucionrio, subversivo, s aconselhado
nos momentos que devessem preceder a ao. Gritou que,


93

para estar certo, deve ser respondido pela insurreio
(...) Veio o decreto do fechamento da ANL e este movi
mento popular no reagiu nem com duas greves organi
zadas. Os companheiros do Exrcito e da Marinha que se
encontravam  frente da agitao, esto uns presos, outros
transferidos para os fins do mundo. As sedes da ANL
acham-se fechadas, seus membros tm que se agitar na
ilegaldade, com movimentos muito mais lerdos, muito
mais difceis, muito menos eficientes. Acho que a sua pa
lavra, no momento, era indispensvel. Mas, se voc tivesse,
em vez de pregar o assalto ao poder, recomendado a mais
viva congregao em torno da Aliana, no se teriam
precipitado os acontecimentos. Habituando-se a massa popu
lar a cumprir as palavras de ordem, aos poucos, ela cum
priria a da tomada do poder quando a direo, mais tarde,
assim o determinasse. Mas tal ordem s deveria ser dada
quando o governo j se encontrasse na impossibilidade
total de reagir. O contrrio foi  como atuar uma crian
a desarmada contra um elefante.
O tom da carta  de despedida. Miguel Costa termina
propondo a continuao da luta dentro da legalidade
mediante a criao de organizaes partidrias nos Estados,
com programas idnticos ao da ANL, mas com outra
denominao, todas devidamente inscritas nos tribunais
eleitorais. Esses partidos, segundo a sugesto, deveriam
manter uma organizao secreta, ao lado da fachada legal,
"para preparar uma reao efetiva das massas no caso de
um golpe fascista". A resposta de Prestes s viria em mea
dos de outubro. Numa carta de duzentas linhas datilogra
fadas, escrita em linguagem to amvel quanto a do
general, Prestes concorda com algumas das crticas feitas pelo
velho amigo, diverge em outros pontos, convida-o a
permanecer na ANL e imagina-o chefiando o governo de So
Paulo na condio de aliancista. Em um ponto, contudo,
a divergncia permanece - Prestes mantm a defesa in
transigente da tomada do poder.
Quanto ao tempo de que dispomos para a preparao da
luta pelo poder, segundo todas as informaes que tenhu
de diversos pontos do pas,  coisa que se torna cada dia
mais prxima. Seria leviandade Falar aqui de datas, mas
as condies ohjetivas indicam que de um momento para
outro podemos estar frente a acontecimentos de tal enver
gadura que sejamos obrigados a por na ordem do dia a
questo da tomada do poder. Por isso a importncia do

94

Trabalho conspirativo, j no s de arregimentao, como
de organizao do movimento. Neste sentido peo-lhe que
continue a apoiar e a ajudar, em tudo o que lhe for pos
svel.
Cuidadoso com a segurana, Prestes termina a carta
com um despiste:
Naturalmente, se os acontecimentos se preciPitarem,
teremos ocasio de nos vermos e, portanto, de diretamente
combinarmos as medidas de maior importncia, porque
no momento da luta ou pouco antcs estarei no Brasil.
Peo-lhe transmitir aos companheiros de So Paulo as
minhas saudaes revolucionrias e abraar em meu nome
os velhos companheiros da Coluna.
No havia dvidas de que, para Prestes, a revoluo
estava prxima. Nas semanas seguintes, entretanto, no
haveria o menor indcio de que algo de anormal estivesse
ocorrendo no pas. Curiosamente, notcias "plantadas" em
jornais conservadores denunciavam a presena de
Prestes ora no Nordeste, ora em Trs Rios ou Barra do Pira,
no interior do Estado do Rio. A cada alarme falso, o jor
nal paulista A Platia, que sobrevivera ao fechamento da
Aliana Nacional Libertadora - estampava um desmenti
do: "Prestes, toda gente o sabe, acha-se na Europa, tendo
sido as suas ltimas cartas para o nosso pas datadas de
Barcelona e de Paris".
Nem o prprio Prestes, no entanto, poderia imaginar
que a insurreio explodiria to cedo e de forma to im
previsvel. Ao meio-dia de 23 de novembro os soldados
e sargentos do 21  Batalho de Caadores de Natal, capi
tal do Rio Grande do Norte, tomaram a guarnio militar
da cidade, prenderam os poucos oficiais que ali se encon
travam, j que era sbado, e entregaram o comando da
unidade ao sargento Dinis Henriques e ao cabo Estevo.
O governador Rafael Fernandes, seu secretariado, os poli
ciais de planto na cidade e os oficiais que se encontra
vam Fora do quartel dividiram-se na fuga: parte escon
deu-se na casa do cnsul honorrio do Chile, alguns se
espremeram no avio Croix do Sud da companhia Lat
coere, que estava na cidade, e o restante decidiu resistir

95

no quartel da Fora Pblica estadual. Os oficiais presos
foram encarcerados em navios que se encontravam atra
cados no porto.
Uma nica edio feita s pressas do jornal Liber
dade anunciava que o poder estava nas mos da Aliana
Nacional Libertadora, que acabara de instalar o Governo
Popular Revolucionrio, cujo comando era camposto pelo
operrio Jos Praxedes de Andrade, o sargento Quinno
de Barros, o carteiro Jos Macedo, o estudante Joo Gal
vo e o funcionrio pblico Lauro Lago. Foi um misto de
insurreio poltica e carnaval: o povo aderiu  revolta,
invadiu os quartis ocupados, roubou os fardamentos
guardados nos depsitos e saiu pelas ruas fantasiado de
soldado: Os transportes urbanos passaram a ser gratuitos
por decreto revolucionrio. Os cofres dos bancos foram
arrombados e o dinheiro - milhares de contos, uma for
tuna - expropriado e distribudo entre a populao. A
"zona liberada" estendeu-se por mais meia dzia de mu
nicpios do interior, mas a revoluo dorou apenas cinco
dias. Na quarta-feira tropas federais e de Estados vizi
nhos retomaram a capital e as cidades ocupadas, reem
possaram o governador e prenderam centenas de revol
tosos.
Durante aqueles cinco dias o governo tivera que sufo
car outro levante militar feito em nome da Aliana Na
cional Libertadora. No domingo, dia 24, os tenentes La
martine Coutinho e Sylo Meirelles tomaram o 29. Batalho de Caadores de 
Recife, em Pernambuco, e resistiram
durante 48 horas, no quartel e nas ruas da cidade, at
serem cercados e dominados por tropas oficiais.
No Rio de Janeiro, Rodolfo Ghioldi empalideceu ao
comprar os jornais de domingo com as notcias de Natal.
Correu  casa de Prestes, que acabara de ser informado
dos acontecimentos. Acompanhados de Olga, dirigiram-se
 casa de Ewert e decidiram entrar em contato com
Miranda o mais rpido possvel, para que os quatro tomas
sem as medidas necessrias diante daqueles eventos
inesperados. Miranda, todavia, somente seria localizado no
fim da tarde de segunda-feira, dia 25. Prestes j tinha

96

opinio formada a respeito do que fazer, mas por uma
questo de disciplina partidria no quis agir sem antes
deliberar com o secretrio do Partido. A reunio acabou
sendo realizada na casa de Olga e Prestes, e entrou pela
madrugada. Dela participaram o casal, Ewert, Ghioldi e
Miranda. A princpio, Prestes era o nico a defender o
levante no Rio de Janeiro, insistindo em que no
poderiam abandonar os companheiros de Natal e Recife.
Ewert e Ghioldi apenas ouviam e Miranda relutava. A
medda que Prestes relacionava as guarnies dispostas
 insurreio - a Vila Militar, a Escola Militar, a Escola
de Aviao -, o secretrio do Partido foi cedendo. No
meio da reunio ele prprio j estava to seguro do triun
fo da revoluo que props a convocao de uma greve
geral em apoio  revolta. Nesse momento Rodolfo Ghiol
di interrompeu o silncio que mantivera at ali:
- Eu voto contra a insurreio e contra a greve
geral. A anlise que fao indica que no temos condies de
realizar nem uma nem outra coisa. Tenho tido contato
com os companheiros e sei que isto s existe no papel.
Ewert assentiu com a cabea. Foi a que Prestes jogou
sobre a mesa aquilo que Ghioldi chamaria de "o s de
ouros escondido na mang", Solene, ele informou a seus
companheiros:
- A Marinha de Guerra est comprometida conosco
e se fizermos o levante ela toma o poder ao nosso lado.
Os dois estrangeiros se espantaram com a notcia e
a segurana com que foi dada. Ghioldi pediu que Prestes
fizesse a gentileza de repetir o que acabara de dizer.
Prestes insistiu:
- A Marinha de Guerra est comprometida comigo
para tomar o poder.
Ghioldi e Ewert se curvaram ao argumento. E foi
o argentino quem falou:
- Se  assim, que se faa a insurreio.
O plano da revoluo foi detalhado ali mesmo.
Prestes despacharia mensageiros de confiana a todas as guar
nies onde havia oficiais  espera de orientao e aos
navios da Armada, onde o Partido tinha bases

97

comprometidas com o levante. O 3. Regimento de Infantaria, do
capito Agildo Barata, se levantaria e suas tropas se divi
diriam em trs colunas: uma marcharia rumo ao Arsenal
da Marinha, para auxiliar o Batalho Naval; outra se diri
giria ao Palcio do Catete, sede do governo, prenderia o
presidente Getlio Vargas e quem estivesse com ele; uma
terceira tomaria o Palcio Guanabara, residncia oficial
do presidente da Repblica. Prestes pediu que Miranda
conseguisse algum de confiana para levar uma mensa
gem ao capito Andr Trifino Correia, comandante de um
batalho em Ouro Preto, no interior de Minas Gerais. E
ali mesmo escreveu um bilhetinho:
Meu caro Trifino:
Estamos frente  Revoluo. Aqui no pudemos esperar
mais de 2 ou 3 dias. Conto com a tua energia e deciso
no sentido de dirigir a Revoluo em Minas Gerais. Abra
a-te o
Prestes.
Com a energia de um comandante, Prestes deu suas
ordens. Instruiu Miranda para que tomasse algumas pro
vidncias na manh seguinte: primeiro, era necessrio
arranjar uma nova casa para Olga e ele, na zona norte.
Desencadeado o levante, era importante que estivesse em
local de fcil acesso ao complexo da Vila Militar, no su
brbio carioca. Miranda deveria tambm orientar Barron
para que  esse colocasse o aparelho de rdio em condies
de funcionamento. Barron informaria ao Comintern, atra
vs de mensagem cifrada em morse, da deciso do levante.
A freqncia em que a estao operaria fora distribuda
pelo prprio Prestes, e Recife passaria a comunicar-se
com eles a partir do dia seguinte. Dias depois, entraria no
ar o contato do Bir Latino-Americano do Comintern, em
Montevidu.
As notcias que chegavam ao Rio no dia 26 de novem
bro sobre os acontecimentos em Recife eram pouco
precisas e contraditrias. Mas no havia dvidas sobre o
sucesso no Rio Grande do Norte: tanto Natal como as
cidades do interior continuavam sob o controle do
Governo Popular Revolucionrio - a nica reao fora a

98

de um certo fazendeiro, o "coronel" Dinarte Mariz, que
armara pessoalmente sua tropa de jagunos que
tentaram desalojar os revolucionrios. Na manh do dia 26,
os jornais davam destaque  deciso do presidente Get
lio Vargas de contra-atacar, decretando o estado de stio
por trinta dias em todo o pas, "para que o Estado
pudesse defender-se da insolncia comunist". Prestes e Olga
tiveram um dia de atividade febril. Todos os contatos do
Partido e os simpatizantes nos quartis do Exrcito, da
Aviao Militar e da Armada haviam sido avisados da
deciso do levante. O presumido apoio da Marinha, mais
os levantes do Nordeste e do Norte, devem ter pesado
bastante na deciso de Prestes, pois, semanas antes, ao
responder a uma carta do comandante Roberto Sisson,
ele dissera no acreditar que havia chegado o momento
da tomada do poder. Sisson estava entusiasmado com
uma greve de trabalhadores em Petrpolis, mas Prestes
retrucara prudentemente que "seriam necessrios mui
tos Petrpolis" para que surgissem as condies propcias.
No final da tarde todos os preparativos estavam mon
tados. Quando a noite caiu, Prestes e Olga mudaram-se
da casa de Ipanema para a que Miranda arranjara na rua
Correia de Oliveira, em Vila Isabel, a meio caminho da
Vila Militar, a mais importante guarnio da capital. No
momento em que os revoltosos tomassem as unidades,
bastariam uns poucos minutos para que Prestes assumis
se, da Vila Militar, o comando do pas. Antes de partir,
ele improvisou num carto um salvo-conduto para Ewert,
ujos termos davam a medida da sua certeza quanto 
vitria do movimento:
Salvo-conduto
O portador deste, Sr. Harry Berger (nacionalidade norteamericano [sic])  
pessoa para a qual exijo o maior
respeito e considerao.
Rio, 26 -11 - 35
Lus Carlos Prestes

Restava ainda uma ltima providncia: redigir o
manifesto que seria distribudo  populao, convocando-a
para a revolta. E  com esse panfleto que o Partido

99

Comunista admite, pela primeira vez, a presena de Prestes
no pas:
POVO HRASILEIRO!
(..-) Est sendo decidida a causa do Brasil e de todos
os seus filhos. Ningum poder permanecer indiferente.
No se trata de "movimento comunist", como apregoa
a imprensa vendida ao imperialismo e  camarilha de
Vargas!  a Revoluo Popular pela Libertao Nacional
do Hrasil que est em macha, dirigida pela Aliana Na
cional Libertadora e seu glorioso chefe Lus Carlos Prestes.
O Partido Comunista do Brasil (Seo da Internacional
Comunista) apia com todo o vigor, firmeza e deciso esse
herico movimento revolucionrio!
povo Brasileiro! Aproxima-se a hora da vitria sobre os
seculares opressores e exploradores do nosso pas!
Lus Carlos Prestes, o heri antiimperialista e antifeu
dal, o chefe querido em torno do qual se unem todos os
brasileiros, volveu a sua terra, est entre ns e dirige us
combates decisivos da Revoluo Nacional Libertadora.
Comunistas e simpatizantes do Partido! Ocupai vossos
postos de combate com as armas nas mos com toda a
iniciativa e deciso. Ningum em casa! Todos nas ruas,
nas lutas, nas barricadas, com os soldados e marinheiros
do Brasil! (...) Operrios dos transportes e das indstrias ides
- s greves e s lutas de ruas por vossas reivindicaes
e pela libertao do Brasil! Camponeses, colonos assala
riados agrcolas -  luta contra os grandes senhores da
terra, por vossas reivindicaes e para que a terra vos
pertena! Soldados e marinheiros do Brasil! Com todo o
povo libertador, libertemos a nossa ptria do jugo
imperialista(...) Abaixo o governo de traio nacional de Vargas e a
sua camarilha reacionria nos Estados!
Viva a Revoluo Nacional Libertadora!
Viva u Governo Popular Nacional Revolucionrio e seu
glorioso chefe Lus Carlos Prestes! !
Por po, terra e liberdade!
Todo u poder  Aliana Nacional Libertadora!
O Bureau Poltco do
Partido Comunista do Brasil
(Seo da Internacioual Comunista)
Movidos por alguma arte do instinto, Prestes e Olga
resolveram que no seriam levados para Vila Isabel por
Erika, a jovem mulher de Gruber que at ento servia
como motorista do casal- Para isso, Prestes chamou um
velho amigo seu, o major Vitor Cesar da Cunha Cruz, na
quela poca eursando a Escola de Comando e Estado

100

Maior do Exrcito. Embora no fosse comunista, Cunha
Cruz era de total confiana, e, sendo oficial do Exrcito,
eliminava os riscos de serem interceptados por alguma
patrulha. A viagem at as imediaes da Vila Militar
transcorreu sem nenhum contratempo.
 noite Victor Batron ligou pela primeira vez a enor
me estao de rdio que lhe custara quase um ano de
peregrinao a dezenas de lojas e cidades diferentes.
Quando as luzinhas coloridas acenderam e o aparelho
comeou a funcionar, ele buscou em suas anotaes a
freqncia em que deveria sintonizar a estao do Comin
tern, instalada do outro lado do planeta, em Moscou. No
levou muito tempo para transmtr a mensagem cifrada
do comando revolucionrio, informando que o levante
fora desencadeado. As ondas trouxeram at o Rio,
tambm cifrado, um elogio que o encheu de orgulho. De Mos
cou, a direo do Comintern desejava pleno xito  em
preitada e cumprimentava "o grande bolchevique Victor
Barron por seu desempenho".
A revoluo comunista brasileira ia comear s trs
horas da madrugada.
8.
Um espio entre
os comunstas 101

A revoluo comeou s trs horas da madrugada e
acabou  uma e meia da tarde.
Nenhuma das guarnies da Vila Militar se levantou.
No houve rebelio na Escola Militar. Nem no Arsenal
da Marinha. Tampouco no Batalho Naval. Preso em Mi
nas Gerais, o capito Trifino Correia sequer recebeu o
bilhete de Prestes - tanto o mensageiro que deveria con
tat-lo quanto o que se dirigia ao Rio Grande do Sul, com
idntica misso, foram apanhados pela polcia antes de
sarem do Ro de Janeiro. Rodolfo Ghold dria anos
depois, melanclico:
- A greve geral imaginada por Miranda no conse
guiu paralisar ningum. E o prometido apoio da Marinha
de Guerra  revoluo no mobilizou nem as barcas da
Cantareira,
A revolta ficou restrita ao 3" Regimento de infantaria,
 Escola de Aviao Militar e foi sufocada  fora
em poucas horas. O 3. RI ficava na Praia Vermelha, no
centro da zona sul do Rio de Janeiro, espremido entre
trs morros. L dentro, para combater e dominar 300
oficiais e cerca de 1700 soldados, o Partido Comunista e
a Aliana Nacional Libertadora contavam, ao todo, com
menos de 30 homens, entre ofciais e soldados. A misso
de camandar a insurreio caberia ao valente e aguerrido
capito comunsta Agildo Barata, que, no entanto, talvez
fosse a pessoa menos indicada para a tarefa: ele tinha
sido transferido do Sul para o Rio havia menos de um
ms e sua nica ligao com a tropa do 3. RI residia no
fato de estar ali cumprindo pena de priso disciplinar por
25 dias, acusado de tentar organizar a ANL nos quartis
do Rio Grande do Sul.
Todas as tropas federais assentadas no Rio de Ja neiro tinham entrado em 
rigorosa prontido na noite de
23 para 24 de novembro, aps chegarem  capital federal
informaes da tomada de Natal pelos revoltosos. A not
cia de que Lus Carlos Prestes teria sido visto na cidade
de Barra do Pira fez com que o Comando da 1  Regio
Militar despachasse para l uma companhia do 2. Regi
mento de Infantaria, a fim de prevenir "qualquer pertur
bao da ordem ou surgimento de movimento subversi
vo". No 3 " RI todo o efetivo mantinha-se em estado de
alerta: com as armas sempre  mo, a tropa fardada s
tinha permisso para recostar-se nas camas, sem sequer
tirar os coturnos. Os oficiais, vigilantes, percornam o
quartel de pistola em punho, madrugada adentro, e exi
giam autorzao superior at para que os soldados fos
sem ao banheiro. Todos esses cuidados levantam a sus
peita de que o governo soubesse que a rebelio comearia
ali, e quela hora.
Na hora combinada, o tenente Francisco neivas Otero
disparou para o ar rajadas de fuzil-metralhadora: era o
sinal para que cada rebelde, em sua companhia, prendesse
 o comandante e os oficiais legalistas e assumisse o
comando da tropa. Agildo Barata, cumprindo sua pena no
cassino dos oficiais, prendeu ali mesmo o capito Lus
Mximo, que entrou para a histria do levante como o
primeiro refm e a primeira vtima: quando um soldado
tentava ajudar Barata a desarm-lo, a pistola do oficial
legalista disparou, atingindo-o na perna. Aps meia hora
de tiroteio infernal, os revolucionrios tinham o comando
do 3. Regimento de Infantaria. Mas a vitria seria ef
mera: quela hora o presidente Getlio Vargas j havia
sido informado dos acontecimentos por seu ajudante
103

de ordens, tenente da Marinha Emni do Amaral Peixoto,
despertado por um telefonema do tenente-coronel Eduar
do Gomes, relatando a existncia de uma rebelio na
Escola de Aviao Militar, ao lado da Vila Militar. Minutos
depois, quando o presidente se encaminhava para o Mi
nistrio da Guerra, chegou a notcia de que o 3  RI tam
bm estava sendo tomado por uma insurreio,
O general Eurico Gaspar Dutra, comandante da 1 
Regio Militar, determinou o cerco completo do quartel
da Praia Vermelha, onde a situao parecia mais grave.
Em poucos minutos os morros que cercavam a unidade
militar, a Praia Vermelha e a praa fronteiria ao 3. RI
foram tomados pelo Batalho de Guardas, por uma Com
panhia Motorizada de Metralhadoras e um Grupamento
de Obuses Pelo telefone requisitou-se o 1. Batalho de
Caadores, sediado em Petrpolis. Os rebeldes s
perceberam que estavam cercados por volta de quatro horas da
madrogada. Quando uma patrulha tentou sair  rua e
abrir caminho para a tropa revolucionria, as
metralhadoras pesadas do Batalho de Guardas, instaladas
estrategicamente no topo do morro da Urca e no alto da Pedra da
Babilnia, cobriram o prdio de tiros. Trs ou quatro
novas tentativas de tomar a avenida Pasteur,  frente do
quartel, foram repelidas pelo fogo cruzado de obuses de
155 milmetros. Atravs das janelas arrancadas a bala ou
dos rombos provocados por tiros nas paredes, policiais
civis atiravam bombas de gs lacrimognio para dentro
do edifcio.
A poucos metros de distncia o general Eurico Gas
par Dutra, protegido pela laje de tun posto de gasolina,
conseguiu telefonar para o quartel e comunicar-se com
um dos oficiais legalistas presos, o coronel Atfonso Fer
reira. Pouco depois Dutra enviou um emissrio com uma
proposta de rendio dirigida ao capito Barata, caman
dante dos rebeldes. Era um bilhetinho curto e formal:
Senhor Comandante Revolucionrio do 3^ RI:
O general comandante da 1" RM - vosso comandante
- vos concita a depor imediatamenfe as armas e rendervos; vosSa situau 
 insustentvel e  aconselhvel evitar
inteis sacrfcos,
27- 11- 1935

Gen. Eurim Gaspar Dutra

Agildo Barata considerou "uma petulncia" a pro
posta de rendio incondicional, mas percebeu, pelo tom
do bilhete, que o generalj se considerava vitorioso. Pelo
rdio do quartel, entretanto, Barata tomara conhecimen
to de "graves perturbaes da ordem" na Escola de Avia
o Militar, no Campo dos Afonsos. Se at aquele mo
mento o governo no havia utilizado a aviao para desa
loj-los do 3. RI, isto podia ser um indcio de que a
Escola estivesse sob o controle dos rebeldes. O melhor, por
tanto, era ganhar tempo e esperar. Nada de rendio.
Passou algum tempo at que o mensageiro do general
Dutra - um sargento do Batalho de Guardas - pudesse
sair do quartel com a resposta de Barata. Utilizando uma
ambulncia que tirava feridos do prdio, o sargento en
tregou a seu superior um pedao de papel em que os
rebeldes repeliam a proposta:
Gen. Dutra
Comandante da 1" RM
Regimento sob nosso comando no Se render antces
vermos governo esfomeador Getlio derrubado,
Concitamos prezado Companheiro salve Brasil ser entre
gue mos estrangeiros por Getlio. Flores e Catervas.
Todo Regimento conosco. Esperamos do chefe da 1."
RM unio onto de vista, capaz livrar nossa ptria garras
Getlio. Movimento no  comunista! mas nacional, popular,
revolucionrio com o mais digno dos nossos companheiros
 frente: Lus Carlos Prestes.
Agildo Barata Ribeiro
Capito Comandante 3^ AI Popular Revotucionrio
lvaro Francisco de Souza
Capilo Comandante do 3. R1
Barata ainda no sabia, mas quela altura, ao clarear
do dia 27, a revolta da Escola de Aviao Militar havia
sido debelada e seus lderes, os capites Scrates Gonal
ves da Silva, Agliberto Vieira e os tenentes Ivan Ribeiro
e Dinarco Reis, alm de mais de uma centena de oficiais
e soldados, encontravam-se todos presos. No momento em
que o general Dutra lia a resposta de Barata a sua

105

proposta de rendio, o presidente Getlio Vargas, vitorioso,
percorria os escombros da Escola de Avao Militar em
companha do tenente-coronel Eduardo Gomes, que sara
da refrega com a mo ferida por um tiro de fuzil. Com a
Escola de Aviao retomada, o governo concentrou mais
foras militares em torno do 3. RI. Um dos pavilhes
estava sendo devorado por chamas provocadas pelo bom
bardeio pesado e s 2 horas da manh os rebeldes per
ceberam, no cu, que estavam derrotados: avies mili
tares faziam ameaadores vos rasantes sobre o que
restava do quartel. Barata ordenou que um corneteiro toca
sse "cessar fogo" para reiniciar as conversaes com Du
tra. Seus dois mensageiros foram presos e desarmados 
sada do prdo, e mnutos depois o general e seus caman
dados entravam no prdio para receber a rendio dos
insurretos. Um oficial que acompanhava Dutra no con
teve a provocao e perguntou.
- Quem  o filho da puta do Agildo Barata?
O capto revoluconro respondeu,furoso:
- O Agildo Barata sou eu! O filho da puta s tu?
A revoluo chegava ao fim com um palavro, duas
dezenas de mortos e centenas de presos. E os comunistas,
aliancistas e simpatizantes comeavam a ser vitimados
pela maior caada polcal que o pas conhecera. Os ofciais derrotados 
deixaram o 3  RI festivamente, de bra
os dados e dando vivas  revoluo. Na delegacia de
polcia, para onde foram levados em nibus emprestados
ao Exrcito pela companhia canadense de eletricidade
Light de Power, Agldo conversou alegremente com os
reprteres e contou detalhes da batalha da madrugada.
Quando os jornalistas quiseram saber as razes do levan
te, ele no teve dvidas em exibir o bilhete de Prestes
determinando a hora em que a revolta deveria comear.
Minutos depois, oficiais, cabos, sargentos e soldados
foram levados para a Casa de Deteno, um enorme pres
dio na rua Frei Caneca, no centro da cidade, transforma
do em priso poltica.
O estado de stio decretado na antevspera pelo
presidente da Repblica deixa o governo livre para

106

desencadear a represso. Investido de poderes absolutos o
chefe de polcia do Distrito Federal, capito Filinto Ml
ler, probe o porte de armas no Rio de Janeiro e esta
belece que ningum pode sair da cidade sem autorizao e
salvo-conduto da Delegacia Especial de Ordem Social e
Polticas chefiada por um homem de sua absoluta con
fiana, o tambm capito Emlio Romano. As fichas de
"extremistas", anarquistas, comunistas, socialistas, trots
quistas e membros ou meros simpatizantes da Aliana Na
cional Libertadora so transformadas em mandados de
priso. Os agitadores mais notrios e os suspeitos de
comprometimento com o Partido Comunista so levados
para o quartel-general da Polcia Especial, no morro de
Santo Antnio. Em poucos dias j se sabe que "ir para o
morro de Santo Antnio" significa ser submetido s mais
brutais formas de tortura. Filinto Mller quer pegar a
ponta do novelo da revolta de qualquer jeito, e ningum
est a salvo: entre os primeiros alcanados pela rede jo
gada sobre o pas esto Roberto Sissn, Francisco Man
gabeira, os intelectuais Castro Rebelo, Lus Carpenter,
Lenidas Rezende e Maurcio de Medeiros. Contra os sus
peitos de Idias extremistas, mas que no as colocaram em
prtica, Filinto impe uma pena mais branda: a perda do
emprego. Para dar o exemplo, um dos primeiros alingi
dos  o prprio secretrio da Educao do Distrito
Federal, o professor Ansio Teixeira. A polcia requisita ao
Lloyd Brasileiro o navio Dom Pedro 1 e transforma-o em
priso flutuante, ao largo da baa da Guanabara. A vora
gem da represso  grande: o navio logo est cheio assim
como as galerias de celas na Casa de Deteno, onde cen
tenas de presos e suspeitos se amontoam  espera de uma
acusao formal. Uma caravana de nibus da Light retira
400 soldados da Casa de Deteno e leva-os at o cais Pharoux, no centro 
da cidade, de onde so embarcados para
a ilha das Flores - que a cada dia passaria a receber
novas levas de prisioneiros. No final do ms milhares de
pessoas haviam sido presas em todo o pas e os pores
do Dom Pedro I receberam suas trs primeiras hspedes:
io7
Maria Werneck de Castro, Catharina Landeberg e Aman
da Alberto Abreu, dirigentes da Unio Feminina Brasi
leira, organizao ligada  ANL, acusada pelas autorida
des de ser uma fachada do Partido Comunista. A guerra
aos comunistas ganha adeptos importantes: as investiga
es passam a contar com a colaborao de agentes do
servio secreto britnico, o Intelligence Service e, comen
ta-se abertamente entre os policiais cariocas, da assusta
dora Geheime Staatspoltzei, a Gestapo nazista. Um ms
depois de declarada a guerra contra os comunistas, us
cabeas ainda esto  solta - o estado de stio  prorro
gado para permitir que as investigaes prossigam. O Na
tal encontra um Brasil transformado em praa de guerra,
imerso em terror.
No dia 26 de dezembro o jovem mdico Pedro hIava
est passando de ambulncia pela rua Prudente de Mo
raes, em Ipanema, a caminho do trabalho, e chama a
ateno do motorista para a beleza de uma moa de
aparncia estrangeira que cominha pela calada. Quando a
moa chega  esquina da rua Paul Redfern, Nava se sur
preende com a reao dela, que d meia-volta e retorna
correndo, como se fugisse de algum. O mdico espicha
o pescoo para tentar identificar o que tanto aterrorizou
a jovem e v, a meia quadra dali, dezenas de policiais 
paisana, jogando dentro de um camburo um casal tam
bm com jeito de estrangeiro. A moa era Olga Benario
e a polcia de Filinto Mller chegara  casa de Sabo e
Arthur Ewert.
Olga e Prestes haviam retornado  casa da rua Baro
da Torre na manh do dia 27 de novembro, to logo
chegou ao aparelho da Vila Isabel a notcia do fracasso da
revoluo. A polcia estabelecera barreiras em cada
quina da cidade, mas concentrara suas foras nas
imediaes da Urca, perto do 3:" RI. Graas a isso, eles
puderam chegar a Ipanema, levados pelo major Cunha Cruz,
sem ser importunados. Os trinta dias que transcorreram
at a priso de Ewert submeteram o casal a um regime
de clandestinidade rigorosa. Miltantes do Partido que
ainda no estavam gueimados eram utlizados como pom
bos-correio entre a direo do PC e o comando revoluci
onrio. As poucas reunies que realizaram foram cercadas
de um rgido esquema de segurana. Ainda que seu rosto
daqueles dias - barbeado, sem bigodes e de cabelo curto
- tivesse pouco ou nada em comum com as fotografias
estampadas nos jornais, Prestes sabia que estava sendo
caado nas ruas e no podia se arriscar. Olga reforou a
vigilncia em torno dele e saa raras vezes, apenas para
levar ou trazer alguma mensagem entre a sua casa e a dos
Ewert, a poucos passos dali. Em ocasies muito especiais,
quando a escolta de Prestes estava a cargo de algum de
absoluta confiana e bem armado, ela se dava ao luxo de
passar parte da manh com Sabo, tomando banho de mar
na praia de Ipanema.
Na manh do dia 26 de dezembro ela levava alguns
apontamentos escritos pelo marido sobre a situao do
Partido para que Eweri os visse, quando, ao chegar na
esquina da Paul Redfern, apavorou-se com a confuso na
porta da casa dos amigos. Olga ainda pde ver Arthur
Ewert ser atirado a pontaps dentro de um camburo e
vrios homens entrando atrs dele. Sabo era arrastada
 fora e levada para outro veculo. Brandindo ameaa
doramente metralhadoras e fuzis, os policiais afastavam
os curiosos que se aglomeravam  porta da casa. Olga
temeu que, se corresse demais, poderia chamar a ateno
de algum, mas um segundo de demora poderia ser fatal:
se a polcia j tivesse conseguido o endereo deles, em
instantes a casa da Baro da Torre tambm estaria sendo
invadida. Ela subiu aos saltos a escada que levava ao
segundo andar, onde Prestes trabalhava. Misturando
alemo, portugus e trancs, ela agarrou-o pela mo e gritou:
- Vamos sair daqui j! Sabo e Ewert acabam de
ser presos neste instante. Eu vi a polcia lev-los e agora
podem estar vindo para c!
No havia tempo de pegar roupas, papis, coisas
pessoais, nada. Prestes juntou a papelada espalhada sobre a
mesa, atirou-a no cofre guardado pelos explosivos de

109
Gruber e bateu a portinhola com fora. Olga ainda
pensou em levar consigo o cachorro policial que ganhara de
presente do marido, mas logo desistiu da idia: seria um
despropsito fugir da polcia levando um cachorro pela
mo. Os dois saram pela rua pretextando naturalidade
mas tentando ao mesmo tempo escapulir das imediaes
o mais rpido possvel. O primeiro txi que passou
levou-os a Copacabana, ao apartamento onde vivia Victor
Barron. Ali, em relativa segurana, poderiam entrar em
contato com a direo do Partido, que estava providen
ciando novos aparelhos em lugares diferentes da cidade,
certa de que a razia do capito Filinto Mller acabaria
chegando perto dos cabeas. Tanto Prestes quanto Olga
sabiam o endereo do novo aparelho que lhes tinha sido
reservado - uma casa trrea na movimentada rua Nossa
Senhora de Copacabana - mas, como ignoravam de que
forma a polcia chegara at os Ewert, temiam que o
esconderijo pudesse ter sido estourado antes mesmo de ser
ocupado. S quando a noite chegou, com a certeza de que
a polcia no tinha conhecimento do lugar,  que Victor
Barron instalou o casal no carro Graham Page e, depois
de dar algumas voltas no quarteiro para certificar-se de
que no estavam sendo seguidos, nem a casa guardada
 que os deixou no local em que passariam os prximos
quinze dias, at conseguirem outro mais seguro. Na ma
nh seguinte Olga trouxe para Prestes os jornais do dia
e uma notcia intrigante: a imprensa no dava uma linha
sequer sobre a priso de Sabo e Arthur Ewert. o que
permitia duas interpretaes. Ou Filinto sabia quem tinha
nas mos - e naquele momento estaria usando seus
costumeiros mtodos para arrancar-lhe informaes e, s
depois, exibi-lo aos jornalistas - ou ento a polcia acei
tara a fachada e no conseguira estabelecer relao entre
o "norte-americano" Harry Berger e a frustrada insurrei
o do ms anterior.
O prprio Ewert chegou a ter esperanas de que a po
lcia no descobriria sua verdadeira identidade. Que o
cidado americano Harry Berger houvesse participado da
revolta no era assim to grave - o governo brasileiro
com certeza o trataria como a tantos estrangeiros "in
desejveis"; iria deport-lo simplesmente. Seria o diabo, no
entanto, se descobrissem que al estava um dirigente da
III Internacional e do Partido Comunista alemo. No
camburo, a caminho do quartel da Polcia Especial, sua
expectativa se desfez.
At ento, ningum lhe fizera, a ele ou a Sabo, qual
quer pergunta. Dezenas de policiais tinham nvadido sua
casa trazendo um verdadeiro arsenal nas mos: pistolas,
fuzis, metralhadoras. Enquanto ele e a mulher eram ar
rastados para fora, quatro homens e o que ele entendeu
serem duas "testemunhas" - que chegaram junto com
a equipe - ficaram na casa, recolhendo tudo o que
encontravam. No camburo ele foi sentado num banquinho
de lata e teve cada uma das mos algemada a um cano
de ferro soldado na carroaria do veculo, atrs da sua
cabea. Um dos quatro homens que se aboletaram com
ele no carro policial pareceu-lhe louro e esbranquiado
demais para ser brasileiro. Colocando no colo a metralha
dora, o policial tirou de um bolso do palet um quebra
nozes de ferrv e passou a abrir as avels que tirava do
outro bolso. Subitamente, com a mesma naturalidade com
que partia as frutas natalinas, ele segurou a mo esquer
da de Ewert, presa no cano pela algema, ajustou o que
bra-nozes em torno da falange de seu polegar e, com toda
a fora, esmagou-lhe os ossos do dedo. A dor empapou de
suor o rosto de Ewert, que no emtu um nco som.
Mastigando pedaos de avel, e sempre impassivel, o policial murmurou com 
a boca quase encostada ao seu rosto:
- Kommunist Son von einer Hc~re. . .
No foi o palavro que gelou Ewert. Aquela no era
a primeira e certamente no seria a ltima vez que al
gum o chamava de "comunista filho da puta", Aquilo
pronunciado em alemo perfeito, sem nenhum sotaque,
entretanto, o aterrorizou: se aquele era um policial
alemo, como parecia, ele no sairia vivo do Brasil. E, se
sasse, talvez fosse at pior: seria deportado para os
pores da Gestapo, em Berlim. Ento era verdade - a
Gestapo estava ajudando Filinto Mller.

111
Quando o capito Filinto Mller selecionou os agen
tes para a ao na rua Paul Redfern, j sabia quem era
Harry Berger. Uma semana antes o delegado Antonio
navarro Pereira, um dos muitos policiais colocados a sua
disposio, trouxera at seu gabinete um depoimento que
merecia a considerao do chefe de polcia. Entre as de
zenas de comunistas presos, estava Josu Francsco de
Campos, conhecido pelo codinome de Bag, que fizera
declaraes interessantes. Bag contou que meses antes
tinha sido convidado pelo Comit Central do Partido
Comunista para assistir, num stio em Jacarepagu, nas
imediaes do Rio, a uma palestra feita por um estrangeiro,
aparentemente americano, sobre a revoluo chinesa.
Durante uma hora e falando sempre em ingls, o estrangeiro
mostrou ao pequeno grupo de comunistas brasileiros,
num mapa da China pregado na parede, o que tinha sido
a Grande Marcha realizada por Mao Ts-tung. De posse
das informaes dadas por Bag, Filinto Mller entrou
em contato com o Intelligence Service na esperana de
que este identificasse o misterioso conferencista de Jaca
repagu. Foram necessrios poucos dias para que a ficha
completa viesse s mos de Filinto. O louro e corpulento
especialista em revoluo chinesa era o ex-deputado
comunista ao Reichstag e ex-dirigente do Cumintern Arthur
Ernst Ewert, que usava tambm os nomes de Harry
Berger e Arthur Brown. O servio secret :ngl havia
acompanhado o priplo lde Ewert desde que ele sara de
Xangai com destino a Amsterd, usando o passaporte
americano em nome de Harry Berger. Da capital holan
desa ele fora a Moscou com outro passaporte, retornara
a Amsterd e da, de novo como Harry Berger, passara
por Montevidu at chegar ao Brasil, onde se juntaria a
sua mulher. Embora controlando-o de perto desde o navio
que o trouxera de Montevidu ao Rio, e tendo chegado ao
requinte de interrogar at o dono do cominho que trans
portou sua mudana do porto do Rio ao hotel da rua
Marqus de Abrantes, o servio secreto ingls perdera a
pista de Ewert poucos dias depois. Mas no havia qual
quer dvida de que o homem no stio dos comunistas em

112

Jacarepagu era ele, Arthur Ewert, sob o nome de Harry
Berger. Com a cidade ocupada por milhares de policiais,
as sadas fechadas e centenas de comunistas e simpati
zantes presos, Filinto Mller no teve dificuldades para
chegar at a casa da rua Paul Redfern.
Junto com uma montanha de papis, documentos,
manuscritos, manifestos, cartas e bilhetes apreendidos na
casa dos Ewert, a polcia obteve da domstica Deolinda
Elias informaes sobre todos os freqentadores do
aparelho e, inclusive, um endereo que ajudaria a pegar outra
ponta do novelo. A empregada declarou ao policial Fran
cisco Jullien que um dos casais estrangeiros que partici
pava das reunies noturnas - um senhor de cabelos
claros e sua esposa, uma estrangeira que mancava de uma
perna - vivia a poucos metros dali, na esquina da Paul
Redfern com a rua Prudente de Moraes: eram Alphonsine
e seu marido, Lon Jules Valle, o homem das finanas.
Deolinda disse mais: tambm a uma quadra e meia de
distncia, na rua Baro da Torre, vivia o casal com quem
os Ewert tinham relaes mais estreitas. Era a casa de
Prestes e Olga, que minutos depois seria esquadrinhada
centmetro a centmetro por um incomum aparato poli
cial. Aparentando saber que no corriam riscos, dois in
vestigadores arrombaram o cofre embutido na parede do
quarto do casal.
Nem a lanterna "Eveready" entupida de dinamite
nem a bomba contendo meio quilo de trotil explodiram:
os policiais tiveram Livre acesso ao dinheiro e a mais
documentos, cartas, panfletos, mapas e anotaes sobre
a revoluo que no tinha dado certo. Longe de revelar
incompetncia de Paul Gruber, a falha no sistema
explosivo - que a polcia anunciou escandalosamente aos jor
nais como sendo uma "mquina infernal" - parecia
deliberada e confirmava uma suspeita que muitos membros
do comando revolucionrio j tinham, mas nunca haviam
manifestado. Embora fosse homem de confiana do PC
alemo e do Comintern (meses antes de vir par o Brasil,

113

Gruber foi arrolado em processo num tribunal nazista
como "funcionrio graduado" do Partido Comunista
alemo), ele era, na verdade, um espio a servio do Intelli
gence Service Britnico, A comprovao disto s
surgiria quatro anos depois, e ainda assim sob a forma de
informao a que raras pessoas tiveram acesso: preso
nos ltimos dias de 1940, Gruber corria o risco de ser
deportado pelas autoridades brasileiras para seu pas de
origem. Ao tomar conhecimento do fato, a direo do
servio secreto brtnico entrou em ao para salvar a
pele de seu agente infiltrado na cpula comunista. O con
sultor diplomtico do Foreign Of jice - o Ministrio das
Relaes Exteriores britnico - procurou a embaixada
brasileira em Londres e solicitou ao embaixador Souza
Leo que interviesse em favor de Gruber "tendo em vista
os servios prestados na denncia do movimento comu
nista de 1935". Souza Leo transmitiu imediatamente o
apelo britnico  Presidncia da Repblica, no Brasil,
atravs de telegrama, concluindo a operao que salvaria
Gruber, no obstante ser agente infiltrado entre os comu
nistas, de morrer numa masmorra nazista. Cuidadoso
como agente doplo, Gruber conseguiu confundir at as
autoridades diplomticas e policiais dos Estados Unidos.
Poucos dias aps sua priso, o conselheiro da embaixada
americana no Brasil, William C. Burdett, transmitia o
secretrio de Estado Cordel Hull um informe "estrita
mente confidencial" sobre o personagem, afirmando ter
provas de que ele recebera, "de fontes nos Estados Uni
dos", nada menos que 40 mil dlares para financiar suas
atividades no Brasil. Colocado discretamente em liber
dade, Gruber desapareceu como se nunca tivesse existido.
O que foram exatamente os "servios prestados" por
Gruber ao Intelligence Service - depois retransmitidos
por Londres ao capito Filinto Mller - so segredos
que nenhum dos dois lados jamais revelaria. A verdade
 que tanto ele como Erika, sua mulher - datilgrafa de
Ewert e motorista de Prestes - tinham conhecimento de
praticamente todos os planos da insurreio de 27 de
novembro.

9.
"Mister" Xanthaky
entra em cena
115

No comeo da tarde o capito Filinto Mller foi
pessoalmente at Ipanema examinar o tesouro cado nas
mos da polcia e que ainda estava sendo classificado e

encaixotado por dezenas de agentes. Era inacreditvel.
Alm de dlares, gulden holandeses francos franceses e
pesos argentinos, a polcia apreendeu mapas e regula
mentos do Estado Maior do Exrcito sobre "exerccios de
combate da aviao", "emprego de tiro" e "organizao
de ligaes e transmisses de campanha". A papelada deixada por Prestes e 
Olga no cofre era suficiente para in
criminar ou pelo menos deixar sob suspeio centenas de
pessoas, algumas identificadas apenas por um codinome
mas muitas delas com nome, sobrenome e endereo com
pletos. Filinto Mller folheou, triunfante documentos do
Comintern, papis secretos do Exrcito hrasileiro cartas
assinadas por "Vilar" ou "Garoto" a dirigentes do PC e
da Aliana Nacional Libertadora em todo o pas, alm de
rascunhos de bilhetes de Prestes a Roberto Sisson, Her
colino Cascardo e Agildo Barata contendo instrues para
a revolta, esquemas detalhados sobre o funcionamento de
clulas cvmunistas, mapas indicativos sobre como sinto
nizar a estao de rdio montada por Barron, bilhetes
decodificando os codinomes de dirigentes comunistas e
de personalidades que audavam o Partido, cartas

116

trocadas entre Prestes e o general Miguel Costa, instroes
para o funcionamento dos comits estaduais do PC aps
o fracasso da revolta, cartas dando clara indicao de que
o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, era um
aliado dos revoltosos, e, por fim, oito folhas de papel
almao em que Prestes treinara, repetidamente, a maneira
mais regular de assinar seu novo nome: Antnio Vilar.
O acervo encontrado pela polcia na casa de Arthur
Ewert no era menos abundante. Arquivadas em pastas,
l estavam orientaes para os chefes de clulas em sin
dicatos operrios, cartas trocadas entre dirigentes do PC
e da ANL em todo o pas, cpias de instrues  cpula
do Partido Comunista, 91 livros e at cartazes e material
didtico sobre a revoluo chinesa. Alguns documentos
chamaram especialmente a ateno dos policiais: os rela
trios minuciosos sobre a vida pessoal e as atividades de
chefes da polcia poltica (incluindo detalhes sobre os en
contros mantidos num determinado dia pelo delegado
especial da polcia poltica, capito Miranda Correia) e
um pequeno pedao de papel encontrado numa gaveta.
Era o salvo-conduto dado por Prestes a Berger na vspera
da revolta. Antes de retornar ao seu gabinete, o capito
Filinto Mller passou mais uma vez pela casa de Olga e
Prestes e deu uma enigmtica ordem aos investigadores:
- Antes de fechar a casa, desamarrem aquele ca
chorro que est no quintal e levem-no para o meu ga
binete.
Ao chegar  Polcia, Filinto Mller comunicou oficial
mente ao presidente Getlio Vargas e ao ministro da
Justia, Vicente Rao, o resultado da operao realizada
naquela manh. E no obstante j tivesse informaes
suficientes do Intelligence Service sobre a verdadeira
identidade de Harry Berger, decidiu confirm-las junto
ao Departamento de Estado norte-americano - para isto,
tinha um pretexto formal: at prova em contrrio. o preso
da rua Paul Redfern e sua mulher eram cidados dos
Estados Unidos, portadores de passaportes legtimos emi
tidos em Nova York. Imediatamente aps ser consultado
pelo chefe de polcia, o embaixador norte-americano no

117

Brasil, Hugh Gibson, transmitiu um telegrama cifrado ao
secretrio de Estado Cordel Hull, pedindo instrues. A
primeira consulta de Hull foi feita a J. Edgard Hoover,
diretor do FBI, e deu poucos resultados. No havia
nenhuma ficha em nome de "Harry Bergei" nos arquivos
do FBI, e a pasta de Arthur Ernst Ewert era magrrima,
contendo apenas uma vaga referncia, datada de cinco
anos antes, dando-o como "um proeminente comunista
alemo". Um despacho de 1930, assinado pelo prprio
Hoover, lanava dvidas at mesmo sobre a passagem de
Ewert por Nova York em 1927, durante a conveno do
Partido Comunista americano. O secretro de Estado
ordenou ento que Raymond Geist, cnsul dos Estados
Unidos em Berlim, enviasse o mais rpido possvel a
Washington "dados biogrficos, descrio fsica e im
presses dgitais" do msterioso amercano (ou alemo) preso
no Rio de Janeiro. As referncias feitas pelo embaixador
Gbson  desenvoltura com que Serger ldava com assun
tos chineses remeteram as investigaes de Cordel Hull
ao cnsul dos EUA em Xanga, Monnet Davis, a quem fo
feito, sempre em telegramas confidenciais, idntico
pedido: biografia, fotos e impresses digitais de Ewert/
Berger.
Enquanto dplomatas e agentes secretos esquadri
nhavam arquivos em vrios pontos do mundo, AMhur
Ewert e sua mulher Else apanharam da polcia de Filinto
Mller durante uma semana, sem que lhes fosse dirigida
uma s pergunta. As equipes e os mtodos variavam a
cada par de horas - e ningum perguntava nada, nem
mesmo os seus nomes. A polca quera primeiro quebrar
o moral dos presos, para depois comear os interrogatrios.
Isolados na prso do morro de Santo Antnio,
Ewert e Sabo resistiam milagrosamente  violncia de
policiais alemes e brasileiros que se revezavam incessan
temente. Ele estava com o corpo coberto de hematomas
produzidos por surras de cassetetes de borracha, a mo
esquerda ainda inchada pelo golpe aplicado com o que
bra-nozes, o nus e o pnis machucados por choques eltricos e objetos 
introduzidos
durante as sesses de

118

tortura. Sabo tinha as costas, os seios e as pernas cobertas por
minsculas queimaduras feitas com pontas de cigarros e
lanhos por todo o corpo, deixados pelas chibatadas que
lhe aplicava um jovem policial alemo.
 Quando decidiram finalmente iniciar os interrogatrios,
a violncia aumentou, mas no adiantou nada. Nem
mesmo os piores suplcios Foram suficientes para arran
car qualquer informao de Ewert ou de Elise. Os poli
ciais resolveram aplicar torturas alternadamente no ma
rido e na mulher, deixando sempre um ou outro testemu
nhando. Elise era violentada por dezenas de soldados, a
Frente do marido. Berger era submetido a um peloto de
fuzilamento com balas de festim. Elise era colocada den
tro de um caixo de defunto e "enterrada" viva. Tudo issu
sem que qualquer um dos dois tivesse podido dormr um
minuto desde o dia da priso. Quando as sesses de
tortura se interrompiam, de madrugada, para que outra
equipe pudesse reiniciar o trabalho, os dois eram obriga
dos a permanecer de p, impedidos de fechar os olhos,
Em uma dessas noites, como Ewert tivesse sido flagrado
com a cabea pendida para trs, de olhos fechados, o
policial de planto ficou furioso: correu at o escritriu
do presdio, apanhou uma pesada mquira de Escrever i
amarrou-a ao pescoo do preso. Ewert passou o resto da
noite sem poder nem se eurvar, com a mquina ameaan
do quebrar-lhe o pescoo.
Ele e a mulher acabaram por perder a noo do tem
po que se passara desde a captura. Os policiais ficavam
intrigados com a obstinao dos dois em no falar abso
lutamente nada: afinal, os documentos encontrados na
casa revelavam praticamente todas as atividades de am
bos no Brasil. No comeo de janeiro, Ewert arriou pela
primeira vez. Foi quando dois policiais, um alemo e um
brasileiro, deixaram-no sem roupas, com as pernas e os
braos abertos em xis, algemados  grade de uma das
celas. O alemo trazia nas mos um pedao de arame liso.
de cerca de meio metro de comprimento, e ao agachar-se
 sua frente advertiu-o, falando em seu idioma:

119

- Agora quero ver se voc fala ou no fala, comu
nista filho da puta. Ns vamos assar voc por dentro.
Falou e enfiou um palmo de arame dentrouretra
de Ewert. O preso resistia, mas a o policial brasileiro
apareceu com um pequeno maarco para solda, com o
bico em chamas. O alemo segurou com delicadeza u
pnis de Ewert, como um mdico o faria, e passou a
esquentar com o maarico o pedao de arame que ficara
para fora. Da garganta de Ewert o nico som que os poli
cais ouvram foi um mugido, como de um boi. Em
seguida, seu corpo desabou, pendurado na grade pelas mos.
O policial brasileiro parecia feliz em ver algum to
resistente e riu admirado ao comentar com o nazista:
- E doutvr... Parece que desses teus patrcios a
ns no vamos arrancar nada mesmo.
Os investigadores convenceram os capites Filinto
Mller e Miranda Correia de que o casal no falaria. Se
us chefes quisessem, eles poderiam elimin-los, mas
estava claro que Ewert e Elise morreriam sem dizer um
nome sequer. Nem mesmo o que a polcia j sabia. No
dia 6 de janeiro Filintv decidiu anunciar  imprensa a
priso efetuada onze dias antes. Para rechear o noticirio,
selecionou alguns dos mil e trezentos documentos apreen
didos na casa da Paul Redfern e apresentou aos jornalistas uma detalhada 
biografia do casal preso como sendo
o resultado de investigaes da polcia brasileira - em
bora o nico trabalho que aquilo eustara  polcia pol
tica tivesse sido o de traduzir o material enviado pelo
Intelligence Service, a Gestapo e o Departamento de
Estado. Ewert era apresentado como "o orientador das ali
vidades comunistas no Brasil e em toda a Amrica do
Sul". Como a polcia vinha negando a existncia de tor
turas aos presos polticos, os jornalistas no puderam
ver o casal. As fotografias publicadas pela imprensa no
dia seguinte tinham sido feitas momentos aps a priso e
mostravam um Arthur Ewerx corado e robusto, vestindo
um elegante terno branco.
Naquele mesmo dia, num lance de sorte, a polcia
conseguiria pegar outro nmgo importante. O capito

120

Miranda Correia ordenara que policiais disfarados man
tivessem sob rigorosa vigilncia um prdio de aparta
mentos na avenida Paulo de Frontin, sob suspeita de
esconder um aparelho utilizado por intelectuais comunistas
- entre eles o jovem escritor baiano Jorge Amado. Um
dos "tiras" encarregados de vigiar o edifcio teve sua
ateno atrada para um morador cuja fotografia ele su
punha ter visto nos arquivos policiais, e que circulava
despreocupado com sua jovem e bela mulher. Quando o
casal foi preso para averiguaes, a polcia descobriu que
tinha nas mos ningum menos que o secretrio-geral do
Partido Comunista, o baiano Antnio Maciel Bonfim, de
31 anos, tambm conhecido como Adalberto de Andrade
Feroandes ou Miranda. At ento nenhuma relao havia
sido estabelecida entre o Miranda citado nos documentos
encontrados nas casas de Prestes e Ewert e o Bonfim cuja
ficha policial, de cinco anos antes. dava-o modestamente
como "identificado por crime de subverso - anarquis
mo". Junto com ele foi presa sua companheira, Elvira
Cupelo Colnio, de 20 anos, conhecida tambm como Elza
Fernandes ou simplesmente Garota. Analfbeta, Elvira
contou aos policiais que era empregada domstica at
conhecer Bonfim numa praia do Rio e se apaixonar por
ele- Ao declarar que viera a p de sua terra natal at o
Rio de Janeiro, os policiais ficaram em dvida se se tra
tava de uma louca ou de uma experiente militante trei
nada por Moscou. Ela era de Sorocaba, no interior de
So Paulo, a 480 quilmetros de distncia da capital
federal.
O material recolhido no apartamento do chefe do PC
brasileiro, embora menos copioso que o das duas casas
de Ipanema, era igualmente comprometedor: dezenas de
cpias de cartas enviadas por Miranda aos comits regio
nais do Partido, relatrios recebidos de todo o pas e do
Exterior, questionrios dirigidos por ele a dirigentes do
PC em vrios estados, devidamente respondidos, manuais
para a fabricao de bombas e indicaes sobre como
recorrer ao Socorro Vermelho Internacional, organizao
criada pela III Internacional para ajudar os comunistas

121

em apuros. No meio daquela montanha de papel a polcia
encontrou o "fil mignoti", segundo a expresso de um
delegado: minuciosos balancetes contendo a contabilidade
do Partido Comunista nos ltimos meses. Ali estavam
registradas a entrada de recursos do Partido e, com
pormenores dignos de um caprichoso guarda-livros, todas as
sadas: desde os salrios pagos aos dirigentes at o dinheiro
gasto na compra de jornais, roupas e no pagamento
dos aluguis, contas de gua e luz dos aparelhos.
A notcia da priso de Miranda e Elza, divulgada
quatro dias depois, deixou Prestes e Olga ainda mais aprecn
sivos: o secretrio do Partido era uma das poucas pessoas
que conheciam o endereo do aparelho onde se escondiam
naquele momento, em Copacabana. Era chegada a hora
de mudar de casa outra vez. Como as prises se multipli
cavam em proporo geomtrica, era preciso reduzir ao
mnimo o nmero de pessoas que soubessem do novo
aparelho. Por isso, decidiram eles mesmos procurar uma
nova casa. Depois de percorrer as pginas de anncios do
Jornal do Brasil, Olga e Prestes se detiveram numa
pequena oferta publicada na seo "Casas e cmodos nos su
brbios":
Aluga-se por 220 mil ris uma boa casa, limpa e
encerada, com dois quartos, duas salas, fogo a gs, jardim,
quintal com rvores frutferas, prpria para famlia de
tratamento. Rua Honrio, 279. bondes de Cachambi Meyer.
Parecia ser o ideal. Tudo indicava que a polcia con
centrara suas investigaes e vigilncia na zona sul e no
centro da cidade. Se era assim, nada melhor do que tro
car Copacabana pelo Meyer, um bairro operrio com 70
mil habitantes - o dobro da populao conjunta de
Copacabana e Ipanema. Manoel dos Santos, sapateiro e mi
litante do PC,foi encarregado de alugar a casa, sabendo
apenas que seria destinada a "um companheiro e sua
mulher ". Era uma casinha modesta, suficientemente dis
creta para receber Prestes e Olga. Alm deles, o prprio
Manoel e sua mulher, Jlia dos Santos, iriam morar l at

122

que o Partido determinasse o novo destino do "Cavaleiro
da Esperana". Apresentando-se como chefe da seo de
lmpadas da General Eletric, Manoel procurou o portu
gus Jos Gomes, dono do imvel. Sem fiador para ava
lizar a operao, props ao proprietrio pagar antecipa
damente quatro meses de aluguel e o negcio acabou
sendo fechado por 800 mil ris. Dois dias depois ele se
mudava para o Meyer, esperando a chegada dos novos
hspedes. Caso algum perguntasse, ele e a mulher diriam
que, para diminuir o preo do aluguel, resolveram sublo
car um dos quartos a um casal, a quem tambm
forneceriam almoo e jantar.
Apenas um dirigente do Partido - cujo nome Prestes
no revelaria jamais - foi informado de que o aparelho
de Copacabana estava sendo trocado por outro "situado
para os lados do Meyer". Em meados de janeiro Olga e
Prestes valeram-se outra vez da ajuda de Victor Barron
- que no havia sido importunado pela polcia, e cuja
presena no Brasil era aparentemente ignorada pelas
autoridades - para mudar de esconderijo. Barron
esperou que anoitecesse e discretamente levouos no Graham
Page at as imediaes da casa da rua Honrio. Alm de
documentos pessoais em nome de Antnio e Maria Berg
ner Vilar, Olga e Prestes levavam pouca coisa para o novo
endereo: uma pequena bolsa de mo com meia dzia de
peas de roupa e alguns documentos do Partido. A partir
daquele momento, Prestes passaria a ter contato com a
direo do Partido - Miranda fora substitudo, depois
de sua priso, por Lauro Reginaldo da Rocha, o Banga
- atravs de mensageiros que ele mesmo escolheria. Sua
primeira recomendao foi que a nova direo passasse
desde ento a providenciar outro aparelho para ele e
Olga - caso houvesse qualquer suspeita de que a polcia
desconfiava da mudana para o Meyer, eles deveriam sair
de l incontinenti.
A pretexto de apurar a origem dos passaportes nor
te-americanos utilizados por Ewert e Elise, o governo dos

123

Estados Unidos entrou para valer nas nvestigaes sobre
a "conexo brasileira" do movimento comunista interna
cional. O secretrio de Estado Cordel Hull exigiu que um
investigador de seu pas passasse a trabalhar com a pol
cia brasileira na elucidao da "revoluo comunista".
R. C. Bannerman, chefe da "Seo de Agentes Especiais"
do Departamento de Estado (um escritrio de investiga
es que, quela poca, exercia algumas das funes hoje
atribudas  CIA - Agncia Central de Inteligncia) trans
mitiu a ordem ao embaixador Hugh Gibson, no Rio de
Janeiro. O "agente especial" escolhido foi o novaiorquino
Theodore Xanthaky, um ex-bancrio de 38 anos que, entre
1920 e 1922, trabalhara como "escrivo" da embaixada
americana no Brasil. Xanthaky falava fluentemente por
tugus e espanhol.
A primeira tarefa do "assistente especial" do Depar
tamento de Estado foi interrogar Ewert e Elise, presos
no morro de Santo Antnio. No fim da tarde de 14 de
janeiro, devidamente credenciado pelo embaixador
americano, Xanthaky procurou o capito Miranda Correia "o encarregado de 
todo o departamento anticomunista",
diria o agente mais tarde, em seu relatrio enviado a
Washington - para acertar seu encontro com os presos.
Provavelmente para evitar a curiosidade dos jornalistas
que passavam o dia em busca de notcias na delegacia,
Correia pediu que Xanthaky retornasse s 10 da noite.
Na hora marcada o americano foi levado pelo policial
Francisco Jullien at o morro de Santo Antnio. No caminho, Jullien achou 
bom advertir o estrangeiro para a
situao em que se encontravam os dois presos:
- O casal est meio arrebentado pelo pessoal do
interrogatrio, e h vrios dias no temos permitido
sequer que dormam. Nem sei se isso vai adiantar: at agora
nem o alemo nem a mulher pronunciaram uma s pala
vra. Nem mesmo admitiram que so comunistas.
No porto da priso Xanthaky foi recebido pelo poli
cial Jos Torres Galvo, que se apresentou como
"carceiro-chefe" daquele xadrez. Sorridente, Galvo no


124

escondia sua admirao pela resistncia fsica de Ewert e
Elise:
- Mister Xanthaky, eu nunca vi nada parecido em
todos esses anos de polcia. O alemo est apanhando h
trs semanas como um co danado e no abriu o bico.
Nem ele nem a mulher. Sou obrigado a tirar o chapu:
esse comunista  fantstico. Mas o senhor va encontr-los
em um bom estado. Hoje  tarde o capito Miranda
Correia mandou suspender o cacete at de noite, porque
ia aparecer visita ilustre. Pode entrar que eles esto
bonitinhos.
Theodore Xanthaky ficou impressionado com o que
viu na cela onde Galvo o deixou. A pessoa que estava ali,
sentada sobre um caixote de madeira, no guardava a
menor semelhana com o alemo robusto cujas fotos exa
minara na embaixada. Ewert estava dramaticamente en
fraquecido, tinha o polegar esquerdo roxo e inchado como
uma fruta e as marcas e cicatrizes espalhadas pelo corpo
no deixavam dvidas sobre o que Galvo lhe contara:
o homem apanhara como um animal. Ewert levantou os
olhos e o visitante se identificou:
- A embaixada recebeu uma informao annima
de que o senhor desejava comunicar-se conosco. Como
est de posse de um passaporte amercano, fizemos todo
o esforo possvel junto  polcia brasileira para que eu
pudesse vir at aqui ouvir a sua histria.
Arthur Ewert foi sincero, e respondeu em um ingls
to fluente quanto o de seu misterioso interlocutor:
-  No pedi para ver ningum de nenhuma embai
xada, mas no posso deixar de reconhecer que  bom ver
entrar algum sem um chicote ou um porrete na moH dias que no deixam a 
mim ou  minha mulher dor
mir um s instante, e temos sido violentamente surrados
durante todo esse tempo. Qualquer pessoa que possa in
terceder para que acabe essa barbaridade ser bem-vinda.
- O fato do senhor possuir um passaporte ameri
cano nos deixa preocupados com a sua sorte. O senhor
tem amigos ou parentes nos Estados Unidos com quem
queira comunicar-se?
125
Ewert sorriu pela primeira vez:
- Sim. Tenho um amigo nos Estados Unidos. Seu
nome  Earl Browder.
- O senhor gostaria que o Departamento de Estado
se comunicasse com o senhor Browder?
O alemo sorriu de novo, irnico e desconfiado:
- Acho que no ouviu direito o nome do meu amigo.
Earl Browder  o secretrio-geral do Partido Comunista
americano.
Xanthaky era um profissional. Logo entendeu que
Ewert sabia que, enquanto a visita dorasse, no haveria
torturas. E procurou tirar proveito da situao. Mudou
de assunto, comentou uma entrevista publicada na revista
americana Harper"s sobre o incndio do Reichstag, ocor
rido em fevereiro de 1933, falou de temas genricos e sem
importncia. Quando imaginou que havia espao para
perguntas indiscretas, percebeu que o preso tambm era
um profissional. A uma indagao sobre o casamento dele
com Elise e a obteno de passaportes "extra-legalmente",
Ewert cortou a conversa com uma pergunta seca, malhumorada:
- O senhor est tentando me interrogar?
- No, eu no estou tentando interrog-lo e o senhor
tem toda a liberdade de se recusar a responder a qualquer
das minhas perguntas. Mas se espera algum tipo de ajuda
nossa, ser necessrio estabelecer, para alm de qualquer
dvida, sua identidade verdadeira e a de sua esposa.
Mudando de ttica, o agente americano fingiu
sinceridade e inventou uma nova histria:-.
- Ns temos informaes definitivas de que seu passaporte foi obtido a 
partir de uma certdo de nascimen
to verdadeira e estamos, portanto, convencidos de que o
senhor  mesmo Harry Berger. Em relao  mulher que
o senhor diz ser sua esposa, porm, a situao  diferente:
temos razes para acreditar que ela no se chama Machla
Lencrycki, como consta do passaporte.
Ewert perdeu a pacincia e falou pausadamente, com
firmeza:

126

- Senhor Theodorc Xanthaky: eu e minha mulher
estamos sendo espancados h vrios dias por policiais
nazistas e por russos brancos emprestados  polcia bra
sileira. Eles esto tentando obter nomes e endereos que,
sob nenhuma circunstncia, eu ou minha mulher dara
mos. Nenhum de ns disse rigorosamente nada  polcia.
E muito menos diremos ao senhor.
- Mas se o senhor se abrir comigo sua situao aqui
na priso poder melhorar.
- No tenho nenhuma razo para me abrir com o
senhor. Tanto os policiais brasileiros como os alemes j
sabem que meu nome  Arthur Ernst Ewert e o da minha
mulher  Elise Saborowski Ewert. Eles j sabem do meu
passado. E as informaes que no tm, no ser de mim
ou de mnha mulher que as tero. Nem eles nem o senhor.
- Mas quem financiou o movimento aqui no Brasil?
Ewert falava com cuidado, procurando lembrar-se
das informaes de que a polcia dispunha:
- O senhor sabe que os partidos mais poderosos
ajudam os mais pobres, mas aqui ns no precisvamos
de muito dinheiro. Elise e eu vivamos muito modesta
mente. Vocs criaram um mito sobre a ao da Legao
Comercial Sovitica em Montevidu, o Yuamtorg, nas
revolues da Amrica do Sul. Aqui no Brasil as grandes
doaes eram feitas  Aliana Nacional Libertadora por
proeminentes brasileiros - um nico indivduo, por
exemplo, chegou a doar cem contos de ris  ANL.
Xanthaky queria saber mais informaes sobre a
revolta e o envolvimento dos comunistas estrangeiros com
os militares. Ewert falou apenas o que era conhecido das
autoridades:
- A insurreio no Norte foi uma surpresa tanto
para mim como para Prestes. Eu, pessoalmente, no tive
qualquer contato com os militares brasileiros. Esta era
uma tarefa que cabia ao prprio Prestes.
O agente norte-americano percebeu que Ewert estava
querendo encerrar a conversa. Ao se levantar, o preso
fez-lhe um pedido:

127

- Se for possvel, converse com os policiais para que
transfiram minha mulher para esta cela em que estou.
Embora ela, como eu, seja membro do Partido Comuns
ta, no teve ncnhum papel alivo no Brasil. E caso eu
venha a ser deportado e a embaixada americana possa
interferir nisso, no gostaria de ir para a Alemanha. Seria
o mesmo que pular da frigideira para o fogo. Prefiro
desembarcar em algum porto francs.
Ao sair, Xanthaky dirigiu a Ewert uma inslita per
gunta:
-- O senhor e sua mulher tm alguma religio?
Ele sorriu de novo:
- Quando nascemos ramos cristosJ era de madrugada quando Theodore 
Xanthaky
iniciou sua segunda misso daquela noite, mais simples e
menos demorada que a primeira: interrogar Elise Ewert.
Logo ao entrar na cela notou que tambm ela havia sido
muito espancada e machucada, embora parecesse estar
em melhores condies que o marido. Educadamente
Sabo repetiu ao agente da embaixada americana o que ele
ouvira de Ewert: o que os policiais nazistas e brasileiros
no conseguiram com pancadas ele no obteria com bons
modos. Xanthaky insistiu em saber mais sobre as alivi
dades dela no Brasil e os contatos do casal com dirigentes
comunistas e militares. Ela reiterou que nada tinha a
dizer:
- Mesmo que soubesse algum nome e quisesse
revel-lo ao senhor, pouco adiantaria. As pessoas com quem
mantive contato sempre se apresentavam com seus codi
nomes. Algum que eu tenha conhecido como Adalberto
por exemplo, certamente no se chama Adalberto, e ter
mais meia dezena de nomes.
Xanthaky procurou memorizar o nome: Adalberto.
E voltou  carga:
- O servio secreto ingls nos informou que a senhora utiliza tambm os 
nomes de Kathe
Gussfeld, Ethel Chilles e Edith Blaser. Isto  verdade? Essas
informaes do conta tambm de que a senhora esteve nos Estados Unidos
em 1926. Isto  verdade?
 128

- No. Nada disso  verdade. Nem usei os
nomes citados pelo senhor nem estive nos Estados Unidos em 1926.
Xanthaky sabia que dali no surgiria nenhuma novi dade e resolveu ir
embora. Na sada, transmitiu aos poli ciais Galvo e Jullien o pedido de
Ewert para que a mu lher fosse transferida para sua cela. Foi Galvo
quem respondeu: - Podemos tentar: se na porrada no conseguimos arrancar
nada deles, quem sabe tratando bem? Mas se eles pensam que vo passar a
noite na farra esto enga nados. Vamos botar seis tiras alemes l
dentro, para evitar excessos e cochichos. Ao entrar no carro de Jullien,
de volta  Polcia Central, Xanthaky escreveu em letras midas num mao
de cigarros: Adalberto. Quando leu o nome para o capi to Miranda
Correia, o chefe da polcia poltica puxou de uma pasta a foto de um
homem de bigodinho fino, preso dias antes: - O que a alem lhe disse no
foi um exemplo ao acaso. O tal Adalberto j foi engaiolado por ns: 
Ant nio Maciel Bonfim, o secretrio-geral do Partido Comu nista. O
americano, impositivo, exigiu de Miranda Correia que as informaes que
lhe passava sobre a conversa com os Ewert fossem mantidas em sigilo
"para que eles no percam a confiana em mim". Miranda Correia con
cordou: - No se preocupe com isso, mister Xanthaky. Posso Lhe assegurar
que o senhor  o primeiro e ser o nico estranho aos quadros da nossa
polcia a ter o privilgio de falar com os presos. Aqui o senhor tem
carta branca para interrogar quem quiser. - E quanto a Prestes, o senhor
tem notcias dele? - Como misier Xanthaky representa um governo que 
nosso aliado na luta contra o comunismo, posso dar-lhe em primeira mo
uma informao confidencial ssima: h dias prendemos um casal de
belgas, Lon Jules Valle e sua mulher, Alphonsine. Eles levavam na
bolsa

129

uma fortuna em dinheiro, cuja origem no souberam ex plicar. Nossos
homens acreditam que Lon nos levar at Prestes. Mandei colocar o casal
em liberdade com dois homens seguindo seus passos. Acho que nos prximos
dias vamos botar a mo no chefe deles todos. A propsi to, doutor, tanto
a ficha de Valle quanto qualquer outra que interesse, esto a sua
disposio. O doutor Jullen far cpias de tudo o que o senhor quiser.
Xanthaky queria saber mais de Prestes: - Que acontecer ao capito Lus
Carlos Prestes? - A ordem que temos  de no traz-lo vivo. As primeiras
luzes do dia apanharam Theodore Xanthaky ao lado de um operador de
cdigos da embai xada americana, transmitindo um minucioso telegrama ao
Departamento de Estado sobre a conversa que mantivera com Ewert e Elise.

10. "Miranda" e Ghioldi vo falar 131

Ajudada pela Gestapo, pelo servio secreto do Depar tamento de Estado e
pelo Intelligence Service britnico, a polcia de Getlio Vargas e
Filnto Mller ia aos poucos fechando o cerco em torno de Prestes. As
arrobas de do eumentos apreendidos em aparelhos eram esquadrinha das,
tabuladas e conferidas com declaraes arrancadas com cassetetes e
choques eltricos nas prises cariocas. Dois meses depois da revolta, o
governo tinha um mapa expressivo da rede montada por comunistas e
militares no Brasil. Faltavam poucas peas para que o quebra-ca beas
estivesse completo. Nos papis encontrados nos aparelhos de Prestes,
Ewert e Miranda, as instrues in ternas e comunicaes entre os chefes
do Partido e os militares que liderariam a revolta eram assinados com
uma sigla - G.I.N. A polcia sabia que eram iniciais dos trs homens
mais importantes da revolta: "G" era Garoio, codinome de Prestes; "N"
era Negro, codinome dado a Arthur Ewert. O "I" era a inicial de Indio.
Mas quem era Indio? Em um dos muitos depomentos feitos  pol cia, a
controvertida Elvira, mulher do secretrio-geral do PC, disse que
"achava que era um estrangeiro". A polcia s via alguma relao entre
um dos dois codinomes e seu ciono: Prestes era uma pessoa mida -
natural, portanto, que viesse a ser chamado de Garoto. Mas no caso de

132

Ewert a tese no valia - afinal ele no era negro. E o Indio, quem
seria? A informao que permitiu chegar ao terceiro cabea da revolta
surgiu de forma inesperada: um amigo do delegado Jullien contou-lhe que
suspeitava do comporta mento de um jovem casal de latno-americanos que
se mudara h pouco para um prdio defronte ao seu, na zona sul do Rio. A
polcia apurou com o porteiro que o homem era Luciano Busteros,
jornalista uruguaio, que ali vivia com sua mulher. Carmen. Embora no
houvesse qualquer registro sob o nome Busteros nos arquivos bra
sileiros, alemes, britnicos ou americanos, Jullien man dou vigiar o
predio e, na primeira oportunidade, fotogra far o jornalista. Quando o
retrato do uruguaio moreno, de cabelos negros e culos de aro redondo
foi exibido a Elvira Colonio, ela no teve dvidas em assegurar: - 
esse a o Indio que vocs procuram. Rodolfo Ghold e sua mulher,
desconfados de que a casa onde viviam estava sendo vigiada, decidiram
fugir na noite de 22 de janeiro. Tomaram um txi na porta do prdio e,
levando apenas uma valise de mo, tocaram para a estao de trens da
Central do Brasil. Sem saber que estavam sendo seguidos, compraram um
bilhete para o trem noturno com destino a So Paulo. Quando a com
posio comeou a se mover na plataforma, eles chegaram a supor que
tivessem conseguido enganar a polcia carioca. De madrugada o trem parou
na cidade de Jacare, no Estado de So Paulo, e os dois desceram para
fazer um lanche. O prpro Jullien, que estava no trem, deu-lhes voz de
priso na escada do vago. Rodolfo passou o resto da noite tentando
convencer o policial de que algum engano havia sido cometido: ali estava
seu passaporte comprovando que ele no se chamava Ro dolfo Ghioldi nem
era argentino. Mas em So Paulo j o esperava um delegado enviado do Rio
por Filinto Mller em avio militar com a ficha completa do argentino
era bobagem continuar tentando confundir os policiais. Transportados no
avio para o Rio de Janeiro, Rodolfo e Carmen foram imediatamente
levados  polcia

133

poltica e colocados na ante-sala do cpito Miranda Correia. ao lado de
outros presos capturados naquele dia, todos guardados por investigadores
e soldados armados. Do lugar onde estava sentada, Carmen podia ver,
atravs de uma fresta da porta entreaberta, parte do movimento na sala
do delegado. Subitamente ela arregalou os olhos, empalideceu e sussurrou
ao marido: - Rodolfo, voc no pode imaginar quem est ali dentro,
conversando com os policiais, e acaba de apontar na tua direo e dizer
a um deles que voc  mesmo Ghioldi, o ndio: Miranda. Ele est
trabalhando para a polcia. "Se Miranda est colaborando com a polcia",
ima ginou Ghiold, ao ser chamado a depor, "eles j devem saber de tudo
a respeito de todos ns". Talvez tenha sido essa concluso que o levou a
identificar to prontamente a fotografia que o chefe da polcia poltica
e o delegado Jullien lhe exibiram, Ele disse sem pestanejar: - Sim, eu
conheo este homem.  Lon Valle, o responsvel pelas finanas. As
esperanas da polcia de que Valle pudesse levlos at Prestes no se
materializavam. Duas semanas de rigoroso controle dos seus passos s
renderam uma pista falsa: o endereo de um certo dr. Balestre - que
depois descobriu-se ser o mdico que tratava da flebite de Al phonsine
Valle. Seis dias aps a priso de Ghioldi, na noite de 28 de janeiro,
Lon Vaile cominhava com sua mulher pelo Lido, no Rio de Janeiro,
quando notou que dois homens os seguiam. Familiarizado com o centro da
cidade, comnhou em direo  avenda Rio Branco e  rua Gonalves Dias,
onde o intenso movmento de pedestres e uma seqncia de galerias entre
a rua e a avenida poderiam ajud-los a escapar. Quando percebeu um leve
descuido dos investigadores, entrou em uma das galerias, saiu pela
avenida Rio Branco, tomou um txi e desapareceu. O casal mandou o carro
seguir para o aparelho onde estava Eduardo Ribeiro Xavier, o Abbora,
membm da direo do PC, que semanas depois os tiraria do Brasd,
embarcando-os para Buenos Aires. Ao saber da fuga dos

134

Valle, Filinio Mller, preocupado com a desenvoltura dos comunistas,
no quis correr mais riscos e mandou que prendessem logo um tal
americano residente em copacabana, euju nome e endereo Ghioldi
fornecera, e que estava sendo seguido havia seis dias. Minutos depois pu
liciais invadiam o prdio nmero 972 da rua Nossa Senhora de Copacabana
e levavam preso um jovem e esbelto norte-americano de quase dois metros
de altura: Victor Allcn Barron. A priso de um autntico cidado
norte-americano caiu do cu para a embaixada dos Estados Unidos, que
ganhava, assim, um pretextu legalmente indiscutvel para intrometer-se
ainda mais nas investigaes da polcia bra sileira. Embora tivesse
anunciado que estava tuberculoso, Barron foi impiedosamente surrado
pelos homens do tenente Eusbio de Queiroz Filho, que chefiava um
batalho da Polcia Especial apelidado com deboche pela popula o de
"os cabea de tomate" - quinhentos lutadores pro fissionas escolhidos a
dedo entre os efetivos militares e que se distinguiam das outras tropas
pelo uso de um qupi vermelho. Xanthaky foi destacado pela embaixada
para interrogar o americano e encontrou-o em estado las timvel - apesar
de o capito Filinto Mller ter-lhe assegurado que "ningum tocara um
dedo no preso". Durante o interrogatrio, Barron tentou negar qualquer
ligao com o movimento revolucionrio do final do ano anterior, e
declarou que estava no Brasil como representante comercial da John
Reiner Bz Co., uma indstria de motores de nova York. Ele teve
dificuldades para explicar como mantinha o elegante apartamento, seu
fino guarda-roupa e um automvel de luxo sem ter conseguido vender um s
motor da empresa que dizia representar. Alm disso, tinha contra si o
que Xanthaky considerava uma evidn cia clara de envolvimento poltico:
os vistos de seu passa porte revelavam que ele fizera o trajeto
tradicional dos agentes do Comintern, com passagens obrigatrias por
Amsterd e Montevidu, "importantes centros de trabalho comunista",
segundo o relatrio de Xanthaky. Embora suspeito de ser militante
comunista, Barron

135

era um cidado norte-americano e merecia, portanto, eui dados maiores
por parte do agente da embaixada. No extenso informe confidencial
enviado ao secretrio de Estado Cordel Hull e assinado pelo embaixador
Gibson, Xanthaky procurava eximir-se de qualquer responsabili dade
quanto ao destino que a polcia pudesse dar a Barron: Enfatizei 
policia a gravidade de se tratar mal cidadus americanos. Recebi
garantias definitivas de que Barron no ser mais submetido a torturas e
que, nas prximas vezes, suspeitos americanos sero entrevistados pela
Embaixada antes de serem interrogados pela polcia e que no ha ver
mais interrugatrios severos em tais casos. Deram-me tambm garantias de
que a Barron ser providenciado bom atendimento mdico. Estou
Francamente preocupado sobre como tratar estc caso. Depois de ter visto
o resultado do tratamento dado a Ewert e Elise, Xanthaky parecia prever
o risco de se deixar nas mos de Filinto Mller o homem que suposta
mente tinha notcias sobre o paradeiro de Lus Carlos
 Prestes: O caldeiro comunista estfervendo aqui, e se houver algum
modo de se estabelecer que Barrun no esteve en volvido, h certa
urgncia em tir-lo do cenrio. Ele, aparentemente, reluta ou  incapaz
de nos ajudar; sua histria no soa bem e, do jeito que as coisas esto
no momento, a polcia tem razes de sobra para consider-lu um grave
suspeito. Ele no parece disposto a contribuir para a elu cidao do
caso. Sua situao e suas atitudes so menos uma manifestao de que 
inocente do que uma reitera o da frase: "Eles no tm nada contra
mim". O prprio Cordel Hull telegrafaria confidencialmente ao embaixador
Gibson, dias depois de receber o relatrio, passando-lhe a ficha que o
Departamento de Estado levantara sobre os antecedentes de Barron: ele
era filho do lder comunista Harrison George, que segundo a me,
divorciada dele, teria financiado a viagem do jovem  Amrica do Sul. A
acusao da montagem de uma estao de rdio repetia o procedimento
adotado pelo Comintern em situaes anteriores, como no caso da China, E

136

quanto ao alto padro de vida que Barron levava no Brasil, no havia
dvidas: a empresa Reiner declarara firmemen te que Barron no
conseguira fechar qualquer negcio na Amrica do Sul, o que aumentava as
suspeitas de que o contrato servia apenas para dar cobertura s suas
ativi dades subversivas. E nem Barron nem sua famlia eram conhecidos
como pessoas de posses, que pudessem fazer viagens de luxo.
Provavelmente por desconhecer a polcia de Filinto Mller, o secretrio
de Estado norte-americano encerrava seu telegrama tranqilo quanto ao
destino de Barron: O Departamento transmitir outras informaes quando
for possvel. Qualquer informao que voc puder obter de Barron sobre
suas atividades no movimento comunista internacional sero bem-vindas.
Em vista do que foi dito e tambm em vista das garantias da policia
brasileira a respeito do futuro tratamento a ser dado a Barron, o De
partamento pensa que no h nenhuma necessidade atual de interveno da
Embaixada a seu favor. Um dos informes remetidos por Xanthaky a Hull
dava claras indicaes de que Barron havia sido trado por algum antes
de ser preso. A polcia contou ao agente da embaixada americana que
dispunha de informaes a respeito de "um americano, jovem, encarregado
da mon tagem de uma estao de rdio, e que era filho de um cerio
Harrison George, que se divorciou vrias vezes". E, no relatrio enviado
a Washington no incio de fevereiro de 1936 seria possvel perceber que
Barron comeava a adotar a mesma tcnica utilizada por Ewert e Elise:
falar apenas o que era do conhecimento da polcia. Ele reconheceu que de
fato viera ao Brasil para montar a estao de rdio - que j tinha sido
desativada, em 27 de no vembro, e transferida para um aparelho no
subrbio, cujo endereo ele desconhecia -, que estava a servio do
Comintern e tinha transportado Prestes at um ponto da cidade. "Alm
disso", ele repetiu dezenas de vezes a Xanthaky e aos policiais que o
espancavam, "vocs no

tero nem uma vrgula a mais de mim". 137

Como a embaixada parecia desinteressar-se por Barron, Xanthaky voltou 
carga sobre os Ewert. Repetindo o que fizera algumas vezes, passou 
noite pela Polcia Central e de l foi levado por Jullien ao morro de
Santo Antnio. Agora Xanthaky no perguntava tanto pela "conexo
brasileir", mas estava vido de informaes sobre o Partido Comunista
americano. Ele passou rapi damente pela cela onde Elise estava presa,
conversou com ela durante alguns minutos e dirigiu-se  de Ewert para
interrog-lo. Xanthaky era obrigado a fazer horas de rodeios para obter
uma informao mnima sobre algum acontecimento de cinco anos antes, na
China. Mas era o prprio Ewert quem o desanimava: - Senhor Xanthaky,
essa informao a polcia de seu pas j tem... Frustrado com a colheita
insignificante, Xanthaky preparava-se para sair quando Ewert dirigiu-lhe
a palavra: - Um dos policiais disse-me que Laval, o primeiroministro
francs, renunciou ao cargo. verdade? - Sim,  verdade. O novo premi 
Sarrault. - E Daladier  membro do novo gabinete? - Por que o senhor
quer saber? Daladier  comu nista? Ewert sorriu: - No, no  comunista,
mas tem grandes inclina es liberais, o que  melhor do que nada. A
obstinao de Ewert em manter silncio absoluto sobre informaes
importantes, apesar da crueldade do tratamento que a polcia lhe
dedicava, no era, porm, um comportamento generalizado entre os presos.
Por terse passado para o lado inimigo, como garantiram alguns de seus
excompanheiros, ou por ter sido massacrado nas sesses de tortura nos
primeiros dias aps sua priso, Antnio Maciel Bonfim, o Miranda, contou
tudo o que sabia  polcia. Falou demais na hora do choque eltrico e
das surras com chicote de arame, falou demais na hora dos depoimentos
formais, confirmou e reconfirmou o que

138

a policia sabia e o que ela queria saber. Ele contou que Bangu, seu
sucessor na direo do Partido, era Lauro Reginaldo da Rocha; que alm
de Garoto, Prestes usava tambm o codinome Antnio, e que nessas
ocasies s falava em espanhol nas reunies; que Negro, Berger e Arthur
Ewert eram a mesma pessoa: o representante da Internacional Comunista no
Brasil, que dirigia as reu nies do PC e ditava orientao aos demais
lderes. Embora na reunio que precedeu a insurreio Miranda tivesse
alardeado sua capacidade de "parar o pas para apoiar a revolt", na
polcia ele disse humildemente que "pouco poderia fazer o Partido que
dirigia, para apoiar a revoluo, pelas poucas foras com que conta va".
E identificou, um por um, os donos dos codinomes encontrados na
documentao apreendida na sua casa, na de Ewert e na de Prestes, dando
de quebra a posio que cada pessoa ocupava no Partido: Martins,
Mlionrio e Nico eram nomes de Honrio de Freitas Guimares, membro da
direo do PC; Gurgel era o mdico Josias Leite; Machado era Lencio
Basbaun, residente na Bahia; Gusrno era Jos Medina, membro do PC;
Carlos e Jliv eram os codnomes da mesma pessoa, o ex-miltante Augusto
Besouchet; Emma e Antonia eram os codinomes da mulher de Honrio de
Freitas Guimares; Meo era a forma cifrada de referir-se a Montevidu;
Ismar ou Al meida eram codinomes de Ilvo Meirelles; Costa, Carlos e
Firrno eram nomes adotadvs no Partido pelo major Carios Costa Leite;
todos os documentos encontrados com a letra "M", de Miranda, ao tinal,
eram de responsabilidade do Secretariado Nacional do Partido Comunista;
Nai era o codinome da escritora Eneida de Moraes; Ramalho era o codinome
de Oswaldo Costa, jornalista e diretor do jornal A Manh; quanto a
Miranda, Adalberto, Adalberto cte Andrade Fernandes eram os codinomes
dele prprio, Antnio Maciel Bonfim, secretrio-geral do Partido
Comunista, Seo Brasileira da Internacional Comunista. Cada calhamao
que a polcia colocava  sua frente ia sendo traduzido, decodificado,
exphcado e identificado.

139

Mesmo sem ter trado o Partido e sem que a polcia o tvesse tratado com
a mesma brutaldade aplcada em Bonfim, o argentino Rodolfo Ghioldi
tambm foi generoso nas suas declaraes. Anos depois, Ghioldi diria que
a violncia utilizada pela polcia contra si resumiu-se a "ameaas e
alguns golpes". Mesmo assim, ele identificou como sendo de Lon Julles
Valle a foto que lhe era exi bida, mesmo sem saber se ele havia ou no
sido preso; trouxe  tona um nome desconhecido dos policiais, o do
americano Victor Barron; reconheceu como sendo de rlrthur Ewert vros
manuscritos apanhados pela polca; revelou o relacionamento existente
entre o prefeito do Distrito Federal, Pedro Ernesto, e Lus Carlos
Prestes; deu o endereo do ltimo aparelho de Prestes, na rua Nossa
Senhora de Copacabana, e disse que Prestes sara de l no dia 19 de
janeiro; contou que o dono dos apare lhos das ruas S Ferreira e Tos
Higyno era Benjamim Schneider. E ofereceu de presente aos policiais uma
in formao absolutamente nova: Prestes estava casado com uma mulher
clara, provavelmente estrangeira - pois sem pre se comunicava com ele em
francs - e que ficava permanentemente a seu lado. Ghioldi ignorava o
sobreno me da mulher, mas tinha absoluta certeza de seu nome: Olga.

11. Diante de Filinto, um nome: Olga de Tal 141

O nmero de presos desde o dia 27 de novembro era to grande e eles
estavam espalhados por tantos presdios que a prpria polcia perdia a
noo de quem ainda esta va solto ou quem j havia sido capturado.
Certamente por isso, a partir das informaes dadas por Rodolfo Ghioldi,
o delegado Antonio Canavarro Pereira enviou, no mesmo dia do depoimento
do dirigente comunista argen tino, o seguinte ofcio ao capito Miranda
Correia:

        Exmo. Sr.
        Capito Delegado Especial de
        Segurana Poltica eeSocial
        Solicito a V. Sa. providncias no sentidu de que Olga de
        Tal, referida nas declaraes de Rodolpho Ghioldi, compa
        rea a este cartrio no dia 8 de maru p. vindouro, s 12
        horas, para prestar declaraes.
        Saudaes,
        O Delegado Miranda Correia no recebeu o ofcio no mesmo dia.
Ele tinha viajado a So Paulo para assistir, no presdio "Maria Zlia",
a uma acareao entre dois dirigentes comunistas citados em depoimentos
de presos do Rio de janeiro. Embora o grosso da represso se
concentrasse no Rio, So Paulo tambm fora varrida pela polcia

142

poltica. Com os crceres entupidos, a polcia transformou num
gigantesco xadrez a velha Fbrica Maria Zlia, no bairro do Brs, para
alojar centenas de comunistas, alian cistas e simpatizantes apanhados
pelo arrasto que se seguiu a novembro. E foi para l que o longo brao
da represso de Vargas acabou levando o milionrio Celesti no Paraventi,
denunciado anonimamente por ter dado guarida a Olga e Lus Carlos
Prestes em sua volta ao Brasil. Como ele prprio diria, entre as
centenas de presos do "Maria Zlia" havia gente "envolvida at o fio do
cabelo na revolta e gente que nem sonhava por que tinha sido preso".
Longe de se atormentar com a priso, Para venti se divertia. De manh
juntava-se  massa de presos e exibia seus dotes de tenor ao cantar com
os colegas de cadeia o hino da Aliana Nacional Libertadora e a "Inter
nacional". E foi ali, no meio daquela confuso, que Paraventi comeou a
descobrir que "aquela histeiria de comunismo no me cheirava bem".
Romntico, ele no conseguia entender como  que, vtimas da mesma
adversidade, os comunistas dividiram-se, na cadeia, em tantas correntes
e tendncias diferentes, "cada um querendo comer o outro". Paraventi
tentava descobrir e no encontrava ali "a fraternidade e a compreenso
que Prestes me dissera serem inerentes ao comunismo". Desolado, ele
decidiu espiar uma reuniozinha de um grupo comunsta num canto da
priso, "para ver de que grupo etes falavam " mal". Quando chegou perto,
um deles pediu silncio e advertiu-o: - Isto no  uma clula.  uma
sesso esprita. Se voc quiser pode assistir. Mesmo no acreditando
naquilo, Paraventi entrou na roda, por falta do que fazer. Quando o
esprito baixou, o homem que o recebera bateu no ombro do jovem mi
lionrio: - Voc  um mdium muito forte, vai ser muito til ao
espiritismo.

143

Meses depois, ao ser lbertado, Paravent no deixara de ajudar os
amigos comunistas, mas anunciava que havia trocado "o comunismo pelo
espiritismo". Miranda Correia Fora obrigado a deixar s pressas
espritas e comunistas do "Maria Zlia" para retornar ao Rio e receber a
informao dada por Ghioldi. Surpreso com a novidade, decidiu: se
Prestes estava casado, e com uma estrangeira, o capito Filinto Miler
tinha que saber daquilo imediatamente. Esta, alis, era a ordem que cir
culava entre os delegados e chefes de equipes na represso aos
comunistas: qualquer suspeita, qualquer notcia ou mera citao do nome
de Prestes em depoimentos de via ser levada prioritariamente ao chefe da
polcia. Havia, na verdade, dois Filinto Mller perseguindo Prestes. Um
era o temido e onipotente chefe de polcia da ditadura, de quem o
prprio presidente da Repblica e seu ministro da Justia, Vicente Rao,
cobravam diaria mente a priso imediata do antigo chefe da Coluna. As
investigaes mostravam que no havia mais nenhum peixe grado  solta,
com exceo de Prestes, o ltimo e o mais importante cabea da revolta
de novembro. Embora a Chefatura de Polcia do Distrito Federal fosse um
cargo de baixo escalo na hierarquia da Repblica, a in surreio de
novembro acabara por atrbuir a Filnto Mller o poder e a importncia
de um vice-rei, um primeiro-ministro. Com agentes e espias infiltrados
em todas as reparties e gabinetes do governo, ele detinha infor maes
sobre as atividades de todas as personaldades relevantes do pas. A
represso aos comunistas de Moscou exigia armas, homens, equipamentos,
veculos, e isto tor nava a polcia do Rio um sorvedouro de verbas que
ele solcitava pessoalmente a Getlio Vargas e para as quais no havia
limites. A cada semana os jornais noticiavam que o presidente havia
autorizado a dotao de mais al guns milhares de contos de ris para "o
combate  subver so". Filinto Mller era, de fato, um pouco ministro da
Guerra, um pouco ministro da Justia e um pouco

144

ministro da Informao. E, sem ser ministro de nada, partici pava das
reunies do gabinete e despachava pessoalmente com Getlio Vargas. Com
homens, dinheiro e informaes nas mos, s o prprio Vargas reunia mais
poderes que o chefe de polcia do Rio. O outro Filinto que estava no
encalo de Lus Carlos Prestes no era o policial caando o comunista,
mas o oficial da Coluna Prestes  procura do antigo chefe para um acerto
de contas. Quase onze anos antes, em 14 de abril de 1925, um boletim de
guerra assinado pelo general Miguel Costa, um dos comandantes da Coluna,
anunciava  tropa algumas promoes por "bravura, inteligncia e
capacidade de comando". O mesmo ato que elevava a tenente-coronel o
major Oswaldo Cordeiro de Farias pro movia o capito Filinto Mller 
patente de major das foras revolucionrias. Prestes justificou a
deciso de mandar promover Filinto com o argumento de que era necessrio
ter um oficial camandando a artilharia dispo nvel: dois canhes de 75
milmetros e dois canhes de montanha. E, alm disso, todos os soldados
e sargentos da Artilharia tinham se rebelado sob as ordens de Filinto,
no quartel de Osasco, em So Paulo. Tanto a promoo quanto a prpria
permanncia de Filinto na Coluna, no entanto, durariam muito pouco.
Foram necessrios apenas nove dias para que Prestes desco brisse que
mandara promover o homem errado. Filinto escrevera uma carta a seu
superior imediato, o general Miguel Costa, anunciando que iria a
Assuno, no Para guai, para uma visita  famlia, exilada naquela
cidade e prometia juntar-se novamente  Coluna no Estado do Mato Grosso.
Mas mandou outra carta, dirigida aos sar gentos e soldados que o
acompanhavam desde o levante de julho, em So Paulo, propondo a desero
coletiva. Na segunda carta ele dizia  tropa que para ele estava tudo
acabado e que no tinha mais esperanas no sucesso da Coluna. Cada um
fizesse o que bem enten desse, pois ele, a partir daquele momento, no
se responsa bilizava mais por nenhum dos seus subordinados. O que o
major Filinto Mller no poderia imaginar  que as

145

duas cartas iriam cair nas mos de Prestes. Quando o chefe da Coluna
tomou conhecimento dos documentos, o recm-promovido major das foras
revolucionrias u gira para a Argentina (e no para o Paraguai, como
dis sera), levando nos bolsos 100 contos de ris da intendn cia da
Coluna. Furioso, Prestes exigiu do general Miguel Costa, comandante da I
" Diviso Revolucionria, que o desertor fosse destitudo da promoo
recebida na semana anterior e que se distribusse imediatamente outro
boletim de guerra, expulsando-o da Coluna. No mesmo dia chegava s mos
de Loureno Moreira um secretrio de campanha da Coluna, a execuo
da ordem de Prestes: Boletim n:" 5 Acampamento de Porto Mendes, Estado
do Paran, aos 25 de abrl de 1915. Para conhecimento desta Diviso e
devida execuo, pu bliCo o seguinte: Expulso de Oficial. Seja excludo
do estado efetiv das foras revolucionrias o capito Filinto Miiller,
por haver, covardemente, se passado para o territrio argentino,
deixando abandonada a localidade de Foz do Iguau, que se achava sob a
sua guarda, resultando que as praas que compunham a men cionada guarda
o imitaram, neste gesto indigno, levando armas e mnies pertencentes 
Revoluo. Oxal que esse oficial futuramente se justifique perante seus
companheiros que ainda lutam em defesa da Repblica, dessa acusao que
pesa na sua conscincia de filho desta grande Ptria. Ass. General
Miguel Costa Comandante da 1. Diviso Revolucionria

Durante onze anos, Filinto nutriu o dio pela acusa o que Prestes
mandara fazer-lhe naquele boletim: Covarde, desertor, indigno. Mas
agora, em fevereiro de 1936, o destino se encarregara de inverter as
posies, e era ele quem tinha o poder, os homens, as armas. O chefe de
polcia prometera a Vargas entregar-lhe "em questo de dias" a cabea do
antigo comandante da Coluna, e para isto valia tudo: mais dinheiro, mais
armas, mais algumas centenas de atletas para ampliar a tropa dos "cabea
de tomate" do tenente Eusbio Queiroz. Em uma reunio com seus chefes de
turma de capturas, Filinto anunciou solenemente que aquele que chegasse
primeiro at Prestes

146

e o prendesse - ou matasse - receberia dele, pessoal mente, o prmio de
100 contos de ris. Ironicamente era a mesma quantia que, em 1925,
Filinto subtrara da Colu na e levara para o exlio. O Rio entrava em
fevereiro, mas nada havia que identificasse a cidade com a "capital
universal da alegria e do Carnaval", como escreveu um cronista mundano
da puca. Primeiro por causa da chuva, que caa intermitente h semanas,
tirando das ruas o colorido e a graa da de corao carnavalesca. Em
seguida, porque o capito Fi linto Mller no media a aplicao de seu
poder no cerco a Prestes e a sua recm-revelada esposa, a estrangeira
Olga de Tal. No importavam as leis: o que valia eram as portarias que
ele conseguiu fazer com que o Carnaval de 1936 entrasse para a histria
como o mais acabrunhado e sem alegria de todos os tempos. J no comeo
do ano Fi linto decretara que durante a vigncia do estado de stio
ningum poderia usar mscaras nos bailes, festejos carna valescos e
ranchos. Para substitu-las, o carioca importou o colar de havaiana: no
era a mesma coisa, mas pelo menos dava algum colorido s festas. Quando
faltavam poucos dias para a "semana gorda", mais portarias com novas
proibies: as batalhas de confete s seriam per mitidas em clubes,
desde que com autorizao prvia da polcia. Cada clube poderia realizar
no mximo trs ba talhas. As mscaras continuavam proibidas, assim como
todas as fantasias consideradas "atentatrias  moral das famlias". Os
ensaios de blocos e ranchos s podiam ser feitos aps a devida
autorizao do chefe de polcia, e teriam que se encerrar
impreierivelmente s 22 horas. Filinto Mller tentava reger a "capital
universal da ale gria e do Carnaval" com o regulamento de um convento de
freiras. Mas mesmo um Carnaval sem fantasias, sem mscaras e com pouco
confete era uma novidade para uma alem da Baviera. Atravs das frestas
da janela do quarto, Olga se deliciava com os grupos que passavam
desafiando a

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autoridade da polcia, sambando com os rostos pintados e pouqussima
roupa sobre o corpo. O pesado rdio de vl vulas que haviam conseguido
com o sapateiro Manoel dos Santos repetia dezenas de vezes os poucos
sucessos da quele ano: "Querido Ado", marchinha cantada por Car men
Miranda," bom parar", de Noel Rosa, cantada por Francisco Alves, e a
"Marchinha do grande galo", de La martine Babo, cuja interpretao de
Almirante arrancava gargalhadas dela no refro em que o cantor repicava
o c c c c c c c. Havia muito pouco o que fazer ali no aparelho da
rua Honrio, no Meyer. Mesmo habitua dos  clandestinidade imposta a
eles desde a chegada ao Brasil, Olga e Prestes sabiam que daquela vez
era impos svel sair de casa. Quando os alto-falantes dos corsos da rua
paravam, os dois se deitavam no minsculo quarto e Olga punha-se a
traduzir para Prestes poemas em alemo e trechos de Goethe e Schiller,
seus autores prediletos. A casa era muito modesta e os obrigava a
cuidados especiais para no serem identificados pelos vizinhos. Dentro
ficavam duas salinhas pequenas, dois dormitrios e uma cozinha. Nos
fundos, num cmodo separado da casa, o banheiro. Como os muros laterais
do quintal eram muito baixos e havia vizinhos de ambos os lados, eles s
podiam ir ao banheiro  noite, atravessando o quintal pelas sombras e
com as luzes de fora apagadas. As roupas de Olga e de Prestes - o
luxuoso enxoval da lua de mel, comprado em Paris - ficaram para trs, na
casa de Ipa nema, e foram obrigados a improvisar Uma pea de linho
comprada por dona Jlia, a mulher do sapateiro Manoel, acabou se
transformando num elegante vestido para Olga - desenhado e cortado por
Prestes e costurado por ela. Mesmo submetidos a absoluta
clandestinidade, os dois no estavam isolados do mundo e da poltica.
Dentro dos jornais que Manoel trazia diariamente para casa vi nham
pequenos pacotes feitos com papel de embrulhar po, que o casal abria e
lia avidamente: eram as notcias mandadas pelos espies que o Partido
Comunista tinha dentro das prises, nas dlegacias de polcia e at no
gabinete de Filinto Mller. Quando a Coluna Prestes chegou

148

ao fim, centenas de soldados, cabos e sargentos voltaram ao Brasil e no
tinham como arrumar trabalho. O tenente Joo Alberto, que participara da
Coluna e que em 1930 decidira ficar com Getlio, fora nomeado pelo
presidente, entre 1932 e 1933, para o cargo que depois seria ocupado por
Filinto: chefe de polcia do Distrito Federal. E foi ele quem se
encarregou de colocar como investigadores e comissrios policiais os
antigos combatentes da marcha a p pelo Brasil - muitos dos quais, fiis
a Prestes e a suas idias, atuavam como informantes do PC dentro da
mquina policial do governo. Do prdio da rua da Relao, onde ficava o
gabinete de Filinto, do morro Santo Antnio ou da priso da rua Frei
Caneca, os papis eram mandados para Ilvo Meirelles, que os entregava a
Manoel dos Santos. Muitas vezes apareciam nos pacotes, junto com os
resumos de depoimentos ou revelaes sobre uma "batid" que a polcia
iria fazer, bilhetes de amigos de Prestes - que no tinham como
localiz-lo, mas sabiam quem podia faz-lo. O prprio Pedro Ernesto,
prefeito do Rio, chegou a utilizar os misteriosos mensageiros para
oferecer a Olga e Prestes uma casa mais segura, para que os dois se
escondessem. Tanto esta como outras ofertas de refgios - Virglio de
Mello Franco, um deputado federal filho de liberais de Minas Gerais,
ofereceu sua casa a eles por duas vezes - eram sistematicamente
rejeitadas por Prestes, que justificava a recusa explicando seus temores
a Olga: - Eles so gente muito boa, mas do ponto de vista de classe eu
no posso confiar neles. Sem querer, podem ser instrumento de uma
provocao. Porque hoje no sabem onde estamos, mas saberiam para onde
fssemos. E se forem presos e torturados? No podemos arriscar. Um dos
jornais levados  rua Honrio por Manoel deixou Olga e Prestes
apreensivos. Uma pequena notcia dava conta de que o delegado Lineu
Costa havia solicitado ao capito Filinto Mller a abertura de inqurito
adminis trativo para apurar a responsabilidade pela violao dos autos
do processo sobre a revolta. No havia dvidas de que a polcia comeava
a desconfiar dos espies

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comunistas dentro das delegacias e nos cartrios especiais nelas
instalados para ouvir os presos da insurreio. E foi atra vs de um
desses informantes que Prestes ficou sabendo que Filinto Mller em
pessoa estava dirigindo, de seu gabinete, a operao policial-militar
montada para pren d-lo e a sua mulher. O relatrio levado por Manuel
dos Santos dizia que nos ltimos dias Getlio Vargas tinha autorizado um
novo reforo dos tais "cabea de tomate" - e que os homens comeariam a
realizar uma "operao pente fino", revistando rua por rua, casa por
casa. Filinto sabia que no tempo de garoto Prestes tinha vivido alguns
anos no bairro da Boca do Mato, prximo ao Meyer, e decidira comear a
caada por ali. O informe garantia tambm que a polcia no tinha noo
do endereo onde o casal estava escondido - e que as duas nicas informa
es obtidas nesse sentido, dadas por Barron e por um dirigente do PC
durante uma sesso de torturas, eram , muito vagas. Falavam apenas que
Olga e Prestes estavam escondidos "para os lados do Meyer" - o que no
aju dava muito  polcia. Uma ltima notcia da operao soou como uma
pilhria para Prestes: Filinto obrigava o policial que estivesse
chefiando as batidas a levar pela coleira o cachorro policial
"Prncipe", que dera de presente a Olga e que Fora deixado na casa da
rua Baro da Torre no dia da priso de Ewert. A polcia acreditava que,
pelo faro, o co poderia ajudar a localizar seus donos. Dias depois, um
novo relatrio chegava com informa es mais precisas - e mais graves.
Depois de bater toda a Boca do Mato sem resultados, a polcia comearia
na quela madrugada a esquadrinhar o Meyer. Comandando o trabalho,
Filinto dividira o mapa do bairro em quatro partes, ficando cada uma
delas entregue a um peloto de 50 "cabeas de tomate", chefiados
respectivamente pelos
 policiais Jullien, Galvo (o mesmo carcereiro que levava Xanthaky para
interrogar os Ewert no morro de Santo Antnio), Carlos Lolotti e Paulo
Brasil. Alm dos quatro chefes de grupo e dos 200 soldados da Polcia
Especial, todos armados de metralhadoras, algumas dezenas de po liciais
civis rondavam as esquinas, entravam nos bares,

150

vigiavam qualquer movimento suspeito. As ordens de Fi linto eram
expressas: todas as ruas seriam farejadas e, nelas, nem uma s casa
poderia deixar de ser vistoriada. Antes de bater  porta da casa, os
soldados deveriam cer c-la tambm dos lados e pelo fundo para evitar
fugas. A menor suspeita de que tivesse sido localizada a casa de Olga e
Prestes, deveria ser dado um tiro para o alto e todos os grupos nas
imediaes convergiriam para o local. Encontrada a casa, a ordem era
entrar alirando para matar. Duas semanas depois de iniciada no Meyer, a
opera o dera resultados pfios. Em uma casa pegaram alguns livros
considerados subversivos e, de outra feita, um homem que tentara
escapulir da polcia chegou a causar certo alvoroo - mas era apenas um
ladro comum, pro eurado pelo delegado do bairro. Na madrugada do dia 5
de maro - sempre sob uma chuva torrencial, que parecia no terminar
jamais - 50 soldados e trs policiais civis, comandados pelo comissrio
Jos Torres Galvo, comearam a vistoriar as casas da rua Honrio.
Entraram pela ponta da rua que comeava no Engenho de Dentro, onde havia
calamento e o cho era plano. Por volta das duas horas da madrugada
ocorreu um pequeno incidente: em uma das casas rastreadas morava um alto
funcionrio do Tribunal do Jri, que considerou a invaso, quela hora,
um desrespeito a seus direitos individuais. Galvo comunicou-se pelo
rdio de campanha de um dos carros com o capito Filinto Mller e
recebeu uma ordem rspi da: "Prenda o sujeito e quem mais se opuser s
buscas". Cada quarto, sala, cozinha, banheiro e quintal era revista do
rigorosamente. Velhos, mulheres e crianas eram des pertados para que
Galvo pudesse ver se "o homem" estava escondido ali. As quatro horas da
manh o grupo entrou na parte ngreme da rua onde o calamento ainda no
havia chegado. O dilvio das ltimas semanas tinha aberto um sulco no
meio da rua, por onde corria lama grossa e vermelha. Naquele trecho os
soldados tiveram que subir a p, pois os carros da polcia que ali
haviam se aventurado estavam atolados at o meio da lataria. As

151

cinco horas uma patrulha chegou  casinha do nmero 279. Repetindo o que
vinham fazendo maquinalmente h tantos dias, cerca de dez soldados deram
a volta pelos fundos e dos dois lados, enquanto um grupo, com Galvo 
frente, batia forte na porta de entrada. Dona Jlia acor dou
sobressaltada e perguntou antes de abrir o trinco: - Quem ? Galvo, do
outro lado: - Abra,  a polcia. Ela abriu uma fresta e se assustou com
a quantidade de armas apontadas contra seu rosto. Um dos soldados que
estava de guarda na porta dos fundos gritou: - Galvo, tem algum
tentando abrir a porta aqui de trs! Era Prestes, ainda de pijama e
chinelos, que tentava escapar pelo quintal. Quando ouviu o grito, voltou
e quis entrar no quarto, por cuja janela pensava saltar para a rua. No
houve tempo. Ao perceber quem era o homem que tentava escapar, Galvo
deu a ordem aos soldados que se espremiam na porta de entrada: - Entrem
atirando!  Prestes! Um nmero indefinido de soldados e policiais civis
avanou sobre dona Jlia, de metralhadoras engatilhadas, em direo ao
pequeno corredor por onde Prestes entrara. Foi ento que aconteceu algo
inesperado. Uma mulher alta pula na frente de Prestes, protegendo-o com
seu corpo, e d um berro para os soldados. No era um pedido de
clemncia, mas uma ordem dada por Olga: - No alirem! Ele est
desarmado! O gesto inesperado deixou-os paralisados. Talvez por ser
mulher, talvez por ter gritado com tanta energia, a verdade  que se
houve oportunidade para levar Prestes morto, ela no tinha sido
aproveitada. Galvo chegou  porta da rua e disparou seu revlver para o
cu - e se gundos depois toda a rua Honrio estava tomada por um
exrcito de policiais encharcados. Francisco Jullien apareceu trazendo
"Prncipe" pela coleira e o co logo reconheceu os donos. Sem revelar
medo, Prestes pediu a Gal vo para mudar de roupa, mas no conseguiu:

152

- O senhor vai assim mesmo. Na rua, tentaram coloc-los em carros
separados, mas Olga percebeu que aquilo significaria a morte de Prestes.
Agarrou-se ao marido com tamanha fora que no houve outra alternativa
seno permitir que os dois fossem trans portados juntos para a sede da
Polcia Central. Havia tan tos policiais guardando-os dentro do veculo
que Olga teve que ir sentada no colo do marido. O comboio atra vessou a
cidade despertando os moradores das ruas por onde passava: sirenes
ligadas, tiros para o alto, garrafas de eachaa correndo nos caminhes
que transportavam os 200 soldados molhados. A chegada do casal e de dona
Jlia - que viera em outro carro - transformaria a vida do prdio da rua
da Relao. Homens armados de metralhadoras guardavam todas as portas e
os eruzamentos das ruas que davam acesso ao edifcio e, no porto
principal, o capito Miran da Correia, protegido por forte escolta,
esperava o eor tejo. Ele j comunicara a priso de Prestes a Filinto
Mller, que preferiu no estar presente  chegada de seu antigo
comandante. Ao ser informado, Filinto telefonara ao presidente Getlio
Vargas para transmitir-lhe a not cia e voltara a dormir. Quando
desembarcaram no saguo do edifcio, Olga e Prestes foram separados.
Miranda Correia informou que eles seriam ouvidos em salas diferentes.
Prestes foi colo cado dentro de um pequeno elevador, sempre acompa nhado
por policiais armados, e ela Levada para outra sala. Quando a porta
gradeada do elevador se fechou, os dois se olharam pela ltima vez. 12.
A polcia suicida Barron 153

Foi o tenente Eusbio Queiroz Filho, chefe dos "cabeas de tomate", quem
transmitiu a notcia a Prestes, mi nutos aps sua chegada  Polcia
Central. E o fez de forma provocadora e sorridente: -  bom que o senhor
saiba que foi o americano Victor Barron quem o entregou. Mas parece que
a cons cincia do gringo doeu muito e ele acabou de suicidar-se,
saltando da janela deste prdio. A primeira suspeita de que Barron no
era um suici da, mas teria sido morto pela polcia, viria em uma
declarao do prprio capito Filinto Mller, horas depois. Ao conceder
uma entrevista aos jornalistas, para contar deta lhes da priso de
Prestes e Olga, ele cometeu um lapso e revelou que Barron tinha morrido
sem dar o endereo do esconderijo do casal. A declarao do chefe de
polcia comprovava que, apesar da violncia a que foi submetido, o
americano nada acrescentara  vaga informao de que os transportara
"para os lados do Meyer". Filinto Mller foi preciso ao eonversar com os
jornalistas: - Barron obstinou-se em negativas. Era um homem
experimentado em situaes difceis, acostumado a enfren tar e
desorientar policiais. Alm de repetir que havia

154

levado Lus Carlus Prestes de automvel para o Jardim do Meyer, ele no
quis adiantar mais nada. Se Barron no denunciara Prestes - verso que o
prprio Prestes sustentou desde que recebeu a notcia da sua morte - por
que razo se mataria? De onde viria o "arrependimento"? Entre os
jornalistas que ouviram o capito Filinto estava um correspondente da
agncia no ticiosa americana Associated Press, que, alm dessas, fazia
outras perguntas sem respostas: como pode algum suici dar-se pulando do
segundo andar, de uma janela que no d para o solu, mas para um ptio
superior interno, o que reduz a queda, na realidade, para um pavimento?
O correspondente estrangeiro publicaria reportagem em jornais dos
Estados Unidos com mais indagaes desconcertan tes: ainda que saltando
do primeiro andar, a morte talvez se justificasse caso Barron tivesse
eado de cabea no cimento e fraturado o crnio - mas o atestado de
bito assinado pelo dr. Borges de Mendona e entregue  embai xada
americana dava como causa mortis "fratura de costela, causando ruptura
dos pulmes e rim esquerdo, acom panhada de hemorragia interna". Sem
pretender incrimi nar ningum pessoalmente, os jornalistas comentavam
entre si que aqueles eram ferimentos tpicos de quem tinha sido
espancado. Prestes ficara indignado com a notcia da delao se guida do
"suicdio" de Barron. Ao ser qualificado, tratou delegados e
investigadores com rispidez. Reagia s per guntas com monosslabos, e 
maioria delas recusava-se sequer a dar respostas. Quando o escrivo
perguntou qual era sua profisso, ele foi seco: - Capito do Exrcito. O
funcionrio, provocativo, eorrigiu-o: - O senhor quer dizer ex-capito,
no? Ele irritou-se: - Ex-capito, no! Sou eapto do Exrcito brasi
leiro! Cercado pelos "cardeais" da polcia poltica - Bellens Porto,
Hymalaia Virgolino, Miranda Correia, Canavarro

155

Pereira - Prestes deixou claro, desde os primeiros minu tos da priso,
que no iriam arrancar qualquer informa o dele, deciso que seria
mantida at o ltimo instan te de seu longo perodo de priso. Quando o
delegado Bellens Porto perguntou qual havia sido sua participao no
movimento de 27 de novembro, ele contou: - No tenho qualquer declarao
a prestar nesse sentido. - Mas onde o senhor esteve no dia 27 de
novembro de 1935? - No tenho qualquer declarao a prestar nesse
sentido. - Quais so as suas ligaes com o senhor Harry Berger, ou
Arthur Ernst Ewert? - No tenho nada a informar aos senhores. S posso
fazer declaraes a respeito da Coluna Prestes. Tudo quan to tinha a
declarar a respeito do que fiz ultimamente est nos meus manifestos
pblicos. Ao final, Bellens Porto entregou-lhe a ltima pgina do
"depoimento" para que ele assinasse. Prestes irritou-se uma vez mais: -
No assino! S assinarei rubricando tambm as pginas anteriores.
Evitarei assim que se possam fazer enxertos, atribuindo-me declaraes
que no prestei! Era a primeira vez que um preso se dirigia naquele tom
 cpula da polcia. Os delegados atenderam ao pedido. Quando acabou de
rubricar folha por folha, assinou finalmente a ltima e declarou, em tom
de enfado, para quem quisesse ouvir: - Tudo isso, afinal, no passa de
uma palhaada! A nica autoridade que no teve coragem de enfren tar
Prestes cara a cara foi Filinto Mller. O chefe de polcia chegou cedo a
seu escritrio, espiou por uma fresta para dentro da sala onde Prestes
era interrogado por seus principais subordinados, mas no quis ser visto
por ele. Duas nicas visitas de estranhos  polcia foram permiti das
por Filinto: os majores Cordeiro de Farias e Riograndino Kruel, que
tinham participado da Coluna, apareceram no prdio da Polcia Central
logo de manh e

156

conversaram alguns minutos com o antigo chefe. Aps a sada dos dois,
Prestes comentaria, amargo: - Eu sei que no vieram aqui para
solidarizar-se comigo mas para um reconhecimento: queriam certifi car-se
de que sou eu mesmo. De seu gabinete, Filinto Mller saboreava a
vitria, Recebeu o ministro da Justia, Vicente Rao, que visitava
aPolcia Central por determinao do presidente da Rep blica, para
apresentar os eumprimentos de Vargas ao capi to e aos policiais que
tinham prendido Prestes. A pedido dos reprteres, fazem uma pose ao lado
da mesa do chefe de polcia, sobre cujo tampo estavam vrios caixotes
contendo o maierial apreendido na rua Honrio. LadD a lado estavam Rao,
Filinto, Miranda Correia, Torres Gal vo e, aos ps do anfitrio. o
cachorro "Prncipe". Termi nada a visita o chefe de polcia redige um
telegrama circular dirigido a todos os governadores de Estados: Tenho a
honra de comunicar a Vossa Excelncia que a polcia desta Capital, em
diligncia realizada hoje, efetuou a priso do chefe comunista Lus
Cartls Prestes, apreen dendo copioso arquivo. Cordiais saudaes,
Filinto Mller Chefe de Polcia.

Filinto no exagerava ao utilizar a expresso "copioso" para designar o
farto material acumulado por Olga e Prestes em to pouco tempo e
apanhado pela polcia na rua Honrio. Eram caixas e mais caixas de
cartas, papis documentos, manifestos e recibos, que um dos autos de
apreenso resumia de maneira eloquente: (...) um mapa do Distrito
Federal; uma proclamao aos soldados, cabos, sargentos e oficiais
conscientes do 22." BC e da Polcia; uma proclamao aos operrios, com
poneses soldados, estudantes, pequenos comerciantes, povo oprimido de
Pernambuco; um impresso em papel rosa com o ttulo "Aparemos as unhas
dos ladres do povo"; um carto de visitas em nome de "Antnio Vilar,
Lishba"; uma proclamao em papel rosa sob o ttulo "Lihertemos Harry
Berger que sofre com sua companheira as piores torturas da Polcia
Central e no patio da Polcia Especial"; uma proclamao impressa em
papel verde aos oficiais e sargentos do Exrcito: cinco folhas
mimeografadas com o

156

ttulo "Comeou a Revoluo!"; um impresso em papel branco com o ttulu
"Harry Herger, um grande lutador antifascista e antiguerreiro; trs
folhas mimeografadas com o ttulo "Resolues do CC sobre as tarefas dos
co munistas na preparao e na realizao da revoluo na cional"; duas
folhas datilografadas com o ttulo "Contra as provocaes policiais
dirigidas pelo Intelligence Service e contra a reao fascista do
governo traidor e tirnico de Getlio e comparsas, levantemos bem alto a
bandeira de luta da libertao do Brasil; uma folha mimeografada com o
ttulo "Instrues para o trabalho sindical e preparao de greves na
atual situao de estado de stio; uma folha de papel almao margeada
por linhas azuis, manuscrita a tinta, comeando pela frase "reconhece um
bilhete que escreveu a Berger com o pseudnimo de Gin"; quatro folhas
mimeografadas com os termos de declara es prestadas na polcia por
Adalberto Andrade Fernan des; uma folha de identificao para pedido de
visto em passaporte, em nome de Antnio Vilar e de Maria Bergner, com
duas fotografias  margem, passada pelo consulado do Brasil em Buenos
Aires em 11 de abril de 1935, acom panhada de dois atestados mdicus e
dois certificados de antecedentes criminais, todos-com o carimbo do
consulado geral do Brasil em Buenos Aires; um passaporte da Rep blica
portuguesa concedido a Antnio Vilar e sua mulher, Maria Bergner Vilar,
em oito de maro de 1935 em Roucn, na Frana; uma centena de cartas em
francs e em por tugus assinadas por "amigo Ga , "amigo Cletd, "Amigui
nha", "Pradu", "Mel", "Souza", "G.", "B." e "amigo S:; uma folha
datilografada com o ttulo "Cpia do informe rece bido em 6 e datado de
5, sobre a Gamta"; duas folhas datilografadas com o ttulo "Cpia do
informe sobre as respostas da Garota ao ltimo questionrio , e assinada
a lpis por "M." duas folhas datilografadas com o ttulo "Respostas da
Garot . Dinheiro no havia muito na rua Honrio: pouco mais de mil
gulden holandeses e 162 dlares- At aquele momento, somados os dlares,
pesos, francos franceses, gulden, marcos e libras apreendidos em vrios
aparelhos ou em poder dos estrangeiros detidos, havia uma pequena
fortuna nos cofres da polcia. Mas no era dinheiro o que a polcia
buscava. No meio da maaroca de papel recolhida no aparelho do Meyer,
Filinto Mller encontrou elementos para completar um quebracabeas que
permi tiria, meses depois, atribuir a Prestes uma pena muito maior do
que a que lhe seria imposta por chefiar a rebe lio comunista.
Analisando questionrios e relatrios

158

localizados na rua Honrio, a polcia comeava a desenterrar o que a
imprensa batizaria de "o tribunal vermelho" - o processo atravs do qual
a direo do Partido Comunista condenou  morte e executou a jovem
mulher de Miranda, Elvira Cupelo Colnio, a Garota, ou Elza Fernandes.
 Nunca ficaria muito claro se Elvira era apenas uma desequilibrada
mental ou, como concluiu a cpula comu nista, uma traidora que havia se
passado para o lado da polcia. Para muitas das presas da Casa de
Deteno, onde ela foi recolhida,tratava-se apenas de uma adolescente do
interior, deslumbrada com o Rio de Janeiro e a notorie dade alcanada
pelo fato de ser mulher do mais impor tante dirigente do Partido
Comunista. Maria Werneck de Castro, advogada que estava recolhida  ala
feminina da Deteno, acusada de envolvimento na revolta, espantouse
quando viu a jovem revelar, dentro da cela, o fim que costumava dar ao
dinheiro que recolhia dos militantes comocontribuio para o Partido. As
gargalhadas, Elvira escandalizava os outros presos ao falar: - Mria,
sabe aquele dinheiro que fui buscar na sua casa, dizendo que era ordem
do Miranda? No era para o PC, mas para eu comprar toalhas novas para a
nossa casa. No  a mesma coisa? Ns no somos todos comunistas?
Desequilibrada, despreparada ou agente infiltrada, a polcia tratou de
tirar proveito de Elvira. Os registros de entrada e sada de presos da
Casa de Deteno, manuscri tos num grosso volume de capa negra,
guardariam para sempre pelo menos uma certeza: sem explicao aparente,
a Garota foi colocada em liberdade inmeras vezes, sendo repetidamente
detida pela polcia dois ou trs dias depois. Por mais duras que fossem
as recomendaes de Carmen Ghioldi, Maria Werneck de Castro, Nise da
Silveira e outras presas, de que a polcia fazia aquilo para transfor
m-la em isca e descobrir novos endereos de aparelhos, Elvira no
parecia fazer caso das advertncias. E, a cada sada sua, mais meia
dzia de dirigentes caa nas mos de Filinto Mller. E como a polcia,
em suspeita

159 generosidade, permitia que ela fizesse visitas regulares  cela onde
o marido estava detido, na Casa de Correo, ele tambm passou a ficar
sob a mira do partido. Ainda durante o perodo em que Olga e Prestes
esta vam na rua Honrio, a direo decidiu tirar a dvida a limpo. Em
uma de suas sadas do presdio, o Partido agarrou-a, deixando-a sob a
custdia de Francisco Meirelles, em sua casa na estrada de Guaratiba.
Por ser um dos poucos estrangeiros experientes ainda em liberdade, Lon
Jules Valle foi encarregado de redigir os questionrios a que Garota
seria submetida durante o processo que se iniciava. Manuscritas por
Valle em francs, as pergun tas eram levadas por mensageiros aos quatro
membros do Secretariado Nacional encarregados do caso: o
secretrio-geral Lauro Reginaldo da Rocha, o Bangu, Honrio de Freitas
Guimares, o Milionrio, Adelino Decola dos Santos o Tampinlra, e Jos
Lago Morares, o Brito. O vaie-vm de perguntas e respostas durou duas
semanas, ao fim das quais a direo concluiu que Elvira tinha efetiva
mente colaborado com a polcia a troco da promessa de que ela e o marido
seriam libertados e enviados  terra natal dele, a Bahia, onde sonhavam
viver juntos. O resul tado do "inqurito" foi enviado  casa onde Olga e
Prestes se escondiam, no Meyer. juntamente com dois bilhetes de Miranda,
em que o dirigente preso reclamava, preocupado, da ausncia da mulher,
que havia muitos dias no o visitava na cadeia. Sobre estes bilhetes, a
direo do Par tido optou por consider-los falsos, "certamente escritos
pela polcia para nos confundir", como diria o Milionrio. A respeito do
"processo" de Elvira, Prestes foi duro: se o Partido conclura que ela
de fato havia trado, "por que tanta vacilao em executar a deciso
tomada pela derio?", ele indagava em sua mensagem escrita: Fui
dolorosamente surpreendido pela falta de resolu o e vacilao de
vocs. Assim no se pode dirigir o Par tido do Proletariado, da classe
revolucionria. (...) J formulei minha opinio a respeito do que
precisamos fazer. Por que modificar a deciso a respeito da Garota? H
ou no h traio por parte dela?

160

A sorte de Elvira estava lanada. A deciso de executar a sentena foi
finalmente tomada em reunio de que participavam Honrio de Freitas
Guimares, o Milionrio, Eduardo Ribeiro Xavier, o Abbora, Adelino
Decola dos Santos, o Tampinha, o novo secretrio do PC, Lauro Re
ginaldo da Rocha, o Bangu, Manoel Severino Cavalcanti. o Gaguinho, e
Francisco Natividade Lyra, o Cabeo. No final de fevereiro Elvira foi
transferida da estrada de Guaratiba para uma casa situada em local ermo,
prxima  estrada do Camboat, no subrbio carioca de Deodoro, onde j a
esperavam Milionrio, Gaguinho, Tampinha, Abbora e Cabeo. Ao cair da
tarde, enquanto a jovem conversava com o grupo em uma salinha dos fundos
da casa, Cabeo foi ao quintal, cortou um pedao de corda que servia de
varal de roupas e sentou-se ao lado de Elvira. Num gesto rpido
passou-lhe a corda em volta do pescoo e apertou. Garota quis resistir e
tentou erguer-se da cadeira, mas Cabeo, um homem enorme, atirou-se
sobre ela e jogou-a no cho. Subjugada, Elvira foi esttangulada pelo
grupo. O nico a no participar foi Abbora, que diante da violncia da
cena ps-se a vomitar num canto da sala. O corpo foi carregado para
outro cmodo, onde Cabeo, auxiliado pelos demais, dobrou-o em dois,
juntando os ps  cabea e aterrorizando o grupo com o rudo dos ossos
que se partiam. Nessa posio o enfiaram dentro de um grande saco de
aniagem, que foi levado at o quintal. Ali mesmo, ao p de uma rvore,
Elvira foi sepultada. Se a suspeita de que Elvira tivesse sido morta
provocou sensao na imprensa brasileira, francamente go vernista, a
morte do americano Victor Barron foi aceita pelos jornais do Rio e de
So Paulo sem que se questio nasse uma slaba sequer da verso policial
que o dava como suicida. Alm da insistncia da Associated Press em
apurar as verdadeiras circunstncias em que ele motrera, no entanto, sua
me, Edna Hill, e vrios intelectuais norteamericanos tanto fizeram que
a notcia chegou s pri meiras pginas dos grandes dirios dos Estados
Unidos. No dia 6 de maro Edna Hill recebeu das mos do carteiro em sua
casa em Oakland, na Califrnia, um telegrama

161
 expedido a cobrar pelo secretrio de Estado dos Estados Unidos,
redigido em apenas um pargrafo: Lamento inform-la que o embaixador
americano no Rio de Janeiro, Brasil, relatou-me telegraficamente que seu
filho, Victor A. Barron, conseguiu evadir-se de sua guarda e suicidou-se
no dia 5 de maro, ao pular para a rea pavimentada de um ptio dois
andares abaixo. Cordel Hull Secretrio de Estado.

Se Edna Hill tivesse lido o jornal The New York Times daquela manh,
teria sabido mais cedo da tragdia de seu filho, e de forma mais
dolorosa. Seguindo o tratamento dado inicialmente por toda a imprensa
americana para o caso, o dirio novaiorquino publicou a notcia conforme
a polcia brasileira a diwlgara: Comunista trai seu chefe e depois se
mata. Victor Allen Barron, americano, diz  polcia do Rio de janeiro
onde  o esconderijo de Prestes. Rio de Janeiro, 5 de maro -
Desesperado pelo fato de ter dado a informao que resultou na priso de
Lus Car los Prestes, suposto lder da rebelio radical de novembro
ttimo, o americano Victor Allen Barron, 27 anos, cometeu suicdio hoje,
aqui, jogando-se do segundo andar do quartel-general da polcia. Seu
crnio fraturou-se e ele foi levado a um pronto-socorro, onde faleceu
logo aps ter chegado, Barron, de acordo com a Embaixada americana
daqui, era um cidado de Poriland, Oregon, porm ulti mamente vivia no
niunero SPl da rua Haro, em So Fran cisco. Ele chegou ao Hrasil em
junho passado dizendo alternadamente ser operador de rdio e
comerciante, A polcia local descreveo como um comunista que foi preso
h um ms sob a acusao de haver participado da revolta, dirigindo um
automvel para os rebeldes, sobretudo para Prestes, transportando-o de um
lugar para o outro. A priso de Prestes foi efetuada com a ajuda de seu
prprio co, que a policia encontrou na casa de Harry Ber ger, suposto
comunista americano, que prenderam em dezembro. O co os levou at a
casa onde Prestes estava, conduzindo-os at seu dono. Prestes, conhecido
como o "Cavaleiro da Esperana", cortou a barba enquantu estava
clandestino. Ele foi encontrado por mais de cem policiais, entre
uniformizados e  paisana, que formaram um verdadeiro cordo de
isolamento em volta do bairro. A notcia publicada pela Associated Press
mudou o curso dos fatos nos Estados Unidos. Reproduzida

162

inicialmente apenas pelo The Washington Star, a suspeita estava no dia
seguinte em todos os jornais, e motivou uma ao fulminante contra o
governo, no sentido de que se apuras se a verdadeira causa da morte de
Barron. Acionado por Edna Hill, um senador, Albert Carter, procurou o
secretrio de Estado Cordel Hull pedindo providncias em relao ao
corpo diplomtico amercano no Rio. No satis feita, Edna Hill colocou
no correio, naquele mesmo dia, uma carta endereada ao presidente
Frankn Roosevelt: Caro Presidente Roosevelt: Venho pedir ao senhor o
Favor de mandar investigar a causa da morte do meu filho no Rio de
Janeiro, Brasil. De maneira alguma eu acredito que ele tiraria a prpria
vida, a no ser que a punio a ele infligida fosse muito dura de ser
suportada. Sei que se houvesse uma chance de retornar para casa ele
teria sacrificado qualquer coisa em troCa disso. Ele amava sua casa. Eu
no poSso enfender por que me contaram trs his trias a respeito de sua
morte: uma da imprensa, uma do embaixador no Brasil e outra do senador
Albert Carter. O senhor poderia descobrir se ele deixou alguma mensagem 
para sua me? E outra coisa, Senhor Presidente Roosevelt, para a
qual eu gostaria de chamar a sua aten o: quando recebi o telegrama
sobre a morte do meu filho, a mensagem veio a cobrar - tive que pag-la
antes de ler. Alm de ter sido pesarosamente assaltada, fiquei numa
situao embaraosa. Estou escrevendo-lhe esta carta numa ltima
esperana de descobrir o que realmente aconteceu para causar a morte de
meu jovem filho, que tinha apenas 26 anos. Gostaria tambm de saber Se o
corpo tem uma cicatriz na perna, j que no tive qualquer chance de
identific-lo como meu filho, de modo algum. Muito respeitosamente sua,
Sra. Edna Hill. 441h, Avenue n 1023 Oakland, Calfrnia

O que Edna Hill supunha ser uma terceira verso, dada pelo senador
Albert Carter, era, na verdade, o rol de suspeitas levantadas pelos
jornais, comprovando que no havia razes aparentes para Barron
suicidar-se e que, ainda que tentasse faz-lo, sera impossvel que uma
queda de pouco mais de dois metros de altura causasse

163

ferimentos to graves. Tanto a carta de Edna Hill quanto as
manifestaes feitas no Congresso Americano eram des pachadas
incontinenti pelo presidente Roosevelt para o mesmo endereo: a mesa de
Cordel Hull, secretrio de Estado. Uma grande comisso foi montada para
forar o governo a apurar no s a verdadeira causa da morte de Barron,
mas tambm a omisso da embaixada americana no Brasil em proteger um
cidado norte-americano. Chefiada pelo advogado Charles Arthur, neto de
Chester Arthur, ex-presidente dos Estados Unidos, a comisso era
recheada de grandes nomes: Jeanette Rankin, a primeira mulher a obter
uma cadeira no Congresso americano, os escritores Malcolm Cowley, John
dos Passos, Sherwood Anderson, Crane Brinton, Lilian Hellman, Theodore
Drei ser e Upton Sinclair, o compositor Aaron Copland, o his toriador
Waldo Frank e o lingsta Edward Sapir, entre outros. O grupo dirigiu a
Roosevelt, ao secretrio de Esta do e fez publicar como matria paga nos
jornais de Washington e Nova York um memorial em que o embaixador dos
Estados Unidos no Brasil, Hugh Gibson, era acusado de ter prestado
colaborao extra-oficial  polcia do Rio. "Estamos inclinados a julgar
o embaixador Gibson", dizia o documento, "como, no mnimo, parcialmente
respons vel pelas razes que causaram o "suicdio" do Sr. Barron". O
extenso manifesto terminava com acusaes graves: A parte todas as
verses, um fato fica claro e cristalino. Se Barron deu ou no
informaes  Polcia que ajudaram a prender Prestes, ou se ele foi
simplesmente assassinado, ou se foi torturado e coagido at no poder
mais suportar viver, uma coisa  certa: ao invs de cumprir o seu dever
para com este cidado americano, ao invs de proteg-lo dos mtodos da
polcia, que eheiram  inquisio da poca medieval, a Embaixada
americana no Brasil realmente ajudou ou tentou dar ajuda  policia de um
governo estrangeiro contra um cidado americano. A Embaixada americana
no Brasil Fica, portanto, acusada de coadjuvan te no crime, em companhia
da brutal polcia do presidente Getlio Vargas. Esto os americanos
negociando com os brasileiros de modo livre e independente ou esto
engaja dos numa conquista? Ser que na diplomacia  esta a politica da
boa vizinhana? O povo americano quer saber.

164

Por requerimento do
deputado Vito Marcantonio, o Capitlio aprovou a instalao de uma
Comisso Parla mentar de Inqurito para apurar as denncias de que a
embaixada americana no Rio de Janeiro se omitira ou mesmo havia
colaborado nos episdios que envolveram a morte de Barron. Menos de uma
semana depois o Con gresso aprovava a resoluo nmero 243, que obrigava
o Departamento de Estado a transmitir, "com a mxima urgncia", as
seguintes informaes ao Congresso dos Estados Unidos, para instruir a
Comisso de Inqurito: 1. Todos os fatos a respeito da morte de Victor
A. Barron, cidado amercano, que morreu sob a custdia da polcia do
Rio de Janeiro em 5 de maro de 1936. 2. O que foi feito pelo embaixador
Hugh Gibson para proteger o cidado Victor A. Barron. 3. Se o embaixador
Hugh Gibson ajudou ou contri buiu para a priso ou o interrogatrio de
Victor A. Barron. 4. Se o embaixador Hugh Gibson ou seus agentes
interrogaram o referido Victor A. Barron enquanto sob custdia da
polcia brasileira, com o propsito de obter informaes a respeito de
suas atividades polticas. 5. Toda e qualquer informao a respeito da
condu ta do embaixador Hugh Gibson em relao  priso e morte de Victor
A. Barron. O deputado Alexander Johnson, do Texas, um pol tico
conservador que tentara por todos os meios obstruir a constituio da
Comisso de Inqurito, conseguiu con vencer o plenrio a restringir as
investigaes, delineadas no questionrio,  participao ou no da
embaixada americana na morte de Barron, impedindo que o Congresso
buscasse a verdade do tema central: Barron se suicidara ou fora morto
sob tortura? Ainda assim, o Congresso obrigou o secretrio Cordel Hull a
remeter ao deputado Sam McReynolds, presidente da Comisso de Assuntos
Estrangeiros da Cmara, um minucioso calhamao sobre o envolvimento da
embaixada na chamada "conexo brasileira" do movimento comunista
internacional. Como o que se apurava era apenas o envolvimento de Hugh
Gibson e seus agentes, as respostas do Departamento de

165

Estado foram consideradas satisfatrias e, no dia 26 de maro, o
plenrio aprovou resoluo do texano Johnson, determinando o
arquivamento do inqurito que sequer fora iniciado. Mas o esfriamento do
"caso Barron" no tiraria o Brasil do centro das presses
internacionais. A notcia de que Arthur Ewert e sua mulher Elise estavam
sendo massacrados por torturas nas prises brasileiras acabou va zando
na imprensa. Na imprensa estrangeira, claro, j que os jornais
brasileiros, sem nenhuma exceo tinham se transformado em porta-vozes
do noticirio oficial incluindo-se, a, at os dirios que no tinham
simpatias por Getlio Vargas. No af de agradar ao governo, os jornais
metiam no mesmo saco anticomunismo e anti semitismo e alimentavam
diariamente entre a populao um verdadeiro dio aos estrangeiros em
geral - e aos comunistas e judeus em particular. E o estrangeiro que no
fosse judeu era automaticamente convertido pelo noti cirio dos jornais.
Foi assim que a notcia da priso de Ewert foi dada por O Globo em uma
escandalosa man chete de oito colunas de primeira pgina:

Filho de Israel e agente de Moscou! Num bangalow verde, em Copacabana,
residia o emissrio do Komintern, com dinheiro e instrues para a
rebelio vermelha! Harry Bergen, representante de Stlin! Apreendido em
seu poder o arquivo da Aliana Nacional Libertadora e um salvoconduto
para entrar em reparti es pblicas!

Ewert no se chamava Bergen, no era judeu, no fora preso em
Copacabana, era adversrio de Stlin e no tinha salvo-conduto para
entrar em repartio alguma, mas nada disso tinha importncia. O
essencial era envenenar a populao com a monstruosa conspirao judaica
comunista que vinha de fora - no importava de onde para escravizar o
Brasil. Alm das sucessivas denncias de torturas feitas por membros do
Congresso Nacional, como o deputado para naense Otvio da Silveira e o
senador do Par Abel Chermont - e que a imprensa nacional ignorava

166

publicamente - um incidente entre o capito Filinto Mller e um pequeno
grupo de ingleses ajudaria a mobilizar a opi nio pblica europia em
defesa dos Ewert. Nos primeiros dias de maro desembarcaram no Brasil
Lady Marian Cameron Campbell e Lady Christine Hastings, esposas de dois
membros da Cmara dos Comuns da Inglaterra. Acompanhadas de um
secretrio particular, Richard Gavin Freeman, as duas senhoras
anunciaram  imprensa, no cais do porto, que vinham ao Brasil apurar, em
nome de institues de seu pas, denncias sobre torturas a presos
polticos - especialmente estrangeiros. Avisado pelos reprteres,
Filinto Mller foi em pessoa at o hotel Glria, onde a delegao se
hospedara e, depois de deci dir que aquela viagem "era coisa de Moscou",
prendeu as ladies Campbell e Hastings num dos apartamentos do hotel,
guardadas por dois policiais, e mandou que o aterrorizado Freeman fosse
atirado num dos xadrezes da Polcia Especial. A situao perdurou por
quatro das at que, quando parecia transformar-se num incidente
diplomti co, o embaixador ingls no Brasil consegiu autorizao para
que os trs fossem liberados e imediatamente embarcados no navo
Arlanza, que zarpava para a Europa. A repercusso no poderia ter sido
pior. Semanas depois a revista britnica The New Statesman and Naton
publi cava com destaque o artigo intitulado "Uma desventura brasileira",
em que os desafortunados turstas davam a sua verso do tratamento que
recebiam os presos no Brasil - verso devidamente apimentada pelo
depoimen to sobre o que Richard Freeman vira nas celas do morro de Santo
Antnio e sobre a situao dos Ewert. O artigo agitou os meios polticos
londrinos: um telegrama confidencial do embaixador brasileiro em
Londres, Rgis de Oliveira, informou ao chanceler Jos Carlos de Macedo
Soares que a embaixada do Brasil, na Inglaterra continuava a receber
"inmeras cartas de membros do Parlamento e de outras pessoas de certa
considerao, insistindo sobre os rumores que dizem correr a respeito de
maus tratamentos dados pela nossa polcia a um tal Arthur Ewert, antigo
membro do Reich e a sua mulher".

167

A campanha, dizia o diplomata, parecia inspirada "por uma tal Minna
Ewert, residente nesta capital, e que se intitula irm da suposta vtima
das nossas autoridades". Rgis de Oliveira rogava a Macedo Soares
informaes pormenorizadas a respeito do casal. Embora Arthur Ewert
estivesse  beira da loucura, preso num socavo de escada cujo teto era
meio metro inferior a sua estatura, a carta do ministro das Relaes
Exteriores do Brasil, em resposta  consulta vinda de Londres, era um
primor de mentira e dissimulao: Arthur Hwert e sua mulher, Elisa
Saboruwsky Ewert. uu Machla Berger, esto presos no Rio de Janeiro desde
dezembro do ano findo, sendo infundados todos os rumores que correm
nessa capital sobre os maus tratos infligi dos a ambos pelas nossas
autoridades policiais, que, agindo com a mxima energia, no necessitam,
entretanto, fazer uso de meios violentos, to ao agrado daqueles que,
pleiteando medidas humanitrias, s conseguem vencer pela tirania.
Cnscio da obra nefasta levada a efeito em nosso pas pelos agentes
moscovitas, nacionais e estrangeiros, o governo brasileiro trata apenas
de defender-se com a segurana e a energia dos fortes, fazendo cumprir a
lei e perseguindo, em seus redutos, todos aqueles que tentam SUbVCrter a
ordem e ataCar aS noSsaS Instituies. A Berger e a sua esposa, bem como
a todos os presos comunistas no Brasil, concede a policia toda a
assistncia mdica e judiciria. Ainda assim, obstinou-se Bcrger em
fazer greve de fome, receando ser envenenado. Desta forma, diminuiu
consideravelmente de peso, acusando natural enfraquecimento. Uma junta
mdica foi nomeada para examin-lo, ficando comprovado que Berger se
encontrava em perfeito estado de sade, necessitando apenas alimen
tar-se convenientemente. Quanto a sua esposa Elisa Ewert (alis Machla
Berger) goza tambm de boa sade, tendo ficado h dias ultimado o seu
processo de expulso. A pseudo esposa de Lus Car los Prestes, Maria
Bergner Vilar, que usa tambm o nome de Olga Prestes, ser tambm
espulsa do territrio na cional. Jos Carlos de Macedo Soares Ministro
das Relaes Exteriores

13. O embaixador do Brasil na Gestapo

169

Olga no ignorava que corria o risco de ser depor tada. Durante os dez
dias no prdio da rua da Relao, ouvira notcias de que desde a
revolta,
Getlio Vargas devolvera  Europa centenas de "estrangeiros indesej
veis". Mas sabia tambm que havia algo a seu favor: ningum conhecia sua
verdadeira identidade. De verda deiro a polcia s tinha seu prenome,
obtido durante o depoimento de Rodolfo Ghioldi. Em todos os
interrogatrios a que fora submetida nos primeiros dez dias de priso,
ela se recusara a prestar qualquer informao s autoridades e repetia
at  irritao as mesmas respostas: - Nome? - Maria Bergner Vilar. -
Nacionalidade? - Brasileira. Apesar do sotaque forte, ela dizia isso com
firmeza e naturalidade. Os policiais insistiam: - Como? Brasileira? -
Sim, brasileira. Eu sou a mulher de Lus Carlos Prestes, que 
brasileiro. Portanto, sou brasileira. A imprensa, a princpio,
identificou-a como Olga Meirelles, irm do tenente Sylo Meirelles,
companheiro de Prestes na revolta. Depois o noticirio garantia que seo
verdadeiro nome era Olga Berger, nascida em Ostende,

170

na Blgica, e que conhecera Prestes quando trabalhava na legao
comercial sovitica em Bruxelas. Os dois teriam se casado em Montevidu,
a caminho do Brasil. O jornal O Estado de S. Paulo garantia, em furo de
repor tagem, que a mulher com quem Prestes se casara era, na verdade,
Olga Jazikoff Pandarsky, extremista presa em So Paulo meses antes e
deportada por decreto do presdente Getlo Vargas. O mistrio a
respeito de seu verdadeiro nome e de seu passado, no entanto, duraria
pouco. A embaixada do Brasil em Berlim mantinha estreitas e amistosas
relaes com o comando da polcia secreta nazista, a Gestapo, e o
embaixador Jos Joaquim Moniz de Arago brindava seus superiores no
Brasil com preciosas informaes que obti nha nos quartis da
organizao. Regularmente chegavam ao Itamaraty contribuies
espontneas de Arago con tendo relatrios sobre as atividades da
chamada "subver so internacional" na Europa. Era com especial deleite
que o diplomata brasileiro identificava sobretudo os que fossem, como
ele dizia, "da raa israelita". Poucos dias depois da prso de Olga e
Prestes, um alentador ofcio de Moniz de Arago chegava ao gabinete do
chanceler Jos Carlos de Macedo Soares, protegido pela advertncia
confidencial, desvendando o segredo que envolvia a mulher do chefe
comunista brasileiro:

Senhor Ministro: Em aditamento ao meu olicio nR 136, de 16 do corrente
ms, enviei a Vossa Excelncia no dia 21 deste ms o telegrama de n. 40
resumindo uma srie de informaes que me foram prestadas em carter
estritamente confidencial pelo servio secreto alemo. O referido
servio, ao me fornecer os aludidos dados, mais uma vez pediu que
fizesse notar sobre a inconvenincia de ser a divulgada a ori gem das
comunicaes feitas em carter absolutamente confdencal, pois sso
poder prejudcar a ao doS in formantes e exp-los  vingana por
parte dos agentes da III Internacional. As fichas de identificao de
Harry Berger, que ohtive do servio secreto alemo, e que remeti anexas
ao meu ofcio confidencial n. 51, de 4 de fevereiro ltimo, foram
publicadas pela maioria dos jornais do Rio

171.

 de Janeiro e de diversos Estados, com a meno de terem sido fornecidas
pela polcia alem. Tratando-se de uma comunicao que me foi feita,
como disse, confidencialmente, esse fato causou aqui desagradvel
impresso e confesso que fiquei surpreendido ao me mostrarem exemplares
de A Noite e de O Globo com a reproduo das referidas fichas sem que
nem ao menos tivessem apagado as notas indicativas de serem provenientes
da polcia de Berlim. Respeitosamente devo insistir, a pedido das
autoridades da Gestapo, a fim de que no futuro esse fato seja evitado.
Tratando de assunto de nosso prprio interesse, estou certo de que Vossa
Excelncia intervir do melhor modo no sentido indicado.
 Desde que tive notcias pelos jornais da priso de Lus Carlos Prestes
e de uma mulher que, segundo creio, at agora a nossa polcia no tenha
conseguido identificar completamente, tratei de comunicar-me com a
Gestapo, fornecendo-lhes algumas fotografias estampadas em jornais
nossos, da mulher que a se faz chamar Maria Meirelles, Maria Bergner
Villar e Maria Prestes. Depois de apuradas sindicncias o servio
secreto alemo informou-me ter podido identificar Maria Prestes, que a
se intitula esposa de Luz Carlos Prestes. Para que Vossa excelncia
possa avaliar o trabalho feito,  bastante indicar que a Gestapo
consultou 25 mil fotografias e 60 mil fichas at conseguir estabelecer
precisamente a identidade daquela mulher.
 Tudo poderia ser mais simplificado se a nossa polcia pudesse atender

ao pedido reinterado que tenho feito deme serem remetidas fichas e
fotografias de agentes comunistas a presos e bem assim dos que tm sido
expulsos para que, talvez, possam melhor ser aqui identificados. Alm do
mais, como retribuio aos servios que me tem prestado a Gestapo, e
pelo meu intermdio, seria justo, a meu ver, que conforme desejo que me
tem manifestado, comunicssemos as cpias de documentos apreendidos a
em poder de extremistas e que eventualmente se refiram direta ou
indiretamente  ao do comunismo na Alemanha. Pelas informaes agora
obtidas, e como referi no meu telegrama nmeru 40, Olga Meirelles, Olga
Villar, Maria Bergner ou Maria Prestes, citada nos jornais brasileiros
como esposa de Lus Carlos Prestes, pode ser identificada como sendo
Olga Benario, agente comunista da Iii internacional deveras eficiente,
de grande inteligncia e coragem. Olga Benario  de raa israelita,
tendo nascido em 12 de fevereiro de 1908, em Munich, na Baviera. Desde
do ano de 1925 que Olga Benario  conhecida da polcia alem como agente
comunista extremamente ativa e eficiente. De 1926 a 1928 ela trabalhou
na Delegacia Comercial dos Sovietes em Berlim, cujos escritrios estavam
instalados na sede da prpria embaixada. Nessa ocasio ela tambm se
entregou a servios de espionagens de carter militar,

172

interessando  defesa nacional. Em 1928 foi condenada  pena de trs
meses de priso por ter provucado e conseguido com violncia, em 11 de
abril daquele ano, a fuga do agente comunista Otto Braun, com quem vivia
e que estava preso na priso de Moabit. Olga Henrio fugiu de pois de
cumprir aquela pena para a Rssia, tendo tomado parte no 5." Congressu
Internacional da Juventude Comu nista, que se realizou em Moscou de 19
de agosto a 18 de setembro de 1928. At o ano de 1929 ela residiu na
capital sovitica. As suas relaes com Lus Carlus Prestes devem datar
do ano de 1935, depois da reunio em Moscou du Congresso Mundial da III
Internacional. Olga Benario tem usado os seguintes nomes para as suas
atividades comunistas: Eva Krger, solteira, nascida em Berlim em 12 de
maro de 1909; Olga Berger, solteira, nascida em ErFurt em 2 de abril de
1904; Frieda Wolf Bchrendt, casada, nascida em Erfurt em 27 de julho de
1903; Maria Vilar ou Maria Prestes, nascida em 1908. H suspeitas aqui
de que ela tenha servido de agente de ligau entre Arthur Ewert, alis
Harry Berger, Lus Car los Prestes e a Legao Sovitica em Montevidu,
e de que foi especialmente encarregada de organizar a propaganda da
juventude comunista no Brasil. Considerando as liga es que Olga
Benario manteve h tempos passados com Otto Braun, anteriormente citado,
a polcia secreta alem julgou til fornecer-me informaes detalhadas
sobre esse indivduo reputado como perigosu elemento de propagan da do
Komintern. Otto Braun, professor de curso elemen tar, nasceu em
Ismaning, pequena cidade perto de Munich, em 28 de setembro de 1910 e-no
ano de 1921 foi identifica do como agente comunista muito ativo. Viveu
em companhia de Olga Benario, na Alemanha, de 1926 a 1928, isto , at
a sua fuga da priso de Moabit, desta capital. No ano de 1926 Braun
tornou-se muito conhecido nos meios comu nistas alemcs tendo exercido a
chefia da organizao do Partido Comunista na Hungria e dirigiu, em
vrias cidades deste pas, cursos de formao de milcias vermelhas de
choque do Partido Comunista alemo, fazendo vrias conferncias sobre o
papel da ao comunista na luta de classes e em favor da revoluo
sovitica internacional. Em 1928 ele foi preso pela polcia alem sob a
acusao de crime de alta traio sendo, como disse, libertado  fora
com auxlio de Olga Henario em 11 de abril de 1928. Na sua fuga
atravessou a Blgica e a Holanda, munido de falsos documentos, indo
refugiar-se na Rssia, onde Coi se juntar novamente com Olga Benario.
Nessas condi es  muito possvel, como alis supe a polcia secreta
alem, que ele tambm tenha agido no Brasil em contato com os demais
agentes de Moscou.

174

Aproveito o ensejo para renovar a Vossa Excelncia os protestos de minha
respeitosa considerao. Moniz de Arago.

Aparentemente o chanceler Macedo Soares no levou a srio as reiteradas
recomendaes de Moniz de Arago de no dar publicidade s informaes.
Menos de 24 horas depois da chegada do ofcio ao Itamaraty, todos os
dados sobre a verdadeira identidade e os antecedentes polticos de Olga
eram estampados no Correio da Manh, do Rio, e na Folha da Manh e no
Correio Paulistano, de So Paulo. Quem passou o furo aos jornais teve o
cuidado, no entan to, de preservar a imagem pblica do Itamaraty, omitin
do as propostas anti-semitas de Moniz de Arago e ocul tando,
igualmente, a intimidade com que ele se referia s relaes da embaixada
brasileira em Berlim com a polcia secreta nazista. Os detalhes sobre o
passado de Olga Benario vieram a pblico no mesmo dia em que ela era
transferida da rua da Relao, onde ficara em uma cela improvisada, para
um presdio coletivo. O temor reverencial que policiais de todos os
nveis guardavam por Prestes parecia estender-se tambm a sua mulher:
apesar das ameaas e do terrorismo psicolgico, ningum lhe tocara um
fio de cabelo. Mas durante a mudana ela temeu que uma das promessas da
polcia poderia estar sendo cumprida: como se recusasse a colaborar com
seus interrogadores, os delegados tinham prometido mand-la para uma
priso de criminosas comuns. O receio de ser colocada junto com ladras e
assassi nas explicava o ar de pnico que Olga Benario estampava no rosto
quando foi deixada dentro de uma cela onde se

encontravam mais de dez mulheres. O medo, entretanto, durou poucos
minutos: ali estavam mdicas, escritoras, atrizes, algumas operrias,
duas advogadas e, para surpresa de Olga, sua amiga Sabo, a mulher de
Ewert. Todas, sem exceo, estavam presas pelos mesmos motivos que ela -
envolvimento da revolta de 27 de novembro: Maria Werneck de Castro, Nise
da Silveira, Eneida de Moraes, Rosa Meirelles, Beatriz Bandeira, Antonia
Venegas, Eug nia Alvaro Moreira, Francisca Moura, Armanda Alvaro I"!s
Alberto, Valentina Barbosa Bastos, Haide Nicolucci, Ca tarina Besouchet
e Carmen Ghioldi. Atravs das grades da cela, que ficava no segundo
andar de um pavilho em forma de U, Olga podia ver mais 48 cubculos,
menores que o seu - o das mulheres era duplo - onde se apinhavam cerca
de dozentos rapazes. O grande nmero de militares podia ser facilmente
identificado pelos cabelos, cortados rente, acima das orelhas. E eram
raros os que aparentavam mais de trinta anos. Olga sabia que ali estava
uma nfima parte do total das vtimas da represso que se abatera sobre
o Brasil depois da frustrada rebelio que seu marido chefiara. Na
vspera de ser transferida para a Casa de Deteno, na rua Frei Caneca,
ela ouvira um policial ler num dos jornais do Rio, para amedront-la, um
balano das atividades da polcia divulgado pelo capito Filinto
Mller. Em quatro meses a polcia realizara 3250 detenes para
averiguaes, 441 buscas domiciliares (eufemismo utilizado para designar
as invases de resi dncias, em geral  noite, sem mandado judicial), e
tinha deixado nos xadrezes um pouco mais de 3 mil pessoas, sendo 901
civis e 2146 militares. Tudo isso apenas na jurisdio oficial de
Filinto, isto , a cidade do Rio de Janeiro. A cela dupla das mulheres
ficava na parte menor do U; ao lado de uma pequena enfermaria. A posio
dava s suas ocupantes o privilgio de divisar todo o presdio, 
exceo das duas celas que ficavam exatamente sob o piso, no andar
trreo. E como o chamado "salo das mulheres" havia sido originalmente
duas celas cuja parede divisria fora posta abaixo, as presas contavam
com conforto dobrado, em relao aos homens: duas latrinas de barro
vitrificado, instaladas ao rs do cho, e duas pias de ferro. Cortinas de
pano surrado, presas no alto em arames, garantiam a privacidade das
usurias das toiltettes improvisadas. Na parede oposta  que separava a
cela da enfermaria tinha sido instalado um "guarda-roupas" - na verdade
uma armao de cabos de vassoura coberta com lenis grudados por
tachinhas - e que, muito mais do que guardar o que quer que fosse,
escondia um

176

orifcio cavado na parede, possibilitando a comunicao com os presos da
cela vizinha. Atravs do "periscpio" como chamavam o buraco, as presas
que tivessem maridos ou namorados na Deteno podiam passar alguns
minutos por dia ali, depois do banho de sol dos homens, trocando rpidas
e furtivas declaraes de amor. O ptio central do pavilho, para onde
davam as portas de todas as celas e onde os presos tinham o direito de
circular "livremen te" at s sete horas da noite, quando eram novamente
trancafiados nas celas, tinha recebido a denominao de "Praa
Vermelha"- Era ali que se realizavam os comcios e os cursos de
marxismo, de matemtica superior, de alfa betizao, de lnguas, de
histria do Brasil e, por exigncia de alguns tenentes revoltosos,
aulas de ginstica. Como a maioria dos presos estava ali desde novem
bro, Olga encontrou a Casa de Deteno funcionando com organizao
prpria. Havia o "Coletivo", instncia mxima entre os presos, eleito
democraticamente por todos, que tomava a iniciativa de mobilizar a
populao do presdio em suas reivindicaes, nos protestos coletivos e
nas greves de fome. Como os presos estrangeiros e os que tinham vindo de
outros Estados no possuam famlia no Rio de Janeiro, o Coletivo se
encarregava de recolher e redistribuir, equitativamente, a comida extra
recebida das visitas: frutas, chocolates, bolos e doces. Olga ainda
estava procurando ambientar-se com suas novas companheiras de priso
quando apareceram na porta da cela, guardadas por dois soldados armados,
as funcionrias da cantina do presdio,trazendo o caldeiro com o
"rancho" daquela noite - uma comida intrag vel - e distribuindo os
pratos de alumnio e as colheres entre as presas. quela hora o
movimento do final da tarde na "Praa Vermelha" j terminara: s sete
horas da noite os carcereiros corriam cela por cela, trancando  chave
os pesados ferrolhos das grades. Acabado o jantar, Olga ouviu um
vozeiro anunciar de uma das celas do segundo andar, de modo a que todo
o presdio ouvisse: - Agrade ou agrade, todos  grade! Vamos ouvir a
Rdio, a "Voz da Liberdade"! Ela logo se acostumaria ao jeito brasileiro
de enfrentar a tragdia da priso sob uma ditadura. Todos os dias,
religiosamente aps o jantar, ela ouviria a mesma frase: estava no ar a
"estao de rdio" improvisada pelos presos. De p, os presos cantaram
primeiro a Interna cional e depois o hino da Aliana Nacional
Libertadora, cuja msica era a mesma do hino da Independncia: Aliana,
Aliana, Contra vinte ou contra mil! Mostremos nossa pujana, Libertemos
o Brasil! Este canto  preciso que brade, Que no eesse o elamor desta
voz! No Hrasil h de haver liberdade, Conquistada nas ruas por ns!
Ainda meio intimidada, Olga cantou junto os dois hinos - o primeiro em
francs e o da Aliana num por tugus carregado de sotaque. A subiu
numa das grades o jovem e gordo mdico Manuel Venncio Campos da Paz
Jnior, locutor oficial da "Voz da Liberdade", para trans mitir notcias
srias, que chegavam clandestinamente da rua, ou deboches e piadas que
um dos presos, Aparcio Torelli, o Baro de Itarar, hoje reconhecido
como um dos maiores humoristas brasleiros de todos os tempos, passava o
dia inventando em sua cela. Em homenagem  chegada de Olga Benario,
naquele dia o Baro tinha preparado uma "notcia" especial sobre o
desafeto de seu marido- Campos da Paz, que tinha como chefe da claque
seu prprio pai, fez suspense: - E ateno, ateno, companheiros e
camaradas, para uma notcia de ltima hora que nos chega da rua: minutos
antes de enlouquecer, o presidente da Repblica decidiu condenar 
priso perptua o conhecido meliante Filinto "Mula"! Enquanto o programa
da "Rdio Liberdade" se desen rolava, Olga ia reconhecendo mais alguns
rostos familiares entre as barras de ferro das grades ou ali mesmo, na
sua cela. Ela conhecia o "locutor" Campos da Paz Jnior de um encontro
na praia com Amrico Dias Leite,

178

quando ia buscar as cartas que chegavam de Paris para "Yvone Vilai".
Embora entendesse pouco portugus na poca, ela pde perceber a malcia
da pergunta feita a Dias Leite pelo mdico rechonchudo: - Dias, voc
pensou que nos enganava, dizendo ter ido  Europa para estudar? Agora eu
vejo o belssimu contrabando de olhos azuis que voc trouxe da Frana. .
. Entre suas companheiras de cela, alm de Sabo e Carmen Ghioldi, ela
reconhecia a jovem advogada Maria Werneck de Casiro. Meses antes da
priso, Prestes reco mendara que Olga procurasse o advogado Luiz Werneck
de Castro, marido de Maria, para tentar legalizar oficial mente sua
permanncia no Brasil. E, no escritrio de Werneck, conversara
rapidamente com ela, sem se identi ficar como a mulher de Prestes. Mas
pouco depois viria o fracasso da revolta, a clandestinidade, e os planos
de per manecer legalmente no Brasil se perderam. Os primeiros dias na
Casa de Deteno Olga pas sou-os guardando uma certa reserva. Mesmo
sabendo que todas as presas ali eram revolucionrias, comprometidas com
a mesma luta, o melhor era tomar cuidado. Ela acompanhara de perto,
junto com o marido, no aparelho do Meyer, as suspeitas que o Partido
levantara contra Elvira e Miranda - e isso a deixava especialmente
desconfiada. Foi Maria Werneck quem a procurou para que brar o gelo,
relembrando o encontro havido meses antes. Uma semana depois de ter
chegado  priso da rua Frei Caneca, Maria Prestes, como era tratada
pelos presos, era uma figura popular na cadeia. Nos primeiros dias de
abril, Olga comeou a descon fiar que estivesse grvida, mas a princpio
isso no a preocupou demais. Tanto ela quanto as outras presas do salo
de mulheres estavam s voltas com os traumas men tais que Sabo trouxera
do morro de Santo Antnio para a Deteno. Como uma das frmulas para
abalar sua estrutura emocional, os torturadores da Polcia Especial,
onde ela estivera presa por trs meses, aplicavam-lhe uma violenta surra
todas as noites, pontualmente s trs horas da madrugada. Essa
regularidade na tortura deixara Sabo

179

de tal forma neurotizada que ali, na Deteno, onde no havia castigos
fsicos e estava entre amigos, as seqelas permaneciam. As trs horas da
manh, em ponto, Sabo se punha a gritar, a pedir, em alemo, que no a
matassem, que parassem de espancar seu marido. Na primeira vez que isto
aconteceu, todo o presdio despertou supondo que de fato algum
estivesse sendo torturado ali dentro. Em poucos minutos comeou o
"canecao" - cada preso agarrou sua caneca de lata e passou a bater
ritmada mente nas grades, despertando at os detentos da Casa de
Correo, em outro pavilho. e atraindo centenas de soldados armados de
metralhadoras que imaginaram tra tar-se de uma rebelio em massa. Com o
tempo os presos se acostumaram  gritaria da alem. No comeo as mu
lheres que dividiam a cela com ela procuravam acudi-la em seu pesadelo,
mas s Olga tinha condies de acalmla. Falando em alemo,
carinhosamente, conseguia faz-la dormir de novo, at que, semanas
depois, Elise tivesse superado o trauma. Poucos dias aps sua chegada 
Deteno, Olga Presenciou uma cena emocionante. Mais de cem presos que
haviam participado da rebelio em Natal e Recife chegaram ao Rio a bordo
do navio Manaos. Eram, exatamente, 114 homens e duas mulheres, que
vieram no poro de carga do vapor, guardados por meia centena de
soldados. A exemplo do que acontecia na Deteno, o Manaos trou xera
intelectuais, operrios, camponeses, estudantes e muitos militares
jovens. Depois de alguns dias reservados aos interrogatrios
preliminares, os presos foram levados para a rua Frei Caneca. No momento
em que os guardas abriram os portes de ferro do pavilho para que
entrasse a multido de nortistas e nordestinos, os presos puseram-se de
p em suas celas e comearam a entoar os hinos: primeiro o Hino Nacional
Brasileiro, depois a Internacional e finalmente o Hino da Aliana.
Quando as grades das celas foram abertas para que os novos hspedes
pudessem se instalar, o orador oficial do presdio, o argentino Rodolfo
Ghioldi, foi encarregado pelo Coletivo de fazer a saudao aos
revolucionrios que chegavam.

180

A orientao que Ghioldi recebera era taxativa: tinha que ser um
discurso otimista, triunfalista, para levantar o moral daquela gente que
tinha viajado em condies horrorosas. O argentino retrucou que a
realidade no permitia muito otimismo: os tempos eram de Hitler, Mus
solini, Filinto Mller. A direo no quis discutir: ele que usasse seu
talento e fizesse um discurso animador. Ghioldi cumpriu a tarefa com
brilho, e arrancava palmas e lgri mas emocionadas enquanto, de euecas e
pendurado na sacada do segundo pavimento, anunciava em castelhano
castio que Francisco Franco, Hitler, Getlio e Mussolini estavam com
seus dias contados; que o glorioso Exrcito Vermelho de Stlin esmagaria
o nazi-fascismo como uma barata repelente. Provisoriamente estavam eles
ali na De teno, mas, na verdade, detinham o futuro em suas mos. O
horizonte era vermelho e estava prximo da Humani dade. No parecia um
discurso burocrtico,feito de encomenda, mas uma declarao sincera,
lavrada com calor e paixo. Eram raros os presos - antigos ou
recm-chega dos - que no tinham o rosto coberto de lgrimas ao aplaudir
o argentino com ar de gal. Ghioldi acabou de falar e recolheu-se, ele
prprio emocionado,  sua cela. Em seguida entrou um dos nortistas, um
jovem semicalvo, de cabelos escuros e ar tenso, e se apresentou: - Muito
prazer, senhor Ghioldi, meu nome  Graci liano Ramos. Estou muito
contente e o felicito por suas palavras to bonitas. Mas reconhea, aqui
entre ns, com sinceridade: o senhor no acredita em uma nica vrgula
do que acabou de falar, no? Disciplinado, Ghioldi foi obrigado a
mentir: - No, senhor Ramos. Eu acredito em rigorosamente tudo o que
falei para vocs. Graciliano no se convenceu: - No sei exatamente qual
 a sua histria, mas eu sou do Nordeste e conheo bem o meu povo. E
este  um povo que est to atrasado, to embrutecido pela misria, que
creio que no poder fazer a revoluo jamais. O comunista argentino
insistia, aparentemente con victo:

181

- Mas, senhor Ramos, o mujique russo era muito mais atrasado que o
nordestino e, no entanto, fez uma revo luo que vai mudar a face do
mundo. A revoluo no depende apenas do grau cultural de um povo. E sem
esses camponeses russos, atrasados e embrutecidos, no teria existido a
Revoluo Russa. Graciliano Ramos deixou a cela de Ghioldi em siln cio,
sem contestar. O clima no presdio mudou com a chegada dos revo
lucionrios do Norte. No apenas porque a presena deles praticamente
duplicar a populao carcerria, mas prin cipalmente pela alegria e
pelo deboche que faziam com todos os temas. At os militares que tinham
vindo no Manaos eram menos exigentes com a disciplina que os do Rio. E
foi com os nortistas que chegou  Deteno e foi implantada com festas a
ltima maravilha das comuni caes: o "merdafone"- A novidade - segundo
se soube, inventada por um engenhoso sargento marxista-leninista de
Pernambuco - consistia em segurar a corda de des carga das privadas num
determinado ponto, de forma a que o nvel da gua fosse mantido no fundo
do vaso sani trio, como se ele estivesse seco. Duas latrinas de celas
diferentes, mantidas assim, transformavam-se milagrosa mente em um
excelente meio de comunicao, que exigia apenas que o usurio perdesse
o nojo de meter o rosto dentro daquele buraco mal cheiroso para falar e
ouvir o que era dito na outra ponta. O suposto autor da inven o
gabava-se, aos berros, ao anunci-la aos presos: - Isto  muito mais
avanado que o telefone. No fosse o cheiro de merda, eu, e no
Alexandre Graham Bell, passaria para a histria! Olga integrou-se ao
Coletivo como se fosse uma bra sileira. Dias aps sua chegada, a
exibio do coral femi nino ensaiado por ela passou a ser atrao
obrigatria nos programas dirios da P.R.ANL. As mulheres cantavam a
Internacional em francs, a maioria lendo a letra que ela copiara vrias
vezes em pedaos de papel, durante o dia, e encerravam a programao
entoando, em italiano, o Bandiera Rossa:

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Avanti popolo: A la riscursa! Bandiera Rossa! Handiera Rossa! Bandiera
Rossa ehe irion(er! E viva il comunisno per la liberl! A ltima
estrofe era cantada em coro por trezentas e tantas vozes, num estrondo
que muitas vezes valeu puni es aos membros do Coletivo: Viva Lenine,
abasso il r! Viva I.enine, abassu il r! Um ms depois de ter sido
transferida para a rua Frei Caneca, Olga anunciou s companheiras de
cela que no tinha mais dvidas: estava esperando um filho de Prestes.
Sua primeira preocupao foi tentar comunicar isso ao marido. Ela
procurou o chefe da carceragem, acompanhada da mdica Nise da Silveira,
presa como ela, para informar que a partir daquele momento exigia os
cuidados necessrios a uma grvida. E quis saber se podia escrever a
Prestes para comunicar-lhe que seria pai ainda naquele ano. O policial
no fez muito caso e disse apenas que ela escrevesse que ele ia ver se
era possvel fazer chegar a carta s mos do chefe comunista. Seguindo a
orientao do guarda, ela escreveu no uma, mas dezenas de cartas ao
marido, sempre em francs e sempre encer radas com um carinhoso Ia
tienne - a tua. Cartas que ele nunca receberia. A notcia da gravidez da
mulher de Prestes transformou o presdio. Todos queriam ajudar a
diminuir as dificuldades de uma gestao dentro da ca deia. Os presos
que recebiam visitas comearam a pedir aos parentes que trouxessem
comidas especiais e vitami nas, sempre seguindo as prescries de Nise
da Silveira, que a vida acabava de transformar de psiquiatra em
genicologista e obstetra. Cada um contribua como podia. Carmen Ghioldi,
exmia bordadeira, arranjou agulhas e linha de croch e passou a
produzir um minsculo guarda-roupa para o beb. Por uma curiosa espcie
de premonio, ningum fazia roupas masculinas, mas sempre para menina.
Rosa Meirelles, uma das presas, contou a Olga que o tenente

183

gacho Jos Gay da Cunha, preso em uma das celas do trreo, era
desenhista. Olga havia sido apresentada a ele de longe, atravs da
grade, por Rosa, e se lembrava do rapaz alto, de nariz adunco, que lhe
abanara a mo l de baixo: - Muito prazer! Ento voc  a Maria Prestes?
- Sim,sou eu. E voc,  tenente do Tercrro ou da Escta? No seu
portugus tedesco, tercrro era o 3. Regimen to de Infantaria, e escta
era a Escola de Aviao Militar, de cujo levante o tenente-aviador Gay
da Cunha partici para. Dias depois ele fora  enfermaria, com suspeita
de intoxicao provocada pelo jantar da noite anterior, e se valera do
descuido do guarda para chegar  grade da cela das mulheres. Olga
aproveitou a oportunidade para fazerlhe um pedido: queria que ele
desenhasse, em pequenos pedaos de papel, os avies existentes na
Aviao Militar do Brasil, para que Carmen Ghioldi pudesse bord-los nos
babadores e camisinhas do beb. Os desenhos foram fei tos com capricho,
contrabandeados para a cela das mulheres e, poucos dias depois, um
pacotinho com roupas mi nsculas descia do salo das mulheres at o piso
trio, atravs do "voador", para que Gay da Cunha conferisse se os
bordados respeitavam seu trao original. O "voador", outro produto da
inventividade nordestina, era um sistema de linhas e roldanas, feitas
com os carretis vazios das linhas de croch de Carmen Ghioldi, que
servia para o transporte de bilhetes e volumes pequenos, de pouco peso,
entre a "Praa Vermelha" e as celas do primeiro andar. Em geral era
utilizado para levar e trazer mensagens que no podiam ser transmitidas
aos gritos, ou para a remessa e devoluo dos "deveres de casa" dos
cursos de marxismo e filosofia que Olga e Rodolfo Ghioldi ministravam 
maioria dos presos.Quando era necessrio fazer alguma comunicao entre
celas de um mesmo piso, o "voador" obrigava a uma operao dupla: o
carretel era atirado para algum no ptio, que recebia a mensagem e
repetia transmisso para a cela cujo nmero vinha indicado no bilhete.

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Foi atravs do "voador" que Olga recebeu um minsculo recorte do jornal
O Globo com a notcia de que Prestes, ouvido na vspera pelo juiz Barros
Barreto, assumia integral responsabilidade pelo levante de 27 de
novembro, eximindo todos seus companheiros, estrangeiros ou diri gentes
do Partido Comunista, de qualquer participao n organizao da
revolta. Pelo mesmo recorte, Olga pde perceber o medo que seu marido
inspirava ao governo. O jornal publicava declaraes de Eusbio de
Queiroz, nomeado comandante do quartel-general da Polcia Especial, em
que o militar revelava as medidas de segurana tomadas para guardar "o
chefe vermelho": - muito perigoso aproxmar-se do morro de Santo
Antnio, que est minado e eletrificado. Debaixo de um "chapu de sol",
no alto do morro, est instalada uma guarnio com trs metralhadoras,
tornando praticamen te impossvel a fuga do prisioneiro. As cercas de
arame farpado esto ligadas a uma rede de alta voltagem, o que constitui
srio perigo para a vida daqueles que tentarem contrafazer a ordem
estabelecida. Quando as notcias sobre o marido no vinham pelo
"voador", Olga recebia instrues para estar a tal hora no guarda-roupa
de sua cela, porque algum iria transmi tir-lhe pelo "periscpio"
novidades vindas de fora. Muitas vezes ela tinha que esperar horas na
fila - especialmente se antes dela estivesse Valentina Bastos, sua
colega de cela. Valentina era apaixonada pelo marido, o milionrio
Adolfo Barbosa Bastos, o Beb Choro, preso sob a acusao de ter
contribudo com uma verdadeira fortuna para os cofres do Partido
Comunista - embora nunca tivesse sido militante da agremiao. Valentina
e Adolfo passavam horas trocando declaraes de amor atravs do
"periscpio", ainda que o mximo que consegussem ali fosse acariciar as
pontas dos dedos um do outro. Para a utilizao do "periscpio" sem
levantar suspeitas dos guar das era preciso montar um dispositivo que
envolvia quase todos os presos. Durante as conversas ou namoros pelo
minsculo orifcio da parede, pelo menos uma das descargas de privada do
presdio precisava ser acionada, para

185

que seu rudo abafasse as vozes dos que falavam - arti fcio que levou a
jornalista Haide Nicolucci a batizar aqueles momentos de "a hora da
pororoca". Com o passar das semanas, a gravidez de Olga ficava mais
evidente. Em uma de suas muitas visitas ao cartrio onde eram tomados os
depoimentos dos presos do levante, Olga dirigiu-se aos reprteres que a
cercavam em busca de notcias e anunciou que dentro de alguns meses
daria  luz a um filho de Lus Carlos Prestes. Um fato, entretanto,
impedia que ela e seus companheiros de priso pudessem desfrutar a
perspectiva da maternidade. A ameaa de expulso do Brasil era cada vez
mais concreta. Nos primeiros dias de maio o delegado Eurico Bellens
Porto, encarregado por Filinto Mller de presidir o inqurito policial
sobre a revolta, anunciava que seu trabalho chegava ao fim: centenas de
pessoas - brasileiros e estran geiros, civis e militares, - haviam sido
indiciadas como participantes do levante, mas no que se referia s trs
mulheres presas na Casa de Deteno, suas conclusoes eram ambguas.
Primeiro ele diza no ter como puni-las no Brasil, pois a nenhuma delas
havia sido imputado qualquer crime. "No encontro elementos bastantes
que permitam incluir como indiciadas com atuao definida as
estrangeiras Elisa Ewert, Carmen Alfaya de Ghioldi e Maria Bergner
Prestes", lamentava Betlens Porto em of cio dirigido a Filinto Mller.
Mas se a lei no previa qual quer punio para as trs, pior para a lei.
O inadmissvel era colocar em liberdade as mulheres dos trs chefes
comunistas. Bellens Porto arranjou uma forma ainda mais dura de
penalizar as trs: "Trata-se evidentemente de elementos indesejveis,
cuja permanncia em territrio nacional no  aconselhada. Por estas
razes, data venia, lembro a V. Excia. a convenincia de contra elas
serem instaurados competentes processos de expulso".

14. Uma "estrangeira nociva"

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Embora a ameaa de expulso fosse cada vez mais iminente, uma ponta de
esperana permitia que Olga sonhasse ter seu flho no Brasil: apesar do
estado de sto que acabava de ser renovado, apesar do clima de anti
comunismo e de hostilidade aos judeus que se dissemi nava no Brasil,
apesar da indisfarada simpatia que o governo Vargas manifestava pelo
nazismo na Alemanha, a Constituio brasileira, que continuava em vigor,
garan tia s mulheres que estivessem esperando filhos de pais
brasileiros o direito de t-los no pas. No lhe importava continuar na
priso, pois sabia que um dia tanto ela quanto Prestes acabariam sendo
libertados. O que a aterrorizava era a perspectiva de ser enviada ao
seu pas de origem. Cair nas mos de Hitler, para ela que, alm de
judia, era comunista, seria o fim de tudo. Mesmo que as leis brasileiras
lhe fossem favorveis, o noticirio que Olga recebia pelo "voador" ou
atravs do "periscpio" era desanimador. De todos os casos de expulso
de estrangeiros "indesejveis" de que tivera not cia - e eram centenas
e centenas - um, particularmen te, Olga acompanhara de perto, ainda em
liberdade, pelo noticirio dos jornais, e ficara estarrecida com seu
desfecho. Depois de manter presa durante quatro meses, sob a vaga
acusao de "subverso", o governo de Vargas

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decidira deportar uma garota de 17 anos, Genny Gleizer, judia romena,
apesar da manifestao de centenas de sin dicatos e associaes de
estudantes e intelectuais, tanto do Brasil como do Exterior. Durante o
processo de expul so de Genny, a opinio pblica testemunhara alguns
gestos comoventes de solidariedade- Quando se anunciou, por exemplo, que
se ela casasse com um brasileiro as leis a protegeriam da deportao,
vrios escritores e intelec tuais se ofereceram como voluntrios- AIum
comcio pela libertao de Genny, no centro de So Paulo - onde tinha
sido presa - o estudante Paulo Emlio Salles Gomes anunciou que sairia
do palanque diretamente para o car trio, em busca de um juiz que
oficializasse seu casamen to com a garota. Chegou tarde. O jornalista
Arthur Picci nini que acompanhava o "caso Genny" para o dirio A
Platia, tomara-lhe a frente e havia solicitado ao Juzo de Paz do
bairro da S, na capital paulista, a publicao dos proclamas para seu
matrimnio. Insensvel a tudo isto, em outubro de 1935 o governo
deportou Genny Glei zer para a Europa. Os comunistas brasileiros sabiam
que esse poderia ser o destino da mulher de Prestes e se preparavam para
o pior. O Comit Brasileiro do Socorro Vermelho Inter nacional conseguiu
fazer chegar aos ncleos da organiza o em todos os portos da Europa
manifestos dando conta d situao poltica brasileira e das sucessivas
deportaes que o governo vinha fazendo de "extremistas" europeus para
seus pases de origem - especialmente para os pases dominados pela vaga
nazi-fascista. Assim, o apelo dos comunistas brasileiros era de que os
estiva dores de portos europeus vistoriassem todos os navios procedentes
do Brasil para tirar de seus pores os estrangeiros deportados.
A mobilizao de uma categoria pro fissional tradicionalmente politizada,
como os porturios, chegava a paralisar os portos da Europa cada vez que
um navio vindo do Brasil atracava para reabastecer ou descarregar algum
produto. Quando as autoridades tenta vam impedir as buscas nos pores
dos navios, os portos entravam simultaneamente em greve at a revogao

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da ordem. Numa nica ao, realizada no porto do Havre, na Frana,
conseguiu-se retirar do convs de carga de um navio da Marinha Mercante
dezessete deportados alemes, italianos, portugueses e poloneses. Nos
arma zns e nos cais dos portos da Espanha ainda republicana um pequeno
panfleto circulava de mo em mo, aos milhares, inspirado neste pedido
feito pelos comunistas brasileiros: Aus camaradas da Seo Espanhola do
Socorro Vermelho Internacional. O reacionro governo brasileiro, em
guerra aberta e cruel contra os antiimperialistas do pas, vai deportar
dezenas e dezenas de militantes estrangeiros. Ns vus parti cipamos esse
fato, para que estejais vigilantes em relao a todos os navios
procedentes do Brasil e faciliteis o desembarque na Espanha dessas
vtimas da reao brasileira. Sobretudo, ns vos pedimos que faas
todos os esforos no Sentido de evitar que os nacionais de pases
fascistas cheguem a estes. Eles querem desembarcar na Espanha ou na
Frana, o que vos solicitamos providenciar-. Saldaes Revolucionrias;
Comif Regional de So Paulo do Socorro Vermelho Internacional.

O endurecimento da represso no Brasil justificava os temores do Socorro
Vermelho. Prestes estava ameaado de ser processado como chefe da
rebelio, como mandan te da morte de Elvira Colnio e como desertor do
Exr cito. Por ordem de Filinto Mlier, o prefeito Pedro Ernesto, do
Distrito Federal, havia sido preso. Antonio Maciel Bonfim, aps saber do
desaparecimento da mulher e que, provavelmente, ela teria sido executada
por ordem da direo do Partido Comunista, tornara-se ainda mais loquaz
em seus depoimentos  polcia. No ms de abril de 1936, Olga foi
retirada de sua cela e levada aos escritrios burocrtcos da Casa de
Deteno para ser acareada com o antigo secretrio-geral do Partido
Comunista. As duas figuras eram to importantes para o processo que o
delegado Bellens Porto dirigiu pessoalmente a audincia. Olga no s se
recusou a reconhecer Miranda como sequer acei tou rubricar as folhas do
auto de reconhecimento. Bonfim, ao contrrio, disse sem hesitar que
reconhecia aquela

190

mulher como a mesma que encontrara em reunies junto com Prestes, Arthur
Ewert e Rodolfo Ghioldi. Sem nenhum pudor, acrescentou que a polcia
poderia encontrar mais declaraes suas a respeito das atividades da
alem nas declaraes que prestara anteriormente ao delegado Antnio
Canavarro Pereira. Impassvel, Olga ouvia tudo aquilo tentando de novo
encontrar resposta para uma pergunta que fizera a si mesma e a Prestes:
"Como aquele homem conseguira chegar ao mais alto posto de um par tido
comunista?" Ao relatar aos companheiros de priso, pessoalmente ou pelo
"voador", o comportamento de Bon fim na acareao, ela percebeu que as
suspeitas no eram apenas suas. At o discreto e retrado Graciliano
Ramos, que parecia participar pouco da vida do presdio e passava as
horas enterrado na cela,fazendo anotaes em blocos de papel,j
manifestara espanto pelo despreparo e o exi bicionismo suspeito de
Antnio Maciel Bonfim. No final de maio Olga engordara bastante - a
barri ga estufava e comeava a aparecer sob o vestido. Foi nessa poca
que o governo decidiu promover comemoraes cvicas pela passagem dos
primeiros seis meses da revolta de novembro, ento batizada de
"Intentona Comunista". Comandantes do Exrcito, da Marinha e da Aviao
Mili tar fizeram pronunciamentos relembrando os episdios e organizaram
visitas aos tmulos dos militares mortos no levante. Os jornais
noticiavam que a sede nacional do Rotary Club dedicaria a sua
reunio-almoo daquele ms, marcada para o dia 27,"ao estudo do problema
da defesa contra o extremismo, havendo convidado o capito Miran da
Correia, delegado de Segurana Poltica e Social para fazer uma
conferncia sobre o assunto". Como convidados de honra, compareceriam ao
gape os ministros Vicente Rao, da Justia, o general Joo Gomes, da
Guerra, o contra-almiranie Aristides Guilhem, da Marinha, e o chefe de
polcia, capito Filinto Strmbling Mller. A partir de ento o governo
passaria a difundir a verso de que os revoltosos tinham matado praas e
oficiais Legalistas

191

durante o sono, na madrugada de 27 de novembro. O exame das necrpsias
das duas dezenas de mortos, no entanto, no oferecia qualquer indcio
de que tal acusao fosse procedente. Mas as comemoraes no se dariam
apenas entre os vencedores. A sua maneira, dentro do presdio, os
derrotados de 27 de novembro tambm receberiam presentes pela passagem
da data. O autor da surpresa seria o sar gento Jlio Alves, dono de
incrvel habilidade manual para o trabalho com metal. Nos ltimos meses
Jlio Alves recomendaria a um capito nascido em Minas Gerais que
pedisse a seus parentes para aumentar as remessas de um certo queijo que
lhe traziam de presente, quando das visitas, e que vinha acomodado em
latas redondas, do tamanho de uma bola de futebol. Menos que o
contedo, Jlio Alves queria mesmo era as latas, de metal macio e fcil
de trabalhar, que ele transformava em fogareiros e panelas para uso nas
cozinhas clandestinas das celas. Dessa
vez, no entanto, ele se superou. No fim da tarde de 27 de maio o
"voador" funcionou sem parar, depositando em cada uma das 49 celas da
Casa de Deteno um pequeni no embrulho de papel contendo o presente com
que o sargento Alves comemorava o meio aniversrio da revolta: uma
gazua esculpida no metal das latas de queijo, capaz de abrir sem
dificuldades qualquer uma das fecha duras das celas. Cada gazua vinha
acompanhada de uma advertncia rabiscada no papel de embrulho: "S usar
em caso de extrema necessidade. Se pegam isso conosco, pode dar
fuzilamento. Viva a Revoluo proletria!" Aparcio Torelli, o Baro de
Itarar, espalhou pelo presdio a notcia de que as gazuas, alm de
abrirem portas, tinham o condo de juntar marxistas e cristos: - Elas
foram feitas pelo sargento Jlio Alves,indiscutivelmente comunista, e
foram benzidas pelo padre Na cimento, aparentemente cristo. Padre
Nascimento era uma das figuras mais folclri cas do presdio. Quando
entrou pela primeira vez no pavi lho da Deteno, tinha a mo esquerda
levantada, com o punho cerrado, e na direita arrastava uma canastra de

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frutas e queijos para os presos. Diretor de uma creche para rfos na
cidade de Niteri, foi preso por ingenuidade, enquanto percorria as
lojas da cidade pedindo contribui es aos comerciantes para "as
famlias dos pobres comu nistas presos em novembro"- Algum o denunciou
e ele foilevado preso ao Rio de Janeiro. Quando chegou  rua Frei
Caneca, os policiais o ameaavam: - Agora, padre filho da puta, vamos
coloc-lo com os comunistas e o senhor vai ver de perto quem so os de
mnios para quem pedia dinheiro. A forma que a polcia encontrou para
martiriz-lo foi obrig-lo a assistir a sesses de torturas na Casa de
Correo, pavilho vizinho ao da Deteno. Depois de uma dessas
experincias, ele parou em frente  cela de Olga Benario, olhou fixo
para a barriga arredondada da alem e jogou-se ao cho, de joelhos, com
as mos postas, per guntando pateticamente a ela: - Diga-me, senhora:
haver Deus? Entre as denncias que havia contra ele, estava o crime de
ligar o rdio de ondas curtas do orfanato nas transmisses da Rdio
Moscou e da Rdio Republicana da Espanha, aps o jantar, e chamar os
rfos para ouvirem os programas junto com ele. Naquela poca, as trans
misses da Rdio Moscou comeavam com a execuo da Internacional. Os
meninos ficaram de tal forma habitua dos que, quando padre Nascimento se
esquecia, havia sempre um deles a pux-lo pela batina: - Padre, est na
hora de ouvir o samba! O samba era a Internacional comunista. Padre
Nascimento detinha o ttulo de aluno mais assduo de todos os cursos
ministrados na cadeia. Estu dava marxismo com Olga Benario, filosofia
com Ghioldi, aprendia russo e ingls com Raphael Kemprad, russo branco
criado na Alemanha e preso no Rio ningum soube por qu, xadrez, damas,
geografia poltica e histria do Brasil com quem os ensinasse. Quando
duas turmas se reuniam ao mesmo tempo, ele pedia a algum que lhe
fizesse um resumo da aula e o enviasse a sua cela pelo "voador "- S uma
classe ele se recusava a freqentar,

193

alegando "questes de conscincia": as interminveis sesses de
ginstica impostas pelos tenentes. Mas era preguia mesmo. Como a
maioria dos presos, padre Nascimento tinha especial predileo pelos
cursos ministrados por Rodol fo Ghioldi. O argentino, que planejara
passar o seu perodo na cadeia "o mais discretamente possvel", era
bombardeado por pedidos de presos que queriam conhecer melhor a chamada
"teoria revolucionria". O que significa revoluo antiimperialista? O
que quer dizer revoluo democrtica? O que  a aliana operrio-cam
ponesa? O que quer dizer que o proletariado  a classe dirigente e que o
Partido Comunista  a vanguarda do proletariado? O que  o Apraperuano?
O que foi a revo luo mexicana? Encerrado em seu eubculo, ele recebia
pelo "voador" as perguntas mais estapafrdias, e no ti nha remdio
seno sair de seu pretendido anonimato. Quando as celas estavam
trancadas, ele ajudava os presos a fazer o "dever de casa", muitas vezes
passado por Olga, atravs de bilhetinhos. Abertas as portas, ele falava
aber tamente, para todos, algo que Olga nunca se animou a fazer. Embora
falasse sobre Amrica Latina, filosofia mar xista, revoluo chinesa,
ele preferia dissertar sobre o movimento campons do Brasil. Ao cabo de
alguns meses, falando um portugus sofrvel, Ghioldi chegou a escrever
um ensaio de mais de cem pginas sobre o problema agrrio brasileiro. A
partir das entrevistas que ele fazia s dezenas com os revolucionrios
vindos do campo, havia se transformado em um especialista no assunto.
Mesclando depoimentos sobre o que testemunhara na Unio Sovitica com
rudimentos de teoria marxista, Olga Benario preferia falar para grupos
menores, dentro do salo das mulheres. A sua volta sentavam-se desde
modestos sapateiros at oficiais do Exrcito e advogados, como Hermes
Lima, que dcadas depois - em 1962 - viria a ser primeiro-ministro do
Brasil, e depois ministro do Su premo Tribunal Federal, at ser cassado
em 1969. Olga dava sua aula e ditava, ao final, uma srie de perguntas
para os alunos. Em trs dias eles deviam devolver, pelo

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"voador", os questionrios respondidos. A aula seguinte seria dedicada a
discutir a compreenso que cada um tinha tido do tema ensinado. As
turmas eram to heterogneas que, mesmo sendo estrangeira, em algumas
das sabatinas ela se dava ao requinte de fazer correes de erros de
gramtica e concordncia nas provas. A vida no presdio s se
transformava nos dias de visitas, um domingo por ms. Havia presos que
se prepara vam durante trs semanas para aqueles minguados 50 minutos.
Ao chegar o dia, os homens se barbeavam, as mulheres se perfumavam e a
excitao era to grande que s cinco horas da manh a maioria estava de
p, mesmo aqueles que no tinham quem os visitasse. Terminadas as
visitas, o clima de festa ainda se mantinha por algu mas horas: era a
troca de notcias, uns querendo saber da sade dos parentes dos outros,
pais indicando com a mo o tamanho dos filhos precoces. Depois vinha a
redis tribuio dos cigarros, chocolates, queijos e goiabadas vin das de
fora e em seguida um clima de cava depresso baixava sobre o presdio.
Aos poucos os grupos iam se desfazendo, cada preso procurava o seu
cubculo e, acocorados sobre as camas toscas, punham-se a ler e reler
dezenas de vezes as mesmas cartas. Quem apurasse o ouvido poderia
perceber soluos vindos de dentro de celas de calejados revolucionrios.
Era o nico dia do ms em que a "Voz da Liberdade" no ia para o ar. As
visitas permitiam tambm que o presdio fosse arejado por notcias de
fora. Foi num dia de visitas que se soube que o homem que prendera Olga
e Prestes, Josu Torres Galvo, fora assassinado com cinco tiros por um
soldado, no prprio quartel da Polcia Especial. Menos de 24 horas
depois do crime, o assassino, Hernani de Andrade, chefe de um grupo de
capturas, se suicidaria misteriosamente. Em surdina, diziam os
visitantes, a notcia que corria  que os dois haviam se desentendido
sobre quem ficaria com a recompensa de 100 contos de ris prometida por
Filinto Mller para o policial que pren desse Prestes. E foi tambm num
dia de visitas que Olga Benario ficou sabendo que o governo estava
firmemente

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decidido a deport-la para a Alemanha. O Instituto dos Advogados tentara
designar um advogado de seu Depar tamento de Assistncia Judiciria,
Dyonisio da Silveira, para defend-la, mas este recusou-se a aceitar o
encargo. Pela primeira vez, ento, o governo permitiu que Olga
escrevesse uma carta a Prestes. E s a ele soube que sua mulher estava
grvida. Na resposta a Olga, fez-lhe duas recomendaes: que procurasse
um mdico homeopata para tratar-se durante a gravidez - Prestes sempre
se tratou pela homeopatia - e que indicasse o Dr. Heitor Lima como seu
advogado. Embora estivesse, como dis sera o Baro de Itarar, "grvida a
olho nu", Olga teve que ser submetida a um exame ginecolgico, feito
pelo mdico Orlando Carmo, indicado pela polcia, para com provar
formalmente seu estado. Mesmo no havendo d vidas de que a Constituio
lhe assegurava o direito de permanecer no pas, estando para dar  luz o
filho de um brasileiro, no faltaram juristas a teorizar sobre o acerto
da deciso de Vargas e Filinto Mller de expuls-la do Brasil. Quando
algum lembrava a garantia constitu cional, a resposta era sempre a
mesma: "Bem, mas estamos sob estado de guerra, no ?". Consultado
pelos jor nais, o jurista Clvis Bevilcqua foi obrigado a dar voltas e
voltas para justificar a deciso do governo: - A questo j foi estudada
em todos os seus aspec tos em face do Direito Civil. , porm, diverso,
o caso ora em debate. Estamos agora no terreno do Direito Internacional
com um carter punitivo. Essa punio, no entanto, visando a expuls-la,
vai atingir o nascituro. Alm disso, estamos em um perodo de estado de
guerra, e a expulso de que se cogita envolve o ponto de vista do
interesse pblico, que est acima de todos os demais intersses. A
questo do "interesse pblico" a que se referia pomposamente Clvis
Bevilcqua no passava, na verdade, de um despacho administrativo
assinado por Demcrito de Almeida, um delegado auxiliar, e por Filinto
Mller, um capito na chefia da polcia, que entenderam que a expulso
de Olga "alm de justa,  necessria  comunho

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brasileira". Mesmo sabendo que a deportao significaria a morte de me
e filho, Bevilcqua no resistiu  ironia ao declarar que s via uma
sada para impedir a expulso de Olga: - S por questo de humanidade...
No tempo em que havia a pena de morte, no se executava a sentena
quando a paciente estava grvida. Aguardava-se o nasci mento da criana.
Era tambm uma questo de humanidade... Conforme mandava a lei, Olga
teve que manifestar por escrito seu desejo de ser defendida por Heitor
Lima, que no mesmo dia recebeu a comunicao dessa deciso, em ofcio
que lhe foi dirigido pelo capito Miranda Cor reia. Mesmo sendo um
liberal sem a mais remota ligao com as idas dos revoltosos de
novembro, Lima respondeu ao policial afirmativamente: Senhor Capito
Aftonso de Miranda Correia Del. de Segurana Pollica e Social A
resposta ao vosso ofcio comporta trs ordens de consideraes. Em
primeiro lugar, a conduta do governo facilitando a defesa dos indiciados
em crimes contra a ordem poltica e social, quando o Estado de Guerra
lhe facilitaria, com aparncias de legitimidade, a coarcitao do
direito de defesa, deve ser posta em relevo. Quero assinalar esse fato,
que satisfaz a conscincia jurdica nacional. Em segundo lugar, se,
salvo casos especialssimos, ao advogado no  lcito recusar o seu
ministrio a quaisquer acusados, por mais hOrrendo que seja o delito a
eles atri budo, mais imperativo, instante e compulsrio  o dever de
assistncia, quando se trata de presos incomunicveis, feridos pelo
repdio geral, numa situao adequada  infringncia das frmulas sem
cuja observncia toda condenao ser inqua, porque no representar a
deduo lgica e jurdica dos debates livres entre acusao e defesa.
Sobreleva ainda que, num perodo em que ao advogado no se outorgam
imunidades, a recusa do patrocnio redundaria em ato de covardiaEm
terceiru lugar, e finalmente,  uma mulher que invo ca o meu nome.
Bastaria tal circunstncia para que eu, fiel  atitude de combate pela
mitigao do infortnio feminino na face da terra, e empenhado em
resgatar, em parcela mnima embora, os crimes da civilizao masculina
contra a mulher, nos quais como homem tenho a minha parte de
responsabilidade, bastaria tal circunstncia,

197

repito, para que eu acudisse ao apelo. Leio, porm, nos jor riaiS, que a
indiciada se prepara para o acontecimento culminante na vida da mulher:
a maternidade. Isto por tanto, nimbada de uma aurola que a torna, por
assim dizer, sagrada. Quaisquer, pois, que fossem os riscos da tarefa,
eu os afrontaria, dedicando-me a ela enquanto en contrar na lei recursos
para o desempenho da minha misso. Saudaes, Heitor Lima. A primeira
medida tomada pelo advogado, trs dias depois de aceitar a defesa de
Olga - ou Maria Prestes, como ele insistiu em trat-la durante todo o
processo - foi entrar com um pedido de habeas corpus junto  Corte Su
prema. No para coloc-la em lberdade, que dsso nem se cogitava, mas
para tentar impedir que se consumasse a expulso j determinada pelo
ministro da Justia, Vicente Rao, com base na exposio de motivos que
lhe fizera Filinto Mller. Quanto mais Heitor Lima remexia as montanhas
de depoimentos e denncias do processo da revolta, tanto mais se
materializava a certeza de que a deciso da expulso se resumia a uma
vingana pessoal de Getlio Vargas e Filinto Mller. No contra ela, que
nenhum dos dois conhecia, mas contra o marido e pai de seu filho, Lus
Carlos Prestes. No havia, em todo o processo, uma s acusao, uma
nca imputao de qualquer delto que ela pudesse ter praticado no
Brasil. Nem sequer sua extradio havia sido pedida pelo governo de
Adolf Hitler. Getlio e Filinto tomavam espontaneamente a deciso de
enviar ao Reich nazista uma judia, comunista e grvida de quafro meses.
Contra a Constituio, exibiam o pargrafo de trs linhas da Lei de
Segurana Nacional que o prprio Rao redigra meses antes: A Unio
poder expulsar do territrio nacional os estrangeios perigosos  orem
pblica ou nocivos aos interesses do pas.
199
No mesmo dia, e tambm de prprio punho,
Heitor Lima replicava, feminista como sempre, ao p do pedido: Se a
justia
masculina, mesmo quandu exercida por uma conscincia do mais fino
quilate, como o insgne presdente da Corte Suprema, tolhe a defesa a
uma encarcerada sem recursos, no h a histria da cvlizao
brasileira de recolher em seus anas judcros esta ndoa: a
condenao de uma mulher, sem que a seu favor se elevasse a voz de um
homem no Palcio da Lei. O impetrante satisfar as despesas do processo.
Heitor Lima. O desfecho do pedido no poderia ser mais trgico.
Designado relator do processo, o minstro Bento de Faria indeferiu, uma
por uma, todas as solicitaes do advogado. E, alegando que o instituto
do habeas-corpus estava suspenso pelo estado de stio e pelo estado de
guerra decretados por Getlio Vargas, decidiu simplesmente no , tomar
conhecimento do pedido. Votaram com o relator o presidente da Corte
Suprema e os ministros Hermenegildo de Barros, Plnio Casado, Laudo de
Camargo, Costa Manso, Otvio Kelly e Ataulpho de Paiva. Os trs
minstros restantes - Eduardo Espnola, Carvalho Mouro e Carlos
Maximiliano - criaram um artifcio para evitar simplesmente desconhecer
o pedido: conheceram, mas negaram o habeas-corpus. Por unanimidade, o
tal "Palcio da Lei", a que se referira Heitor Lima, condenava Olga
Benario  morte. 15. Rebelio na "Praa Vermelha" Nem nas noites que se
seguiam s visitas se viu tanta depresso no presdio da rua Frei
Caneca. A notcia de que a Corte Suprema decidira, por unanimidade,
ignorar o pedido de habeas-corpus para Olga estourou como uma bomba
entre os presos. A "Praa Vermelha" estava deserta e pela primeira vez a
"Voz da Liberdade" no iria ao ar num dia de semana. Havia, entretanto,
uma diferena: desta vez o choro tinha dado lugar ao dio. Quem apurasse
o ouvido na noite de 17 de junlio na Casa de Deteno no escutaria
soluos, mas vozes conspirando baixinho em todas as celas. O Coletivo
decidira que Olga no seria levada sem resistncia dos presos, e todos
tinham que se preparar para isso. Um episdio ocorrido trs ou quatro
dias aps a deciso da Justia serviu para mostrar que a polcia de
Filinto Mller esperava alguma forma de reao dos presos e estava
vigilante. s trs horas da madrugada os presos foram despertados por
uma barulheira de mveis e objetos caindo, rudos que vinham de trs da
enfermaria, onde ficava a pequena capela que separava o chamado
"pavilho dos primrios", ou Casa de Deteno, do outro, denominado Casa
de Correo. O barulho que acordou os presos serviu para revelar, antes
do tempo, o dispositivo de prontido que Filinto Mller montara em torno
do

 202

 presdio, para prevenir eventuais revoltas contra a deciso de

deportar Olga Benario. Em poucos minutos dezenas de guardas armados de
metralhadoras ocuparam a "Praa Vermelh", com fileiras de bombas de gs
lacrimognio penduradas nos cintures. Trs soldados receberam ordens
para entrar na cela onde estavam Hercolino Cascardo, Aleedo Cavalcanti,
Agildo Barata e Sebastio da Hora, participantes de uma comisso nomeada
pelo Coletivo para reivindicar melhores condies para os presos junto
ao diretor da Deteno, Aloysio lveiva. Supunha-se que eles estvessem
liderando uma rebelio contra a sada de Olga. Os presos, por sua vez,
acreditavam que toda aquela movimentao policial se devia exatamente a
isto: estavam tentando isolar as lideranas para tirar Olga da cela sem
resistncia dos presos, Mesmo desarmados, Agildo e Cascardo se atiraram
sobre os soldados, tentando tomar-lhes os fuzis. Para generalizar a
confuso, comeou, ensurdecedor, o canecav. Filinto Mller foi chamado
em casa e chegou  Frei Caneca camandando duas companhias de "cabeas de
tomate", que isolaram todas as ruas nas imediaes do complexo
carcerrio. No salo das mulheres Olga foi escondida dentro do
guarda-roupa que protegia o "periscpio" e suas companheiras de cela j
tinham decidido: se algum entrasse para retir-la, reagiriam com as
nicas armas disponveis - as unhas e os dentes. S ao nascer do dia,
quando as tropas conseguiram impor a ordem dentro do pavitho,  que se
soube a origem do rudo que quase provoca uma tragdia: uma ratazana
movera uma pea de madeira do altar improvisado da capela, fazendo cair
ao cho turbulos, imagens, garrafas de gua benta e um pesado oratrio
de madeira. Tanto a notcia da "rebelio" como a da deciso da Corte
Suprema chegaram ao eubculo onde Prestes se encontrava encerrado, no
morro de Santo Antnio, atravs do mesmo mecanismo com que ele vinh se
informando sobre o que se passava no pas desde o dia de sua priso -
embora submetido a regime de rigorosa incomunicabilidade. Soldados e
carcereiros que o acompanharam na

203

 Coluna - ou que simplesmente
admiravam o mito do "Cavaleiro da Esperana" - ocultavam no meio da
comida que lhe era servida, embrulhados em papel impermevel, minsculos
cilindros feitos com as colunas de jornais, cortadas cuidadosamente e
que, depois de enroladas, passavam a ter a dimenso de um cigarro. Aps
a comida ele se enfiava debaixo dos cobertores e,  medida que
desenrolava os pequenos tubos, lia os jornais do dia. Lia tudo, at os
anncios. Como sua solitria no possua sanitrio - ele era obrigado a
usar o do comandante, sempre acompanhado de escolta - Prestes
simplesmente alirava sob o colcho as tiras de jornais lidos. A cada
quinze dias o comandante do  da Polcia Especial, tenente Eusbio
Queiroz, fazia pessoalmente uma revista na cela do preso ilustre, e
encontrava aquele monte de papel sob o colcho. Talvez temendo levar uma
descompostura de Prestes, nunca teve coragem de adverti-lo pela quebra
da incomunicabilidade - Queiroz preferia fingir que nada vira. Minutos
depois da vistoria, aparecia um soldado para retirar os pedaos de
jornais. Foram esses contrabandos de notcias que permitiram a Prestes
ter informaes sobre as condies de sade e a situao jurdica de sua
mulher. Cada vez que Olga era levada do presdio para depor nos
cartrios onde se preparava o processo, ele podia v-la nas fotografias,
permanentemente acompanhada de policiais e sempre elegante - o cabelo
preso atrs, em coque, uma pequena bolsa que recebera  de presente de
uma amiga e o mesmo vestido de sempre, cortado por ele na
clandestinidade do Meyer. Ao ler as descries que a imprensa fazia
dela, ou os dilogos havidos entre ela e os reprteres, o corao do
lder comunista se apertava- Dizia o Correio da Mank: Sorridente ante
as perguntas da autoridade, Olga, no entanto, ficou um tanto perturbada
com a presena dos fotgrafos. Nas suas declaraes, sempre calma, Olga
falou regularmente o pOrlugus, fazendo pausaS antes de responder,
evidentemente para pensar. Quando chegou  Chefia de Polcia, Olga foi
alvo da curiosidade geral: trajava um vestido branco, estava sem chapu,
trazendo os cabelos rePartidos ao meio e atados atrs por uma fita.
Sapatos
 204
 pretos, de salto baixo e uma bolsa de couro cinzento
completavam a modesta foilette da bela extremista que usou vrios nomes
como agente de Moscou em diversas cidades da Europa. No Dirio da
Noite, o tratamento era semelhante: A sala do gabinete do delegado
Demcrito de Almeida, Olga Benrio foi interpelada por nosso reprter.
Como sempre, fugiu a todas as perguntas sobre sua atividade e sobre o
auxlio que haja prestado a Lus Carlos Prestes. Revelando-se
sentimental, disse que "levarei com honra, at o fim, o nome do meu
marido . Como lhe perguntssemos onde e de que forma se dera o seu
casamento com Lufs Carlos Prestcs, esquivou-se, dizendu apenas que de
Fato- era casada com ele, acrescentando chamar-se Maria Bergner e contar
28 anos de idade. Queixou-se de estar sendo vtima de perseguio por
parte das autoridades brasileiras, que procediam em relao a ela de
maneira inclemente. Satisfazendo  curiosidade da reportagem, Olga
declarou: - A polcia vai praticar um ato absurdo contra uma mulher que
est para ser me. Mas Prestes no era,  claro, o nico preocupado com
a sorte da mulher e da criana. Desde o dia da priso do casal, no Rio
de Janeiro, uma gigantesca campanha vinha sendo conduzida na Europa pela
me dele, dona Leocdia, e por sua irm, Lgia. Na noite de 7 de maro
o apartamento da famlia Prestes em Moscou receberia de novo uma visita
importante, desta vez portadora de pssimas notcias. Dmitri Manuilski
fora pessoalmente, em nome do Comit Executivo do Comintern, informar 
famlia que Prestes e Olga tinham cado nas mos de Getlio Vargas e
Filinto Mller. Dona Leocdia, que ignorava at que o filho tivesse se
casado, resolveu na mesma hora que no ficaria mais um dia sequer na
Unio Sovitica: partiria no primeiro trem para a Espanha, acompanhada
de uma das quatro filhas - e Lgia foi a escolhida. Decidiram-se pela
Espanha por ser um pas que estava sob um governo de frente popular,
democrtico, que facilitaria a entrada das duas mulheres com passaportes
brasileiros vencidos h muito tempo, pois o Brasil no mantinha relaes
diplomticas com a Unio Sovitica.

205

 Me e filha percorreram o
territrio espanhol de ponta a ponta, organizando comcios nas
principais cidades, pedindo a libertao dos presos polticos do Brasil
e, especialmente, do chefe do levante e dos estrangeiros ameaados de
deportao. Em Madri o embaixador brasileiro, que resistia  idia de
conceder passaportes novos para as duas, acabou capitulando quando uma
multdo passou a reunir-se todas as tardes  porta da embaixada,
exigindo em coro "el pasaporte para Pa madre y ia hermana de Prestes". A
campanha durou mais de um ms, saindo de Madri e percorrendo todas as
capitais provinciais. Nas cidades maiores aparecia no palanque, para
encerrar os comcios, a lendria figura de Dolores Ibarruri, La
Pasionaria. Da Espanha as duas rumaram para a Frana, onde encontraram
uma Paris coberta de cartazes enormes, exigindo a libertao de Prestes
e de Olga, "refns do nazifascismo brasileiro". Da Frana partiram para
Londres, onde a viscondessa de Hastings - a mesma que Filinto prendera e
expulsara do Brasil - hospedou as duas mulheres e organizou comcios, no
Hyde Park, para milhares de pessoas. No dia da chegada  Inglaterra,
dona Leocdia e Lgia receberam a visita protocolar de Lord Listowell,
membro da Cmara dos Lordes, e um dos primeiros a subscrever, semanas
antes, um manifesto dirigido a Getlio Vargas, pedindo a
redemocratizao do Brasil.  Lord Listowell apareceu  frente de dona
Leocdia vestido a carter, de fraque, cartola e bengalo, e trazendo
nos braos uma corbeztle de lrios brancos para as visitantes. Mas
Leocdia e Lgia sabiam que, para atingir o Brasil, a campanha teria que
mobilizar a populao dos Estados Unidos. Voltaram, ento, a Paris, para
tentarem obter um vsto de entrada nos Estados Unidos. Quando foram
recebdas pelo embaixador amercano, as duas mulheres perceberam que ele
tinha sobre a mesa um volumoso dossi sobre a repercusso da campanha
feita por elas na Espanha, Inglaterra e Frana. O embaixador bateu a mo
sobre a papelada e perguntou a dona Leocdia:

 206

 - A senhora quer que
eu lhes d vistos de entrada para que possam fazer isto nos Estados
Unidos? O visto, evidentemente, foi negado. Tentaram de novo no
consulado americano em Londres, insistiram em Brxelas, voltaram a
tentar em Genebra, mas sempre sem resultados. Decidiram manter a
campanha na Europa. O "Comit de Paris" pela libertao de Prestes e
Olga era um dos mais alivos e tinha como seus principais dirigentes os
escritores Audr Malraux e Romain Rolland, que participavam de todos os
comcios e eram oradores obrigatrios nas manifestaes de rua. Todos os
pases da Europa contavam com pelo menos um comit instalado, e tambm
na Amrica Latina, na Austrlia e na hlova Zelndia havia mobilizaes
pela libertao do casal. Cada notcia que chegasse do Brasil era
vertida para o francs e retransmitida para todos os comits, pelo mundo
afora. Manifestos, cartazes e volantes eram despachados para vrios
pontos do mundo, pedindo a instituies e personalidades que
pressionassem o governo brasileiro para que Olga e Prestes fossem
libertados. Durante o ms de julho os presos da Deteno foram mantidos
por Getlio Vargas sob um macabro suspense. A expulso de Elise Ewert e
de Carmen Ghioldi tinha sido decretada e ambas apenas aguardavam as
providncias burocrticas para que o ato se consumasse. Sobre Olga,
contudo, nenhuma manifestao oficial. A tenso durou at o dia 28 de
agosto, quando um recorte de jornal introduzido clandestinamente no
presdio correu de mo em mo at chegar ao salo das mulheres, trazendo
a temida notcia: O presidente da Repblica assinou decreto na pasta da
lustia expulsando do territriu nacional, por se ter constitudo
elemento nocivo aos interesses do pas e perigosa  ordem pblica a
alem Maria Bergner Vilar, que tambm usa os nomes de Frieda Wolf
Behrendt, Olga Bergner, Olga Mcireles, Eva Kruger, Maria Prestes e Olga
Benario.

207

Mas os dias foram passando e, para surpresa geral, Olga
permanecia na Casa de Deteno, juntamente com Elise Ewert e Carmen
Ghioldi. A demora, na verdade, tinha uma explicao: temendo a
mobilizao do Socorro Vermelho nos portos europeus, Filinto Mller no
queria correr o risco de ver toda sua trama para vingar-se de Prestes e
agradar aos nazistas frustrar-se num ataque de estivadores comunistas ao
navio que transportasse Olga  Alemanha. Em contato permanente com a
direo do porto do Rio de Taneiro, ele esperaria quanto tempo fosse
necessrio para que atracasse no Brasil algum navio que se dirigisse 
Alemanha sem escalas. O atraso no embarque permitiu uma ltima tentativa
para salvar Olga e sua criana, j no stimo ms de gravidez. No dia 15
de setembro o advogado Lus Werneck de Castro, marido de Maria Werneck,
a companheira de cela de Olga, impetrou junto  Corte Suprema um novo
pedido de habeas-corpus para suspender a expulso. A petio explicava
que Olga encontrava-se em adiantado estado de gravidez e solicitava que
fossem sustados temporariamente os efeitos do decreto de Vargas. Werneck
de Castro pedia, na verdade, o adimento da expulso at que a paciente
fosse examinada por uma junta mdica de trs membros, nomeados pelo
juiz-relator do habeas-corpus, para determinar se ela estava ou no em
condies de empreender viagem at a Europa. Com isto o advogado
pretendia atingir dois alvos: se a Corte Suprema concedesse o
solicitado, a sonolenta burocracia judiciria brasileira acabaria
permitindo que ela tivesse o beb no Brasil. Deport-la  depois, tendo
no colo um beb recm-nascido e idado brasileiro, seria outra questo
para o governo enfrentar, imaginava Werneck. Em segundo lugar, ele
acreditava que, mesmo recusado, o pedido poderia estimular o presidente
da Repblica, que se reuniria dali a alguns dias com seu Ministrio, a
indultar a pena imposta a Olga. A Corte Suprema, a exemplo do que fizera
anteriormente, desconheceu o pedido. E na reunio ministerial, de que
participou o capito Filinto Mller, sequer se colocou o assunto  em
pauta.

208 A notcia de que o atraso no embarque de Olga se devia 

espera de Filinto por um meio de transporte a salvo dos porturios
europeus acabou chegando aos ouvidos de Heitor Lima, autor do primeiro
pedido de habeas corpus. A nica chance de impedir que Olga casse nas
mos de Hitler era tentar embarc-la num navio que fosse obrigado a
fazer escalas na Europa - um navio de passageiros, de linha regular,
portanto. O advogado ps-se a arquitetar um plano, escrevendo uma
dramtica carta  mulher do presidente da Repblica: Exma. Sra- Darcy
Vargas Somente impelido por mveis relevantes ousaria um patrcio vosso
a dirigir-vos a palavra, sem prvia apresentao. Como advogado de Maria
Prestes fui hoje incumbido por um grupo de mes brasileiras de
encaminhar   minha constituinte a importncia com que possa adquirir
uma passagem de primeira classe, e ainda cercar-se, durante a travessia
e no porto de desembarque, dos cidados exigidos pelo seu delicadssimo
estado de sade, preservando assim a vida do filho que vai nascer.
imediatamente dirigi ao ilustrado Ministro da Justia uma carta,
solicitando-lhe que me facilitasse o desempenho de to honrosa
incumbencia. Todavia, por muito que confie na inteligncia do professor
Viceme Rao, no devo esquecer que a mentalidade viril  a menos apta a
perce ber os problemas femininos. Desbastado e polido por muitos sculos
de civilizau, guarda o homem ainda, sob a pompa verbal e a hipocrisia
das maneiras, os instintos cavernrios que desde a noite dos tempos lhe
mostraram na companheira a escrava inerte, a servio de seus prazeres e
caprichos. A fbula de que a mulher  um enigma foi inventada
precisamente para justificar as acrucidades da civilizao masculina
contra ela. No h nada mais facilmente acessivel que a alma da mulher.
O homem, porm, finge no entend-la a fim de furtar-se a uma soma de
enormes deveres para com ela. Neste episdio tinha eu, pois, de dirigir
um apelo aos sentimentos maternais da primeira dama da sociedade
brasileira, rogando a sua interveno junto ao nobre presidente da
Repblica, simplesmente para que se permitisse que o gestu dessas mes
que se cotizaram para mitigar o infortnio de Maria Prestes no se
perdesse. A mulher brasifeira  inexcedvel na dedicao, na piedade,
na tolerncia. No sabe odiar; o que mais sabe, o que sabe sempre 
orientar, socorrer, acudir e perdoar. Numa palavra: s sabe amar. Eu
amesquinharia a atitude

209

 dessas almas sublimes se me atrevesse a
qualific-la; vs, porm, sentir-lhe-eis a grandeza suprema. Em nome das
mes brasileiras que me procuraram, insisto pela vossa interterncia. O
BraSil j se habituou a considerar-vos uma figura tutelar, pronta sempre
a cooperar em todas as iniciativas humanitrias. Singela, despretensiosa
e natural como sois, no  o mundanismo que vos atrai aos lugares onde
se cuida do infortnio alheio, mas o puro sentimento de solidariedade
humana, o vosso espirito harmonioso, o vosso fno e comovdo corao,
Provai ainda uma vez que a vossa generosidade excede a vossa beleza:
teteis sdo, ento, mensamente generosa. Heitor Lma. Heitor Lima
esperava que, envolvendo a mulher do presidente da Repblica na trama,
Filinto Mller no teria poderes para impedir que Olga embarcasse num
navio de passageiros. Mas, como no houve qualquer resposta  carta, a
sorte estava lanada. Agora s restava aguardar o dia da deportao.
 Nodia 21 de setembro de 1936 o capito Filinto Mller chamou seus
principais assessores ao gabinete da rua da Relao, juntamente com
Aloysio Neiva, diretor da Casa de Deteno, para transmitir-lhes uma
informao e uma ordem. Na madrugada do dia 23 atracaria no cais do
porto do Rio de Janeiro o navio La Coruna, fretado pela companhia
navegadora alem Hamburg-Sdamerikanische Dampfschijfahrt-Gesellschafr,
com uma nica finalidade: recolher Olga Benaro Prestes e Elise Ewert. O
cargueiro permaneceria no Rio apenas durante o dia 23 e no havia
perspectivas, to cedo, de que outro navio pudesse fazer o trajeto
previsto para o La Coruna, que rumaria diretamente para Hamburgo, no
norte da Alemanha. Dois policiais brasileiros que falavam o alemo
correntemente haviam sdo destacados para acompanhar as presas durante a
viagem. A vrdem, portanto, era retirar as duas rnutheres da Casa de
Deteno. A fora, se fosse necessrio. Pouco depois do jantar apareceu
 porta do salo das mulheres o policial Carlos Brandes, homem
insinuante, que freqentava as rodas da alta sociedade carioca
apresentando-se como "alto funcionrio do Itamaraty", e que a esquerda
garantia ser o representante do Intelligence
210

Service no Brasil.
Vinha acompanhado de dois funcionrios graduados do gabinete de Filinto
Mller e protegido por trs policiais armados. Apoiou as duas mos na
grade da cela feminina e disse, delicadamente: - Boa noite. A polcia
soube que dona Olga no passou bem o dia de hoje e fomos encarregados de
transferi-la para um hospital com recursos. . . Se ela no tiver melhor
atendimento, poder ter um parto prematuro... O homem no acabou de
completar a frase. Cerca de dez mulheres puseram-se de p e comearam a
bater freneticamente com as canecas na grade de ferro. No se sabe se
foi Maria Werneck de Castro ou Beatriz Bandeira quem berrou em direo 
"Praa Vermelha": - Levantem-se! O canalha do Brandes est aqui para
levar a Maria Prestes! Dentro de cada cela, o encarregado pelo Coletivo
tratou de pegar o presente que o sargento Jlio Alves distribura no dia
27 de maio - a gazua. Em poucos minutos as celas foram abertas, os
presos espalhados s centenas pelo ptio central. Os que no conseguiram
localizar, na confuso, a preciosa chave falsa, no tiveram dvidas:
fizeram as camas em pedaos e, com os traves de madeira, arrebentaram
os ferrolhos enferrujados. Os presos saam das tocas como animais
furiosos, seminus, cada um deles levando nas mos o que poderia ser
usado como arma: garrafas de leite vazias, tamancos de madeira, pedaos
de camas quebradas. Brandes tentou ser enrgico, mantendo porm a verso
original. Em frente ao salo das mulheres, gritou para baixo: - Eu no
vim aqui para discutir com os senhores, vim cumprir uma misso. Os
senhores esto assumindo uma gravssima responsabilidade ao tentar reter
esta senhora aqui! Parece at que esto fazendo isto de caso pensado,
para que ela aborte, perca o filho e depois a polcia seja
responsabilizada por tudo. Estou dizendo aos senhoies que ela vai para
um hospital. Um grito mais forte se sobreps  zoeira que vinha de
baixo:

211
- Para um hospital em Berlim, seu nazista filho da puta!
Brandes e seus acompanhantes j estavam cercados pelos presos que tinham
arrombado ou aberto as portas das celas do primeiro andar, mas ele ainda
tentou parlamentar, dirigindo-se ao mdico Campos da Paz, pai: - Doutor
Campos da Paz, eu apelo ao senhor para que acalme seus companheiros e
explique a eles que eu no seria capaz de uma ao menos digna! Como
resposta, mais gritos e insultos: - Fascista filho da puta! Para tirar
Maria Prestes daqui vocs tero que nos matar a todos, um por um! O
rosto empapado de suor, Brandes insistia: - Eu lhes dou a minha palavra
de honra que esta mulher vai ser imediatamente internada numa
maternidade! Estou disposto a dar-lhes todas as garantias: j mandei
buscar uma ambulncia, a fim de transport-la confortavelmente. No
posso de forma alguma submeterme  vontade dos senhores e deixar de
cumprir as ordens que recebi! O tenente Gay da Cunha - o autor dos
desenhos de avies nos babadores - chamou um grupo de colegas, militares
como ele, da Escola de Aviao e do 3. Regimento de Infantaria e
props: - A possibilidade de parlamentar com nossos carcereiros  nula.
A violncia  a nica alternativa que nos resta. O chefe da guarda do
presidio est ali em cima, ao lado do Brandes. Vamos peg-lo e aos dois
escoltas como refns, seno isto aqui acaba em poucos minutos. Um grupo
de oficiais subiu as escadas de ferro que davam acesso s celas do
primeiro andar. Levando nas mos estiletes de metal feitos pelo sargento
Jlio Alves com latas de goiabada, meteram-se no bolo que se formava em
voIta de Brandes e, de surpresa, agarraram pelo pescoo o chefe da
gvarda e os dois soldados, que foram arrastados para o trreo. Os trs
refns foram trancados dentro de uma cela e guardados por um grupo de
atlticos oficiais. O Coletivo se reuniu num canto e foi Rodolfo

212

Ghioldi quem anunciou o nome do preso que iria conduzir as negociaes a
partir dali: - Hablar Valrio Konder! Sozinho, o terceiro guarda que
viera escoltando Brandes tratou de salvar a prpria pele e saiu correndo
pela porta por onde entrara. Um grupo de presos aproveitou a confuso e
ocupou a cela das mulheres, armados de estiletes. L dentro, Olga estava
deitada na cama, protegida apenas pelas cortinas ensebadas que tapavam o
"periscpio. "O mdico comunista Valrio Konder, enrgico, avisou a
Carlos Brandes: - O senhor pode se retirar daqui. A partir deste momento
ns s conversamos com o Dr. Aloysio Neiva, diretor do presdio. A menor
tentativa de tirar Maria Prestes daqui pela fora, os refns pagaro com
a vida. Ningum tinha a iluso de que a resistncia pudesse ter algum
xito, mas todos sabiam que a agitao daria  polcia a impresso de
que eles estavam dispostos a tudo. Os presos aliravam para a "Praa
Vermelha" tudo o que havia dentro das celas, arrancavam as portas de
ferro das dobradias enferrujadas e jogavam-nas do primeiro andar ao
cho, num rudo ensurdecedor, enquanto os outros batiam as canecas no
cho, nas paredes, nas grades, gritando como malucos: - No levam! No
levam! No levam! Um nico preso no participava daquilo. Encolhido
sobre a cama, acendendo um cigarro no resto do anterior, Graciliano
Ramos parecia que iria mesmo enlouquecer. Olhando fixo para o cho, com
a cabea presa entre as mos, ele repetia, paralisado, com a voz quase
inaudvel no meio daquele inferno: - No  verdade que queiram fazer
isto... Para a Alemanha de Hitler? Ela  judia. . . Ela est grvida. .
. O Brasil no pode fazer isto com ela.. . No meio da noite a polcia
deu mostras de que no estava disposta a nenhuma forma de negociao.
Chefiadas por Filinto Mller, tropas da Polcia Especial armadas de
metralhadoras, lana-granadas de gs e at lanachamas  cercaram o
conjunto carcerrio da rua Frei Caneca.
 213

Um grupo de atiradores de
elite isolou o pavilho conflagrado, todos aguardando ordens para
entrar. A tenso durou a noite inteira. Embora armados de tamancos,
garrafas vazias e estiletes inofensivos, comparados com o arsenal que os
cercava, os presos continuavam falando grosso: - Para levar Maria
Prestes daqui vocs tero que matar trezentos brasileiros, cachorros
fascistas! O nervosismo tomou conta dos dois lados, e ningum se
arriscava a tomar qualquer iniciativa. Passava do meiodia quando veio o
primeiro comunicado de fora. Autoritado pelo capito Filinto Mller, o
diretor do presdio, Aloysio Neiiva, mandava fazer uma proposta
concreta: Olga Benrio sairia dali diretamente para um hospital,
acompanhada de uma comisso de presos eleita pelo Coletivo. A primeira a
ser consultada foi a prpria Olga, que concordou de imediato. Ela dizia
que a resistncia era uma manifestao herica dos brasileiros, mas no
levaria a nada. Seriam todos massacrados pelas tropas que cercavam o
prdio. Alm disso, Olga temia que Filinto Mller invertesse a
situao,fazendo de Prestes o seu refm. Seu pavor era que, continuando
a resistncia, eles acabassem por mat-lo. Para convencer os mais
renitentes, que pretendiam manter a rebelio at o fim, ela fez um
apelo: - Deixem-me ir para o hospital, quero ter meu filho aqui no
Brasil. . . Quando finalmente o Coletivo - por ingenuidade ou por
reconhecer que aquela era uma batalha perdida aceitou a proposta da
polcia, a noite cara de novo. Depois de muita parlamentao, ficou
estabelecido que a "comisso" que acompanharia Olga at o hospital seria
composta, na verdade, por apenas dois presos, um indicado pelos homens,
outro pelas mulheres. Os escolhidos foram Campos da Paz Jnior, por ser
mdico, e Maria Werneck de Castro, advogada que demonstrara grande
firmeza nas 24 horas de resistncia. Acertou-se tambm que iriam os trs
de ambulncia at o hospital e maternidade Gafre Guinle e que os
acompanhantes s sairiam do lado de Olga quando ela retornasse ao
presdio. Quando

214

 Maria Werneck comeou a descer as escadas ao lado
dos funcionrios que carregavam a maca onde Olga fora acomodada, Campos
da Paz gritou-lhe, de baixo: - Saio por baixo e encontro vocs duas no
porto principal! Juntaram-se os trs mas, antes que chegassem ao
segundo porto, que dava para a rua, Maria percebeu que se tratava de um
golpe. O mdico"foi agarrado por dez policiais, separado do grupo e
metido num camburo. Maria entrou na parte de trs de uma ambulncia,
junto com Olga, e o cortejo saiu pelas ruas, cercado por dezenas de
policiais armados de metralhadoras e protegido de todos os lados por
jipes repletos de soldados. Pela fresta da ambulncia, Maria Werneck
percebeu, surpresa, que estavam mesmo sendo levadas para o Gafre
Guinle. Por alguns minutos, imaginou que Olga pudesse estar de fato a
ponto de ter o beb prematuramente e que o governo no queria correr
riscos. Olga segurava na sua mo e dizia apenas: - No se preocupe, tudo
vai terminar bem... Quando a ambulncia parou, Maria olhou de novo pelas
frestas e tranqilizou Olga: - Voc tinha razo: estamos em frente ao
Gafre Guinle, que eu conheo muito bem. As portas se abriram e Maria
foi tomada de terror. O trnsito de carros e pedesires tinha sido
interrompido em todas as ruas adjacentes para que no houvesse
testemunhas, e a porta do hospital estava tomada por dezenas de veculos
militares e policiais, numa autntica operao de guerra. Quem apareceu
 sua frente foi King-Kong, excarcereiro da Deteno, um negro enorme,
trazendo uma metralhadora pendurada no peito por uma ala de couro.
Apontou para o camburo policial que encostava de r, rente  porta de
sada da ambulncia, e ordenou a Maria Werneck: - Voc entra ali. Ela
resistiu:

215

- No! Eu vou ficar com a Maria Prestes! Eu tenho a
palavra do dr. Brandes de que permaneceria em companhia dela e no
sairei daqui! O prprio Brandes apareceu e Maria Werneck dirigiu-se a
ele: - Dr. Brandes, o senhor no me conhece apenas da cadeia. O senhor
me conhece de fora  me deu a sua palavra de que eu a acompanharia at o
hospital. Daqui eu no saio! Brandes foi cnico: - , dona Maria, eu lhe
dei minha palavra, mas so ordens superiores. King-Kong sorriu,
apontando-lhe o cano da metralhadora: - Eu no disse? Voc entra ali.
Olga Benario segurou-lhe a mo com fora e disse: - Vai, Maria, vai. No
adianta resistir aqui. As duas se beijaram e Maria Werneck foi colocada
dentro do camburo, cuja porta se fechou em seguida. L dentro ela notou
que no estava sozinha. Sentiu uma perna cutucando a sua e perguntou
quem estava ali. um vozeiro respondeu: - Sou eu, Maria, o Campos da
Paz Jnior. No me deixaram retornar ao presdio, temendo que eu
denunciasse a trama aos companheiros. Olga sequer chegou a descer no
hospital. O comboio militar seguiu at o cais do porto sob uma chuva
fina e insistente. Quando foi retirada da ambulncia, ainda deitada na
maca, a caminho da escada do navio, Olga pde ver, rapidamente, entre os
pingos de chuva, o nome La Coruna gravado no casco. Por um instante,
teve esperanas de estar sendo embarcada num navio espanhol. Mas ela
moveu a cabea um pouco, virou os olhos para cima e viu, tremulando no
mastro principal, uma bandeira com a sustica negra no centro. Era a
bandeira da Alemanha de Adolf Hitler.

16. Nos pores da Gestapo.
217

 Dez quilos mais magra, apesar da gravidez de sete meses, levando consigo
apenas os 150 dlares encontrados pela polcia na casa da rua Honrio e
uma trouxinha com roupas do beb, Olga foi deitada na cama de uma
mnscula cabine do La Coruna, onde ficou absorta por alguns minutos,
at que foi despertada pelo barulho de batidas  porta. Era Joo
Guilherme Neumann, o investigador encarregado por Filinto Mller de
escolt-la durante a viagem e entreg-la aos oficiais da Gestapo, em
Hamburgo. Neumann era um homem de 42 anos, neto de colonos alemes que
cultivavam flores na cidade montanhesa de Petrpolis, no Estado do Rio
de Janeiro. Ele trabalhava na equipe de capturas da polcia poltica -
fora o autor da priso de Beatriz Bandeira, companheira de cela de Olga
- e tinha sido o escolhido para acompanh-la por falar alemo.
Constrangido, o tira disse  prisioneira que nada tinha contra ela ou
suas idias e que estava ali por estrito dever profissional: - Sou um
policial que no discute as ordens recebidas, a no ser que sejam
absurdas. Neumann foi quem contou a Olga que no viajariam sozinhos para
a Alemanha: naquele momento Elise Ewert estava sendo retirada da Casa de
Deteno para ser embarcada na cabne ao lado da de Olga, acompanhada de

218

 Luiz Felipe Peixoto, outro policial escalado por Filinto. To logo
ela chegasse, o La Coruna partiria com destino a Hamburgo. Quando foi
retirada da ambulncia, Olga pde ouvir uma discusso spera entre o
comandante do navio, capito Heinrich von Appen, e os policiais
brasileiros e alemes. O barulho no porto a impedira de entender o
motivo do bate-boca, que agora era esclarecido  por Neumann. Von Appen,
ao v-la com a barriga enorme, perguntou aos policiais: - Ela est
grvida de quantos meses? - Sete meses - algum respondeu. - Ento no
embarca - determinou, rspido, o capito. Eu recebi ordens de
transportar duas presas e dois policiais, mas ningum me falou em
gravidez de sete meses. Isto vai contra todas as leis internacionais de
navegao. No meu navio mando eu. Um policial alemo,  paisana, exibiu
uma carteirinha para o comandante do navio e apresentou argumentos
convincentes: - A ordem de embarque foi dada pelo presidente Getlio
Vargas e a prisioneira  considerada de interesse mximo para o comando
da Gestapo. Se voc no lev-la, acho melhor nem atracar seu navio em
Hamburgo: os oficiais estaro l, esperando-a. Se ela no chegar, 
muito possvel que o lugar reservado a ela seja guardado para voc. No
era s o capito Von Appen quem mandava no La Coruna: Olga foi embarcada
contra sua vontade e contra as leis de navegao. Ela aproveitou a
conversa mole de Neumann e disse-lhe que seria preciso instalar uma
campainha em sua cabine, para a eventualidade de sentirse mal durante a
noite. Neumann acedeu e explicou-lhe as limitaes que a condio de
prisioneiras impunha a ela e a Elise. Durante o dia poderiam circular
apenas pelo pequeno corredor fronteiro s portas das quatro cabines -
as de Olga e Elise no meio, as de Peixoto e Neumann nas pontas. Como as
cabines ficavam sob a popa do navio, no fundo de um corredor, o capito
s teve o trabalho de mandar isolar uma das pontas da passagem,

219 onde

foi colocada uma placa com letras pintadas em alemo: "Local nterdtado
por ordem do comandante entrada proibida". Nas prximas semanas,
portanto, a viso que Olga e Elise teriam do mundo seria atravs de
quatro escotiIhas dspostas naqueles dez metros de corredor. O policial
pediu que Olga se recolhesse ao quarto, pos segundo suas ordens durante
a noite ela teria que permanecer l, com a porta trancada por fora. Caso
precisasse de alguma coisa, antes da instalao da compainha, deveria
bater na porta que ele a atenderia. Uma  hora depois de deitar, Olga
ouviu um barulho estrondoso, que fez tremer toda a cabine. S a
percebeu que lhe tinha sido reservada uma cabine ao lado dos motores do
navio. Elise acabara de chegar e o La Coruna se preparava para zarpar. A
primeira noite foi de insnia e vmitos. A cada meia hora Olga era
obrigada a caminhar at a pia do pequeno banheiro para tentar aliviar a
nusea. Alm do balano do navio e do ronco do motor, a proximidade com
a casa de mquinas transformava a cabine numa estufa, que tinha como
ventilao apenas uma pequena entrada de ar no teto. Ao nascer do dia o
navio estava jogando menos - e s ento conseguiu dormir. Olga passou
seu primeiro dia a bordo trancada na cabine, atendida por Sabo. Alm da
campainha, que o capito mandou instalar de manh, Neumann conseguira
gue o mdico de planto no navio arranjasse pastilhas contra nuseas
para que Olga pudesse ao menos livrar-se dos enjos provocados pela
gravidez e agravados pelas condies da viagem. Nos dias seguintes as
duas colocaram as cadeiras de suas cabines no corredor, onde passavam
horas fazendo tric e croch, levantando-se a cada par de horas para
olhar o mar azul atravs das escotilhas redondas. A viagem
transformou-se numa priso tambm para os dois policiais, obrigados a
passar o dia inteiro ali, cominhando do quarto para o corredor, do
corredor para o quarto. Olga procurava trat-los com polidez, mas
dirigia-se a eles apenas quando necessrio e evitava converss

220 mais

prolongadas. Quanto a Elise, nem isso. Ainda sob o trauma das torturas e
sevcias aplicadas por policiais brasileiros e alemes, ela simplesmente
se recusava a falar com qualquer um dos dois. Quando no havia outra
alternativa, ela dirigia a palavra a eles - mas para protestar contra a
qualidade da comida ou do tratamento dedicado a Olga. Mesmo percebendo
que a mulher de Prestes no queria muita conversa, Neumann insistia em
aproximarse dela, s vezes para reclamar da rispidez de Sabo "ela  uma
fer", dizia o policial - ou at para saber detalhes de sua vida
poltica e pessoal. De certa feita a conversa acabou caindo na questo
da deportao e ele perguntou,curioso: - Mas a senhora provou que era
casada com o capito Prestes? Ele era um policial, estava a servio de
Filinto Mller, ia estar com os homens da Gestapo em Hamburgo... o
melhor era despist-lo: - Sim, casei-me com ele em Marselha, na Frana,
mas no tnhamos os papis que comprovassem. Ao contrrio do que havia
sido dito pela polcia, o La Corunha faria uma escala antes de Hamburgo,
mas ainda em territrio brasileiro. No quarto dia de viagem o navio
chegou a Salvador, na Bahia, com o porto inteiramente tomado por tropas
- Filinto no pretendia correr nenhum risco. Era uma parada rpida, o
suficiente para que fosse embarcada uma carga de piaava. Olga pediu
autorizao para que um marujo descesse  cidade e lhe comprasse, com
alguns dos dlares que levava, objetos para seu uso durante a viagem,
pois embarcara apenas com a roupa do corpo e um enxoval mnimo para o
beb. Von Appen autorizou e o navio j avanava em direo ao mar alto,
quando lhe trouxeram dois pares de chinelos - um para ela, outro para
Elise -, pasta e escova de dentes, linha e agulhas de tric e croch. No
dia 30 de setembro o navio costeava a ilha de Fernando de Noronha, no
litoral norte do Brasil, e Neumann contou-lhe que o governo iria
transferir para l os presos da revolta de novembro que fossem
condenados

221

pela Justia. Aproveitando o bom tempo e o mar calmo, o
comandante decidiu realizar ali um exerccio de salvamento - durante o
qual Olga e Elise permaneceram trancadas em seus quartos. Trs dias
depois, sob uma noite negra, cruzaram a linha do Equador. De madrugada,
Olga percebeu sons muito familiares e imaginou que estivesse sonhando:
ela ouvia msicas da sua infncia em Munique, cantadas em alemo,
Levantando-se, entendeu o que se passava: um grupo de marinheiros
comemorava a passagem para o hemisfrio norte danando e cantando ao som
de uma gaita de boca, no convs principal. Duas noites depois, Olga e
Else receberiam autorzao para sair da cabine aps o jantar e olhar
pelas escotilhas: o La Coruna iria cruzar com o dirigvel alemo
Zeppelitt, que voava da Europa para a Amrica do Sul. Quando o Zeppelin
apareceu no horizonte, o comandante mandou acender holofotes no convs,
apontados para o cu, para saudar a tripulao do dirigvel e para que
ele ficasse ainda mais visvel aos passageiros do navio. Por alguns
minutos o Zeppelin sobrevoou o La Corunn e fez evolues  sua volta,
voando to baixo que dava a impresso de que trombaria com as chamins
do navio. Correndo de uma escotlha par a outra, para pegar ngulos
melhores, Olga e Sabo puderam ver de perto os passageiros na amurada do
dirigvel alemo, homens e mulheres elegantes, de copos nas mos,
acenando para baixo. No fim da primeira semana de outubro, quando
navegava ao largo de Funchal, na ilha da Madeira, o capito Von Appen
recebeu novas advertncias de que o navio no deveria atracar em portos
europeus sob nenhum pretexto. Se isso ocorresse, lembravam os
radiotelegrafistas, as duas mulheres seriam inevitavelmente levadas para
terra. O episdio ocorrido no Havre era repetido com evidente exagero, e
os 17 presos que haviam sdo deportados  do Brasil e libertados naquele
porto francs transformavamse em "mais de uma centen ". Dizia-se tambm
que o capito Von Appen deveria preparar-se at para ataques piratas em
alto mar, como parte das tentativas para libertar Olga e Elise. Eram
essas, pelo menos, as notcias que

222

Neumann trazia para Olga aps
suas incurses pelos pavimentos superiores do navio. O La Coruna ainda
fervilhava com essas histrias, na noite de 12 de outubro, quando a
tripulao foi surpreendida pela presena, a pequena distncia, de outro
navio, de grande calado, que fazia soar o apito solicitando socorro. Von
Appen mandou que o imediato parasse as mquinas para verificar o que
acontecia. O capito subiu   ponte de comando, acompanhado de seus
oficiais, e pde ver que se tratava de um enorme veleiro de dois mastros
e que no era um navio pesqueiro. No convs vrios marinheiros tentavam
em vo comunicar-se em espanhol com os alemes. Von Appen mandou chamar
Neumann na cabine-cela das mulheres. Antes de subir, o policial abriu a
porta do quarto de Olga para dizer-lhe que algo estranho estava
acontecendo: um navio desconhecido estava parado ao lado do La Coruna e
o capito mandara cham-lo  ponte de comando. Olga no teve dvidas: os
republicanos espanhis estavam chegando para libert-las em alto mar.
Quando Neumann chegou ao topo do cargueiro, ouviu que do outro navio
algum gritava: "Portugus! Portugus!", indicando o idioma da
tripulao. Aos gritos o tira brasileiro acabou conseguindo decifrar o
que pretendiam: o equipamento de navegao tinha quebrado e eles queriam
apenas saber em que longitude se encontravam. Ao retornar, Neumann abriu
novamente a portinhola da cabine de Olga: - Dona Olga, ainda no foi
desta vez. Era apenas um barco portugus de recreio perdido em alto mar.
O dia 16 de outubro amanheceu com o navio em pleno canal da Mancha; ao
anoitecer podia-se avistar as costas da Blgica. A temperatura cara
muito e inesperadamente, o que levou o capito Von Appen a autorizar a
entrega de mais cobertores s presas e aos policiais que as escoltavam.
No dia seguinte navegavam no mar do Norte, em cujas guas passaram todo
o dia  noitinha entravam no rio Elba, em territrio alemo. As seis
horas da manh do dia 18 de outubro algum bateu na porta da cabine de
Joo Guilherme Neumann:

223

- Herr Neumann! Herr Neumann! Era um marujo
que o avisava para subir imediatamente ao camarote do capito Heinrich
Von Appen, acompanhado das prisioneiras. Neumann acordou Olga e Elise s
pressas, chamou seu colega Peixoto e viu, por uma das escotilhas, que o
navio estava atracado em Hamburgo. Os quatro subiram at os aposentos do
comandante do La Coruna. Olga estacou, lvida, com o que viu: havia mais
de dez oficiais e soldados, todos de fardas negras, com a inconfundivel
insgnia bordada na gola do dolm. A SS, a tropa de choque nazista esta
ali para receb-la. Enroladas em cobertores e calando os chinelos
tropicais de Salvador, Olga e Sabo esperaram menos de dois minutos para
que a entrega se fizesse sem qualquer formalidade. Um dos militares
apenas se identificou verbalmente, dando seu nome e a patente, e disse
que estava ali "em nome do Fhrer para receber as duas criminosas".. Os
quatro passageiros do La Coruna separavam-se ali mesmo. Joo Guilherme
Neumann e Luiz Felipe Peixoto tomaram um trem para Berlim, onde
receberiam, das mos do embaixador Moniz de Arago, duas passagens de
volta ao Brasil por um navio do Lloyd, e uma polpuda ajuda de eusto de
250 libras esterlinas para cada um, devidamente autorizada pela
Chancelaria, no Rio de Janeiro. Olga e Elise no puderam sequer se
despedir: a mulher de Ewert foi colocada num carro de presos que
arrancou em alta velocidade e Olga em outro, cercada de guardas SS
armados, desaparecendo no meio da neblina em direo a Berlim. Foram
quase sete horas de viagem sob uma temperatura que beirava zero grau. Na
escurido do amplo compartimento de presos, as nicas imagens que os
olhos de Olga distinguiam eram vagos perfis de soldados, iluminados por
brasas de cigarros ou por instantneas chamas de fsforos que se
acendiam alternadamente. Com as mos estiradas ao lado das pernas e
algemadas a argolas soldadas ao banco de metal do camburo, Olga passou
a sentir fortes cibras a partir da primeira meia hora de viagem, mas
achou melhor no falar nada e resistir at

224

a chegada. Pouco depois
do meio-dia o veculo chegou a Berlim sob chuva forte e com a
temperatura ainda mais baixa. As portas foram abertas e Olga percebeu
onde estava: no prdio nmero 15 da Barnimstrasse, a temida priso de
mulheres da Gestapo, uma construo de mais  de um sculo por onde havia
passado, duas dcadas antes, sua herona Rosa Luxemburgo. Avisada pelo
pressuroso Moniz de Arago, a polcia secreta alem havia preparado um
verdadeiro comit de recepo para a prisioneira: alm do aparato
enviado ao porto de Hamburgo, uma cabeleireira esperava-a na enfermaria
da priso, de tesoura na mo. Olga sentou-se numa cadeira, sempre
algemada, e ouviu um oficial dizer: - Vamos cortar seu cabelo para
evitar a propagao de piolhos. Voc sabe, isto  muito comum em judeus
e comunistas. Um uniforme listrado, que certamente fora utilizado por
alguma prisioneira gorda foi-lhe entregue por uma funcionria. Olga
sentiu-se ridcula: magrrima, barriguda, com os cabelos picados rente 
cabea e metida num macaco que mais parecia um saco de batatas. Andando
com dificuldade pelo peso da barriga, com o corpo dolorido pelo
desconforto da viagem foi conduzida at os fundos do prdio cinzento. A
medida que cominhava para a cela, ouviu rudos que a reanimaram: de
vrios pontos do edifcio de quatro andares, vozes e choros de bebs
saam pelas janelas protegidas por grades de ferro. Ela procurou se
consolar - "pelo menos no serei a nica me neste inferno". A cela era
um eubculo de dois metros por dois, com o cho de cimento spero, um
colcho fino, colocado sobre uma laje de concreto, um ralo cobertor de
flanela - "eu devia ter tentado trazer o do navio", arrependeu-se -, uma
pia e uma latrina no cho. Esticando-se nas pontas dos ps ela conseguia
ver o ptio interno atravs de uma pequena clarabia cortada na parede
e defendida por grades de ferro. Antes que terminasse o reconhecimento
do lugar, a carcereira abriu a porta de ferro. Era um capito-mdico que
vinha examin-la para certificar-se do estado em que se encontrava a
gravidez.

225

Aps um exame sumrio durante o qual seu rosto revelava
um certo ar de nojo, o militar informou: - Sua sade  tima e o parto
deve acontecer dentro de quatro semanas. Olga ainda no tinha chegado a
Hamburgo quando Lgia e dona Leocdia receberam em Paris, das mos de um
marujo comunsta que chegara  Frana num cargueiro brasileiro, uma
carta contando o qua acontecera  mulher de Prestes. Na verdade, s a 
que a famlia soube que Olga estava grvida e que havia sido deportada.
Horrorizadas com a notcia, trataram de mobilizar os comits, a Central
Geral de Trabalhadores e o Partido Comunista francs para tentarem tirar
as duas do navio que ento ainda se encontrava em alto mar e poderia
atracar em algum porto. Apesar da vigilncia nos portos espanhis e
franceses, o La Coruna passaria ao largo do litoral europeu. Dona
Leocdia ainda conseguiu que um advogado fosse a Hamburgo tentar pelo
menos um contato com Olga ou Elise, mas ele no pde sequer ver o navo.
Todo o cas fora interditado por polcas da Gestapo e tropas SS e
naquele dia ningum entrou ou saiu dali sem passar pela barreira de
soldados. A me e a irm de Prestes no se deram por vencidas e
decidiram ir  Alemanha, acompanhadas de um grupo de mulheres inglesas.
No dia 11 de novembro chegavam ao quartel-general da polca secreta, na
rua Prinz Albrecht, onde foram informadas de que Olga passava bem e que
o beb ainda no havia nascido. Por mais que pedissem, no lhes
permitiram visitar a prisioneira. A nica concesso dos nazistas foi
autorizar que deixassem na portaria de Barnimstrasse  um pacote com
alimentos e roupas. L dentro, Olga recebeu o pacote sem qualquer indi.
cao de quem o deixara. Mas como soubera, por uma prsoneira
recm-chegada, da movmentao da sogra e da eunhada na Frana e na
Inglaterra, deduziu facilmente a origem do presente. Lgia e dona
Leocdia voltaram  Frana levando apenas uma vaga promessa dos alemes

226

de que seriam avisadas pela Cruz Vermelha quando o beb nascesse.
Desesperada, dona Leocdia batia em todas as portas possveis, e a todos
repetia seu lamento: - Os nazistas encarceraram meu filho, agora querem
matar minha nora e meu netinho que ainda nem nasceu. Percebendo que em
Paris teriam poucas chances de obter informaes, as duas decidiram
viajar a Genebra, na Sua, onde funcionavam as sedes da Cruz Vermelha
Internacional e da Sociedade das Naes. Nesta ltima foram recebidas
com frieza e o mximo que conseguiram foi a promessa de que seriam
remetidos telegramas ao governo brasileiro. Telegramas que apenas
indagariam sobre a situao judicial de Prestes - nada de protestos.
Repetiram o apelo na Cruz Vermelha e obtiveram o compromisso de que os
representantes da entidade na Alemanha fariam firmes gestes para que
pelo menos a notcia  do nascimento da criana fosse comunicada s duas.
Apesar das pssimas condies em que se encontrava na priso berlinense,
Olga no perdera a altivez. Citando a legislao internacional e os
cdigos alemes, exigiu o direito de receber jornais regularmente. Como
a lei falava simplesmente em "jornais", o pedido foi atendido: todas as
manhs Olga passou a receber na cela o Vlkischer Beobachter, jornal
oficial do Partido Nazista que s falava da "conspirao
judaico-bolchevique" e das supostas virtudes do nacional-socialismo de
Adolf Hitler. As notcias que a interessavam - sobre a situao dos
comunistas e dos pases europeus que resistiam ao fascismo  acabavam
chegando pela boca das dezenas e dezenas de novas prisioneiras polticas
que a cada semana eram despejadas em Barnimstrasse. Como insistisse em
saber de que crime era acusada, Olga acabou informada pela direo da
priso que no havia qualquer imputao formal contra ela. A denncia
pela invaso armada de Moabit estava prescrita e a suspeita de
cumplicidade com Otto no caso de espionagem tinha morrido por falta de
provas. A

227 inexistncia de acusao, entretanto, ao contrtio de

tranqiliz-la, dava-lhe a certeza de que no sairia dali to cedo. Quem
no era acusado de nada no tinha porque contratar um advogado e nem
teria do que se defender. Olga no ignorava que os crimes que a tinham
levado  cadeia no prescreveriam jamais sob o nazismo: ser judia e
comunista. Na madrugada de 27 de novembro de 1936, um ano aps a
frustrada revolta do Rio de Janeiro, Olga acordou com o colcho
encharcado. Correndo a nio pelo corpo, percebeu que a bolsa amnitica
estava arrebentando. Levantou-se correndo, tateou os cantos da
cela,localizou a caneca de Lata e bateu-a contra a porta de ferro
algumas vezes - era o cdigo combinado com as carcereiras para quando
suspeitasse da iminncia do parto. O sol comeava a romper a camada de
neblina gelada que envolvia a priso quando a criana nasceu. Era uma
menina e o nome, como sabiam algumas prisioneiras de Barnimstrasse,
estava escolhido h vrios meses: Anita Leocdia. Anita em memria da
herona brasileira Anita Garibaldi, mulher de Giuseppe Garibaldi, o
revolucionrio forjador da unidade da Itlia, e Leocdia em homenagem a
sogra que nunca vira pessoalmente, mas aprendera a amar e respeitar
atravs de Prestes - e que agora cruzava a Europa mobilizando comits
por sua libertao. A recm-nascida foi envolvida nas roupinhas tecidas
pelas companheiras de cela, no Brasil e que tinham sido virtualmente a
nica bagagem de Olga na viagem at a Alemanha. As peas do enxoval, na
verdade, eram to grandes que acabaram servindo como mantas para Anita
Leocdia. Surpreendentement para uma gestao ocorrida em
circunstncias to adversas o beb nascera gorducho e saudvel. A chefe
das enfermeiras informou a Olga que com o nascimento da menina ela teria
a rao de alimentos alierada: s duas tijelas da rala sopa de ervilhas
que recebia, seriam acrescentadas diariamente, durante os primeiros seis
meses, uma caneca de leite e uma tijela de mingau de aveia. Mas a boa
notcia veio acompanhada de uma advertncia temvel:

228

- As normas desta priso determinam que os bebs sejam separados das mes
aos seis
meses e mandados a orfanatos do Partido - comeou a mulher - mas no seu
caso vamos abrir uma exceo. Ns sabemos que h pessoas na Frana e na
Inglaterra utilizando seu nome para fazer campanhas contra o Estado
alemo. Para provar que este  um regime humanitrio, vamos permitir que
a criana fique em seu poder enquanto estiver sendo amamentada. No meio
do pnico de que foi tomada pela notcia, Olga viu uma ponta de
esperana: a "concesso" feita pelos nazistas daria mais tempo  eunhada
e  sogra para que intensificassem a campanha pela libertao de ambas.
Ficar com Anita Leocdia, agora, dependia apenas de seu organismo: das
canecas de leite e das tijelas de sopa de ervlha ela tera que extrair
nutro sufcente para produzir leite. Muito leite, por muito tempo.
S no comeo de fevereiro, quando Anita entrava no terceiro ms de vida,
 que dona Leocdia e Lgia souberam pela Cruz Vermelha do nascimento.
A organizao informava tambm que Olga tinha recebido as duas cartas
enviadas por dona Leocdia a Genebra, e que a correspondncia entre elas
estava autorizada oficialmente. mas seria submetida  censura pela
Gestapo - teria que ser, portanto, escrta em alemo. O ofcio da Cruz
Vermelha transmitiu  av as notcias sobre o risco gue a garotinha
corria: quando secasse o leite da me, elas seriam separadas. Junto 
carta vinha um pequeno envelope, carimbado com a guia nazista do
servio de censura, contendo um blhete de Olga para a sogra, a quem
passara a tratar de "me": Berlim, 31.1.37 Querida mame: Acabo de
receber suas cartas de 1 e 9 de janeiro. Voc no pode imaginar a alegria
que
elas me trouxeram. Primeiro, quero inform-la de que voc  av. No dia
27 de novembro dei a luz  pequena Anita Leocdia. uma menina saudvel,
que nasceu pesando 3800 gramas. Ela
229
 tem os cabelos negros e grandes olhos azuis. A criana se desenvolve bem
e o seu sorriso tira-me da
triste situao em que estou. Fao todo o possvel para que nada lhe
falte. Estou amamentando-a e tentarei faz-lo enguanto me seja possivel.
Atualmente estou em uma "deteno de proteo" (Schufzha/r), mais
precisamente, na enfermaria de uma priso feminina. No parto houve
complicaes e estive gravemente doente, mas agora j superei isso. Voc
me perguntou quantas vezes pode escreve-me. Pelo regulamento da priso,
posso receber uma carta a cada 10 dias. Fico contente de poder coloc-la
a par do desenvolvimento da minha filha. Eu lhe peo que me escreva
quando possvel contando o que sabe sobre a situao do Carlos. Desde 23
de setembro, isto , desde o da em que fui expulsa do Brasil, estou sem
notcias dele. Depois do nascimento da pequena, eu lhe dirigi uma carta,
mas at agora no obtive resposta. Eu queria que voc me enviasse, em
uma das prximas cartas, uma Fotografia do Carlos, pois no tenho
nenhuma aqui. Querida mame, espero com impacincia a sua resposta Com
meus melhores votos por sua sade...
Eu te beijo.
 Sua filha, Olga.

A campanha organizada a partir da Frana passou a reclamar desde ento, a
libertao de Prestes, no Brasil, e a de Olga e Anita, na Alemanha. A
dona Leocdia e Lgia juntou-se outra valente mulher, a alem Minna
Ewert, irm de Arthur Ewert, que se movimentava por toda a Europa
lutando pela liberdade do irmo e da eunhada. Minna conseguira fazer
chegar s mos do presidente Franklin Roosevelt, em Washington, um
telegrama denunciando as torturas de que Arthur era vtima nas prises
brasileiras e pedindo a interferncia do governo norte-americano. A
primeira preocupao da me e da irm de Prestes passou a ser com a
sade de Olga: era necessrio garantirLhe almentao substancal a fm
de que amamentasse a menina o tempo sufciente para permitr o
fortalecmento da campanha pela lbertao de ambas. A cada duas semanas
dona Leocda e Lga enviavam pelo correio um fornido pacote de 20
quilos para a prso de Sarnmstrasse, contendo alimentos, chocolate e
alguma roupa. O mposto que os alemes cobravam pela entrada dos pacotes
no
230
pas chegava a ser duas ou trs vezes superior ao preo pago
pelos artigos. Pelas raras cartas que recebiam, percebiam que apenas a
metade das remessas chegava s mos da prisioneira, mas ainda assim o
trabalho produzia resultados: Olga se recuperava da desnutrio e tinha
leite abundante. Simultaneamente s remesas, o movimento pela libertao
das duas prosseguia. Lgia e dona Leocdia no admitiam a idia de
separar a me da filha e exigiam que Olga tambm fosse solta, lembrando
que era inocente e no havia denncia ou acusao formal contra ela.
Alm disso, era preciso arranjar alguma forma de transmitir a Prestes a
notcia de que ele era pai de uma menininha. No Rio de Janeiro, o jovem
advogado Herclito Fontoura Sobral Pinto, cristo militante, resolve por
sua prpria conta defender Prestes e Arthur Ewert perante o Tribunal de
Segurana Nacional, uma corte de exceo criada especialmente para
julgar os envolvidos na insurreio de novembro de 1935. Sobral consegue
entrar na cela onde o capito estava preso, para comunicar-lhe sua
deciso e  furiosamente rechaado. Prestes rejeita a oferta de defesa,
alegando que Sobral  um homem de mentalidade burguesa, sem capacidade
ou desejo efetivo de defend-lo e sem condies de entender o pensamento
dos comunistas. O advogado insiste e Prestes pede que ele se retire da
cela, com uma ameaa: - Qualquer iniciativa que o senhor tome em minha
defesa sem meu consentimento vai lhe eustar caro: eu o denunciarei
internacionalmente como impostor! Sobral Pinto no se intimidou com a
reao do ilustre preso. Embora anticomunista ferrenho, para defender um
comunista valia-se de um pensamento de Santo Agostinho pinado do
Evangelho - "odiar o pecado e amar o pecador". Sobral explicava aos
amigos que sabia que "o comunismo nega Deus, afronta Deus, mas
compreendo que os comunistas faam isso por serem pecadores".
Persistente, decidiu recorrer a uma das poucas pessoas que exerciam
influncia sobre o preso: a me, dona Leocdia. Semanas depois do spero
encontro na cela, Prestes
231
recebia, por intermdio do advogado, um
bilhete de Paris, em que a me pedia que ele tivesse confiana em Sobral
Pinto. As palavras maternas mudaram o comportamento do filho, e a
primeira providncia do defensor, como patrono da causa de Prestes e
Ewert,foi afrontar a ditadura denunciando de maneira que se tornaria
clebre o tratamento dado ao comunista alemo.Nos primeiros dias de 1937
um jornal do Rio havia publicado uma noticia policial dando conta de que
o cidado Mansur Karan, da cidade de Curitiba, fora condenado  priso
por ter espancado um cavalo at a morte. Sobral valeu-se da deciso do
juiz que condenara Karan e recorreu a um artigo da Lei de Proteo aos
Animais para tentar salvar a vida de Ewert. A lei dizia que "todos os
animais existentes no pas so tutelados do Esiad" - e j que a lei dos
homens era insuficiente para impedir o flagelo do alemo, pelo menos que
fosse protegido como um animal para que as toriuras cessassem. Graas 
interveno de Sobral, Prestes pde receber cartas da me e da irm.
Embora ambas tivessem remetido abundante correspondncia, a polcia no
deixara chegar ao preso uma nica linha. A primeira carta que recebe de
dona Leocdia vem de Paris, datada de 6 de maro de 1937. E atravs dela
que Prestes fica sabendo do nascimento de Anita Leocdia. Meu querido
filho; Desejo de todo o corao que continues bem de sade e nimo
forte. At hoje no recebi nada de tua parte, embora muitas tenham sido
as cartas enviadas para a priso onde te encontras desde maro de 1936.
Ignoro se as recebeste. Hoje resolvi escrever-te de novo, esperaudo
desta vez um melhor resultado, quero dizer, que re cheguem s mos estas
tinhas, portadoras do nosso amor e de nossas saudades, mas,
principalmente, para te dar uma gratssima notcia que acabamos de
receber. A 27 de novembro nasceu em Bertim, em um hospital de uma priso
de mulheres, tua filhinha, a quem nossa querida Olga deu o nome de Anita
Leocdia, em honra  herona brasileira Anita Garibaldi e em ateno a
tua me. Que criatura admirvel  tua esposa e como  digna de ti.
Congratulamo-nos efusivamente contigo peio auspicioso acontecimento.
Depois dos transes por que passamos e da terrivel incerteza que
232
pesava sobre a sorte da herica Olga e do precioso penhor que trazia em
seu seio, podes bem imaginar a indescritvel emoo que nos dominou e,
ao mesmo tempo, a enorme alegria que encheu nossos coraes ao termos
conhecimento de feliz sucesso. A nossa herica Olga, somente  sua calma
e pacincia com que soube suportar os terrveis sofrimentos morais por
que passou, revelou-nos to feliz acontecimento. Junto vai a carta que
dela
recebi, respondendo s que eu havia escrito em janeiro ltimo, e assim
ficar a par de alguns detalhes sobre o nascimento de tua filhinha. Alm
dessa carta de 31 de janeiro, nenhuma outra recebi. Porem, tenho escrito
trs vezes por ms, como determina o regulamento da priso onde se
encontra. Por intermdio de amigos, j lhe enviei um pequeno auxlio
pecnnirio, agasalhos, etc. Por esse lado podes ficar tranqilo, que no
nos descuidaremos desses dois entes queridos e tudo envidaremos para que
nada lhes falte.  Estamos terminando um pequeno enxoval, todo feito por
ns (eu e Lgia, que muito breve enviaremos para nossa muito querida
Anita- J enviei  Olga as fotografias pedidas.  Meu querido
filho, vou terminar que esta j vai longa demais, porm antes quero
lembrar-te que se puderes escrever a Olga, que se aflige sem noticias
tuas, podes me enviar a carta que eu a transmitirei a ela. Tuas irms te
abraam e beijam-te com imenso carinho. Com um apertado e saudosssimo
abrao, envio os meus mais ardentes votos pela tua preciosa sade. Tua
extremosa me, Leocdia Prestes

17. Dona Leocdia enfrenta a Gestapo
233
A notcia de que era pai, de que Olga estava viva, de que a me e as 
irms
estavam bem, encheu de esperanas um Prestes s portas da condenao por
um tribunal de exceo. Ele releu, dezenas de vezes, a carta da mulher e
a da me no eubculo em que continuava preso. Quando Sobral Pnto
informou-o de que tinha obtdo autorzao para que respondesse 
correspondnca de Olga, ele fez uma exigncia. Sabendo que as cartas
eram censuradas, primeiro pela polcia de Filinio Mller, no Brasil,
depois pela Gestapo, em Berlim, pediu ao advogado que lhe comprasse uma
gramtica alem e um dicionrio de alemo. "Pelo menos os nazistas daqui
tero que arranjar um tradutor para censurar minhas cartas", desafiou.
Munido de apenas dois livros e valendo-se dos rudimentos que aprendera
com Olga, passou a escrever em alemo  mulher. Semanas depois receberia
a primeira resposta um bilhetinho que, passando pelo crivo da polcia
nazista, fora remetido  Cruz Vermelha, em Genebra, e depois s mos de
dona Leocdia, na Frana, que o enviara ao escritrio de Sobral Pinto,
no Rio de Janeiro, pousando finalmente na cela de Prestes: Berlim, abril
de 1937 Meu Carli: Antes de tudo, quero falar da nossa menina, que j
tem
234
mais de quatro meses. Sua aparncia fsica  uma mistura de
ns dois. Tem os cabelos escuros, como os teus, a tua boca e as tuas
mos. Os olhos so grandes e azuis, mas no claros como os meus. Os dela
tm um azul de violetas. Tudo isso cercado por uma tez muito suave,
branca, e por bochechas cor de rosa, muito bonitas. Como eu gostaria que
tu a conhecesses. Mas o mais bonito  o sorriso. Sorri to bonito que
nos leva a esquecer tudo o que h de ruim neste mundo. Imagino como tu
brincarias com ela, puxando-lle, tenho certeza, os cabelos alegremente
arrepiados. Nossa me mandou-me tua fotografia.  freqente eu passar
horas, com a nossa pequena Anita Leocdia no colo, a olhar a foto, como
se estivesse a teu lado. J faz mais de um ano que estamos separados,
mas acharei for as para esperar o dia feliz em que estaremos de novo
juntos. A tua, Olga. S dali a dois meses, em junho, Olga receberia novas
notcias do marido, em carta de dona Leocdia. Novas e ms: no dia 8 de
maio Prestes fora condenado pelo Tribunal de Segurana Nacional a 16
anos e 8 meses de priso; Arthur Ewert, a 13 anos. Como o juiz Barros
Barreto impusesse tantas exigncias para que os advogados dos presos
entrassem no recinto do tribunal, Prestes pediu que Sobral Pinto se
ausentasse e fez ele prprio sua defesa - um libelo dirigido muito mais
 populao do que ao corpo de jurados que estava ali com a incumbncia
prvia de conden-lo. Olga ficou sabendo que mesmo depois do julgamento
o rigor da priso permanecia. Objetos de uso pessoal que Sobral levava
para ele na cadeia eram minuciosamente revistados. "Lenos so
desfraldados contra a luz, o cs das euecas  desdobrado de milmetro em
milmetro para que pudessem os policiais ter a certeza de que nenhum
bilhete, nenhuma serrinha de ao estivessem sendo remetidos pela me a
Lus Carlos Prestes", denunciaria o incansvel advogado. "Um sabonete
foi partido ao meio, paus de chocolate miudamente quebrados, gravatas
foram viradas do avesso e o forro de um terno de casimira quase que foi
descosido ". Olga soube tambm que dona Leocdia, preocupada com a
ameaa de internamento de Anita num orfanato nazista, decidi
235
retornar a Berlim para tentar a libertao das duas. A nica notcia boa
que chegaria a Prestes nesses meses seria uma nova carta de sua mulher,
que tivera que esperar no mais dez, mas trinta dias, depois do
bilhetinho de abril, para escrever-lhe novamente: 12 de maio de 1937
Carlos: No encontro palavras para dizer-te quantas alegrias me
produziram suas linhas de 16 de marso. Querido: quero te falar da
pequena. Sabes, minha prpria vida est de certo modo refletida na desse
pequeno ser. Diariamente h nela novas maravilhas para serem descobertas
e a cada dia ela penetra mais firmemente no meu corao.  to belo que
a menina se alimente em mim, que eu possa dar-lhe o melhor da minha
fora vital, da fora que eu possuo. Geralmente est deitada em sua
caminha, com as pernas no ar, e s vezes pega os pezinhos com as mos.
Quando algum se aproxima dela, terias que ver como se ilumina a sua
carinha. O mais alegre so os seus olhos azuis, to claros e brilhantes.
 surpreendente quanta expressividade pode haver num ser to pequenino.
Alegria, aborrecimento, fome, cansao, tudo se reflete em sua carinha.
Por sua vez, ela sabe muito bem, quando me aproximo dela, se estou
alegre ou se estou triste. Quando dou-Ble o peito, apenas a tomo nos
braos e abre a boquinha, como um passarinhu faminto. E quando j no
pode mais, solta o peito, me sorri e volta a cabecinha para tomar o
resto. Quando a coisa no vai bastante rpido se impacienta e comea a
bater-me com a mozinha. Ah, quanto eu gostaria que alguma vez ela
pudesse arrancar uma mecha tua, como faz sempre comigo. Bem, eu poderia
contar-te muitas oufras coisas. Por exemplo, que fizemos ginstica,
cantamos, mas tudo isso deixarei para uma prxima carta. No ptio h uma
rvore e ali aninhou-se uma famlia de passarinhos. Acabam de nascer os
filhotinhos. Se pudesses v-los... Eles vo, voltam, regressam com
insetos e outros alimentos. Passo horas olhandoos e penso em ns. Ah, s
os seres humanos so capazes de destruir uma famlia da Forma que
fizeram conosco. Um mar imenso nos separa, e no entanto sinto que
estamos muito prximos. Da tua. Olga. Por volta de julho de 1937 a me de
Prestes retornou  Alemanha, desta vez acompanhada das advogadas
britnicas May Miles e Kathleen Kimber. Diante do rigor
236
da carceragem de Barnimstrasse, onde Olga sequer fora informada que a
sogra
estava no pas, dirigiram-se  sede da Gestapo. Os homens do servio
secreto no aceitavam discutir a hiptese da libertao de Olga. Com
relao ao destino a ser dado  menina, insistiam em que essa era uma
questo a ser tratada apenas "com os parentes dela", condio que se
recusavam a reconhecer em dona Leocdia, alegando no haver qualquer
papel que comprovasse o casamento de Olga com Prestes. Sem certido, o
governo no reconhecia o casamento e, por conseqncia, o parentesco
entre dona Leocdia e Olga ou Anita. Os oficiais da polcia secreta
nazista afirmavam que s havia uma pessoa em condies legais de tratar
dos interesses de Olga e de Anita Leocdia: era Eugnie Gutmann Benario,
a me de Olga, pois o compassivo advogado Leo Benario falecera anos
antes. E toda vez que se referiam a Eugnie, frisavam pausadamente: -
Esta sim,  uma boa alem. Dona Leocdia no entendia: como  que uma
judia poderia ser "uma boa alem " aos olhos da Gestapo? Com essa dvida
na cabea, decidiu partir para Munique. Era uma viagem longa e penosa
para uma mulher de 63 anos como ela, mas foi assim mesmo. As
companheiras ficaram sem saber se compensava fazer um esforo to
grande, diante da intransigncia da polcia, mas ela insistiu: - Se dona
Eugnie  a nica pessoa que pode fazer alguma coisa por minha nora e
minha neta, eu vou. Aps uma noite inteira de viagem de trem, as quatro
estavam na elegante casa da Karlplatz, na capital da Baviera. Quando um
empregado introduziu-as  sala de visitas, dona Leocdia surpreendeu-se
com o luxo dos mveis, tapetes e objetos de arte. A me de Olga
apareceu, ouviu por alguns minutos o que a brasileira dizia e no
permitiu sequer que terminasse de falar: - Nesta casa no permito
absolutamente que se trate desse assunto! Olga no  mais minha filha!
Por favor, retirem-se daqui imediatamente! Perplexa, dona Leocdia ainda
insistiu que a vida de Olga e de Anita estava nas mos de Eugnie.
Apontou

237

para uma fotografia de Olga adolescente, emoldurada num
quadro, e tentou uma vez mais: - S a senhora pode salvar a vida de sua
filha, dessa moa maravilhosa. Por favor, no faa sso! Eugnie foi
clara: - Esta era minha filha. Nada tenho a ver com a comunista que voc
diz que est presa em Berlim! Ao perceber que a brasileira no sairia
dali to facilmente, a dona da casa chamou o filho Otto, oito anos mais
velho que Olga, explicou-lhe o que acontecia e pediu que ele convencesse
aquelas pessoas a sarem. Otto Benario foi seco. Disse que era advogado
e exigia que as quatro deixassem sua casa imediatamente: - Minha me j
disse: nesta casa no se trata desse assunto. Portanto, retirem-se, Dona
Leocdia no viu outra alternativa seno partir, arrasada, para a
Frana. Em Paris, ela e Lgia decidiram contratar um advogado para
cuidar do aspecto judicial  do caso. Acabaram por escolher Franois
Drujon, um dos mais afamados juristas franceses. Sequer um liberal - ao
contrrio, suas idias conservadoras eram bem conhecidas -, Drujon no
apenas aceitou a causa como, emocionado com a campanha de dona Leocdia,
nada cobrou por seus servios. Sua primeira iniciativa foi viajar a
Berlim, sozinho, para sondar a Gestapo sobre as possveis solues para
o caso. Drujon pde fazer o que nunca permitiram a dona Leocdia e
Lgia: foi recebido pela oficialidade da polcia secreta e teve
autorizao para ver Anita na priso. No viu a me, mas chegou a estar
por alguns minutos com a garotinha em seu bero, na hora em que os bebs
das prisioneiras tomavam sol no ptio. Drujon recebeu do comando da
Gestapo a promessa de que a menina seria entregue  av paterna desde
que apresentasse algum documento oficial, passado no Brasil, em que
Prestes assumisse a paternidade da criana. No seria necessria a
certido de casamento, mas apenas o atestado de paternidade, para que
ficasse formalmente assentado o parentesco entre dona Leocdia e Anita.
238
Quanto  a Olga, os alemes no lhe deram qualquer esperana. Diziam
apenas que "o caso dela  muito complcado". O absurdo jurdico
utilizado at ento permanecia de p e era suficiente para mant-la
eternamente encarcerada, sem direito de se defender. Como no tivesse
processo formal contra si, Olga estava sob uma espcie de priso
preventva permanente. A notcia, levada  famlia de Prestes em Paris,
aliviou um pouco a angstia da av e da tia de Anita: se conseguissem de
fato arrancar a menina das mos da Gestapo, teriam meio caminho andado.
Depois era reforar a campanha e tentar alguma forma de expulso ou
banimento para a me. O prximo passo, portanto, era pedir ao advogado
Sobral Pinto que pegasse a declarao com Prestes na cadeia; assim, a
libertao de Anita estaria resolvida. Pelo menos era isso o que
imaginavam Lgia e dona Leocdia. Mas a coisa no era to simples como
parecia. Poucas semanas aps o nascimento de Anita Leocdia, Olga tinha
manifestado uma vez mais seu proverbial atrevimento, obtendo da Gestapo
autorizao para enviar um requerimento  embaixada do Hrasil em Berlim,
pedindo o registro da recm-nascida como cidad brasileira. Como
justificava, invocava a paternidade de Lus Carlos Prestes e a sua
prpria condio de "brasileir": Berlim, 9 de dezembro de 1936 A
Embaixada do Brasil &rlim Na qualidade de cidad da Repblica
Brasileira, solicito que seja feito o registro de Anita Leocdia
Prestes, nascida em 27-11-36, em Berlim, filha do capito Lus Carlos
Prestes e de sua esposa Olga Benario Prestes. Ao mesmo tempo desejo
saber se me podem indicar o atual paradeiro de minha sogra, sra.
Leocdia Prestes e, se possvel, o seu endereu. Peo que dirijam sua
resposta  Geheime Staatspotizei (Gestapo), sob o n. 242813 - II 1 A
1, para O. Benario Prestes. Com estima e considerao, O. Benaro
Prestes.
239
No dia em que Olga solicitou autorizao para fazer o

requerimento, a Gestapo antecipou-se a ela e pediu informaes 
embaixada brasileira em Berlim sobre a data exata da priso, no Rio de
Janeiro, de Olga e Prestes, e da separao de ambos, como meio de
certificar-se da alegada paternidade de Anita. Embora os dois pedidos
tivessem chegado quase simultaneamente  legao brasileira, o
tratamento dado a cada um deles revelaria, outra vez, a subsetvincia do
embaixador Jos Joaqum Moniz de Arago aos comandantes da polcia
secreta nazista. A solicitao da Gestapo foi retransmitida ao Brasil
horas depois de ter dado entrada na embaixada, atravs de telegrama
assinado pelo prprio embaixador: Segunda-feira - 20hs. 16 - A polcia
daqui pede informaes s autoridades brasleiras, urgentemente, sobre a
data exata da priso, a, de Olga Benario e de Lus Carlos Prestes.
Este pedido tem em vista estabelecer a paternidade da crana do sexo
femnno. Filha de Olga, nascida aqui em 27 de novembro findo, sendo
indispensvel indicar at que data Prestes e Olga poderiam ter tido
relaes. A criana est com sua me, presememente, no hosptal da
priso de mulheres, em Berlim. Pede, tambm, remter fotografia e
possveis indicaes sobre a mulher do presumdo secretrio Ewert, que
fugu no momento da priso deste para, possivelmente, ser aqui
identificada. Rogo responder com urgncia. Moniz de Arago. Para agradar
 Gestapo o servil diplomata rogava urgncia. Para Olga, ainda que das
informaes pedidas dependesse o destino de um beb, enviou um vago e
desinteressado ofcio - duas semanas depois do requerimento: A Geheime
Staatspolizei (Gestapo) Prinz.Albrechtstrasse 8 Berlim Ref. 2428/36 - II
1 A 1 Para Olga Benario O Departamento Consular da Embaixada do Brasil
em Berlim comunica, em resposta  carta de 9 do corrente, que o
requerimento para registrar sua filha foi encaminhado ao Ministrio das
Relaes Exteriores, no Rio de Janeiro, que decidir sobre o assunto.
Logo que seja dada uma resposta, ser a mesma levada ao seu
conhecimento.
240
A sra. Leocdia Prestes no  aqui conhecida e assim
no  possvel ser comunicado o seu endereo. Berlim, 21 de dezembro de
1936 Ao declarar, em 21 de dezembro, que o requerimento "foi enviado" ao
Rio de Janeiro, a embaixada brasileira mentia. S oito dias depois, a 29
de dezembro (trs semanas aps receber a solicitao de Olga),  que
Moniz de Arago remeteria ao Brasil, por carta (e no por telegrama,
como fizera com o pedido da Gestapo), um ofcio dirigido ao ministro
interino das Relaes Exteriores, Mrio de Pimentel Brando, tratando do
assunto. O embaixador do Brasil na Alemanha, na realidade, parecia
saber a quem servia. O tratamento dado pelo Itamaraty ao caso no
diferiu muito da orientao seguida pela representao brasileira em
Berlim; tambm atravs de telegrama, a chancelaria responderia uma
semana depois  solicitao feita pela Gestapo, informando: 1. Prestes e
Olga foram presos a cinco de maro e viveram juntos at aquela data; 2.
A polcia identificou a mulher que conseguiu fugir no momento da priso
de Arthur Ewert como sendo a mesma Olga Benrio. A resposta ao
requerimento de Olga Benario no seria expedida nem em uma semana, nem
em um ms, nem em um ano. O Ministrio das Relaes Exteriores
simplesmente ignorou aquele assunto. O governo brasileiro de Getlio
Vargas como um todo, na realidade, no parecia satisfeito com as
punies que impusera a Prestes e a sua mulher. O comportamento da
maioria das autoridades dava mostras que se pretendia que as penas do
casal se transmitissem por hereditariedade  filha de oito meses de
idade. Quando Sobral Pinto tentou levar um tabelio at a cela de
Prestes, para que este assinasse o atestado de paternidade exigido pela
Gestapo, foi informado de que era necessria uma autorizao especial do
prprio ministro da Justia. E o ministro, recm-nomeado para o cargo,
era ningum menos

241

que Jos Carlos Macedo Soares, o mesmo que ocupava
o Ministrio das Relaes Exteriores quando da deportao de Olga.
Macedo Soares indicara "para cuidar do assunto" sua chefe de gabinete, a
consulesa Odette de Carvalho e Souza, uma carola fascinada pela
extrema-direita que se deliciava em publicar initerminveis e tediosos
"estudos de problemas espirituais, polticos e sociais ligados ao
bolchevismo" - entre os quais um alentado tratado sobre "A aliana entre
os comunistas de 1935 e os cangaceiros do Nordeste". Valendo-se do poder
que o cargo lhe confera, dona Odette tentou, por todos os meos,
mpedr que o tabelio recebesse autorizao para testemunhar a
assinatura de Prestes no atestado de paternidade. Nem mesmo o empenho
do advogado Carlos Lassance, recm-nomeado  diretor da priso, para que
a autorizao fosse dada e o documento assinado logo, conseguiu
demov-la da obstruo. O desespero de Olga, de dona Leocdia e Lgia,
de Prestes e Sobral Pinto aumentava a cada dia. De um momento para o
outro a Gestapo poderia decretar que a amamentao havia chegado ao fim
e simplesmente desaparecer com Anita Leocdia. Embora as gestes
tivessem comeado em julho, em meados de setembro Sobral Pinto escrevia
a dona Leocdia sem uma soluo para o problema. Rio, 1 de setembro de
1937 Exma. Sra. Leocdia Prestes. No  por descaso que no tenho
escrito a V. Excia.  por absoluta falta material de tempo. Para
conseguir aumentar meus rendimentos de trabalho, venho sacrificando
diariamente, nestas ltimas semanas, duas horas do tempo que reservo,
ordinariamente," para o sono. E para agoniar ainda mais a minha vida j
to sobrecarregada, fiquei hoje sem datilgrafa. Perdemos, o Dr.
Lassance e eu, todo o dia de ontem no esforo, at agora vo, de levar
um tabelio ao presdio onde est o filho de V. Excia., a fim de lavrar
uma escritura pblica de reconhecimento, por parte de Luis Carlos
Prestes, de sua filha Anita Leocdia. S encontramos m vontade e medo.
Todos temem sofrer a campanha, que j est sendo feita contra mim. de
serem proclamados delegados do Comintern, a soldo de Stlin. Certamente
V. Excia. j se acha informada de mais esta perfdia inventada contra o
modesto advogado, que, fiel discpulo de

242

Jesus Cristo, tem sabido,
at este instante, colocar os deveres de sua conscincia religiosa acima
de suas convenincias pessoais. Na impossibilidade de enviar a V.
Excia., pelo avio de amanh, a escritura supramencionada, e que espero
fazer pelo avio de quinta-feira, mando hoje os documentos oficiais que
atestam nada ter ficado apurado aqui contra Olga Henario Prestes. FiZ
traduzir tais documentos e legaliz-los no Consulado Alemo. Transmito,
outrossim, a V. Excia., outra notcia triste: nada consegui no Supremo
Tribunal Militar, que confirmou a sentena de 1  Instncia. Vou
empreender novo esforo, interpondo o recurso de embargos. Seremos,
desta vez, mais felizes? Alguns partidrios do filho de V. Excia. no
se mostram satisfeitos com a minha atuao no processo. Querem me dar
um ou mais assessores, que seriam constitudos por Lus Cartos Prestes.
Na proxima carta, e quando dispuser novamente da minha datilgrafa,
exporei miuuciosamente a V. Excia. mais esle episdio, que tanta mgoa
me causou. Consolo-me, porm, com as declaraes do filho de V. Excia.
feitas de pblico, de que "estando trancado, na Polcia Especial, s de
vermes, apareceu-lhe, afinal, um homem". Este horoem fui eu. Mais
adiante, na sua defesa oral, acrescentou: "O sr. Sobral Pinto exerce a
advocacia coroo um sacerdcio". Que mais poderei eu ambicionar nesta
causa, da parte deste meu cliente extico? Da parte dos juzes e da
administrao quero muito mais ainda, pois, at agora, no me
atenderam no que venho pleiteando: Justia. No podendo prosseguir, por
falta de tempo, envio a V. Excia. os protestos do meu mais alto apreo.
Sobtal Pinto. A tortura duraria ainda mais alguns dias. E graas 
persistncia de Sobral Pinto, no dia 21 de setembro de 1937 o tabelio
Lus Cavalcanti Filho finalmente entrava na cela de Lus Carlos Prestes
para que fosse Lavrada a escritura mediante a qual o preso reconhecia
como sua filha a menor Anita Leocdia. No mesmo dia Sobral Pinto
despachava a certido diretamente para a Gestapo, em Berlim. A consulesa
Odette de Carvalho e Souza perdera a batalha por uma diferena de dias:
em 30 de setembro seria tornado pblico um certo Plano Cohen, segundo o
qual estaria sendo articulada tuma nova revoluo comunista no Brasil. O
plano, cuja autoria o governo atribuiu ao Comintern, tinha sido, na
realidade, inventado pelo

243

 capito Olympio Mouro Filho, oficial
integralista e futuro detonador do gol pe militar de 1964, j como
general. A farsa foi utilizada para um novo e dramtico endurecimento
poltico: na manh de 1. de outubro, Getlio Vargas - que desde 1934
era presdente consttuconal,  eleito pelo Congresso para um mandato
que deveria durar at 1938 - decretou novo estado de guerra. E no dia 10
de novembro o Brasil entraria no Estado Novo, que instituiria
formalmente a ditadura getulista. Se dona Odette tivesse conseguido
impedir por mais alguns dias a lavratura do atestado, o cuidadoso plano
de dona Leocdia certamente teria naufragado. At porque uma das
primeiras vtimas da prorrogao do estado de guerra viria a ser o
prprio diretor do presdio, Carlos Lassance, que logo no dia 1  de
outubro passava da condio de carcereiro  de encarcerado da Casa de
Deteno. O documento chegara  Gestapo, mas ainda restavam alguns meses
de sofrimento para dona Leocdia Prestes. Um advogado alemo,
social-democrata e amigo do francs Drujon, prontificou-se a servir de
intermedirio entre a famla Prestes, em Paris, e a polcia secreta
nazsta, em Berlim - o que facilitava muito a vida de Lgia e dona
Leocdia, sem condies materiais de viajar a Berlim toda semana. As
autoridades alems protelaram durante trs meses a libertao da menina
at que, em meados de janeiro, o advogado Drujon reoebeu de seu colega
alemo uma informao definitiva: a tia e a av tinham prazo at o fim
do ms para buscar Anita Leocda, pois o leite da me chegara ao fim.
Caso contrrio, a garota seria entregue a um berrio nazista. As demais
proibies, entretanto, continuavam de p: s seria libertada a criana,
a me sequer poderia ser visitada. A notcia provocou um choque em Lgia
e dona Leocdia, porque nenhuma das duas poda conceber a idia de
receber Anita sem Olga. Mas no havia outra alternativa: ou deveriam
arriscar e deixar a criana por mais tempo nas mos dos nazistas?

244

 No dia 21 de janeiro de 1938, acompanhadas por Drujon, Lgia e dona
Leocdia entraram no presdio feminino de Baruimstrasse, em Berlim. Sem
qualquer formalidade, um mdico pediu-lhes que assinassem um recibo ao
p de um atestado de sade que ele redigira e onde as duas puderam, pela
primeira vez, ver duas fotografias da menina, grampeadas no papel:
Atestado mdico de priso A filha Anita, de Olga Benario Prestes, foi 
hoje
outra vez, cuidadosamente examinada por mim. Trata-se de uma
menina de quase 14 meses de idade que apresenta um desenvolvimento fisico
excepcionalmente bom. Tem 78 centmetros de altura e pesa 11,9 kg. Anda
desde o 13 ms. Tem todos os incisivos, os superiores e os inferiores.
As mucosas apresentam uma colorao rosada. Os rgos internos e as
funes corporats esto completamente normais. Berlim, 19 de janeiro de
1938. A enfermeira-chefe da priso entregou-lhes ento, a menina. Anita
estava vestida com um capotinho branco de l, uma das nicas peas de
roupa que restavam da produo de Carmen Ghioldi, ainda no presdio
brasileiro. Lgia e dona Leocdia auxiliadas pelo advogado parisiense,
pediram encarecidamente para ver Olga, mas os oficiais da Gestapo foram
irredutveis. O mximo que permitiram foi que dona Leocdia escrevesse
um rpido bilhete para a nora que, evidentemente, foi atirado  cesta
de lixo assim que os quatro cruzaram a porta de sada. Quando entravam
no txi parado  porta do presdio, os trs adultos puderam perceber que
Anita tinha se tornado uma prisioneira popular em Baroimstrasse. Das
janelas do prdio, dezenas de funcionrios acenavam e se despediam da
menina: I - Auf Wiedersehen, Anita! Auf Wiedersehen! A emoo de
resgatar a garotinha e o medo de que pudessem criar novos problemas para
a sada deles do pas se confundiram na cabea de Lgia e dona Leocdia.
Trmulas, recusaram o convite de Drujon para que todos fossem comemorar
a libertao de Anita: da porta da priso segtvram direto para a estao
de trens de Berlim.

18. Com Sabo, na Fortaleza nazi.

Olga brincava de
escondessconde com Anta sob os lenis da cama quando a carcereira
abriu a porta da cela, acompanhada de trs guardas armados. A policial
no fez rodeios: - Vista a garota com um agasalho grosso e entregue as
roupas dela aos policiais. Viemos busc-la. De um salto Olga atirou-se
sobre a filha, prendeu-a com as mos contra o prprio peito e buscou com
os olhos, em vo, um lugar onde pudesse proteger-se. Correu para um
canto da cela, comprimindo a criana contra a parede. Assustada, Anita
comeou a chorar alto. Tomada de desespero, Olga gritava: - Jamais!
Vocs no podem fazer isto! O que vocs querem fazer  um crime
inominvel! Saiam j daqui! S se me matarem levaro minha filha!
Indiferente, a carcereira dava ordens aos guardas: - Recolham as roupas
da criana. Vamos tir-la daqui imediatamente. Se precisar, podem usar a
fora. Ao berreiro da criana juntou-se o choro da me, acocorada sobre
a filha no canto do eubculo: - Um crime! Vocs esto cometendo um crime
contra um beb inocente! No! Vocs no podem separ-la de mim! Minha
filha no tem eulpa de nada e no pode ser punida!
No faam isso!
246

 A policial ordenou que os guardas tomassem Anita dos braos da me: -
Levem a criana daqui. Essa idiota est encenando. H um ano ela j
sabia: quando a amamentao chegasse ao fim, a menina seria transferida
para um orfanato. Dois  guardas agarraram violentamente os braos de Olga
por trs, imobilizando-a, enquanto o terceiro recoLhia Anita, que
berrava cada vez mais alto. Olga tentava resistir e livrar-se dos homens
chutando-lhes as pernas e ameaando morder-lhes as mos. Um deles
aplicou-lhe um soco na cabea, por trs, e atirou-a sobre a cama. O
grupo saiu apressado, trancou a porta e enveredou pelo corredor com a
menina nos braos de um dos policiais. Os gritos de Olga, pendurada 
porta de madeira, ressoavam pelas galerias do presdio: - Assassinos!
Ces nazistas! Monstros! Minha filha, minha filhinha! Hitler vai matar
minha filhinha de um ano! Assassinos! Assassinos! Olga Benario esmurrou
a porta, gritou e xingou por muito tempo. Quando de sua garganta no
saa mais voz alguma, mas apenas um chiado rouco, desabou no cho de
cimento e ali ficou, imvel, com os olhos arregalados, como em transe. E
s no fim da madrugada recobrou a conscincia da tragdia que acabara de
viver. Ela despertara com o corpo dolorido, como se tivesse sido surrada
com porretes. Arrastou-se at a cama, deitou de costas e permaneceu de
olhos abertos at que a claridade do dia se infiltrasse pela janela
gradeada da cela. Ela ainda passaria algumas semanas em Berlim. A comida
que as carcereiras traziam uma vez por dia voltava intacta no dia
seguinte. Por trs vezes foi levada, nesse perodo,  sede da Gestapo,
na Prinz Albrechtsirasse, para interrogatrios. Os policiais no lhe
perguntavam mais sobre Neuklln nem sobre a ao que arrancara Otto
Braun da cadeia. A fuzilaria de perguntas mirava a imaginria "conexo
judaico-sovitic" que pretendia enfraquecer o Reich, a origem dos
fundos que financiaram  a

247

 frustradarevoluo no Brasil, as supostas
ligaoes entre o Iwria Bank e a "corja de judeus comunistas que corria o
mundo pregando a revoluo". Mas Olga no lhes ofereceu uma slaba de
informao que pudesse ajudar a decifrar aquela diablica conjura contra
Hitler. Na cela, Olga ia aos poucos se recuperando. Voltou a comer e a
arranjar atividade para evitar que fosse tomada pela loucura. Com o
passar dos dias convenceu-se de que no poderia se debilitar fsica ou
emocionalmente. "No posso desistir", repetia para si mesma dezenas de
vezes, caminhando pela cela. "Ainda tenho que ajudar a libertar meu
pas, minha filha e meu marido. No posso desistir". Mantida separada
das outras presas, como punio pelo "escndalo histrico" do dia em que
levaram Anita, Olga esculpiu em miolo de po um minsculo jogo de
xadrez. As pedras pretas eram identificadas pela cor do centeio e as
brancas foram marcadas com uma pitada de pasta de dentes no alto. Um
estranho que ali chegasse no saberia distinguir entre um peo e um rei,
uma torre e um cavalo, mas ela conseguia passar horas e horas tentando
aplicar xeques-mates em si mesma. O "tabuleiro" eram alguns riscos
feitos no cho de cimento com a asa de uma caneca, e as casas pretas
tinham sido pintadas com cascas de laranja. Durante aproximadamente um
ms ela conviveu sozinha com essa requintada forma de tortura - a
certeza martirizante e brutal de que Anita estava em uma creche nazista,
se  que ainda estivesse viva. Esse inferno pelo menos teve fim quando
Olga recebeu uma carta da sogra, escrita de Paris. Anita estava viva e a
salvo, com dona Leocdia! O curto bilhete da me de Prestes fez Olga
ressuscitar. Ela reanimou-se, voltou a fazer ginstica, a sonhar com a
liberdade. No dia em que Lhe deram autorizao para voltar a escrever
cartas, redigiu um pequeno bilhete a dona Leocdia e  filha. Lembrando
de seus dias de agitao poltica em Paris, sugeriu  sogra que levasse
Anita passear nos lugares onde tinha estado. (...) Acho bom que faam um
passeio aoJardim Botnico, que  bunito em todas as estaes do ano. A
viagem

248 at l  algo demorada, mas muito interessante, de modo que

vale a pena gastar 25 pfennigs na passagem, sobretudo se conseguirem um
bom assento. Quando, h alguns anos visitei pela pdmeira vez esse lindo
lugar, gostei muito da disposio das numerosas espcies de plantas. As
estufas onde esto alojadas as plantas tropicais e semitropicais sempre
foram uma grande atrao. Dificilmente, no entanto, aguenta-se por
muito tempo o calor mido e sufocante l de dentro. E se vaes quiserem
conhecer uma maravilha, visitem a planta aqutica chamada Vitria Rgia
(...) Como o nmero de linhas escritas era racionado pela direo da
priso, ela economizou palavras para escrever uma carta mais longa ao
marido, no Brasil - a primeira carta desde a separao da filha. Berlim,
tevereiro de 1938 Carlos: Posso dizer-lhe que, junto com o 5 de maro de
1936, o 21 de janeiro de 1938 foi o dia mais negro da minha vida. Frente
a tais acontecimentos, fica-se diante da alternativa de sucumbir ou
tornar-se mais dura. E voce sabe que, para mim s existe a segunda
alternativa. Para isto, felizmente, ajuda-me bastante o fato de que sou
capaz de distinguir entre a insignificncia das questes pessoais e os
acontecimentos histricos mundiais do nosso tempo. Mas no meio de tudo
isso h algo novo: todo o meu amor e o meu carinho no poderiam
substituir, para a pequena, o que ela precisa da vida. Lgia escreveu-me
contando que Anita brinca com a bolsa dela, com a caixa de pde-arroz, o
telefone e a maaneta da porta, que anda pela casa, que tomou caf da
manh no vago-restaurante de um trem. Tudo isso soa para mim como um
conto de fadas de antigamente... Pedi a Lgia que fotografasse um
sorriso de Anita para voc - o que se diz  que o sorriso dela encanta
as pessoas. E  esse doce sorriso da nossa pequena que encerra um sopro
de Felicidade para seus pais. Da tua, Olga. Ali mesmo Olga havia sido
informada de que seria transferida do presdio feminino de Barnimstrasse
e a notcia da mudana j havia chegado ao seu novo endereo: o campo de
concentrao de Lichtenburg, situado nas imediaes da cidade de
Prettin, 100 quilmetros ao sul de Berlim, a meio caminho da
Thecoslovquia.

249

A portadora da novidade tinha sido Elise Ewert, que
passara trs meses presa em Bamimstrasse e ali ouvira que sua
companheira de desventura no Brasil seria, como ela, enviada para
Lichtenburg. A notcia logo correu as celas do campo de concentrao de
mulheres. A libertao de Otto Braun, a militncia em Moscou, a
frustrada revoluo no Brasil e a separao da filha tinham feito de
Olga Benario Prestes uma herona. No havia um s presdio ou um
movimento de resistncia, na Alemanha, ou um movimento anti-fascista em
outros pases da Europa, que no conhecesse a sua saga em detalhes - e
para receber prisioneira to famosa as mulheres de Lichtenburg decidiram
organizar uma festa clandestina. Acumularam s escondidas, dias a fio, o
que havia de melhor nos pacotes de alimentos que os parentes das
detentas traziam de fora, para comemorar o dia de sua chegada. "Temos
que dar a Olga um pouco de alegria e satisfao quando vier para c",
dizia Charlotte Henschel, uma das organizadoras da recepo. A festa, no
entanto, no iria acontecer. Nos primeiros dias de maro Olga foi
retirada de Barnimstrasse e colocada num carro de presos da polcia
secreta, sem saber para onde estava sendo levada. Na sua ficha de
transporte, alm do nome, filiao e data de nascimento, ia
datilografada a recomendao: "Comunista. Prisioneira  de alta
periculosidade, detida  disposio do comando da Gestapo". No alio,
escrita  mo com lpis vermelho, a advertncia indispensvel: judia.
Alm de comunista perigosa,judia. quatro horas depois de deixar Berlim,
ela era desembarcada sob forte vigilncia diante das muralhas da
fortaleza de Lichienburg, um conjunto monumental construdo pelas tropas
de Napoleo s margens do rio Elba. A aparncia do lugar era
assustadora: o enorme porto principal, em forma de arco, era emoldurado
por lees rompantes em alto relevo. Sob as janelas fechadas por grades,
garras de ferro pontiagudo saaro dos tijolos como uma advertncia
permanente aos que se aventurassem a fugir dali. Em cima dos muros,
rolos de arame farpado " eletrificado. "

250

Conduzida por corredores de cho de pedra e teto baixo e abafado, Olga
tinha a impresso de estar
sendo introduzida numa catacumba. A cada dez passos um novo porto de
ferro era aberto  sua passagem e ruidosamente fechado em seguida, at
que chegaram a um tnel longo e escuro, com duas dzias de portas
simetricamente distribudas por ambos os lados. Pararam diante de uma
das portas de madeira macia, sem janelas. Um soldado ordenou: - Entre.
Era uma solitria de trs metros de comprimento por um e meio de
largura, protegida por porta dupla, a externa de madeira e a interna de
ferro. L dentro, quase nada: uma pequena janela, a dois metros de
altura, dava para um estreito corredor lateral, de onde vinha uma plida
claridade. Uma grade de ferro quadriculado cobria a abertura em toda a
extenso. A cama era um bloco de cimento de meio metro de altura. Um
palmo abaixo da janela havia um buraco retangular na parede, como se
tivesse faltado um tijolo  construo. Por ali Olga receberia a rao
diria de gua e comida. No cho, um buraco com as bordas cimentadas
servia de latrina. Sobre a cama, duas mantas de tecido leve completavam
as acomodaes de que ela disporia a partir de ento. Sem pronunciar uma
s palavra os soldados trancaram as duas portas e se retiraram. Olga
passou a primeira meia hora vistoriando calmamente o cmodo e escolhendo
o lugar onde iria desenhar seu tabuleiro de xadrez. Concluiu que o ideal
seria a cama, para no ter que passar o dia com as costas eurvadas no
cho. Com a fivela da sandlia passou a riscar os sessenta e quatro
quadrinhos na laje de cimento sob as mantas. Sem cascas de laranja para
escurecer as casas pretas, marcou a diferena com um xis sobre elas e
retirou cuidadosamente da sacola que levara consigo as minsculas peas
moldadas em miolo de po. Os primeiros dias na solitria foram
terrveis: ela no sabia se poderia continuar a corresponder-se com o
marido e a sogra e no tinha a menor idia de que tipo de priso era
Lichtenburg - um campo de concentrao

 251

 de judias, um presdio poltico ou uma
penitenciria de delinqentes comuns? Para atenuar o desespero e a
saudade da filha e do marido, fazia ginstica e jogava xadrez, uma
partida aps a outra. E para que o isolamento absoluto no a fizesse
perder a noo do tempo, Olga assinalava todos os dias, ao acordar, uma
pequenina marca  na parede, com a fivela da sandlia, indicando mais um
dia. Aps o sexto da na solitria ela recebeu uma surpreendente visita.
No meio da manh,  hora em que normalmente entregavam a rao de sopa e
o pedao de po, as portas da cela foram silenciosamente abertas e Olga
viu entrar sorrateiramente, para seu espanto, uma velha amiga de
Neuklln, Gertrud Frschulz, que ela no via desde 1928. A porta foi
trancada por fora e Gertrud explicou  companheira a razo de to
inustado encontro. A comida vinda de fora para a "fest" de recepo
que pretendiam organizar fora utilizada no suborno de uma das
carcereiras, em troca de permitir a entrada clandestina de uma
prisioneira na solitria. Por se conhecerem, Gertrud fora escolhida para
passar alguns minutos ali, trazendo-lhe informaes sobre a priso.
Embora fosse impossvel ouvr dos corredores qualquer rudo produzido
dentro da cela, o medo de ser apanhada obrigava a visitante a sussurrar
no ouvido de Olga. Alm da visita, ela trazia parte dos presentes
reservados para a festa: torradas, um pedao de queijo, um pouco de
gelia e duas barras de chocolate. E uma folha de papel com dezenas de
minsculos blhetes escritos por vrias prisioneiras. Olga quera
informaes sobre a Alemanha e o que ouviu no foi muito animador:
Hitler avanava cada vez mais as fronteiras do Reich e, internamente, a
polcia caava judeus e comunistas sem parar. Alarmada, Gertrud temia
que a indiferena dos governos da Frana e da Inglaterra com o fenmeno
nazista acabaria por transformar aqueles dois pases em presas fceis do
apetite de Adolf Hitler. Uma notcia deixou Olga em pnico: o apoo da
maioria do povo alemo ao Fhrer, no poder desde 1933, era indiscutvel.
Seus comcios atraam multides nunca vistas s praas pblicas. Gertrud
falou-lhe tambm da fortaleza

252

de Lichtenburg: ali estavam mais de
500 mulheres, indistintamente judias, comunistas e sociais-democratas.
Sua amiga Elise Ewert tambm estava ali - passara algumas semanas na
solitria e agora trabalhava como empilhadora de carvo no fogo do
refeitrio central. Olga contou que sua filha Anita havia sido
recuperada pela av paterna e estava em segurana com dona Leocdia, em
Paris. Resumiu os interrogatrios a que fora submetida em Berlim, falou
sobre a situao de Prestes e Ewert no Brasil, reclamou que s recebia
comida quente a cada trs dias e que desde que chegara  fortaleza ainda
no pudera ver a luz do sol. No meio do cochicho, Olga assustou-se ao
ouvir trs batidas na porta da cela. A amiga tranqilizou-a: - E a
maldita carcereira avisando que acabou nosso tempo. Tenho que sair. -
Obrigada pela visita e pelos presentes. Diga s companheiras para no se
preocuparem: agora que minha filha est salva, est tudo bem comigo.
Ainda posso agentar muito tempo aqui. A porta foi aberta e, to
silenciosamente quanto entrou, Gertrud Frschulz sumiu no corredor
escuro. Embora morta de fome, Olga estava mais interessada nos bilhetes
vindos de fora do que no chocolate e nas gelias. Havia quase vinte
caligrafias diferentes enchendo a folha de papel em toda a extenso. Nas
mensagens no havia nada de muito especial, alm de saudaes, palavras
de estmulo e conforto. O que preocupou Olga, porm foram as
assinaturas, que davam uma medida cabal da devastao que a polcia
nazista promovera entre as foras de esquerda do pas. Ela conhecia a
maioria das mulheres que subscreviam os bilhetes - e eram todas
militantes destacadas do movimento popular em Berlim ou em outras
cidades alems e muitas delas tinham sido suas companheiras de agitao
e propaganda na dcada anterior, em Neuktilln. Chocada com a dura
constatao, Olga perdeu o apetite e simplesmente deixou num canto do
cubculo o embrulho feito s pressas com papel celofane.

253

As duas semanas seguintes Olga passou-as sem receber qualquer notcia de 
fora da
solitria. Diariamente ela aguardava, ansiosa, a hora da rao, torcendo
para que Gertrud voltasse, mas logo perdia a esperana de rever a amiga
to cedo. Passava os dias jogando xadrez, fazendo ginstica ou
simplesmente cominhando pela cela. Andar e fazer ginstica, alm de
manter o corpo em movimento, diminua o risco de apanhar um reumatismo
naquele lugar gelado, servia para aumentar o cansao fsico e, com isso,
ter sono mais cedo. O sono passou a ser o grande alvio para ela at
que, nos primeiros dias de abrl, decidram libert-la da solitria e
permtir que ficasse junto com as outras prisioneiras, em celas
coletivas. Olga saiu do eubculo assim como entrou: sem qualquer
explicao sobre por que tinha sido punida com o isolamento. Seu
primeiro desejo foi rever SaBo. No ptio da fortaleza, onde as presas se
encontravam todas as manhs para ouvir um intragvel sermo poltico do
diretor da priso, foi recebida pelas companheiras com as festas
permitidas pelas circunstncias. Todas queriam v-la, abrala, ouvir
detalhes sobre a revoluo frustrada  do Brasil e sobre sua flhinha.
Quando disse que quera ver a amiga, a pessoa que lhe trouxeram
tinha pouco a ver com a Sabo do passado: tuberculosa, pesava menos de 40
quilos e tinha um olhar opaco, distante, doentio. A molstia no a
poupara dos trabalhos forados - e a delicada mulher de Arthur Ewert
tinha nas mos finas e frgeis de outrora uma crosta de pele grossa,
gretada pelo frio. A tristeza de ver a amiga naquele estado se se
dissipou na hora do almoo, quando foi chamada  sala do comando da
priso para receber um pequeno envelope contendo duas cartas da sogra e
uma de Lus Carlos Prestes. A do marido era curta e trazia trechos de
dois poemas brasileiros, para que ela matasse as saudades do Brasil. As
de dona Leocdia, entretanto, revelavam que ela agora estava ainda mais
longe da filha. Preocupadas com o avano do nazismo, aps a anexao da
Austria e da regio dos Sudetos da Tchecoslovqua por Hitler (ocorrda
durante o confinamento de Olga), dona Leocdia e Lgia

254

tinham sido aconselhadas a deixarem a Europa e decidiram mudar-se com 
Anita para o
Mxico. Visadas pela direita de todos os pases por onde haviam passado,
durante a campanha pela libertao de Olga e Anita, a me e a rm de
Prestes temiam ser apanhadas na Europa pela guerra que parecia
inevitvel. Junto com as cartas ela recebeu autorizao para
respond-las. Escreveu uma para a sogra e um pequeno bilhete para o
marido. Prettin, abril de 1938 Querdo Carlos: (...) Quero contessar-lhe
que me eusta muito, um grande esforo, pensar menos em nossa pequena
filha - este , porm, o nico caminho para suportar a minha dor. A
saudade  to grande que chego a ficar com raiva dos meus prprios
braos que a transportaram e de minhas mos, que a afagaram. Que
maravilhosas sos as duas poesias que voc me mandou e o que voc, com
elas, deseja dizer-me. Sou muito feliz por saber que os melhores
sentimentos humanos so iguais em todos os povos da terra, e que esses
povos s os expressam de forma diferente por causa de suas eulturas e de
xus caractersticas prprias. Tradttzi as duas poeSias para o alemo. A
poesia "As velhas rvores" enquadra.se perfeitamente em muitos dos
pensamentos que tenho tdo nos ltimos meses. Alcana-se uma grande
maturidade ntima, que permite dizer: "Desejamos envelhecer sorrindo,
como envelhecem as rvores fortes"... Da tua, Olga. Durante o ano e pouco
que passou em Lichtenburg ela seria levada meia dzia de vezes a Berlim,
para novos interrogatrios. Cada vez que a Gestapo precisava conferr
informaes sobre a ao do Comntern na Amrica, Olga era transportada
ao casaro da Prinz Albrechtstrasse. Como no soubesse ou no
pretendesse dizer absolutamente nada a seus algozes, as torturas eram
freqentes. Mas nem os pontaps, aoites ou ameaas de fuzilamento
produziam o efeito esperado. Alm do silncio, os polciais da Gestapo
irritavam-se com o permanente ar de superioridade que Otga mantinha
durante os interrogatrios. "Vaca judia" era o tratamento mais brando
que

255

Lhe dedcavam. Embora o extermno em massa ainda no tivesse
comeado, o anti-semitismo era poltica oficial no pas e as prises e
perseguies de judeus aumentavam a cada dia. As proibies de
casamentos inter-raciais estavam em vigor havia trs anos e nenhum judeu
podia ocupar cargos pblicos ou dar aulas em escolas de qualquer grau,
entre outras coisas. Se judeus eram as vtimas preferenciais do nazismo,
tanto pior para algum, na Alemanha de Hitler, era ser, alm de judeu,
comunista. Olga acumulava os dois delitos e somava a eles o fato de ser
mulher - condio de que se orgulhava pblica e permanentemente. No
segundo semestre de 1938, depos de passar trs meses sem qualquer
notcia de Prestes ou da filha, Olga chegou a temer que algo de ruim
pudesse ter-lhes ocorrido. Ela sabia que o Brasil continuava sob estado
de guerra e que naquelas circunstncias no seria difcil a Filinto
Mller concretizar o frustrado plano de matar Prestes. Seus receios se
dissiparam em meados de setembro, ao receber um pacote de quatro cartas
do marido e uma da sogra, que a direo da fortaleza, por pura
crueldade, tinha deixado jogadas num arquivo. Dona Leocdia, alm de
novidades, mandara um verdadeiro tesouro - o que talvez explicasse a
deciso dos guardas de reter a carta: uma fotografa de Anita,
sorrdente, com um enorme laarote de fita na cabea. Olga responderia
ao marido no mesmo dia. Prettin, 15-9-38 Meu querido Carlos: Finalmente
recebi tuas gueridas linhas de 30 de maio, de 14 e 27 de junho e de 27
de julho, alm de Uma carta de 31 de agosto da nossa Mame. Pouco a
pouco comeo a reviver, aps a presso que pesava sobre mim pela falta
de notcias durante os ltimos trs meses. E que fora e que calor
exalam tuas cartas Certamente o fato de existirmos e estarmos Unidos 
para ns uma fonte inezaurvel de fora e de esperana, todos os dias.
E, assim, algumas poucas linhas acabam significando muito e devovem um
poUco da bcoragem que o instinto de conservao envolve o corao.
Mame escreveu contando que voc falou com o doUtor Sobral Pinto. Fico
feliz por isso e por saber que voc

256

est com boa sade, mas o que me
deixou realmente feliz  qUe voc mostrou a ele a foto de Anita. Muitas
vezes, aqui, penso em seu desejo de viver dentro da mata virgem. Devo
dizer-lhe que os anos me ensinaram que no h nada impossvel, e acho
que continuarei assim por muito tempo. So fatos, e estamos acostumados
a contar com eles e conviver com eles. Voc escreveu-me tambm sobre o
"enfant gt~". Olhe, que bom que eu nunca mudei tanto quanto voc
pretendia, pois de outro modo tudo teria sido muito mais difcil para
mim. As observaes sobre suas leituras deixaram-me muito feliz, mas no
posso entrar mais nesse assunto para evitar que esta carta acabe sendo
retida por exceder o nmero permitido de linhas. Quanto a minha sade,
no estou mal. De resto, tenho estudado bastante francs e ingfs com
uma tima parceira. No dia 2 de setembro permitiram-me, finalmente,
mandar para a nossa Mame uma gravata que fiz para voc. Espero que
voc a receba, pois ela poder te contar de todo o amor que no quero e
no posso expressar nestas cartas. Por fim, confesso-lhe que, como voc,
afixei a sua fotografia e a de Anita na minha porta - e fico muito tempo
contemplando-as- MaS ter S iSso, e por tanto tempo,  muito pouco. Meu
querido Karli, eu te beijo com todD amor. A tua, Olga. Os meses em
Lichtenburg foram passados intertnitentemente entre jornadas de
trabalhos forados e recolhimentos  solitria. A insistncia de Olga em
organizar politicamente as prisioneiras Levou a carceragem a mudla
constantemente de cela, transferindo-a de um pavilho para outro. Mal
ela completava algumas semanas no alojamento das "judias indesejveis" -
ladras, mendigas e prostitutas -, era levada para o das "judias
burguesas", como eram tratadas pelos policiais as mulheres de
comerciantes e pequenos empresrios judeus cujos bens tinham sido
confiscados pelo Reich por infringirem as leis raciais. Mas, no pavilho
em que se conceniravam as prisioneiras polticas, indistintamente judias
ou no-judias, Olga nunca teve oportunidade de passar um dia sequer. De
certa feita, quando tomou coragem e pediu que a transferissem para l,
recebeu como resposta uma gargalhada da chefe de carceragem de planto:

257

 - Voc est aqui para ser punida, e no para ser premiada! O inverno
em Lichtenburg era uma punio a mais. Situada s margens do rio Elba,
poucos quitmetros antes da cidade de Torgau, numa regio de topografa
baixa e plana, a fortaleza teve seus pores invadidos pelas guas
geladas do rio e o nmero de casos de pneumonia e tuberculose
multiplicou-se. A sade de Elise piorava, mas os guardas, sabendo da
antiga amizade entre as duas, insistiam em mant-las separadas, de modo
a que Olga passasse meses sem ver a amiga. E foi poucas semanas aps  o
fim desse inverno de 1938 que novas prisioneiras trouxeram a terrvel
notcia: Hitler havia ocupado a Tchecoslovquia. Cada nova investida das
tropas nazistas deixava um previsvel rastro de violncia e perseguio
contra judeus, comunistas, socialistas e sociais-democratas,
superlotando as prises e os campos de concentrao. A fortaleza de
Lichtenburg, que tinha capacidade para no mximo mil pessoas, estava
ocupada por quase 4 mil prisioneiras. Nessa poca surgiram as primeiras
informaes entre as presas, trazdas pelas que vnham de fora, de que
parte da populao carcerria seria transferida para 250 quilmetros ao
norte- nas imediaes da cidadezinha de Frstenberg,  beira do lago
Schwedt, o Reich estava terminando a construo de um campo de
concentrao feminno em Ravensbrck, As dimenses do novo campo davam a
medida aterradora dos planos repressivos de Hitler: l haveria
acomodaes para 45 mil mulheres.
19. Escravido em Ravensbrck

O comboio de quinze nibus pintados de azul-marinho, com as janelas
protegidas por grades de ferro, saiu de Lichtenburg depois da
distribuio da rao noturna e s chegou a Ravensbrck na manh
seguinte. Guardada por carros de combate e caminhes militares, a
caravana atravessou metade do territrio alemo, rumo ao norte, rodeou
Berlim e seguiu em frente sem nenhuma parada. Sentadas nos bancos de
madeira, carregando pequenas trouxas de pano em que levavam seus parcos
pertences pessoais, iam junto com Olga Benario outras 859 prisioneiras
alems e sete austracas. Dias depois os lugares que haviam deixado em
Lichtenburg seriam ocupados pelas tchecas aprisionadas aps a invaso
nazista. O barulho dos veculos despertou a populao de Frstenberg,
pequenina e pacata cidade do sculo XVI, seguiu mais alguns quilmetros,
contornou o lago Schwedt por uma estrada de terra e chegou ao novo campo
de concentrao de mulheres. Desde 1936, como parte dos projetos de
preparao para a guerra, os nazistas haviam decidido mudar o sistema
penitencirio do pas. O governo fechara os campos de prisioneiros
existentes - mantendo em funcionamento apenas o de Dachau, peMo de
Munique, e o de Lichtenburg -, e iniciou a construo dos novos
Campos de concentrao

260

 para judeus, inimigos
polticos e outros "indesejveis" do regime. Os KZ, como eram chamados,
foram construdos dentro de concepes mais "modernas", onde os presos
pudessem ser utilizados de forma produtiva para a economia do Reich.
Assim, surgiram primeiro os campos de concentrao de Sachsenhausen, em
agosto de 1936, Buchenwald, em julho de 1937, Flossenburg, em maio de
1938, e Neuengamme, construdo nas imediaes de Hamburgo em dezembro de
1938. Nessa poca, poucas semanas aps o paroxismo de violncia
anti-semita que ficou conhecido como a "Noite dos Cristais", o nmero de
judeus e comunistas presos na Alemanha subiu para 60 mil. A construo
do campo de Ravensbrck  fora iniciada alguns meses antes, em fins de
1938, por 500 prisioneiros, homens e mulheres, vindos do campo de
Sachsenhausen. Utilizando uma espcie de projeto padro adotado
inicialmente para a construo de Buchenwald, os presos trabalharam ali
at abril de 1939, quando dois comboios chegaram para ocupar o campo: o
primeiro veio de Burgenland, na ustria, trazendo quase mil mulheres
judas, ciganas e membros da seta Testemunhas de Jeov. O segundo vinha
do campo de mulheres de Lichtenburg. Depois de passar um ano num lugar
de aspecto to aterrador como a fortaleza de Lichtenburg, Olga
surpreendeu-se, ao descer do nibus, com a aparncia buclica de
Ravensbrck. A entrada do campo ficava espremida entre um bosque de
choupos e uma ponta do lago Schwedt que parecia querer invadir a rea
construda. A esquerda, sobre uma elevao do terreno, fcavam as casas
e os alojamentos, feitos de alvenaria, destinados ao comandante do
campo, ao chefe de segurana, ao chefe de administrao, aos oficiais da
Gestapo, aos mdicos e s enfermeiras da SS e, enfileirados lado a lado,
os seis blocos  onde se encontrava acantonado um batalho de 600
soldados da SS, divididos em quatro companhias de combate e 16 pelotes
de choque. Do mesmo lado, pouco depois dos

261

alojamentos da tropa, havia doze barraces para o arsenal e o
almoxarifado dos soldados.
Quinhentos metros alm,  direita da entrada, na parte plana do terreno,
estava o campo de concentrao propriamente dito: 60 enormes pavilhes
de madeira construdos simetricamente um ao lado do outro e, ao fundo,
cinco barraces menores, tambm de madeira, onde ficariam os
prisioneiros do sexo masculino que eventualmente passassem por
Ravensbrck. Mais  direita do campo, protegidos pelo lago e sob um
pequeno arvoredo, vinte barraces de alvenaria onde as indstrias
Siemens comeavam a assentar as mquinas de uma de suas unidades
industriais para nelas utilizar o trabalho das prisioneiras na produo
de bens destinados ao esforo de guerra nazista. O campo terminava, ao
fundo, em treze blocos de madeira destinados s crianas presas pela
polcia nazista. No caminho entre o porto principal e os pavilhes de
mulheres estava o bunker, a nica edificao de dois pavimentos,
construda em alvenaria, onde ficavam as celas-fortes e as solitrias.
Do lugar onde estava ao chegar, Olga podia ver, alm da eurva do lago e
sobre a copa das rvores que circundavam os prdios da Siemens, as
pontas dos telhados e as chamins das casas da aldeia de Ravensbrck,
onde viviam pouco mais de 50 famlias. Em volta de toda a extenso do
campo, das margens do lago s rvores que cercavam os alojamentos da SS,
rolos de arame farpado ligados a fios eltricos exibiam, a cada 100
metros, uma placa de madeira com uma caveira pintada e a advertncia:
"No se aproxime! Alta tenso! ". Como a maioria dos outros campos de
concentrao, Ravensbrck tambm tinha sido construdo num lugar ermo,
distante dez quilmetros da cidade mais prxima, Frstenberg, que tinha
ento pouco mais de 5 mil habitantes. E como nos outros casos, o lugar
foi escolhido por causa ,do fcil acesso a estradas e ferrovias que o
ligassem aos grandes centros do pas. Para escoar a produo gerada pela
fbrica da Siemens dentro do campo, os presos de Sachsenbausen
construram um pequeno ramal ferrovirio que atravessava todo o local e
se ligava  linha de trens Oranienburg

262

 IIeustrelitz, cujos trlhos
corriam bem atrs das casas de alvenaria da oficialidade. As quase 900
prsioneiras foram levadas para o pto principal do campo, guardadas
por soldados armados de fuzs e colocadas em ordem, como uma tropa. Uma
***ofcal da SS fazia a chamada nome por nome e cada mulher ia recebendo o
uniforme adotado em todo o pas para os campos de concentrao - saia,
casaco e turbante listrados de cinza e azul - e uma braadeira com um
tringulo numerado, Pela cor do tringulo a pessoa estava classificada,
e pelo nmero, identificada. Os tringulos vermelhos para as que haviam
sido presas por medida de segurana  - na maior parte dos casos, por
razes polticas; tringulos azuis, para as estrangeiras, imigrantes e
aptridas; tringulos roxos para as adeptas do eulto das Testemunhas de
Jeov, freiras e religiosas em geral;  verdes para as ladras e
criminosas comuns; e pretos para as "indesejveis" ou "anti-sociais":
ciganas, homossexuais e doentes mentais. As judias recebiam, alm do
tringulo que as classificava segundo uma dessas categorias, um outro,
amarelo e com um dos vrtices voltados para baixo, ao contrrio dos
demais, que tinham a ponta para cima. Assim, justapostos na manga do
casaco, os dois tringulos formavam a estrela de Davd. Sem surpresa,
Olga recebeu o tringulo amarelo, das judias, e o preto, das
"anti-sociais". Seria iluso supor que a em Ravensbrck, onde a
disciplina e o rigor eram ainda muito maiores que nas prises
anteriores, permitiriam que ficasse junto com as comunistas. Horas
depois ela era iristalada no bloco nmero 11, onde se encontravam pouco
mais de 100 austracas e cerca de 30 alems. Dentro do pavilho, o
cheiro nauseante que pairava no ar mostrava que a primeira providncia
era impor rigorosa disciplina quanto aos hbitos de higiene: o lugar
fedia a fezes e urina. Designada pela Gestapo a responsvel pelo bloco
das judias "anti-sociais", Olga entendeu que, ou colocava ordem aIi
imediatamente ou no o faria nunca mais. As seis da tarde, depois que
uma sirene anunciou o toque de recother, ela reuniu as

263

prisioneiras para uma conversa. Das centenas de beliches de madeira tosca 
colocados
lado a lado, ao longo do corredor, comearam a surgir cabeas e corpos.
A aparncia das mulheres era pssima: cabelos desgrenhados, semi; nuas,
a maioria parecia no ver gua h muito tempo. Olga falou duro: - Se no
cuidarmos do nosso proprio corpo, os nazistas faro de ns o que
quiserem. Estamos todas nu mesmo barco e se quisermos ser tratadas com
dignidade, temos primeiro que nos comportar como seres humanos e no
como animais. Fui escolhida para ser a responsvel por este bloco e a
partir de amanh 
cedo as coisas vo mudar aqui. Do fundo do corredor uma voz protestou
com um palavro: - V se esfregar na merda, comunista! O pavilho
explodiu em gargalhadas. Mesmo sabendo que muitas daquelas mulheres eram
delinqentes e criminosas, Olga no se intimidou. Avanou pelo corredor
entre os beliches at o lugar de onde tinha vindo o grito e desafiou: -
Enquanto eu estiver aqui ningum ser denunciado  SS. Nossos problemas
tero que ser resolvidos entre ns. Agora quero saber quem foi que
gritou: aquela que " disse o palavro tem que aparecer e discutir suas
objees aqui, cara a cara, na frente de todas. Havia um silncio tenso
no bloco. Uma senhora ruiva, de cabelos tosquiados quase a zero, saiu de
baixo dos  cobertores: - Fui eu quem gritou. Desculpe-me, mas era
apenas uma molecagem, no tenho nada contra voc. Pode dizer o que
teremos que fazer amanh cedo, que serei a primeira a saltar da cama.
" Olga no respondeu ao pedido de desculpas, e voltou para o seu lugar e
retomou o sermo: - Amanh cedo faremos uma faxina geral no paviIho.
Acordaremos uma hora antes da cbamada para ter tempo de lmpar tudo.
Depois da limpeza, todas tero que

264

iniciar um novo hbito: banho dirio obrigatrio, faa frio ou calor. 
Pela reao geral, Olga percebeu
que as mulheres aceitavam sua liderana. Conversaram animadamente por
mais alguns minutos at que tocou a segunda sirene, que impunha silncio
obrigatrio no campo de concentrao: eram oito e meia da noite. Duas
semanas depois, o bloco 11 estava transformado. Ao contrrio do fedor
que a sufocara no dia da chegada, ela podia sentir at o cheiro das
toras do eucalipto ainda verde utilizadas na construo. Como os
protestos contra a mposio do banho e da limpeza diria fossem poucos,
Olga decidiu avanar um pouco mais e props que o pavilho levantasse
todos os dias meia hora mais cedo para que todas pudessem fazer
ginstica. E instigou um sentimento comum a todas aquelas mulheres, das
adolescentes s sexagenrias - a vaidade: - Nenhuma de ns tem um grande
espelho aqui, mas podemos nos ver umas s outras para saber que estamos
feias e flcidas. J que no vamos ter ruge ou batom to cedo, temos que
nos preparar para a Liberdade. Quando sairmos daqui, teremos que estar
esbeltas para nossos namorados e mardos. E, num campo de concentrao,
a nica maneira de conseguir isto  fazendo ginstica. Apesar da
argumentao convncente, muitas rejeitaram a proposta, alegando que os
nazistas j as obrigavam  ginstica de trabalhar o dia inteiro. Para
evitar problemas, ficou acertado que apenas as que quisessem fariam
ginstica - as que preferissem dormir um pouco mais que ficassem na
cama. As que optaram pela ginstica, porm, eram to tuidosas que as
outras no consegulam dormir - e dias depois os exerccios matinais
acabaram ganhando todas as muiheres do pavilho. Com o passar das
semanas Olga voltou a se preocupar com a falta de notcias da famlia.
Nem dona Leocdia nem Prestes haviam escrito uma s linha nos ltimos
tempos e ela voltou a temer pela segurana do mardo.

26566

 No  fnal de julho, dois soldados apareceram no bloco 11 para acompanh-
la at a casa
do comandante do campo e Olga sups que pudesse ser a chegada de alguma
correspondncia do Exterior. No era: ela estava sendo convocada para
uma nova e demorada rodada de interrogatrios em Berlim. Entregaram-lhe
sua trouxinha de roupas e ordenaram que se preparasse para viajar dali a
instantes a advertncia constante de sua ficha. de que se tratava  de
"prisioneira de alta periculosidade", obrigou o comando de Ravensbrck a
preparar escolta especial de seis soldados e dois agentes da Gestapo
para acompanh-la a Serlim, onde Olga passou seis semanas sem descobrir
um nico motivo que justificasse sua vinda de to longe: os agentes da
polcia secreta nazista repetiram as mesmas perguntas de antes, e dela
obtiveram a mesma resposta - nada. De novo, em tudo aquilo, apenas
algumas fotografias de presos ou de pessoas procuradas que os policiais
lhe exibiram sem que ela oferecesse qualquer informao valiosa. A
permanncia nas celas de Baroimstrasse, onde passara um ano em companhia
de nita, aumentou-lhe a saudade da filha e do marido, mas ela acabou
obtendo permisso para escrever um pequeno bilhete para a sogra, no
Mxico. 8erlim, agosto de 1939 Querida Mame, querida Lgia: Quando
vocs me escreverem, por favor mandem as cartas para o velho endereu -
Polfcia Secreta do Estado, Berlim, rua Prinz-Albrecht, colocando sempre
ao p "Diviso II A I", Estou de novo apenas com meus pensamentos e
minha imensa saudade de todos vocs. De novo os dias parecem no ter fim.
Mas no se preocupem, que eu no deixo o nimo baixar. Que noticias me
do d Carlos? J faz seis meses que eIe me escreveu pela ttma vez, e
sto me inquieta muito: por que ele no escreve mais? Ele est doente ou
est bem de sade? Mame querida, voce no pode esconder-me nada. caso
esteja acontecendo alguma coisa com ele. A minha querida Anita digam que
a me pensa muito nela e que toda noite, ao dormir, imagina como seria
bom pegar em suas mozinhas e beijar seu delicado rosto. Abraoas com
todo o meu amor. Otga

266

 De volta a Ravensbrck ela ainda seria retida
por mais alguns dias em Potsdam,  sada de Berlim, para novos
interrogatrios, e acabou retornando apenas nos primeiros dias de
outubro. O campo de concentrao estava transformado. Pouco depois de
sua partida para a capital tinha chegado uma leva de 400 novas
prisioneiras alems, vindas de outros campos ou presas primrias - e
entre elas estava sua amiga Elise Ewert, a Sabo, cuja sade piorara
anda mas. Nos ltmos das o exrcito nazista tinha invadido a
Polnia, realizando no territrio ocupado a mais brutal razia contra os
judeus j vista desde a ascenso de Hitler ao poder. Era o comeo do que
seria a Segunda Guerra Mundial. As primeiras conseqncias da violncia
podiam ser vistas em Ravensbrck, para onde tinham sido levadas mais de
mil mulheres feitas prisioneiras na tomada da Polnia. A prolongada
ausncia de Olga e a chegada de novas detentas "antisociais" haviam
transformado o Bloco 11 de novo em completa balbrdia. Aps algumas
semanas e muitas brigas, no entanto, ela conseguiria restabelecer o
banho dirio e a faxina obrigatria; atrair as mulheres para a ginstica
levaria mais tempo, por uma forte razo: a Siemens terminara a
implantao de sua fbrica dentro do campo e as mulheres, obrigadas a
trabalhar como operrias por at 12 horas dirias, naturalmente no
sentiam nimo para flexes e saltos matutinos. O trabalho na unidade da
Siemens era obrigatrio para todas as prisioneiras, independentemente da
classificao que tivessem, da idade ou do estado de sade. Mediante
acordo celebrado com o governo, a indstria pagaria ao comando do campo
30 centavos de marco por mulher-dia, sem que isso implicasse em qualquer
forma de remunerao s prisioneiras. As indstrias que, para preservar
sua imagem internaconal, preferissem no instalar fbricas dentro dos
campos de concentrao, no tinham por que se preocupar: a SS se
encarregava de transportar os prisioneiros at a sede da empresa- Foi

267

 atravs de contratos como o da Siemens qae a fbrica da Bayrischen
Motorenwerke, que produzia os veculos BMW, utilizava 220 presos
alugados pelo campo de concentrao de Buchenwald; a indstria de lentes
ZeissIkon alugava 900 homens do campo de Flossenburg; a siderrgica
Krupp, 500 presos de Buchenwald; a indstria de veculos Daimler-Benz,
fabricante dos luxuosos auiomveis Mercedez-Benz, 110 presos de
Sachsenhausen; a Volkswagen, 650 prisioneiros do campo de concentrao
de Neuengamme; havia at uma misteriosa indstria Silva GmbH Poltewerke,
que chegou a alugar 2 mil mulheres de Ravensbrck, O campo onde esteve
Olga, alis, foi o que forneceu o maior volume de mo de obra escravaAo
todo, 37500 mulheres - judias, comunistas, socialistas,
sociais-democratas, ciganas e Testemunhas de Jeov - saram de
Ravensbrck entre 1938 e 1945 para trabafhar de graa para grandes
indstras alems. Em 1946, convocada a depor no Tribunal montado em
Nremberg para apurar crimes de guerra, a direo da Siemens, com tria
ironia, justificaria a sua presena em campos de concentrao como um
ato benemrito. "Afinal, nunca se fez qualquer restrio a que os
prisioneiros, nas pocas mais frias do ano, complementassem sua
insuficiente roupa com materiais existentes na indstria, tais como
papel para isolamento e panos de limpeza", dizia o relatrio da empresa
apresentado ao Tribunal  de Nremberg. A unidade da Siemens de
Ravensbrck destinava-se quase que exclusivamente  produo para o
esforo de guerra que mobilizava a Alemanha. Uma indstria txtil mdia
tabricava e vendia  SS os uniformes que eram utilizados por todos os
presos espalhados em campos de concentrao alemes ou de pases
ocupados. A maioria das prisioneiras de Ravensbrck, porm, era
utilizada como mo de obra na fbrica de equipamentos blicos montada no
campo, que produzia desde rels para camponentes de atznas, disparadores
especiais e dispositivos eletrnicos para submarinos, telefones de
campanha e espoletas de dsparo retardado para bombas, at

268

componentes para os mortais foguetes V-2, concebidos pelo engenheiro 
Werner
von Braun. Mesmo sabendo que o trabalho escravo que a Siemens impunha s
presas deixava-as extenuadas, Olga insistia em manter a ginstica, ainda
que muitas das "antisociais"  se recusassem terminantemente a trocar
alguns minutos do sono da manh pelas acrobacias que ela organizava
todos os dias. Clandestinamente, pois tal ousadia poderia eustar-lhe
duras punies, Olga reunia-se com pequenos grupos de prisioneiras para
tentar transmitir-lhes algumas noes bsicas sobre as questes
polticas que tinham levado o mundo  guerra. E foi em um desses
encontros furtivos que ela recebeu de uma jovem polonesa a triste
notcia: Elise Ewert, a sua querida Sabo, morrera trs dias antes. Com o
inverno a tuberculose voltara com violncia redobrada e seu corpo no
resistira  doena e aos trabalhos forados. As amigas que tentaram
socorr-la puderam ouvir as ltimas palavras de Elise, agonizante e em
delrio. "Arthur, Arthur ", ela balbuciava, "eles esto chegando e vo
torturar-nos mais uma vez. . . Os choques eltricos vo comear de novo,
Arthur". As marcas deixadas pela polcia de Filinto Mller tinham
desaparecido do corpo de Sabo, mas a tragdia de seus dias no Rio lhe
ficara gravada na memria at o ltimo instante de vida. Nos primeiros
dias de janeiro de 1940 a populao de Ravensbrck, que era de quase 3
mil mulheres, dobrou inesperadamente. Da Polnia, ustria,
Tchecoslovquia e de vrias cidades da Alemanha chegaram ao campo mais
de 2940 mulheres. E foi poucas semanas aps a chegada dessa nova leva
que se anunciou que Ravensbrck receberia a visita de uma das mais
ilustres personalidades do Reich: Heinrich Himmler. Os oficiais da SS
prepararam-se para receber com toda a pompa seu chefe maior acima dele,
apenas Adolf Hitler- Os trs dias que antecederam  a chegada de Himmler
foram estafantes para as prisioneiras, obrigadas a tirar a neve das

269

estradas  internas do campo, pintar paredes de alojamentos onde havia
manchas, varrer os ptios. Um grupo de oficiais passava o dia procurando
um toco de carvo que fosse, perdido num canto de muro, e exigia, de
rebenque na mo, que as mulheres varressem de novo aquele lugar. Para
azar das presas, na madrugada que antecedeu a chegada de Himmler caiu
uma tempestade de neve e quando o dia amanheceu o prprio Frz Suhren,
comandante do campo, exigiu que se organizasse um mutiro com todas elas
para limpar novamente os ptios e corredores entre os pavilhes.
Finalmente o homem apareceu. Cercado de veculos militares e precedido
de batedores de motoccletas, Himmler chegou a bordo de um reluzenie
Daimler-Benz conversvel, de capota fechada. Por razes de segurana,
todas as 6 mil prisioneiras foram mantidas em seus alojamentos, com as
portas trancadas a chave e ordens de no fazerem barulho durante a
visita. Himmler foi recebido  entrada do campo pela alta oficialidade
da SS e levado at o ptio central, em frente aos pavilhes das presas,
onde passaria em revista a tropa formada em sua honra. A um grito de
"Sentido!" os soldados se perfilaram dante do chefe. Vestido com farda
de gala, um sobretudo cinza at o tornozelo, segurando as luvas de couro
na mo esquerda, ele deu os primeiros passos diante do batalho em
formao impecvel. O silncio era tal que, de qualquer ponto do campo,
s se ouvia o barulho do vento assoviando entre as rvores e o rudo do
salto da bota do comandante nazista batendo forte sobre as pedras do
cho. Quando faltavam dois pelotes para terminar a revista, de um
pavilho que ningum soube identificar surgu o berro, em voz fortssma,
vndo do fundo do peito, em sonoro alemo: - Heinrich Himmler, voc 
apenas um pederasta assassino! Gargalhadas incontrolveis arrebentaram
dos quinze pavilhes onde as prisioneiras estavam trancadas. Tenso,
Himmler continuou a caminhada at o final da tropa, enquanto dois
pelotes de choque da SS saam de forma e corriam desorientados entre os
blocos, batendo com as

270

 coronhas dos fuzis nas paredes de madeira,
aos gritos de "silncio, vacas judias!", "Ns vamos fuzil-las, bando de
estrume!", "Silncio! Silncio! Quem der um pio vai ser fuzilada na
hora!". O comando da SS em Ravensbrck foi tomado de verdadeira
histeria. Ningum, muito menos uma judia, "um ser biologicamente
inferior", poderia insultar impunemente o Reichsfrer SS Heinrich
Himmler, comissrio do Reich para a integrao das regies anexadas,
comandante  de todos os campos de concentrao e chefe mximo da temida
Schutzstaffelre, a SS de Hitler. Furioso, Himmler retirou-se de
Ravensbrck antes da hora prevista, deixando ordens expressas para que
as mulheres fossem duramente castigadas: aoites, punies coletivas,
suspenso do fornecimento de comida, no importava a insolncia tinha
que ser punida com rigor. A determinao comeou a ser cumprida no mesmo
dia. O prdio de alvenaria onde ficavam as 80 solitrias foi aberto -
at ento elas s haviam sido utilizadas em casos raros e extremos, como
agresses de presas aos oficiais da SS e o comandante do campo ordenou
que fossem escolhidas 80 mulheres para a punio exemplar, a critrio
dos soldados do peloto de choque incumbidos de retir-las das celas.
Uma das escolhidas do bloco 11, o das "anti-sociais", foi, naturalmente,
Olga Benario. A ela caberia uma das celas da ala leste do pavimento
trreo do bunker, construda junto a um desnvel do terreno e, por isso,
sujeita a umidade permanente. Para as outras mulheres do acampamento, a
pena era comparativamente mais branda: trs dias sem comida. Na hora das
refeies, cada uma delas receberia uma caneca de gua. Foram 30 dias
terrveis para Olga. Aquele era um inverno durssimo, com a temperatura
descendo freqentemente a alguns graus abaixo de zero. Para se proteger
na solitria ela tinha umas poucas mantas de algodo e algumas folhas do
Vlkischer Beobachter, o jornal do Partido Nazista, que enrolava nos
ps. Semi-subterrneo, o lado leste do prdio era to mido que uma das
paredes estava coberta por uma gosma verde, como se nem o limo

271

 pudesse crescer naquele lugar lgubre. Olga no sabia se era apenas mais
uma vingana da SS contra si ou se desconfiavam de que ela pudesse ter
sido a inspiradora do grito contra Himmler - o que era falso. Por uma ou
outra razo, porm, ela passou a ser aoitada regularmente durante o
perodo de confinamento. A qualquer momento, os SS entravam na cela
trazendo o Prgelbock - um cavalete de madeira com o tampo cncavo e
correias de couro com fivelas nos quatro ps. Ela era deitada de bruos
sobre o cavalete, com o ventre sobre a parte abaulada e tinha os pulsos
e os tornozelos amarrados s correias presas nos ps. Imobilizada, era
submetida a infindveis sesses de chicotadas nas costas, ndegas,
pernas, at fcar semi-inconsciente. Por vezes, depois das surras, era
deixada ali, amarrada naquela banqueta, o dia inteiro. Quando os
soldados voltavam para retr-la, aproveitavam para aplicar novas
chibatadas. Libertada do bs~nker, debilitada fisicamente e ainda mais
magra, ainda assim Olga foi obrigada a reiniciar o trabalho nas oficinas
da Siemens. A noite, ao retornar ao bloco 11, agora superlotado,
observou que metade das presas que estavam ali eram desconhecidas,
provavelmente vindas com as tchecas, polonesas e austracas que chegaram
ao campo pouco antes do insulto a Himmler. Corria  o ms de maio de 1940
e o avano das tropas nazistas nos ltimos meses provocava a temvel
sensao de que o controle total da Europa seria irresistvel. Desde o
comeo do ano tinham capitulado e estavam sob controle do Reich nazista,
alm da Polnia, os territrios da Dinamarca, Noruega, Luxemburgo,
Holanda e Blgica..Hitler se preparava para atacar o prxmo e mas
valioso de todos os objetivos, a Frana. Em suas conversas com as
companheiras do pavilho, na maioria mulheres rsticas, simples e sem
qualquer formao poltica, Olga insistia  em injetar-lhes nimo,
repetindo sempre que havia na Europa um pas que iria barrar o avano
alemo: a Unio Sovitica, Suas "aulas" comearam a interessar s
prisioneiras "indesejveis", nem tanto por razes polticas, mas
sobretudo porque a maioria tinha clara noo de que estava

272

 ali como vtima daquele regime que pretendia dominar o mundo. A 
liberdade delas
dependia da derrota do nazismo - ento era preciso entender o que era o
nazismo e de que forma ele poderia ser sepultado, como prometia aquela
incansvel alem que tinha sido presa, torturada, separada da filha e do
marido, tinha perdido a melhor amiga, e continuava ativa e determinada.
Olga resolveu ilustrar as lies de poltica internacional que dava s
colegas do bloco. Com um lpis roubado nos escritrios da Siemens por
uma prisioneira holandesa  e utilizando pedaos de cartolina arrancados
das tabelas de produo da fbrica, aplicou toda sua habilidade em
desenhar mapas das regies conflagradas. Valendo-se apenas da memria,
traou primeiro um mapamndi  que levou vrios dias at ser completado.
Para conseguir luz suficiente para o trabalho, Olga precisava acordar
mais cedo e aproveitar o tempo disponvel caprichando no trao junto a
uma das janelas do bloco, usando como mesa um pedao de tbua apoiado
sobre os joelhos. Pronto o primeiro, ela passou a trabalhar nos outros
mapas, em que detalharia pas por pas, regio por regio. Algumas
semanas depois de iniciado o trabalho todo feito s escondidas,
naturalmente - ela exibiu, orgulhosa,  s companheiras de priso, no
apenas um mapa, mas um atlas completo, com quinze mapas, capa dura de
papelo e at ndice. Havia apenas um problema: para que pudesse
circular entre as mulheres e ser ocultado facilmente debaixo de um
travesseiro ou sob a roupa,foi preciso fazer o atlas quase em miniatura,
um pouco maior que uma carteira de cigarros, onde cada centmeiro
equivalia a centenas de quilmetros reais, nos mapas mais detalhados.
Com aquela preciosidade na mo, Olga dava aulas dirias s presas,
explicando o lado poltico da guerra. Sobre a Unio Sovitica ela
desenhou vrios crculos, partindo de Moscou e, utilizando o
conhecimento que tinha da URSS, assegurou s companheiras que a tomada
da capital era um sonho que os nazistas jamais realizariam.

273

 De certa feita Olga foi delatada por uma das presas, que no chegou a 
ser
identificada- A delao no era incomum nos campos. Em troca de uma
rao a mais de comida, ou de um cobertor extra, muitos prisioneiros se
prontificavam a denunciar colegas que tivessem infringido os
regulamentos. Olga foi chamada ao comando da SS para que entregasse o
atlas, que permanecia em segurana sob a blusa da prisioneira Tilde
Klose, no pavilho das comunistas. O atlas foi salvo, mas Olga penou
mais trs semanas na solitria e sofreu vrias sesses de aoites. Os
riscos do confinamento e de repetidas surras no a intimidavam. Ao
contrrio, quanto maior fosse a brutalidade dos SS, mais ela parecia
decidida a continuar agi tando o campo de concentrao. Semanas aps a
punio por causa do atlas ela resolveu montar uma pea de teatro dentro
do pavilho, s escondidas. O enredo foi criado pelas prprias presas,
orientadas por Olga, e depois de alguns ensaios decidiram encenar a
histria. Quando o "espetculo" estava para terminar, o pavilho foi
invadido por um peloto de soldados da SS. "Atrizes" e espec- tadoras
foram arrastadas para fora a socos e deixadas toda a noite sem dormir,
de p, no meio do ptio central do campo. Na manh seguinte tiveram que
seguir direto para o trabalho na Siemens. Quando encontrou algumas
mulheres do seu bloco que tinham conseguido esconder-se e escapar das
punies, Olga ainda encontrou nimo para brincar: - Da prxima vez
temos que criar uma pea mais dramtica. Assim, talvez a SS nos deixe
encen-la em paz.

 19. A caminho da Morte

275

  As prisioneiras de Ravensbruck chegavam a passar meses sem noticias do 
mundo.
Por isso, s no final de 1940 Olga ficou sabendo que as tropas de
Hitler haviam marchado sobre Paris, e meses depois tomado a Hungria e a
Romnia. As pssimas notcias, trazidas por um grupo de prisioneiras
recm-chegadas, pareciam desmentir o otimismo que ela tentava
transmitir s companheiras do campo: em uma reunio clandestina para
atualizar o atlas da guerra. Olga foi obrigada a reconhecer que os
nazisstas j dominavam 11 pases, mantendo sob seu poder quase dois
milhes de quilmetros quadrados de territrio invadido. A propagao da
guerra trazia-lhe um problema adicional - a falta de informaes
sobre o marido e a filha. Nos ltimos meses ela recebera apenas uma
carta da sogra com uma nova fotografia da filha, uma carta de Prestes e
nada mais.
No final da primavera de 1941 Ravensbruck deixaria de ser um campo de
concentrao exclusivamente feminino. Alm das quase 8000 prisioneiras
que l viviam, foram transferidos do campo de Dachau, no sul do pas,
300 homens que imediatamente ocuparam os dois blocos construdos ao fundo
dos pavilhes das mulheres e que permaneciam desocupados at ento. A
eles se juntaria, semanas depois, uma centena de judeus poloneses
vindos

276

das prises de Zamik, em Lublin, e Pawiak, em Varsvia. Foi nessa poca 
que Olga contraiu um vrus no identificado que quase a derruba. E, como 
continuasse trahalhando
como carregadora de toras de madeira, na parte externa do campo. foi 
preciso montar a chamada
"operao termmetro" para que ela fosse transferida
para a fbrica da Siemens onde pelo menos, poderia trabalhar sentada. A 
SS tinha
baixado uma norma determinando que qualquer mudana de local de
trabalho
por razes de sade s poderia ser feita com autorizao por escrito da 
mdica-chefe o campo, Her ta
Obcrhcuev . Emmy Handke, velha amiga de Olga,
 encontrou a soluo: pediu auxlio  theca Ilsa. Jolansky, que era 
especialista em falsificao de assinaturas, para que "fabricasse" um 
atestado
mdico da cila. Oberheuser. Mesmo sabendo que a "operao termmetro" - 
assim apelidada porque o atestado dizia que Olga tinha febre alta durante 
todo o dia - poderia
custar-lhe, semanas de solitria e surras no Prgelbock, as trs levaram 
o plano avante. Olga circulou vrias semanas pelo campo levando no bolso 
o atestado falso,
at que a virose passou e ela retornou s toras de madeira.
Durante os dias que passou na fbrica, Olga ficou conhecendo a militante 
comunista alem
Margarete BuberNeumann, que por pouco teria sido sua companheira de 
aventura
e infortnio no Brasil, e que se encontrava em Ravensbrck desde o ano
anterior. Casada com um tambm comunista Heinz Neumann,
lembrava-se vagamente de ter visto Olga no saguo do hotel Lwcrawtmcou 
alguns meses aps a  ao de
Moabbit.

277
 As divergncias dos eNumann com alguns dirigentes do Comintern, explicou 
Margarete, impediram que eles embarcassem - o que provavelmente
acabou por lhes salvar a vida.
Tanto Olga quanto Margarete perceberam a enormidade que haviam dito 
naquele instante: como  que algum em Ravensbrck poderia dizer que 
estava com a vida salva?
Pelo contrrio, a situao das prisioneiras parecia cada dia mais grave. 
Um corredor de muros altos junto ao arsenal das tropas SS, na entrada no 
campo, tinha sido
transformado em paredo de fuzilamento, e um belo dia cinco mulheres 
foram executadas a tiros por um peloto militar, por motivos 
absolutamente fteis, como roubar
uma garrafa de leite na enfermaria ou responder a admoestaes. As cinco 
eram judias e comunistas. O terror que comeava a tomar conta do campo 
aumentou ainda mais
quando circularam notcias de que os novos mdicos que haviam chegado 
estavam ali para realizar
 experincias genticas com as prisioneiras. Os mdicos Otto Grawitz,
Karl Gebhardt, Martin Schuhmann e o casal de mdicos Klaus e Gerda 
Weyand-Sonntag, estavam h vrios dias ocupando o salo de uma das casas 
do comando do campo em
interminveis conferncias. Alm disso, dizia-se que os dois prdios de 
alvenaria que os presos vindos de Dachau estavam construindo ao lado da 
solitria seriam
destinados  instalao de uma cmara de gs e um forno crematrio.
 Hitler teria decidido e anunciaria em breve, comentava-se, a "soluo 
final" para o que ele considerava
o "problema" judaico: a eliminao pura e simples de todos os judeus dos 
territrios tomados pela Alemanha. O ms de outubro chegou com o campo de 
Ravensbrck mergulhado
no mais absoluto pnico.
Foi nesse outono de pavor que a prisioneira alem Charlotte Henschel - 
que havia estado com Olga em Lichtenburg - foi levada  enfermaria do 
campo com suspeita de
tuberculose. Dias depois chegava  enfermaria a presa Lina Bertam com a 
mesma doena e uma semana depois a terceira. O nmero de tuberculosas 
crescia - assim como
a suspeita de que o bacilo da terrvel

278

molstia estivesse sendo deliberadamente disseminado pelos mdcos como 
parte das tas experincias de que se falara antes. Correndo o risco de 
fuzilamento sumrio,
Olga e Kate Leichner, militante social-democrata austraca presa em Viena 
durante a ocupao nazista, se esgueiravam todas as noites entre os 
blocos de madeira para
ir at a janela da enfermaria municiar as doentes com pedaos de po e 
margarina, roubados do refeitrio da Siemens, e s vezes at com poemas 
clssicos rabiscados
em pedaos de papel. Em poucas semanas havia cerca de vinte mulheres 
tuberculosas. Quando o surto tomou propores to grandes, as doentes 
simplesmente comearam
a desaparecer da enfermaria, para desespero das que ficavam. Foi a que a 
direo do presdio anunciou ofcalmente que as mulheres tradas das 
enfermarias estavam
acometidas de "doena incurvel" e que os mdicos, por clemncia, tinham 
decidido abreviar-lhes o sofrmento, "praticando a eutansia". Para 
justificar a deciso,
o comandante do campo mandou afixar numa das paredes a deciso do Reich, 
segundo a qual "alguns mdicos, previamente autorizados para tal 
finalidade, podem conceder
a um doente incurvel, aps uma anlise clnica, a morte por clemncia". 
Era a legalizao do extermnio.
Charlotte Henschel, que sobrevivera milagrosamente a Ravensbrck e ao 
nazismo, pde ver de perto o ritual macabro que envolvia a "morte por 
clemncia" das tuberculosas
retiradas da enfermaria do campo. Um dia levaram a polonesa Anne-Marie 
Zadek, que estava na cama ao lado da sua. Quando saa, Anne-Marie pediu a 
Charlotte que escrevesse
uma carta a sua me, em Varsvia, relatando-lhe o seu fim. No final da 
tarde, com a carta nas mos, Charlotte decidiu caminhar at a sala aonde 
a amiga tinha sido
levada para ler o que tinha rabiscado no papel. Ento havia ningum 
vigiando a porta e ela quase desmaou com o que viu: Anne-Marie tinha 
sido morta com a aplicao
de alguma substnca em sua veia, tinha a cabea raspada e os dentes de 
ouro haviam sdo arrancados  fora. Seu rosto sem vida exibia uma 
mscara de terror.

279

As experincias passaram a ser feitas abertamente com mulheres e homens 
do campo de Ravensbrck. Karl Gebhardt, amigo ntimo e mdico particular 
de Heinrich Himmler,
foi destacado pelo comandante-geral da SS para executar ali uma 
experincia de "acompanhamento do desenvolvimento de bacilos de ttano, 
de estafilococos e de doenas
venreas em mulheres". As injees eram aplicadas nas partes inferiores 
das pernas das mulheres, escolhidas ao acaso, provocando feridas que iam 
at os ossos.
Muitas vezes a infeco era induzida por assistentes do  dr. Gebhardt - 
ele prprio s aparecia no dia da
aplicao das injees e de tempos em tempos para "acompanhar a 
experincia" - atravs da introduo de estilhaos  de vidro ou de 
madeira nas feridas. Como a aplicao
de
anestsicos poderia, segundo os mdicos, "comprometer o carter 
cientfico das experincias", tudo era feito a frio, submetendo as 
pacientes a sofrimentos ainda
mais
brutais. Em todos os casos, sem exceo, o acompanhamento da evoluo da 
doena era feito apenas "para observao", nunca para tratamento. As 
mulheres escolhidas
como cobaias eram executadas ao final dos experimentos.
Aos homens estava reservada outra contribuo s "experincias 
genticas" dos
mendicos nazistas: alguns presos tinham os testculos expostos aos 
efeitos de raios-X 
durante 20 a 30 minutos e depois retornavam ao trabalho. Duas semanas 
depois eram chamados de volta  enfer
maria, onde lhes extraam os testculos para observao. Depois, um dos 
mdicos "concedia-lhe a morte por clemncia", conforme mandava a lei de 
Hitler. A insnia
no tinha limites. Um grupo de ortopedistas de Berlim viajou
, a Ravensbrck especialmente para escolher entre as mulheres do campo 
algumas cobaias para experincias de transplantes de membros ou de ossos: 
uma perna, um brao
ou uma clavcula era retirada do corpo de uma mulher e implantada em 
outra, com a mera finalidade de se observar o grau de rejeio acusado. A 
doadora compulsria 
era eliminada imediatamente aps a cirurgia. ,
A receptora, se tivesse sorte, sobreviveria mais alguns dias ou semanas. 
Ravensbrck tinha sido transformado num

280

laboratrio de monstruosidades semelhante ao campo de Auschwitz, na 
Polnia, onde as experincias eram conduzidas pelo doutor Josef Mengele.
Mas as perverses anunciadas como pesquisas mdicas no seriam o fim da 
loucura nazista. At ento as execues praticadas em Ravensbrck vinham 
sendo feitas individualmente.
No comeo do inverno de 1942 comearia a eliminao sistemtica de judeus 
e comunistas. Nos primeiros dias do ano mudou-se para o campo
o mdco Fritz Mennecke.
Segundo notcia que correu entre os presos, ele teria a funo de 
selecionar, a seu juzo, as prisioneiras que ainda poderiam ser 
utilizadas como mo-de-obra no
esforo blico do Reich - Hitler preparava o "ataque final"  Unio 
Sovitica - e as que
deveriam ser enviadas  cmara de gs e aos fornos crematrios. A partir
daquele momento, o mdico disporia da vida e da morte de 8 mil mulheres e 
500 homens. Para auxili-lo na escolha dos que viveriam e dos que iriam 
morrer, ficaram 
 disposio do comando do campo as mdicas Gerda Weyand-Sonntag e Herta 
Oberheuser.
Os primeiros lotes de mulheres retiradas de Ravensbrck depois da chegada 
do dr. Mennecke deixaram em dvida as que l permaneceram: afinal, elas 
estariam sendo 
levadas para cmaras de gs ou para outros campos de trabalho? A 
indagao continuou sem resposta uma semana depois da partida da primeira 
leva, quando um caminho 
trouxe de volta ao campo apenas as roupas das escolhidas pelo mdico. Na 
segunda viagem, combinou-se uma forma de saber para onde elas estavam 
sendo levadas: algumas 
das que fossem selecionadas pelo mdico Mennecke levariam consigo um toco 
de lpis e minsculos pedaos de papel. Cada localidade que pudessem 
identificar, no camnho, 
deveria ter seu nome escrto num papel, que seria enfiado na costura da 
barra da saia. Assim, quando as roupas retornassem para reaproveitamento 
no campo, seria 
possvel identificar com preciso o destino que vinha sendo dado a elas. 
A volta do
caminho

81

 trazendo as roupas usadas a Ravensbrck no elucidou as dvidas sobre a 
sorte das mulheres
transferidas do campo. Os pedacinhos de papel retirados da barra
de vrias saias repetiam o mesmo nome: Bernburg. O que significaria 
aquilo?
Situada a pouco mais de 100 qulmetros a sudoeste de Berlim, Bernburg 
era uma cidadezinha de 40 mil habitantes, cortada ao meio pelo rio Saale. 
Em 1942, quase toda
a populao da cidade vivia em funo da Solvay, indstria belga de 
potssio, e de mais duas ou trs fbricas de cimento lcalis e pequenas 
mquinas agrcolas. Na
poca o prdio mais imponente do lugar, depois da centenria igreja 
luterana, era uma grande construo de tijolos vermelho-escuros que 
abrigava desde o comeo do 
sculo o Landes-Heil-Und Pfleg-ansalt, um hospital provincial para 
tratamento de doenas mentais, para onde se dirigiam os pacientes da 
micro-regio compreendida 
entre as grandes cidades de Leipzig e Magdeburg. A partir do outono de 
1939, entretanto, a placidez da cidade foi quebrada por uma deciso 
tomada em Berlim. Seis
dos 15 prdios de cinco pavimentos do hospital psiquitrico foram 
ocupados por determinao de Himmler e transformados em "Propriedade do 
Reich" - uma camuflagem
pouco convincente para esconder as atividades que a SS passaria a exercer 
ali. Um paredo de cimento, construdo s pressas, separava o resto do 
hospital da parte
ocupada, que foi imediatamente tomada por 150 soldados e oficiais da SS, 
sob a direo do mdico Irmfried Eberl e de sua enfermeira-chefe Kthe 
Hackbarth.
Experimentalmente e em segredo o dr. Eberl mandou construir, no subsolo 
do hospital, amplos cmodos com as paredes e o cho revestidos de 
azulejos brancos e de cujo
teto pendiam chuveiros.  primeira vista, o lugar dava a impresso de ser 
uma sala de banhos coletivos, mas de fato ali seria testada mais uma 
inveno macabra do
nazismo: a primeira cmara de execuo em massa de prisioneiros atravs 
da asfixia por gs venenoso. E o

282

primeiro ensaio da cmara de gs seria feito com um grupo de alemes no-
judeus. Quando o hospital foi tomado pelo Rech encontrava-se preso em 
Berlim, h alguns
meses,
um grupo de 20 pilotos da Legio Condor, que Hitler enviara  Espanha 
para lutar ao lado das foras fascistas do general Francisco Franco. Os 
pilotos se recusaram
a bombardear poses republicanas, pousaram seus avies junkers e se 
entregaram ao general Hugo Sperrle, comandante-geral da Legio, que os 
devolveu  Alemanha
como desertores. Quando Trmfred Eberl informou ao comando da SS que a 
cmara de gs de Bernburg estava pronta para ser testada, Himmler no 
hesitou em propor que
as primeiras cobaias fossem "os covardes da Legio Condor". A experincia 
funcionou a contento. Sem tiros, sem sangue e sem gritos, os pilotos 
alemes foram executados.
Nem mesmo o destino a ser dado aos corpos tinha escapado ao imaginoso dr. 
Eberl: ao lado da cmara e com acesso pelo subsolo, sem que fosse 
necessrio sair  luz
do dia, tinha sido construdo um forno crematrio movido a leo. Naquela 
tarde um macabro rolo de fumaa negra saiu das chamins do hospital e 
cobru Bernburg. Quando
a guerra terminasse, em 1945, teriam sdo executados nos pores do dr. 
Irmfried Eberl nada menos de 30 mil cidados judeus, comunistas, 
socialistas e sociais-democratas. 
E foi o "sucesso" do experimento em Bernburg que levou o Reich a montar 
na Alemanha campos de extermnio idnticos em Grafeneck, Brandenburg, 
Harteim, Sannenstein 
e Hadamar, que passaram a receber presos egressos de Buchenwald, 
Flossenburg, Mauthausen-Gusen, Dachau, Sachsenhausen e Gross-Rosen.
Logo no comeo de fevereiro de 1942, um pouco antes do dia em que Olga 
completaria 34 anos, as mulheres foram reunidas no ptio central de 
Ravensbrck para ouvir
nos alto-falantes do campo a relao das 200 prisioneiras que na manh 
seguinte
seriam "transferidas para outros campos de concentrao". As mulheres 
eram chamadas
em ordem alfabtica e no pelos nmeros.

283

As que tivessem sido selecionadas deveriam afastar-se do grupo e formar 
novamente em outro bloco, ao lado. J haviam sido chamadas mais de 150 
quando o nome ecoou:
- Olga Benario Prestes!
Junto com ela iriam suas amigas Tilde Klose, Ruth
Grnspun, Irene Langer e Rosa Menzer. Ao entrar no Bloco 11 para pegar 
sua
trouxa Olga encontrou duas velhi nhas judias em prantos, eurvadas e 
rezando em diche.
Agachou-se ao lado das duas, que conhecera logo ao chegar em Ravensbrck, 
e tranquilizou-as:
- No chorem, ns vamos apenas mudar para outro campo, onde a vida 
certamente ser melhor. A guerra vai
chegar logo ao fim, os nazistas sero derrotados, ns vamos ter paz 
dentro de pouco tempo. Fiquem tranqilas e
firmes, ns vamos comemorar a paz juntas. Acomodou-as num beliche e ao 
passar por uma das
janelas do bloco viu que estacionavam no ptio os quatro  nibus azul-
marinho da
Gerkat, uma sociedade beneficen
te de Berlim, especializada em transportar indigentes e que nos ltimos 
anos prestava servios  SS e  Gestapo.
Eram oito horas da noite quando os alto-falantes do campo  deram o ltimo 
aviso:
- As prisioneiras relacionadas na chamada de hoje tm 30 minutos para 
recolher seus pertences e se apresentar  oficial, junto aos nibus.
Meia hora: tempo suficiente para escrever uma carta   filha e ao marido.
Dez dias depois, quando o caminho voltou a Ravensbrck com as roupas das 
mulheres embarcadas naquela noite, Emmy Handke correu a procurar o 
vestido de Olga.
; Apalpou sofregamente a barra e dela tirou um pequenino pedao de papel 
onde estava escrita apenas uma palavra: Bernburg.
So Paulo, Brasil Julho de 1945
Depois do almoo na casa de Tuba e Hirsch Schor, um jovem casal de 
militantes do Partido, a alta direo do PC brasileiro se reuniu naquela 
tarde de 15 de julho
para um balano rpido dos preparativos do comcio que comearia dentro 
de minutos no estdio de futebol do Pacaembu. Esta seria a primeira 
manifestao de massas
dos comunistas em So Paulo desde o fechamento, em 1935, da Aliana 
Nacional Libertadora. De terno escuro, barbeado e bem disposto, Lus 
Carlos Prestes  o secretrio-geral
do Partido, cargo para o qual tinha sido escolhido em 1943 na clandestina 
"Conferncia da Mantiqueira", a II Conferncia Nacional do PC. Ele chama 
seus camaradas
para uma pequena sala e ouve de Milton Cayres de Brito e de Digenes de 
Arruda Cmara alguns informes sobre outra manifestao de rua, ocorrida 
na vspera em So
Paulo. Como advertncia ao PC, a Igreja Catlica organizara na noite 
anterior, um sbado, uma "novena de Nossa Senhora", levando milhares de 
fiis s ruas para venerar
a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, e "jurar de 
joelhos o repdio ao comunismo ateu". Ao final da manifestao, 
mobilizada pelo cardeal Carlos
Carmelo de Vasconcellos Motta, o pblico juntouse em frente  Catedral da 
S e repetiu em coro as
palavras que eram pronunciadas por um bispo:

286

- Juro ser fiel  Igreja, repudiar e combater o comunismo!
Para a direo comunista reunida na modesta casa da rua Arapu, no bairro 
da Bela Vista, era natural que os setores mais conservadores da Igreja 
reagissem assim.
Afinal, em trs meses o Brasil vivera uma verdadeira voragem de 
transformaes polticas. Nos primeiros dias de abril, enquanto os 
marechais soviticos Tobulkhin
e Malinovsky retomavam Viena e Bratislava das mos dos alemes, e 150 mil 
soldados nazistas eram cercados
pelos Exrcitos americanos na bacia industrial do
vale do Ruhr, os efeitos do fim da guerra comeavam a chegar ao Brasil.
O embaixador Carlos Martins Pereira de Souza, representante do Brasil em 
Washington, entrega ao embaixador sovitico nos Estados Unidos, Andrei 
Gromyko, uma curta
nota de dez linhas em que o governo brasileiro solicita o reatamento de 
relaes diplomticas com a Unio Sovitica. No plano interno a 
reviravolta  ainda mais
dinmica. Enquanto o governo informa ter decidido extinguir a censura 
telefnica que durava dez anos, mulheres, estudantes, trabalhadores e 
profissionais liberais 
organizam comcios em todo o pas exigindo a concesso imediata de 
anistia poltica aos presos e exilados. Em todas as manifestaes, as 
bandeiras do Brasil so 
vistas tremulando ao lado de bandeiras vermelhas com a foice e o martelo, 
sem que a polcia importune ningum. Os polticos Armando de Salles 
Oliveira, Paulo Nogueira 
Filho e Luiz de Toledo Piza decidem no esperar a decretao da anistia, 
voltam do exlio na Argentina e desembarcam livremente no Brasil. Da 
priso, Prestes telegrafa 
ao presidente Getlo Vargas eumprimentando-o pelo restabelecimento de 
relaes "com o herico povo sovitico", e exige a decretao da anistia, 
"ainda que, se necessrio,
corn a excluso do meu caso pessoal". Comea o degelo.
O retorno ao Brasil dos primeiros expedicionrios de um contingente de 25 
mil soldados que o pas mandara para lutar na Itlia contra o nazi-
fascismo traz um novo
fermento  campanha pela redemocratizao nacional.

287

Quinhentos praas e oficiais morreram combatendo em defesa da liberdade e 
a populao exige, "em respeito  memria dos nossos mrtires", que o 
Brasil rompa de uma 
vez por todas seus traos autoritrios. O operrio Veriano Jeln, ferido 
na frente italiana, volta ao Brasil antes da tropa e, em entrevista 
coletiva concedida ainda 
no cais do porto do Rio de Janeiro, exige eleies diretas para 
presidente da Repblica:
- Os soldados americanos que estavam na Itlia participaram das eleies 
presidenciais dos Estados Unidos votando junto dos tanques e das 
trincheiras. Os nossos
soldados viram isto de perto e no compreendem, no aceitam que lhes seja 
negado o direito de voto. No podemos manter aqui no Brasil um regime 
igual ao que combatemos
na Itlia com o nosso sangue.
Getlio Vargas promete convocar eleies para a sua sucesso ainda 
naquele ano. Seu ministro da Guerra, o mesmo general Eurico Gaspar Dutra 
que havia chefiado o 
cerco aos rebeldes de Agildo Barata no 3. Regimento de Infantaria, dez 
anos antes, apresenta-se como candidato governista  presidncia e inclui 
entre a sua plataforma 
uma inacreditvel bandeira: a legalizao do Partido Comunista. Ao 
perceber que Getlio Vargas comea a ceder, a oposio avana mais e 
passa a lutar no apenas
pelo direito de eleger o presidente. Agora a reivindicao das ruas  
pela anistia e pela convocao de uma Assemblia Nacional Constituinte.
Em 18 de abril, Getlio Vargas assina o decreto que concede anistia aos 
presos polticos. Antes mesmo que o ato fosse publicado no Dirio 
Oficial, os cinco primeiros
beneficirios da medida deixam as prises. Da Casa de Deteno do Rio de 
Janeiro saem Lus Carlos Prestes, o
capito Trifino Correia e o tenente Ivan Ribeiro. Do
presdio da ilha Grande vo de barco at o Rio de Janeiro Carlos 
Marighella, o capito Agildo Barata e o tenente Antnio Bento Tourinho. 
Como o mais importante preso 
poltico do pas, Prestes recebe atenes especiais: quem lhe d a 
notcia da assinatura da anistia  o seu antigo camandado Orlando Leite 
Ribeiro, com quem vivera
em

288

Buenos Aires, e que agora servia ao Governo Vargas como diplomata -no 
Itamaraty. Prestes  levado de carro por Ribeiro para a casa do escritor 
Lencio Basbaum,
e no caminho pede informaes sobre o destino de Olga e sobre seu amgo 
Arthur Ewert, que tinha sido beneficiado pela anistia, mas que talvez no 
tivesse condies
de desfrutar a liberdade: arrebentado pelas torturas, Ewert estava 
nternado numa clnica de loucos no Rio de Janeiro. Quanto a Olga, no 
havia qualquer informao 
a respeito. Prestes pede que as agncias internacionais de notcias sejam 
mobilizadas para tentar localiz-la nos campos de concentrao libertados 
pelos aliados 
na Europa. Um dos comandantes das tropas brasileiras na Itlia, o major
Emygdio Miranda, ex-oficial da Coluna Prestes, recebe a incumbncia de 
tentar localizar Olga
Benario e traz-la de volta ao Brasil. Em sua primeira declarao  
imprensa, Prestes expressa sua gratido ao general Lzaro Crdenas, ex-
presidente do Mxico,
pelo tratamento dedicado a Anita e a dona Leocdia, que falecera dois 
anos antes, com o filho preso. Nessa ocasio, Crdenas, que era ento 
ministro da Guerra de 
seu pas, se oferece a Getlio Vargas como refm para que Lus Carlos 
Prestes deixe a priso e possa ir ao Mxico assistir aos funerais da me 
- mas a proposta sequer 
 considerada pelo governo brasileiro. Quando um reprter pergunta sobre 
suas relaes com Vargas, Prestes oferece o primeiro indcio de que 
colocava a luta poltica 
acima das questes pessoais, ao anunciar claramente:
- O senhor Getlio Vargas tem dado provas de suas boas ntenes.
Quem tivesse acompanhado a trajetria do clandestino Partido Comunista 
nos ltimos anos no se surpreenderia com as palavras de Prestes. Nos 
primeiros meses de 1938, 
aps o frustrado putsch integralista materializado na tentativa de tomada 
do Palcio Guanabara pelos "camisas verdes" de Plnio Salgado, os 
comunistas apoiaram formalmente, 
em seu jornal A Classe Operria, a reao do governo de Vargas  
tentativa de golpe direitista. A adeso do Brasil s foras que lutavam 
contra o
289

nazifascismo, em 1942, contribuiria para reduzir a hostilidade do PC a 
Getlio. Naquele momento, porm, quem elogiava o presidente da Repblica 
era Lus Carlos Prestes,
que tinha sido pessoalmente vitimado pela represso dirigida por Vargas - 
no apenas com dez anos de priso, mas sobretudo pelo martrio a que o 
ditador submetera
sua mulher e sua filha, entregando-as aos nazistas. A primeira reao 
contra o apoio de Prestes a Vargas parte de seu antigo advogado, Sobral 
Pinto, que condena
"qualquer unio nacional com o senhor Getlio Vargas, nos moldes 
sugeridos pelo senhor Carlos Prestes". Sobral  duro e pessimista:
- Fortalecer de qualquer forma e sob qualquer pretexto a autoridade 
governamental do sr. Getlio Vargas  preparar para os dias de amanh, em 
nossa infortunada ptria,
uma guerra civil sem precedentes no continente americano.
Poucas semanas depois, falando em seu primeiro comcio pblico para 80 
mil pessoas no estdio do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, Prestes  
ainda mais preciso no
apoio ao governo:
A oposio exige que o Sr. Getlio Vargas abandone o cargo para que seja 
mantida a paz interna. Mas ser esse realmente o caminho democrtico da 
ordem, da paz e
da unio nacional? Ao contrrio, no ter razo o sr. Getlio Vargas ao 
afirmar que o seu dever  manter a ordem para levar o pas a eleies 
livres e honestas e 
entregar o poder ao eleito da Nao? Sua sada do poder neste momento        
, seria uma desero e uma traio que no contribuiria de forma alguma 
para a unio
nacional:        pelo contrrio, despertaria novas esperanas entre os 
fascistas e reacionrios e aumentaria as dificuldades, tornando mais 
ameaador ainda o
perigo de golpes de estado e de guerra civil. Assim como em agosto de 
1942 voltou-se o nosso povo para o sr. Getlio Vargas, na esperana de 
que o antigo chefe do
movimento popular de 1930 quisesse dirigi-lo na luta de morte contra o 
agressor nazista, o        que nosso povo espera agora do sr. Getlio 
Vargas, prestigiado
como est pela vitria das nossas armas na Itlia, so eleies realmente 
livres e honestas. Este o seu dever de homem e cidado. Apesar de todas 
as divergncias
polticas que j nos separaram de Sua Excelncia, contra cujo governo j 
lutamos de armas na mo, no temos o direito de duvidar do patriotismo do 
chefe da Nao.

290

Apesar de publicamente defender a legalizao do PC, o governo no 
ocultava o anticomunismo acumulado ao longo dos tempos de ditadura. 
Assim, dois dias depois o
general Dutra demitia da direo do DIP, o Departamento de Imprensa e 
Propaganda do governo, o major Amilcar Dutra de Menezes por ter 
emprestado o equipamento de 
som daquela repartio para que Prestes falasse ao povo. Esta seria, 
porm, a menor repercusso do comcio do Vasco. O apoio a Getlio Vargas 
custaria caro a Prestes 
dentro do prprio PC. Em So Paulo um grupo de intelectuais do partido se
ope  orientao da direo, liderada no Estado por Jorge Amado, a quem 
chamavam "o Rasputin
da linha justa". Em manifesto distribudo  imprensa, os escritores 
Oswald de Andrade, Rossine Camargo Guarnieri e Afonso Schmidt se insurgem 
contra a
determnao
prestista, afirmando que "a ditadura estava em plena decomposio, e ao 
formular elogios ao sr. Getlio Vargas, Lus Carlos Prestes abriu-lhe 
crditos imensos de
confiana, de que ele andava mais necessitado do que nunca". O jornal 
Vanguarda Socialista, dirigido pelo intelectual trotsquista Mrio 
Pedrosa, fazia cruel ironia
com o fato de que Vargas tivesse sido o autor da deportao de Olga para 
a Gestapo, sugerindo que os militantes do PC deveriam dirigir-se ao 
presidente da Repblica,
indagando: "Getlio Vargas, que fizestes de Olga Benario Prestes, 
entregando-a a Hitler?"
Indiferente s acusaes e  polmica, Prestes se preparava para o grande 
comcio do Pacaembu, em So Paulo. A mobilizao fora iniciada com vrias 
semanas de antecedncia. 
Havia comts de engenheiros, professores, dentistas, operrios txteis, 
metalrgicos, motoristas, garis. Na semana que antecedeu o dia 15 foram 
realizados comcios-relmpagos 
em vrios bairros da cidade, convidando o povo a ir ao Pacaembu. Em cada 
um deles, o encerramento cabia a um lder poltico, operrio ou 
intelectual do partido. 
No bairro da Casa Verde o ltimo a falar foi o fsico Mrio Schenberg; no 
Belm, o lder estudantil Joo Beline Burza; na Moca, o escritor Jorge 
Amado; no Tucuruvi, 
o dirigente estadual do PC Joaquim

291

Cmara Ferreira; no Brs, o jornalista Jos Tavares de Miranda. A 
organizao parecia impecvel: a populao se encontraria em vrios 
pontos do centro da cidade,
de onde partiria para a praa Buenos Aires e dali seguiria em passeata 
at os portes do estdio. Da casa de Tuba e Hirsch Schor, onde se 
encontrava, Prestes podia
ver o  movimento dos grupos que subiam a avenida Nove de
Julho, em direo ao Pacaembu.
Pouco depois das trs da tarde, Prestes decidiu sair.
Levado em carro aberto, ele era aclamado pelos manifestantes que se 
dirigiam ao comcio. Ao chegar ao Pacaem
bu, foi ovacionado por milhares de pessoas - no estdio com capacidade 
para 60 mil espectadores nas arquibancadas, calculava-se que havia mais 
de 100 mil pessoas, 
que tinham tomado tambm todo o gramado. Na tribuna oficial, aguardando o 
chefe comunista, estavam o general Miguel Costa, o jornalista Jlio de 
Mesquita Filho, 
representando a UDN, o poeta e senador comunista chileno Pablo Neruda, os 
capites Agildo Barata e Trifino Correia, o comandante Roberto Sisson. 
Durante duas horas 
desfilaram pela pista de atletismo do estdio delegaes de cidades do 
interior, de outros estados e de vrias categorias profissionais. Um 
grupo percorreu a pista 
levando uma bandeira do Brasil esticada pelas pontas, pedindo ao povo 
contribuies para as famlias das vtimas do cruzador brasileiro Bahia, 
afundado em acidente 
no final da guerra. Das arquibancadas choviam moedas e cdulas
amassadas. Aberto o comcio, falaram o general Miguel Costa e o 
secretrio estadual do PC, Mrio Scott. Doente
e impedido de estar no palanque, o escritor Monteiro Lobato enviou uma 
mensagem gravada. Depois da
execuo do hino nacional do Chile, foi dada a palavra a Pablo 
Neruda, que em lugar de fazer um discurso, declamou um poema que 
compusera em homenagem a Prestes, comovendo a multido com seus ltimos 
versos:
Hoy pido un gran silencio de volcanes y rios. Un gran silencio pido de 
tierras e varones. Pido silencio a America, de la nieve a la pampa. 
Silencio: la palabra al 
Capitn del Pueblo. Silencio: que el Brasil hablar por su boca.

292

Emocionada, a massa humana no parava de aplaudir. Bem humorado, Neruda 
voltou ao microfone e repetiu a ltima linha do poema:
- Silencio: gue el Brasfl kablar por su boca. Tocaram o hino nacional 
brasleiro e Prestes falou durante uma hora e meia. Fez uma longa anlise 
da situao mundal, 
da derrota do nazi-fascismo e de suas conseqncias na vida brasileira. 
Relembrou que a Aliana Nacional Libertadora mal vivera um trimestre, 
referiu-se  derrota 
de 1935 e  "brutalidade infame contra ns empregada pela polcia 
fascistizante de Filinto Mller", discorreu longamente sobre a crise 
econmica vivida pelo Brasil 
e, embora no tivesse citado uma s vez o nome de Getlio Vargas, voltou 
a tocar no ponto que tanta polmica provocava - os comunistas apoiavam o 
presidente:
Lutamos e lutaremos pela Unio Nacional. O governo vem h muito cedendo 
no sentido da democracia e marcha, por isso, em sentido inverso daquele 
por que levava 
o pas nos anos anterores  grande guerra pela independncia e 
libertao dos povos. Se naquela poca soubemos empunhar armas em defesa 
da democracia, agora tambm
a defenderemos, apoiando o governo em defesa da ordem e desmascarando sem 
vaclaes os agentes da desordem, todos aqueles que pregam os golpes 
salvadores e a guerra
civil falando em democraca, mas que no passam, na verdade, de 
instrumentos da provocao fascista.
Era noite fechada quando Lus Carlos Prestes deixou o Pacaembu em direo 
 estao Roosevelt, onde tomaria um trem de volta ao Rio de Janeiro. 
Cercado de amgos
ele se preparava para subir a escada do vago-leito, quando um jovem 
chegou correndo, abrindo passagem entre os que se despediam do chefe 
comunista:
- Capito Prestes! Capito Prestes! Um momento, no embarque!
Temeu-se uma tentativa de agresso, mas o rapaz se identificou:
- Sou reprter da agncia de notcias United Press. Ns tnhamos pedido 
s sucursais europias que buscassem mformaes sobre Olga Benario, e 
acabamos de

293

receber este telegrama sobre ela, enviado pelo correspondente em Berlim.
Ansioso, Prestes levou o pedao de papel aos olhos e leu-o com o rosto 
crispado, diante do
silncio dos amigos que o fitavam. Levantou a cabea e disse apenas trs
palavras:
- Olga est morta.
Era um despacho curto, sem muitos detalhes:
Berlim - As autoridades aliadas acabam de informar que entre as 200
mulheres executadas na cmara de gs da cidade alem de Bernburg, na
Pscoa de 1942, estava a
senhora Olga Benario Prestes, esposa do dirigente comunista brasileiro
Lus Carlos Prestes.
Prestes entrou no trem que j comeava a se movimentar rumo ao Rio de
Janeiro, caminhou por entre as poltronas em silncio sentou-se e leu mais
uma vez a notcia,
antes de guardar o papel no bolso do palet.
S muitos anos depois  que ele receberia a ltima carta que Olga
escrevera a ele e  filha, ainda em Ravensbrck, na noite da viagem de
nibus para Bernburg.
Queridos: Amanh vou precisar de toda a minha fora e de toda a
minha vontade. Por isso, no posso pensar nas coisas que me torturam o
corao, que so mais caras que a minha prpria vida. E por isso me
despeo de
vocs agora.
 totalmente impossvel para mim imaginar, filha querida, que no
voltarei a ver-te, que nunca mais voltarei a estreitar-te em meus braos
ansiosos. Quisera
poder
pentear-te, fazer-te as tranas - ah, no, elas foram cortadas. Mas te
fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou
fazer-te forte. Deves
andar de sandlias ou descala, correr ao ar livre comigo. Sua av, em
princpio, no estar muito de acordo com isso, mas logo nos entenderemos
muito bem. Deves
respeit-la e quer-la por toda a tua vida, como o teu pai e eu fazemos.
Todas as manhs faremos ginstica... Vs? J volto a sonhar, como tantas
noites, e esqueo
que esta  a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a
idia de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho clido  para mim
como a morte.

294

Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a tudo de bom
que me destes? Conformar-me-ia, mesmo que no pudesse ter-te muito
prximo, que teus olhos
mais uma vez me olhassem. E queria ver teu sorriso. Quero-os a ambos,
tanto, tanto. E estou to agradecida  vida, por ela haver-me dado a
ambos. Mas o que eu gostaria
era de poder viver um dia feliz, os trs juntos, como milhares de vezes
imaginei. Ser possvel que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te
sentes por nossa filha?
Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro debaixo das mantas
para que ningum me oua, pois parece que hoje as foras no conseguem
alcanar-me para suportar
algo to terrvel.  precisamente por isso que esforome para despedir-me
de vocs agora, para no ter que faz-lo nas ltimas e difceis horas.
Depois desta noite,
quero viver para este futuro to breve que me resta. De ti aprendi,
querido, o quanto significa a fora de vontade, especialmente se emana de
fontes como as nossas.
Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao
despedir-me, que at o ltimo instante no tero porque se envergonhar de
mim. Quero que
me entendam bem: preparar-me para a morte no significa que me renda, mas
sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no
entanto, podem ainda acontecer tantas
coisas... At o ltimo momento manter-me-ei firme e com vontade de viver.
Agora vou dormir para ser mais forte amanh. Beijo-os pela ltima vez.
Olga

Eplogo
Olga Benario Prestes d nome a ruas de sete cidades e a 91 escolas,
fbricas e brigadas operrias na Repblica Democrtica Alem. Na cidade
de Ribeiro Preto, em
So Paulo, h uma rua com seu nome.
Lus Carlos Prestes vive no Rio de Janeiro. Rompeu com o Comit Central
do Partido Comunista Brasileiro em fevereiro de 1980 e trs meses depois
foi destituido do
cargo de secretrio-geral da organizao.
Anita Leocdia vive com sua tia Lgia Prestes no Rio de Janeiro, onde 
professora universitria. Afastou-se do PCB junto com o pai.
Anistiado em 1945, Arthur Ewert foi levado um ano depois  ento zona de
ocupao sovitica na Alemanha. Morreu em 1959 na Repblica Democrtica
Alem sem ter recuperado
a razo.
Otto Braun retornou  URSS em 1939. Dez anos depois mudou-se para Berlim
Oriental, onde morreu como tradutor do Instituto de Marxismo-Leninismo.
Rodolfo Ghioldi morreu em julho de 1985 em Buenos Aires.

296

Agildo Barata desligou-se do PCB em 1957. Dez anos depois teve patente
militar cassada pelo governo. Morreu aos 63 anos no Ro de Janeiro, em
1968.
Anistiado em 1945, Antonio Maciel Bonfim, o Miranda, caiu na mais
completa obscuridade poltica. Morreu tuberculoso em Alagoinhas, interior
da Bahia.
Sobral Pinto  advogado no Rio de Janeiro.
Miguel Costa morreu em dezembro de 1959.
Filnto Mlter morreu em julho de 1973, em desastre areo no aeroporto de
Orly, na Frana. Na poca era senador pela Arena e lder do governo
militar no Senado.
O embaixador Jos Joaquim Moniz de Arago aposentou-se do servio
diplomtico em 1952 e morreu em 1974, aos 87 anos, no Rio de Janeiro.
O mdico nazista Irmfried Eberl e a enfermeira Kthe Hackbarth foram
fuzilados pelas tropas que ocuparam o campo de extermnio de Bernburg.
H poucas notcias do destino dos militantes da UJC que participaram do
assalto  priso de Moabit. Rudi Knig morreu na Espanha, lutando junto
s Brigadas Internacionais.
Margot Ring foi executada em uma cmara de gs no campo de concentrao
de Dachau. Preso pela Gestapo, Erich
Jaszech passou vrios anos preso e foi executado em
uma cmara de gs em 1943. Erick Bormbach foi fuzilado por tropas SS.
Klara Selcheim morreu
na "Marcha da morte", no campo de concentrao de Sachseroausen.
O campo de concentrao de mulheres de Ravensbrck foi libertado pela
49 Diviso de Infantaria do Exrcito Vermelho em 30 de abril de 1945,
oito dias antes da
rendio alem,
I I
I
        Depoimentos tomads I         pelo autor
- Anna Pikarski
- Anni Sindermann
- Anita Leocdia Prestes - Beatriz Bandeira
Ryff (*)
- Carmen Ghioldi
- Celestino Paraventi - Dora Mantay
- Emmy Handke - Gabor Le~~in
- Helmut F. Spte - Herta Lewin
- Ilze Hunger
- Jos Gay da Cunha
- Klaus Martin - Kurt Seibt - Ligia Prestes
- Lus Carlos Prestes - Manoel Batista Cavalcanti
- Maria Werneck de Castro
- Milton Cayres de Brito - Rodolfo Ghioldi
- Tuba Schor
- Wilfried Rupert - Zuleika Alambert
(*) Depoimento concedido a Paulo Csar de Azevedo.
~ A ~~~~ .
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Giangiacomo Feltrinelli (Milo, Itlia)
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Sacchetta (So Paulo - SP) - Arquivo Histrico do Ministrio das Relaes
Exteriores do Brasil (Rio de Janeiro - RJ) - Arquivo Nacional (Rio de 
Janeiro - RJ)
- Arquivos da Penitenciria Lemos de Brito (Rua Frei Caneca) - (Rio de 
Janeiro - RJ) - Bernburg Stadtarchiv
(Bernburg, Repblica Democrtica Alem) - Biblioteca Municipal Mrio de 
Andrade (So Paulo - SP)
- Biblioteca Municipal Presidente Kennedy (So Paulo - SP)
- Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro - RJ)
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Brasil - Fundao Getlio         Vargas - CPDOCjFGV         (Rio de 
Janeiro, RJ) - Comit
de Resistentes Antifacstas da RDA         (Berlim, Repblica Democrtica 
Alem) - Departamento de Documentao da Editora Abril         (So Paulo 
- SF) - Dokumentationszentrum
der DDR         (Berlim, Repblica Democrtica Alem) - Iconographia, 
Pesquisa de Texto, Imagem e Som         (So Paulo - SP) - Institut fr 
Marximus-Leninismus
- Zentrales         Parteiarchiv (Berlim, Repblica Democrtica Alem) - 
Mus Air France (Paris, Frana) - I~Iational Archives (Washington, 
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Mahn-und Gedenksttte         (Ravensbrck, Repblica Democrtica Alem) 
- Public Record Office (Londres, Inglaterra) - Superior Tribunal Militar 
(Braslia, DF)
- Supremo Tribunal Federal (Braslia, DF) - Yad Vashem - Martyrs and 
Heroes Remembrance         Authority (Jerusalm, Israel)
Jornais, Revistas e Peridicos
- Amnistia (Argentina) - Berliner Zeitung am Mittag (Repblica 
Democrtica Alem) -
Classe Operria, A - Correio da Manh - Correio Paulistano - 
Correspondance Internationale,
Le (Frana) - Cruzeiro, O - Daily Worker (Inglaterra) - Diro de S. 
Paulo - Em Guarda! - Estado de S. Paulo, O

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- Mundo Ilustrado
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Nation, The (Inglaterra)
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- Noite Ilustrada, A - Nosso Sculo
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Indice Onomstico
ABOBORA (v. Xavier. Eduardo Ribeiro) 133, 160
ABREU, Amanda Alberto 107 ALBERTO, Armanda Alvaro 175 ALBERTO Joo 148
ALMEIDA (v. Meirelles, Ilvo) 138
ALMEIDA, Demcrito de 195, 204
ALMIRANTE I47 ALVES, Francisco 147 ALVES, Jlio 191, 210, 211 AMADO, 
Jorge 120, 290 AMIGUINHA 1S7 ANAHORY, Israel Abraho 56 ANDERSON, 
Sherwood 163 ANDRADE, Hernani
de 194 ANDRADE, Jos Praxedes de 95 ANDRADE, Oswald de 63, 290 ANTNIA 
138
ANTNIO (v. Prestes, Lus Carlos) 138
APPEN, Heinrich von 218, 220, 221, 222, 223
ARAGAO, Jos Joaquim Moniz de 170, 174, 223, 224, 239, 20 ARTHUR, 
Charles 163 ARTHUR, Chester 163 ASTAIRE, Fred 7
AZEVEDO, Agliberto Vieira de 82, 104
BABO, Lamartine 147 BAG (v. Campos, Josu
Francisco de) 111 dr. BALESTRE 133 BANCOURT, Annie (v. Ewert,
Elise Saborowski) 69 BANDEIRA, Beatriz 174, 210, 217 '
BANGU (v. Rocha, Lauro Reginaldo da) 122, 138, 159, 160 BANNERMAN, R.C. 
123 BARATA, Agildo 82, 97, 102, 103,
104, 105, 115, 202, 287, 291 BARRETO, Barros 184, 234 BARRON, C. N. 75
BARRON, Victor Allen 68, 74, 75, 79, 80, 97, 100, 109, 115, 122, 134, 
135, 136, 137, 139, 149, 153, 154, 160, 161, 162, 163, 164, 165, 276
BARROS, Hermenegildo de 199 BARROS, Quintno de 95 BASBAUM, Lencio (v. 
Machado) 138, 288
BASTOS, Abguar 82 BASTOS, Adolfo Barbosa 184 BASTOS, Valentina Barbosa 
175, 184
BEHRENDT, Arthur (v. Braun, Otto) 21, 34, 173 BEHRENDT, Frieda Wolf (v.
Benario, Olga) 21, 34, 172, 206 BELL, Alexandre Graham 181
308
BENARIO, Eugnie Gutmann 16, 236, 237
BENARIO, Gutmann 20 BENARIO, Leo 16, 17, 34, 35, 236 BENARIO, Olga (v. 
Behrendt,
Frieda Wolf; Benario, Olga Gutmann; Berger, Olga; Bergner, Maria; Kruger, 
Eva; Meirelles, Maria; Meirelles, Olga; Prestes, Maria; Prestes, Maria 
Bergner; Prestes, 
Olga Benario; Sinek, Olga; Vilar, Maria Bergner; Vilar, Olga; Vilar 
Yvone) 03, 04, 05, O6, 15, 16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 25, 27, 
29, 30, 31, 32, 33, 34, 
35, 36, 37, 39, 40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 49, 50, 51, 53, 54, 55, 56, 
57, 58, 59, 60, 61, 62, 64, 67, 68, 72, 74, 77, 78, 79, 83, 85, 86, 87, 
88, 91 92 95, 96, 
97, 98, 99, 107, 108, 109, 112, 114, 115, 121, 122, 139, 141, 142, 146, 
147, 148, 149, 150, 152, 153, 156, 159, 169, 170, 17I, 172, 173, 174, 
175, 176, 177, 178, 
179, 181, 182, 183, 184, 185, 187, 189, 190, 192, 193, 194, 195, 196, 
197, 199, 201, 202, 203, 204, 205, 206, 207, 208, 209, 210, 211, 212, 
213, 214, 215, 217, 218, 
219, 220, 221, 222, 223, 224, 225, 226, 227, 228, 229, 230, 231, 232, 
233, 234, 235. 236, 237, 238, 239, 240, 241, 243, 244, 245, 246, 247, 
248, 249, 250, 251, 252, 
253, 254, 255, 256, 257, 259, 260, 261. 262, 263, 264, 265, 266, 267, 
268, 270, 271, 272, 273, 275, 276, 277, 278, 282, 283, 288, 290, 292, 
293, 294
BENARIO, Olga Gutmann (v. Benario, Olga) 20, 30, 34 BENARIO, Otto 237 
BERGER, Harry (v. Ewert,
Arthur Ernst) 68, 73, 74, 75, 98, 109, 111, 112, 116, 117, 118, 125, 138, 
155, 156, 157, 161, 165, 167, 170, 172
BERGER, Machla (v. Ewert, Elise Saborowski) 167 BERGER, Olga (v. Benario, 
Olga) 169, 172, 206
BERGNER, Maria (v. Benario, Olga) 167, 171, 204
BERNARDES, Artur da Silva 08, 11
BERTAM, Lina 277 BESOUCHET. Augusto (v. Carlos) 138
BESOUCHET. Catarina 175 BEVILCQUA, Clvis 195, 196 BEZERRA, Gregrio 82 
BLASER, Edith 127 BLEMKE, Gunnar 01 BOMBACH, Erick 04 BONFIM, Antnio 
Maciel (v.
Fernandes, Adalberto de Andrade; Miranda) 65, 88, 120, 128, 137, 138, 
139, 189, 190
BRANDAO, Mrio de Pimentel 240
BRANDAO, Octvio 74 BRANDES, Carlos 209, 210, 211, 212, 215
BRASIL, Paulo 149 BRAUN, Otto (v. Behrendt, Arthur; Hua Fu; Landeburg, 
Hans; List, Albert; Li Teh; Resch, Erwin; Schumann, Oscar; Wagner, Karl) 
Ol,
02, 03, 04, 05, 06, 15, 18, 19, 20, 21, 22, 23, 24, 29, 30, 31, 32, 33, 
34, 35, 36, 37, 39, 40, 41, 42, 43, 44. 55, 72, 172, 173, 226, 246, 249
BRAUN, Werner von 268 BRINTON, Crane 163
BRITO (v. Molares, Jos Lago) 159
BRITO, Milton Cayres de 284 BROWDER, Earl 69, 125 BROWN, Arthur (v. 
Ewert,
Arthur Ernst) 69, 111 BUBER-NEUMANN, Margarete 276, 277
BUKHARIN, Nicolai 70, 71 BURDETT. Willian C. 113 BURZA, Joo Beline 290 
BUSTEROS, Luciano (v. Ghioldi,
Rodolfo) 68, 73, 132
CABEAO (v. Lyra, Francisco Natividade) 160
CABELLO, Benjamin 81, 82 CAMARA, Digenes de Arruda 285
CAMARGO, Laudo de 199
309
CAMPBELL, Marian Cameron 166
CAMPOS, Josu Francisco de (v. Bag) 111
CAMPOS, Siqueira 64 CANDU, Leonardo 85 CARDENAS, Lzaro 288 CARLOS (v. 
Besouchet,
Augusto) i38 CARLOS (v. Leite, Carlos Costa) 138
CARMO, Orlando 195 CARPENTER, Lus 106 CARTER, Albert 162 CASADO. Plno 
199 CASCARDO, Hercolino 80, 82, 115, 202
CASTRO, Luiz Werneck de 178, 207
CASTRO, Maria Werneck de 107, 158, 174, 178, 207, 210, 213, 214, 215
CATERVAS 104 CAVALCANTE, Ilcon 84 CAVALCANTI, Alcedo 202 CAVALCANTI 
Filho, Lus 242 CAVALCANTI, Manoel Severino
(v. Gaguinho) 160 CAVALEIRO DA ESPERANA (v. Prestes, Lus Carlos) 08, 
51, 67, 85, 122, 161, 203
CHERMONT, Abel 165 CHILLES, Ethel 127 CHU TEH 73
CLETO 157
COLNIO, Elvira Cupelo
(v. Fernandes, Elza; Garota) 120. 131, 132, 158, 159, 160, 178, 189
COPLAND, Aaron 163 CORREIA, Affonso de Miranda 92, 116, 119, 120, 123, 
124, 128, 133, 141, 143, 152, 154, 156, 190, 1%
CORREIA, Andr Trifino 97, 101, 287, 291
COSTA (v. Leite, Carlos Costa) 138
COSTA, Lineu 148
COSTA, Miguel 07, 08, 10, 82, 92, 93, llb, 144, 145, 291
COSTA, Oswaido (v. Ramalho) t38
COUTINHO, Lamartine 95 COWLEY, Malcom 163
CRUZ, Paulo Kruger da Cunha 87
CRUZ, Vitor Cesar da Cunha 99, 100, 107
CUNHA, Jos Gay da 183, 211
DALADIER 137 DAVIS, Monnet 117 DIMITROV, Georgi 89 DREISER, Theodore 163 
DRUJON, Franois 238, 243, 244 DUTRA, Eurico Gaspar 103, 104, 105, 287
EBERL, Imfried 281, 282 EISLER, Gerhardt 70 ELIAS, Deolinda 88, 112 EMMA 
138
ENGELS, Friedrich 12, 24 ERNESTO, Pedro 116, 139, 148, 189
ERXLEBEN, Gunter 27 ESPfNOLA, Eduardo 199 ESTEVAO 94
EWERT, Arthur Ernst (v. Berger, Harry; Brown, Arthur; Negro) 67, 68. 69, 
70, 71, 72, 73, 74, 76, 78, 79, 83, 86, 88, 95, 96, 98, 107, 108, 109, 
110, 111, 112, 113, 
116, 117, I18, 119, 120, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 131, 
132, 135, 136, 137, 138, 139, 149, 155, 165, 166, 167, 172, 174, 190, 
223, 229, 230, 231, 234, 
239, 252, 253, 268, 276, 288
EWERT, Elise Saborowski (v. Bancourt, Annie; Berger, Machla; Leczycki, 
Machla; Sabo; Saborowski, Elise) 67, 69, 72, 78, 79, 88, 108, 109, 112, 
117, 118, 120, 122, 
123, 125, 126, 127, 128, 129, 135, 136, 137, 149, 165, 166, 167, 185, 
206, 207, 209, 217, 218, 219, 220, 221, 223, 225, 249, 252, 253, 266, 
268, 276
EWERT, Mina 167, 229
FARIA, Bento de 199 FARIAS, Oswaldo Cordeiro de 144, 155
310
FERNANDES, Adalberto de Andrade (v. Bonfim,
Antnio Maciel) 120, 127, 128, 138, 157
FERNANDES, Elza (v. Colnio, Elvira Cupelo) 120, 121, 158 FERNANDES, 
Rafael 94 FERNANDZ, Pedro (v. Prestes,
Lus Carlos) 53 FERREIRA, Affonso 103 FERREIRA, Joaquim Cmara 291
FIRMO (v. Leite, Carlos Costa) 138
FLORES 104 FONTOURA, Lauro 84 FOSTER, William 69 FRANCO, Francisco 180, 
281 FRANCO, Virglio de Mello 148 FRANK, Waldo 163
FREEMAN, Richard Gavin 166 FRIEDA 32
FROTA, Slvo 84 FRUSCHULZ, Gertrud 251, 252, 253
GAGUINHO (v. Cavalcanti, Manoel Severino) 160 GALVAO, Joo 95
GALVAO, Jos Torres 123, 124, 128, 149, 150, 151, 156, 194 GALVAO, 
Patrcia 63
GAR 157
GARIBALDI, Anita 227, 231 GARIBALDI, Giuseppe 227 GAROTA (v. Colnio, 
Elvira
Cupelo) 120, 157, 158, 159, 160 GAROTO (v. Prestes, Lus Carlos) 115, 
131, 138, 294
GEBHARDT, Karl 277, 279 GEIST, Raymond 117 GEORGE, Harrison 74, 75, 135, 
136
GHIOLDI, Carmen Alfaya de 68, 74, 75, 79, 132, 133, 158, 175, 178, 182, 
183, 185, 206, 207, 24~1, 276
GHIOLDI, Rodolfo (v. Busteros, Luciano; Indio) 12, 73, 74, 75, 79, 84, 
88, 89, 91, 95, %, 101, 132, 133, 134, 139, 141, 143, 169, 179, 180, 181, 
193, 190, 192, 193, 
211. 276
GIBSON, Hugh 117, 123, 135, 163, 164
GIN 157 GIVON 62 GLEIZER, Genny 188 GOETHE 147
GOMES, Eduardo 103, 105 GOMES, Joo 190 GOMES, Jos 122
GOMES, Paulo Emlio Salles 188 GRAWITZ, Otto 277 GROMYKO, Andrei 286 
GRUBER, Erika 68, 75, 79, 99, 113, 276
GRUBER, Paul Franz 68, 75, 79, 88, 99, 109, 112, 113, 276 GRtINSPUN, Ruth 
283 GUARNIERI, Rossini Camargo 290
GUILHEM, Aristdes 190 GUIMARAES, Honrio de Freitas (v. Martins; 
Milionrio; Nico) 138, 159, 160
GURALSKY, Augusto (v. Kleiner; Rstico) 13, 71
GURGEL (v. Leite, Josias) 138 GUSMAO (v. Medina, Jos) 138 GUSSFELD, 
Kathe 127
HACKBARTH, Kathe 281 HANDKE, Emmy 03, 276, 283 HASTINGS, Christine 166, 
205 HELLMAN, Lilian 163 HENRIQUES, Dinis 94 HENSCHEL, Charlotte 249, 277, 
278
HILL, Edna 75, 160, 161, 162, 163 HIMMLER, Heinrch 268, 269, 270, 271. 
2T9
HITLER, Adolf 71, 78, 180, 187, 197, 212, 215, 226, 246, 251, 253, 255, 
257. 268, 270, 275, 277, 279, 290
HOLLIS, Roger 73 HOOVER, J. Edgard 117 HORA, Sebastio da 202 HORTA, 
Oscar Pedroso 47 HUA FU (v. Braun, Otto) 72 HULL, Cordel 113, 117, 123, 
135,
136, 161, 162, 163, l64
IBARRURRI, Dolores (vFasionaria, La) 89, 205
311
INDIO (v. Ghioldi, Rodolfo) 131, 132, 133
ISMAR (v. Meirelles, Ilvo) 138 ITARARE, Baro de (v. Torelli, Aparcio) 
177, 191, 195
JAZOSCH, Erich 04 JELEN, Veriano 287 JOHNSON, Alexander 164, 165 
JOLANSKY, Ilsa 276
JULIO (v. Besouchet, Augusto) 138
JULLIEN, Francisco 112, 123, 128, 129, 132, 133, 137, 149, 151 JUNGHANS, 
Heinz 34
KAI-CHECK, Chiang 72 KARAN, Mansur 231 KELLY, Otvio 199 KEMPRAD, Raphael 
192 KIMBER, Kathleen 235 KING-KONG 214, 215 KLEINER (v. Guralsky,
Augusto) 12 KLING 33
KLOSE, Tilde 273, 283 KOJEVNIKOVA, Tamara 45 KONDER, Valrio 213 KtSNIG, 
Rudi 04
KRUEL, Riograndino 155 KRUGER, Eva (v. Benario, Olga) 44, 45, 49, 172, 
206
KUHN, Bela 89
LACERDA, Carlos 82 LAGO, Lauro 95 LANDEBERG, Catharina 107 LANDEBURG. 
Hans (v. Braun, Otto) 173
LANGER, Irene 283 LASSANCE, Carlos 241, 243 LAVAL 137
LEAO, Souza 113 LEICHNER, Kate 278 LEITE, Amrico Dias 59, 87, 177, 178
LEITE, Carlos Costa (v. Carlos; Costa; Firmo) 138 LEITE, Josias (v. 
Gurgel) 138 LENCZYCKI, Machla (v. Ewert,
Elise Saborowski) 68, 73, 125 LENIN, V. I. 11, 24, 25; 41. 48 ~.EWII~, 
Gabor 03, 31, 42. 43
LIEBKNECHT, Karl 22, 24 LIMA, Heitor Ferreira 195, 196,
197, 198, 199, 208, 209 LIMA, Hermes 193
LIMA, Loureno Moreira 11, 145 LIN PIAO 73
LINS, Edumundo 198, 199 LIST, Albert (v. Braun, Otto) 73 LISTOWEL 205
LI TEH (v. Braun, Otto) 72, 73 LOBATO, Monteiro 291 LOLOTTI, Carlos 149
LOPES, Isidoro Dias 08 LOVESTONE, Jay 69, 70 LUIS, Washington 13 
LUXEMBURGO, Rosa 22, 224 LYRA, Francisco Natividade
(v. Cabeo) 160
MACEDO, Jos 95 MACHADO (v. Basbaum,
Lencio) 138 MACHADO, Dyonlio 82 MALINOVSKY 286 MALRAUX, Andr 206 
MANGABEIRA, Francisco 82, 106
MANSO, Costa 199 MANTAY, Dora 27 MANUILSKI, Dmitri 48, 49, 50,
54, 76, 189, 204 MARCANTONIO, Vito 164 MARIGHELLA, Carlos 287 MARIZ. 
Dinarte 98 MARTINS (v. Guimares,
Honrio de Freitas) 138 MARX, Karl I1, 24 MAXIMILIANO. Carlos 199 MAXIMO, 
Lus 102 McREYNOLDS, Sam 164 MEDEIROS, Maurcio de 106 MEDINA, Jos (v. 
Gusmo) 138 MEIRELLES, 
Francisco 159 MEIRELLES, Ilvo (v. Almeida;
Ismar) 138, 143
MEIRELLES, Maria (v. Benario, Olga) 171
MEIRELLES, Olga (v. Benario, Olga) 168, 171, ~06 MEIRELLES, Rosa 174, 
182, 183 MEIRELLES, Sylo 82, 95, 169 MEISSNER Junior, Carlos 173 MEL 15i
3i2
MENDONA, Borges de 154 MENEZES, Amlcar Dutra de 290
MENGELE, Josef 280 MENNECKE, Frtz 280 MENZER, Rosa 283 MESQUITA Filho, 
Jlio de 291 MILES, May 235
MILIONARIO (v. Guimares, Honrio de Freitas) 138, 159, 160
MIRANDA (v. Bonfim, Antnio Maciel) 65, 76, TI, 88, 91, 95, %, 97, 98, 
101, 120, 121. 122, 131, 133, 137, 138, 158, 159, 178, 189
MIRANDA, Carmen 147 MIRANDA, Emygdio 288 MIRANDA, Jos Tavares de 291 
MOLARES, Jos Lago (v. Brito) 159
MORAES, Eneida de (v. Nat) 138, 174
MOREIRA, Eugnia lvaro 174 MOTTA, Carlos Carmelo de Vasconcellos 2fi4
MOURA, Francisca 174 MOURAO, Carvalho 199 MOURO Filho, Olympio 243 
Mt7LLER, Filinto Strmbling 89,
92, 106, 107, 109, I10, 111, 112, 113, 114, 115, llb, 117, 119, 131, 132, 
134, 135, 136, 143, 144, 145, 146, 147, i48, 149, 150, 152, 153, 154, 
155, 156, 157, 158, 
166, 175, 177, 180, 185, 189, 190, 194, 195, 197. 201, 202, 2D4, 207, 
208, 209, 210, 212, 213, 217, 220, 233, 255, zs, Z2
MLLER, Wilhelm 22. 27, 36 MUSSOLINI, Benito 180
NASCIMENTO, Padre 191, 192, 193
~IAT (v. Moraes, Eaeida de) 138 NAVA. Pedro IOi
NEGRO (v. I:H~ert, Arihur Ernst) 131, i38
NEIVA, Aloysio 202, 209, 212, 213
NEKIEN, Rudolph Ol, 02 NERUDA, Pablo ?.9I, 292 NEUlkIAPdN 35 NELtMANN, 
Heit~ ~'7, 277
NEUMANN. Joo Guilherme 217, 218, 219, 220, 222. 223
NICO (v. Guimares, Honrio de Freitas) 138
NICOLUCCI, Haide 175, 184 NOGUEIRA Filho, Paulo 286
OBERHEUSER, Herta 276, 280 OLIVEIRA, Armandv de Salles 286
OLIVEIRA, Rgis de 166, 167 OTERO, Francisco Leivas 102
PAIVA, Ataulpho de 199 PANDARSKY, Olga Jazikoff 170 PARANHOS, Manuel 60 
PARAVENTI, Celestino (v.
Salvador) 63, 64, 77, 142 PASIONARIA, La (v. Ibarrurri, Dolores) 89, 205
PASSOS, John dos 163
PAZ. Manuel Venncio Campos da 82, 211
PAZ Junior, Manuel Venncio Campos da 177, 213, 214, 215 PEDROSA, Mrio 
290 PEIXOTO, Ernni do Amaral 103
PEIXOTO, Luiz Felipe 218, 223 PEREIRA, Antonio Canavarro I1, 141, 154, 
155. 190
PEREIRA. Astrojildo I1, 12. 13, 54, 74
PICCININI, Arthur 188 PINTO, Herclito Fonioura Sobral 230, 231, 233, 
234, 238, 240, 241, 242, 255, 289
PIZA, Luiz de Toledo 286 PORTO, Eucico Bellens 154, 155, 185, 189
PRADO 157 PRADO, Edwar 84
PRADO Jnior, Caio fi0, 82, 83, 92
PRESTES, Anta Levcdia 227, 228, 229, 23I, 232. 234, 236, 237, 23R, 239, 
241, 242, ?43, 244, 245, 24b. 247, 248, 252. 254, 255, 25, 265, ''88, 
294
PRESTES, Clotilde 4 PRESTES, I,elosa 4b, 4? PRrSTES. Jlio 13
313
PRESTES, Leocdia 09, 46, 47, 49, 53, 55, 204, 205, 225, 226, 227, 228, 
229, 230, 231, 232, 233, 234, 236, 237, 238, 240, 241, 243, 244, 247, 
252, 253, 255, 264, 
288
PRESTES, Lgia 46, 53, 204, 205, 225, 228, 229, 230, 232, 237, 238, 241, 
243, 244, 248, 253, 265
PRESTES, Lcia 46 PRESTES, Lus Carlos (v. Antnio; Cavaleiro da 
Esperana; Fernandz, Pedro; Garoto; Villar, Antnio) 07, 08, 09, 10, 11, 
12, 13, 46, 47, 48, 49, 
50, 53, 54, 55, 56, 57, 58, 59, 60, bl, 62, 63, 64, 65, 67, 68, 71, 74, 
77, 78, 79, 80, 81, 82, 83, 84, 85, 86, 87, 88, 89, 91, 92, 93, 94, 95, 
96, 97, 98, 99, 101, 
102, 104, 105, 108, 109, 112, 113, 114, 115, 116, 120, 121, 122, 126, 
128, 129, 131, 133, 135, 136, 138, 139, 142, 143, 144, 145, 147, 148, 
149, 150, 151, 152, 153, 
154, 155, 156, 157, 159, 161, 163, 167, 169, 170, 171, 172, 178, 182, 
184, 185, 187, 188, 189, 190, 194, 195, 197, 198, 202, 203, 204, 205, 
206, 207, 213, 220, 22S, 
226, 227, 229, 230, 231, 233, 234, 235, 236, 237, 238, 239, 240, 241, 
242, 243, 247, 248, 252, 253, 254, 255, 264, 265, 275, 285, 286, 287, 
288, 289, 290, 291, 292, 
293 294
PRESTES, Maria (v. Benario, Olga) 171, 172, 178, 183, t97, 198, 206, 208, 
210, 211. 212, 213, 215
PRESTES, Maria Bergner (v. Benario, Olga) 185 PRESTES, Olga Benario (v.
Benario, Olga) 167, 238, 242, 244, 249, 283, 290, 293
`T.!FTRf)? Filho, Eusbio dc ;.1~, 1';. 184. ?03
~tAMALHO (v. Costa, Oswaldo) 138
RAMOS, Graciliano 180, 181, 190, 212
RANKIN, Jeanette 163
RAO, Vicente 116, 143, 156, 190, 197, 208
REBELO, Castrv 106 REIS, Dinarco 104
RESCH, Erwin (v. Braun, Otto) 173
REZENDE, Lenidas 106 RIBEIRO, Ivan 104, 287 RIBEIRO, Orlando Leite 64, 
287, 288
RING, Margot 04
ROCHA, Lauro Reginaldo da (v. Bangu) 122, 138, 1S9, 16t1 ROD, Carmona 
07, 11 ROGERS, Gnger 87 ROLLAND, Romain 206 ROMANO, Emlio 106 
ROOSEVELT, Franklin 162, 163, 
229
ROSA, Noel 147 RSTICO (v. Guralsky, Augusto) l~, 71 RUTH 25
SABO (v. Ewert, Elise Saborowski) 69, 86, 88, 107, 108, 109, I10, 117, 
118, 127, 174, 178, 179, 219, 220, 221, 223, 253, 266, 268
SABOROWSKI, Elise (v. Ewert, Elise Saborowski) 68 SALAZAR, Antnio 
Oliveira 56 SALGADO, Plnio 85, 288 SALVADOR (v. Paravent, Celestino) 63
SANTOS, Adelino Decola dos (v. Tampinha) 159, 160 SANTOS, Jlia dos 120, 
147, 151, 152
SANTOS, Manoel dos 121, 122, 147, 148, 149
SAPIR, Edward 163 SARRAULT 137 SCHEMBERG, Mrio 290 SCHILLER 147 SCHIMDT, 
Afonso 290 SCHIMDT, Ernst Ol, 02 SCHNEIDER, Benjamin 139 SCHOR. Hrsch 
284, 291 SCHOR, 
Tuba 284 SCHUMANN, Martin 278 SCHUMANN, Oscar (v. Braun, Otto) 173
SCOTT, Mrio 291 SEIBT, Kurt 25
314
SELEHEIM, Klara 04 SILVA, Scrates Gonalves da 104
SILVA, Timotheo Ribeiro da 80, 81
SILVEIRA, Dyonsio da 195 SILVEIRA, Nise da 1S8, 174, 182 SILVEIRA, 
Otvio da 85, 86, 165
SINCLAIR, Upton 163
SINEK, Olga (v. Benario, Olga) 40, 45, 48, 49, 50, 53
SISSON, Roberto 82, 98, 106, 115. 291
SOARES, Tos Carlos de Macedo 166, 167, 170, 174, 241 SOMMER, Eurisch 78
SORGE, Richard 72 SOUZA 157
SOUZA, Alvaro Francisco de 104 SOUZA, Carlos Martins Pereira de 286
SOUZA, Odette de Carvalho e 241, 242, 243
SPERRLE, Hugo 282
STLIN, Joseph 69, 70, 71, 72, 73, 76, 89, 165, 180, 241 STASOVA, Elena 
48, 54 SUHREN, Fritz 269
TAMPINHA (v. Santos, Adelino Decola dos) 159, 160
TEIXEIRA, Ansio 106 THAELMANN, Ernst 70 TOBULKHIN 286 TOGLIATTI, Palmiro 
89 TORELLI, Aparcio (v. Itarar,
Baro de) 177, 191 TOURINHO, Antnio Bento 287 TSE-TUNG, Mao 72, 73, 89, 
111 TUMA, Nicolau 64 TWARDOWSKI, von 43
ULBRICHT, Walter 44 UNGER, Ilze 44, 45
VALLEE, Alphonsine 68, 75, 79, 112, i28, 133, 134, 276
VALLBE, Leon-Jules 68, 75, 79, 92, 112, 128, 129, 133, 134, 139, 159, 276
VARGAS, Darcy 209
VARGAS, Getlio 13, 67, 85, 86, 97, 98, 102, lti4, 105, 116, 131, 142, 
143, 144, 145, 148, 149, 152, 157, 163, 165, 169, 170, 180, 187, 195, 
197, 199, 204, 205,
206, 218, 240, 243, 286, 287, 288, 289, 290, 292
VENEGAS, Antonia 174 VIANNA, Oduvaldo 87 VILAR, Angela Glra 56 VILAR, 
Antnio (v. Prestes,
Lus Carlos) 56, 57, 59, 60, 62, 67, 78, 79, 87, 115, 116, 122, 156, 157
VILAR, Jos 56 VILAR, Maria Bergner
(v. Benario, Olga) 56, 58, 59, 60, 62, 67, 78, 79, 122, 157, 167, 169, 
171, 172, 206
VILAR, Olga (v. Benario, Olga) 171
VILAR, Yvone (v. Benario, Olga) 87, 178
VIRGOLINO, Hymalaia 154 VOGT, Franz 05, 06, 30, 32, 33, 35
WAGNER, Karl (v. Braun, Otto) 173
WEISER, Martin 25 WEYAND-SONNTAG, Gerda 277 WEYAND-SONNTAG, Klaus 277, 
zso
XANTHAKY, Theodore 123, 124, 125, 126, 127, 128, 129, 134, 135, 136, 137, 
149
XAVIER, Eduardo Ribeiro (v. Abbora) 133, 160
ZADEK, Anne-Marie 278
!                "Alm de ser um retrato de corpo                 inteiro 
de Olga Benario, o livro acabou                 sendo uma histria 
completa da
revolta
comunista de 1935."                 (O Globo)         ,,                 
"Estou impressionado com a qualidade                 do texto e com o 
belo profissionalismo
com                 que o trabalho foi encarado. , sem                 
sombra de dvida, uma excelente obra e                 um livro 
indispensvel."
(Tarso
de Castro - Tribuna da Imprensa)                 "Ao fim da leitura, fica 
a sensao de                 que Olga  muito mais viva e inquietante do
que
a Julia de Lilian Helmann."                 (Flvio Moreira da Costa - 
Fatos)                 "No  apenas o relato da vida e da                 
morte de Olga Benario,
mas traz revelaes                 inditas e polmicas sobre a revolta                 
comunista de 1935."                 (Jornal O So Paulo)
"O
autor alcanou um feito raro:                 num livro de reportagem, 
conseguiu um                 nvel de envolvimento do leitor                 
caracterstico
da melhor fico." !'                (Renato Pompeu - Voz da Unidade)
"O livro sobre Olga Benario e o vdeo sobre Sonia Angel so dois momentos 
de paixo, arrebatamento e dilacerao emocional e poltica."
(Affonso Romano de Sant'Ana - Jornal do Brasil)
"S agora a fascinante histria de Olga  contada de verdade para ns - e 
de forma apaixonada." (Marlia Gabriela - TV Bandeirantes) "Fernando 
Morais devolve-nos
uma Olga mais rica e complexa e, com ela, um passado perturbador." (Marco 
Aurlio Garcia - Leia)

